questões geopolíticas
Philip Yang, especial para a piauí 04 Out 2026
7 min de leitura
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A política externa define coisas concretas na vida de um país: de quem compramos, para quem vendemos, quem investe em nosso território, que tecnologias usamos, por onde circula nosso dinheiro e, em casos extremos, quem pode nos ameaçar militarmente. Começa na blusinha e nos enfeites de Natal adquiridos na Shopee, passa por locomotivas, carros elétricos e altos-fornos e chega às redes 6G e aos modelos de inteligência artificial. São fatores que, direta ou indiretamente, influenciam a rotina e o bem-estar de todos nós.
A diplomacia pode, por vezes, parecer distante da realidade das pessoas comuns. Fóruns multilaterais, tratados de longo prazo, discursos cerimoniosos, debates minuciosos sobre a notas de rodapé de acordos econômicos abrangentes – um conjunto que mais parece simbólico (e tedioso) do que material. Mas não é bem assim. E, por vezes, a conjuntura geopolítica demonstra isso de forma clara, explícita, tornando palpáveis os resultados dessa ou daquela tomada de posição. Estamos, hoje, em um desses momentos excepcionais.
O Brasil está prestes a escolher seu próximo presidente. Como em 2022, os dois principais candidatos representam visões muito diferentes sobre a inserção do Brasil no mundo. A diferença é que agora essa escolha se dá num ambiente internacional muito mais conflagrado. De um lado, Lula se posiciona como sempre se posicionou: em defesa do multilateralismo, da união do Sul Global. Do outro lado, Flávio Bolsonaro – cujo pai já se permitiu filmar batendo continência para a bandeira dos Estados Unidos, cujo irmão articulou sanções americanas contra o Brasil – prega um alinhamento irrestrito à Casa Branca, justamente no momento em que Donald Trump vem tentando se impor à força sobre a América Latina.
O que está em jogo não é só o papel desempenhado pelo Brasil no conjunto das nações a longo prazo. É a vida concreta de 214 milhões de pessoas e o futuro imediato do país.
Do bem-estar cotidiano à segurança e à prosperidade econômica, o objetivo de uma boa política externa cabe numa só palavra: autonomia. É poder comprar de quem oferece o melhor pelo menor preço. Vender soja, aviões, carne ou software a quem quiser adquiri-los. Receber capital americano, chinês, europeu, árabe ou japonês sem entregar a nenhum parceiro o direito de decidir com quem mais podemos negociar. É usar o sistema de pagamentos que nos convém e receber investimento estrangeiro em ativos importantes sem abrir mão de decidir sobre eles. É aproveitar nossos minerais estratégicos sem repetir a velha história de exportar matéria-prima para importar produtos mais caros fabricados com ela.
Autonomia não significa fazer tudo sozinho – nenhum país o faz. Significa não conceder a ninguém o direito de veto ou exclusividade. É pura e simplesmente o direito de escolha.
No limite, a questão é ainda mais elementar: povos querem continuar existindo como povos, falar sua própria língua, comer sua própria comida, organizar a vida segundo seus próprios valores e não ser submetidos pela força à vontade de outros povos. Antes de ser um conceito abstrato das relações internacionais, soberania é isso: uma forma coletiva de liberdade.
Essa liberdade, que nunca foi dada de bandeja a ninguém, se tornou mais difícil de preservar porque vivemos hoje num mundo atravessado por três tensões que se reforçam: a erosão das regras entre os países e, com ela, o risco renovado de grandes guerras; o aumento da desigualdade; e a mudança climática. A primeira dessas tensões torna o mundo menos previsível; a segunda corrói a coesão interna dos países; a terceira exige cooperação internacional justamente quando cooperar ficou mais difícil. É esse o nó da humanidade: precisamos uns dos outros mais do que antes e confiamos uns nos outros cada vez menos.
Para um país como o Brasil, é um quadro alarmante, porque as regras internacionais protegem quem, como nós, não pode impor sozinho a própria vontade. Quanto menos essas regras valem, mais pesa a força (militar, econômica, financeira, tecnológica). A inteligência artificial radicaliza esse quadro. Tecnologias desenvolvidas por poucas empresas e países podem reorganizar profissões, cadeias produtivas e sistemas de defesa. Ninguém em sã consciência embarcaria num avião que não passou por testes de segurança, nem tomaria um remédio que não foi aprovado pelas autoridades sanitárias. Ainda assim, diante da tecnologia revolucionária da IA, há quem defenda que a regulação é desnecessária ou incômoda.
É uma pergunta que devemos fazer diante da urna eletrônica: com quem vamos construir as regras desse novo mundo?
A escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro definirá a margem de manobra do Brasil diante das duas maiores potências globais. A China é nosso maior parceiro comercial. Os Estados Unidos continuam sendo, com folga, a maior origem de investimento direto pelo critério do controlador final (isto é, o país de residência do investidor que, no topo da cadeia societária, exerce o controle efetivo da empresa). Em 2024, o estoque americano somava 232,8 bilhões de dólares em participações no capital de empresas brasileiras. O investimento chinês é mais recente e menor em volume acumulado, mas tem se acelerado: depois de dois anos fracos, chegou a 4,2 bilhões de dólares em 2024 e 6,1 bilhões de dólares em 2025. No mesmo período, o fluxo americano encolheu, passando de 11,9 bilhões para 8,4 bilhões de dólares.
Países têm interesses, não afeições. A China quer alimentos, energia, minérios e mercados. Pode oferecer capital e tecnologia e também criar dependências – quando, por exemplo, uma cadeia produtiva passa a depender de componentes ou equipamentos chineses sem alternativas imediatas de substituição. O mesmo vale, por outros caminhos, para os Estados Unidos. A pergunta que devemos nos fazer não é de qual parceiro gostamos mais, mas qual deles é capaz de ampliar mercados, diversificar capital e tecnologia, aceitar produzir em nosso território, compartilhar conhecimento e admitir que trabalhemos também com outros.
Há poucos meses, o governo brasileiro dividiu investimentos em infraestrutura de IA entre empresas dos dois lados: um projeto com Huawei e iFlytek (ambas chinesas) e um supercomputador cuja provável fornecedora será a Nvidia (americana). Pode-se discutir os termos dos contratos, mas o princípio é crucial: autonomia nos permite escolher Huawei e Nvidia, não Huawei ou Nvidia. Ainda assim, diversificar fornecedores não basta se dados, atualizações ou a capacidade de interromper o fornecimento continuarem concentrados.
A campanha de Flávio Bolsonaro defende uma maior aproximação com os Estados Unidos e uma menor dependência da China. O argumento, em princípio, pode ser levado a sério: uma relação menos conflituosa com os Estados Unidos, ao menos durante a Presidência de Trump, poderia reduzir atritos comerciais e facilitar investimentos e cooperação tecnológica. Nessa leitura, aproximar-se de Washington não é necessariamente subordinação. O problema está no preço dessa aproximação e em quantas outras portas permanecerão abertas depois dela.
Há também um risco conjuntural. Trump chegou ao fim de setembro com uma aprovação líquida de 23 pontos negativos, segundo a média calculada por Nate Silver, um respeitado estatístico americano. A proximidade pessoal com o trumpismo pode abrir portas, mas pode muito bem ser uma aposta com prazo de validade. Presidentes passam, países ficam.
Lula, enquanto isso, aprofundou relações com a China e os Brics, ampliou parcerias Sul-Sul e defendeu a diversificação de fornecedores e sistemas, como no arranjo Huawei-Nvidia. A estratégia, embora priorize a autonomia e o direito de escolha, tem seus riscos. A China já concentra parcela elevada do nosso comércio e das importações industriais. Passar a ser dependente dela, e não dos Estados Unidos, não é exatamente uma prova de autonomia.
No que diz respeito ao clima, o programa de Flávio promete zerar o desmatamento ilegal até 2029. Mas programas nem sempre refletem as práticas do candidato. Neste caso, os contradizem flagrantemente. Em público, Flávio tem enfatizado a necessidade de acelerar o processo de licenciamento ambiental, reduzir os entraves à mineração e à infraestrutura e diminuir as obrigações de preservação impostas a produtores rurais. Indagado sobre o aquecimento global, relativizou o tamanho do problema. Mais do que tudo isso, o legado de seu pai fala por si só. Entre 2019 e 2022, no governo Bolsonaro, a média anual de desmatamento na Amazônia foi cerca de 60% superior à dos quatro anos anteriores, segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Lula, em contraste, apresentou resultados robustos contra o desmatamento tanto agora quanto em seus mandatos anteriores.
Na cabine, o eleitor pensará em emprego, inflação, violência, escola, saúde, impostos. E deve ser assim. A política externa não substitui essas preocupações, mas atravessa quase todas. Está no celular, na máquina que uma fábrica brasileira importa, no fertilizante da lavoura, no avião que exportamos, no preço do café, no clima, nas catástrofes ambientais cada vez mais recorrentes e na tecnologia que decidirá quais profissões existirão daqui a vinte anos.
A eleição de 2026 não produzirá apenas um presidente. Produzirá também uma posição do Brasil no mundo. O medo é uma força antiga da política e da psicologia das massas. Pode nos fazer enxergar perigos que não existem. Mas a história ensina também o contrário: sociedades inteiras podem assistir a uma ordem se desfazer sem perceber a gravidade de cada pequeno passo. Em 1936, a entrada de tropas alemãs na Renânia ainda podia parecer apenas mais uma crise europeia. O sentido completo daquele episódio só se tornaria evidente depois.
Num mundo em que as grandes potências voltaram a mostrar os dentes, talvez a questão não seja mais ter medo, mas saber exatamente do quê. Às vezes, para entender o que está em jogo aqui dentro, é preciso olhar para fora.