Crédito: Selomoh del Castilho, Portret van Kapitein Broos, Suriname, ca. 1862, Het Utrechts Archief (HUA), Países Baixos.
Crédito: Selomoh del Castilho, Portret van Kapitein Broos, Suriname, ca. 1862, Het Utrechts Archief (HUA), Países Baixos.

anais da fotografia

CAPITÃO BROOS, NEGRO E REBELDE

O raro retrato de um líder de escravizados fugitivos no Suriname

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Nascido no Suriname (a antiga Guiana Holandesa), Selomoh del Castilho (1826-1914) foi um pioneiro singular da fotografia do século XIX, tanto por sua personalidade como por uma de suas obras, que teve um destino inesperado quase dois séculos depois. Judeu sefardita, como indica o seu nome (a forma hebraica de Salomão) e a grafia portuguesa do sobrenome, Del Castilho se casou com uma mulher da mesma fé, Hanna de Jacob Morpurgo (1838-95). Com ela, teve vários filhos, alguns com nomes bíblicos, como Isaac, Elie, Esther e Jacob.

O nascimento de Del Castilho no Suriname foi uma decorrência da dominação holandesa no Nordeste brasileiro, entre 1624 e 1654. Expulsos da Península Ibérica, ameaçados de tortura e morte pela Inquisição, muitos judeus se refugiaram em Amsterdã, de onde alguns partiram rumo ao Brasil, acompanhando o esforço de conquista do príncipe João Mauricio de Nassau-Siegen. No Recife, ergueram a primeira sinagoga das Américas, em 1637. Quando os portugueses expulsaram os holandeses de Pernambuco, parte dos judeus foi para a Guiana e outra parte para o Caribe ou para a ilha de Manhattan (onde fundaram a Nova Amsterdã, hoje Nova York).

Na Guiana Holandesa, alguns judeus reproduziram o modelo escravista da plantação de cana de açúcar do Nordeste brasileiro, na localidade que ficou conhecida como Jodensavanne (Savana judaica), a 70 km de Paramaribo, hoje capital do Suriname. Pesquisas arqueológicas revelaram a existência de uma sinagoga e um cemitério judeu do século XVII na cidade, com várias lápides escritas em português, outras em espanhol, hebraico ou holandês.

Foram pouquíssimos os judeus que praticaram a fotografia no século XIX. Na América do Sul, além de Selomoh del Castilho, encontramos apenas Federico Lessmann (pai e filho) na Venezuela. Nessa época, os fotógrafos judeus eram raros mesmo em países onde sua comunidade estava mais bem implantada: Mendel John Diness (em Jerusalém), Maksymilian Fajans (Varsóvia), Hermann Biouw (Hamburgo), Bertha Beckmann (Leipzig), Adèle Perlmutter-Heilperin (Viena), David Lionel Salomons (Londres), George Barron Goodman (Sydney), Shimmel Zohar e Solomon Nunes Carvalho (Nova York). 

No século XX, ao contrário, a lista de fotógrafos judeus é extensa e expressiva. Dela faz parte, inclusive, uma das primeiras mulheres a praticar a fotografia profissionalmente na região da América Latina e do Caribe: a surinamesa Augusta Curiel (1873-1937), que abriu seu estúdio em Paramaribo em 1904 e o manteve ativo por mais de trinta anos. Curiel, que teve sua obra exposta em 2025 no Museu da Fotografia de Amsterdã, foi precedida por outra surinamesa, Clarissa Heilbron (1869-1949), dona de um estúdio também em Paramaribo desde 1889, mas que largou a fotografia depois de se casar. 

Selomoh del Castilho exerceu a fotografia entre 1857 e 1894, com um estúdio de retratos na esquina das ruas Heerenstraat e Klipstenenstraat, no Centro de Paramaribo. Em um anúncio publicado no Koloniaal Nieuwsblad, jornal importante do país na época, ele se apresentou em 1867 como photographist. Seu pioneirismo é reconhecido por historiadores surinameses e neerlandeses: Del Castilho trabalhou com variadas técnicas fotográficas, como o daguerreótipo, o ambrótipo (em que a imagem é registrada numa placa de vidro) e o formato carte de visite (retratos impressos num pequeno cartão rígido). Fez também experiências com a cor que lembram o futuro autochrome dos irmãos Lumière. Dois de seus filhos aprenderam a profissão de fotógrafo: Alfred del Castilho (1875-1913), que adotou o nome The American Photographer para seu estúdio na Rua Heerenstraat, e Raphael del Castilho (1862-1943), que trabalhou na Rua Domineestraat e faleceu em Nova York. 

Infelizmente, foram identificadas e conservadas poucas fotos de Del Castilho. Entretanto, sobreviveu aquela que talvez seja a mais importante das que realizou: o retrato do Capitão Broos (1821-80), chefe dos bakabusi sama, ou bakabusi nengre, ou bushinengue – palavras do sranan tongo, língua crioula da Guiana Holandesa, que designam, com variações, “os negros que vivem na floresta”. Em holandês, eram chamados de brooskampers. (Nas colônias espanholas, os negros rebeldes foram denominados cimarrones; nas colônias inglesas, maroons; nas francesas, nègres marrons; no Brasil, quilombolas.)

Os irmãos Broos e Kaliko eram os líderes de um acampamento de antigos escravizados fugitivos, formado em 1740 às margens do Rio Surnaukreek, afluente do Suriname. Ali, eles resistiram com armas às perseguições e ataques militares, até um ano antes da abolição oficial da escravidão nas colônias holandesas do Caribe e da América do Sul, ocorrida em 1863. A abolição, entretanto, não significou a plena liberdade, que só foi obtida de fato em 1873. Antes disso, os ex-escravos tiveram que continuar trabalhando por um período de dez anos nas plantações, recebendo um salário irrisório e controlados pelo governo. 

A resistência dos brooskampers às investidas militares dos holandeses obrigou as autoridades coloniais a negociar um tratado de paz, entregando aos negros uma parte das terras. O tratado foi assinado em 2 de setembro de 1863. O retrato do Capitão Broos foi tirado em Paramaribo durante essa negociação.



A fotografia do Capitão Broos é uma raridade nas Américas, por registrar a figura histórica de um negro que fugiu da escravidão e lutou contra ela e o Estado colonial. No século XIX, não existe outra foto equivalente, de um negro ou negra rebelado, nem mesmo no Schomburg Center for Research in Black Culture, da Biblioteca Pública de Nova York, que conta com um bom acervo de fotos do Caribe. A principal revolta de escravizados da história das Américas foi a Revolução Haitiana, quando eles lutaram contra o exército napoleônico e proclamaram a primeira república negra, em 1804. Mas a fotografia ainda não havia sido inventada quando se deu esse acontecimento memorável. 

No Brasil de antes da Abolição (1888) também não há documento fotográfico de nenhum quilombola ou negro foragido. As fotografias existentes até a Lei Áurea são de escravizados ou libertos, feitas por motivos pseudocientíficos (como as de Louis Agassiz) ou comerciais (Christiano Jr. e Alberto Henschel) – o que é confirmado pelos historiadores Luiz Felipe de Alencastro e Ynaê Lopes dos Santos, e pelo curador Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles. Burgi aponta, contudo, o interesse da Galeria dos condenados, dois álbuns com retratos de 320 presos da Casa de Correção do Rio de Janeiro, feitos a partir de 1870, entre os quais havia muitos afrodescendentes, escravizados ou libertos (esses retratos podem ser vistos na Brasiliana Fotográfica, coleção da Biblioteca Nacional). 

Em Cuba, outro país de abolição tardia, só ocorrida em 1886, a situação é parecida à do Brasil: os negros retratados até então eram escravizados ou libertos, de acordo com o especialista Rufino del Valle, do Taller y Museo de Fotografia Cabrales del Valle, em Havana. No fim do século XIX, muitos negros libertos aderiram às tropas independentistas cubanas e tiveram destaque nas fotografias feitas por motivos propagandísticos ou comerciais. 

Tudo isso torna ainda mais excepcional o retrato do Capitão Broos feito por Selomoh del Castilho. A pose do rebelde na foto respeita as convenções da época. Sentado, vestido com uma roupa informal de tons claros, um lenço no pescoço, com uma mão displicentemente colocada sobre a perna, Broos olha para a câmera muito sério, com uma expressão de desafio e desconfiança. A interação entre Del Castilho e Broos insinua uma convergência, na época, entre a diáspora africana e a diáspora judaica. Essa relação ficaria mais explícita na década de 1960, com o apoio dos judeus progressistas à luta dos negros contra a segregação racial e por direitos civis nos Estados Unidas. 

É provável que a foto de Broos tenha sido tirada no estúdio de Del Castilho, atendendo a uma encomenda oficial. Mas a pesquisa histórica ainda não elucidou várias incógnitas a respeito desse retrato, como admite Eveline Sint Nicolaas, conservadora do Rijksmuseum, em Amsterdã, coorganizadora da exposição Slavernij/Slavery (Escravidão, 2021) e coautora do ótimo livro Suriname in beeld (Suriname em imagens, 2025). Hoje, a imagem está guardada no Arquivo de Utrecht, na Holanda, onde chegou junto com o acervo da Fraternidade Evangélica, que era atuante no Suriname. 

Alguns anos atrás, uma cópia foi levada por surinameses de ascendência africana a Gana, onde foi exposta no Memorial da Escravidão, na cidade de Assin Manso. Também chegou a ser exibida em uma associação surinamesa de Amsterdã e foi apropriada por artistas, instituições e entidades interessados na história colonial ou nos estudos pós-coloniais. O capitão rebelde deu nome, inclusive, ao Instituto Broos, em Amsterdã, que incentiva perspectivas afrocêntricas nos sistemas educacionais da Europa. 

Assim, a imagem adquiriu cada vez mais importância, demonstrando a capacidade da fotografia para transmitir aspectos da memória e da história subestimados ou obliterados. Apesar dos convencionalismos do retrato do século XIX, passou a ser interpretada em função das expectativas do século XXI: tornou-se um símbolo de rebeldia e liberdade, de sobrevivência e resistência, de autodeterminação e identidade. 



O retrato do Capitão Broos é contemporâneo da famosa fotografia americana conhecida pelo título Scourged back (Costas açoitadas), tirada pela dupla McPherson & Oliver, em Baton Rouge, no estado da Louisiana, em 2 de abril de 1863. O retratado era um escravizado fugitivo, denominado Peter ou Gordon, que conseguiu escapar de uma plantação de algodão, onde havia recebido chicotadas que deixaram marcas terríveis no seu dorso. A foto serviu à campanha abolicionista americana para denunciar a escravidão, divulgada no popular formato carte de visite durante a Guerra Civil (1861-65). Em 2025, esse documento visual que circula há mais de dois séculos nos Estados Unidos foi censurado em instituições federais e parques nacionais pelo governo de Donald Trump, que pretende expurgar a história dos Estados Unidos.

Crédito: McPherson & Oliver, Scourged Back, Estados Unidos, 1863, domínio público

A diferença entre a foto do Capitão Broos e a de Peter/Gordon é evidente. A primeira apresenta com a maior dignidade o chefe de uma comunidade rebelde invicta. A segunda mostra uma vítima de costas, um indivíduo sem identidade precisa, com o dorso inclinado e ulcerado como prova do seu martírio. Ambas constituem obviamente documentos inestimáveis da história da escravidão. 

Porém, é lícito perguntar por que a de Peter/Gordon ganhou tanta notoriedade e a do Capitão Broos é tão pouco conhecida. A diferença entre exibir o negro como vítima e exibi-lo como um líder rebelde, livre e dono de si, não estaria a nos dizer algo sobre o modo como construímos nossa percepção da diáspora africana, da escravidão e dos escravizados?


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É jornalista e historiador brasileiro, baseado na França, autor de História da América Latina em 100 fotografias (Bazar do Tempo, a sair em língua espanhola ainda neste ano)