portfólio
Armando Antenore 02 Jun 2026
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Tudo começou por causa de uma “funçanata chula, bunda e tupinambá”. Em 15 de março de 2025, Adriana Maximiliano postou um vídeo no Instagram com imagens do Carnaval que acabara de incendiar o Rio de Janeiro. Ela mesma filmou e editou as cenas. Os foliões, em câmera lenta, dançavam e cantavam pelas ruas e avenidas do Centro. Quem vê a gravação, porém, não ouve nenhum alarido. Uma voz em off – da própria Maximiliano – se sobrepõe à algazarra e lê um efusivo pedido de desculpas que Mário de Andrade mandou para o poeta Manuel Bandeira. “Não me condenes antes que me explique”, rogou o autor do romance Macunaíma numa carta de 1923. O escritor paulista combinara de visitar o amigo pernambucano, que descansava em Petrópolis. Ocorre que, entre São Paulo e a serra fluminense, havia a agitada capital do país. Ou melhor: o Rio em pleno fevereiro de Carnaval. Mário decidiu, então, dar uma paradinha na cidade. Pretendia observar pela primeira vez a festa lasciva, popularesca e visceralmente brasileira que chamou de “funçanata chula, bunda e tupinambá”.
De início, o escritor se sentiu enojado. “Tanta vulgaridade. Tanta gritaria. Tanto, tantíssimo ridículo.” Mas logo baixou as armas e caiu na farra. “Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia...” – e não passou nem perto de Petrópolis. “Foi leviandade”, admitiu.
O post animou Maximiliano. A carioca de 53 anos mora há mais de duas décadas em Washington D.C. Durante um bom tempo, exerceu a profissão de repórter e engrossou as equipes de diversas publicações, como o jornal Extra e a revista Veja. Em 2015, abdicou do jornalismo para se tornar diagramadora no Banco Mundial, onde ainda trabalha. Por andar saudosa de “contar histórias”, cogitava fazer “umas crônicas faladas” e disseminá-las pelas redes sociais. O plano, sempre adiado, ganhou corpo – e quase 2 mil curtidas – quando Maximiliano encontrou casualmente a carta de Mário na internet.
O vídeo com a leitura da correspondência abriu caminho para dezenas de outros. Todos são curtos e têm formato parecido. Na maioria, a cronista narra episódios prosaicos sem revelar o rosto à medida que imagens silenciosas ilustram o relato. Ela trata de assuntos tão variados quanto o casamento dos pais, o jardim suburbano da avó, os caprichos do mar e a morte de uma gata.
Em março passado, Maximiliano resolveu produzir nova crônica sobre o Rio do século XX e entrou no site de uma das mais antigas instituições culturais americanas, a Biblioteca do Congresso. “Eu procurava imagens da cidade que pudessem me inspirar”, relembra. De repente, a cronista topou com uma catalogação que mencionava um velho exemplar da Look, a extinta revista quinzenal dos Estados Unidos. Lançada em junho de 1963, a edição trazia uma reportagem de onze páginas que documentava o cotidiano dos cariocas. O tema mereceu a capa daquele número. Vinte e quatro fotos coloridas acompanhavam o texto, escrito pelo jornalista, dramaturgo e romancista Leonard Gross, que morreu em 2015. As cenas mostravam homens e mulheres na praia, no Maracanã, na favela, no terreiro, no parque e no bonde. Para surpresa de Maximiliano, uma profissional de peso assinava o ensaio: a fotógrafa Claudia Andujar, à época ainda pouco conhecida. Nas décadas seguintes, a suíça de ascendência judaica iria se naturalizar brasileira e voar alto não apenas como artista visual, mas também como uma aguerrida defensora do povo yanomami.
A catalogação indicava que, além das 24 fotos publicadas, a série abrangia outros 1 540 registros inéditos, não digitalizados e igualmente coloridos. O conjunto retratava o Rio de 1962. Naquele período, o Brasil fascinava os Estados Unidos e a Europa graças à explosão da Bossa Nova.
Logo a cronista percebeu que descobrira um tesouro. Em 10 de março, solicitou que a Biblioteca do Congresso lhe autorizasse olhar o ensaio completo. Foi quando soube que o material estava hibernando por mais de meio século. O arquivo fotográfico da Look, com 5 milhões de itens, chegou à instituição no mesmo ano em que a revista de variedades parou de circular: 1971. Desde então, ninguém manifestara o desejo de consultar a série de Andujar.
A liberação do acervo se deu em 16 de abril. Sem pestanejar, Maximiliano – que vive no bairro tradicional de Georgetown – pegou uma bicicleta elétrica pública e desembestou para outro bairro histórico, Capitol Hill, onde fica a biblioteca. “Pedalei uns 5 km, morta de curiosidade, e recebi sete caixas de papelão, repletas de slides coloridos.” Os funcionários da instituição ainda lhe confiaram um punhado de fotos em preto e branco, que também compunha o ensaio, apesar de não figurar no lote dos 1 540 registros. Com luvas de plástico azuis e uma lupa, Maximiliano explorou as imagens lá mesmo. “Demorei seis horas, intercaladas em dois dias, para examinar tudo numa mesa de luz.” Infelizmente, o material carece de identificação. “Faltam informações precisas sobre 99% das paisagens e pessoas que Andujar retratou”, lamenta a cronista.
Enquanto vasculhava o acervo, Maximiliano o filmava e fotografava. Em 17 de abril, anunciou a descoberta (e exibiu parte dela) numa crônica falada de 2 minutos e 25 segundos. A postagem, que se espalhou rapidamente, suscitou comentários elogiosos do cantor Edson Cordeiro, da escritora Cora Rónai e dos atores Humberto Carrão, Dira Paes e Regina Casé. “Em menos de um mês, o meu perfil no Instagram saltou de 1,4 mil para 20 mil seguidores. Uma loucura!”, conta a cronista.
A piauí reproduz, neste portfólio, dez fotos do ensaio. A coleção da Look abriga mais duas séries de Andujar com imagens do Brasil. Uma é de 1961 e a outra, de 1964.
Filha única de uma governanta protestante e um engenheiro judeu, a fotógrafa de 95 anos nasceu em Neuchâtel, cidade francófona da Suíça. Ela saiu de lá ainda bebê e se estabeleceu no município romeno de Oradea, que já pertenceu à Hungria. A garota recebeu o nome de Claudine Haas. Quando a governanta e o engenheiro se divorciaram, a criança ficou sob a tutela do pai, um homem taciturno e violento que não parava em casa. Empregadas domésticas, oriundas de vilarejos rurais, cuidavam da menina.
O engenheiro acabou capturado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Conduzido primeiro para a Polônia e depois para a Alemanha, morreu num campo de concentração em Dachau. A fúria antissemita também matou quase todos os parentes dele. Sem o pai, a garota pôde morar outra vez com a mãe. Como havia tomado a decisão de largar o marido, a governanta perdera a guarda da filha.
As duas trocaram Oradea por Neuchâtel no final de 1944. Assim que a Segunda Guerra terminou, Claudine atravessou sozinha o Atlântico e aportou em Nova York. Um tio, cirurgião ortopédico, lhe ofereceu abrigo no distrito do Bronx. Logo após completar o ensino médio, a adolescente seguiu para Manhattan. Arranjou emprego de vendedora e alugou um quarto. Em paralelo, cursava a faculdade de história, que não concluiu. Mal fez 18 anos, se casou com Julio Andujar, um refugiado da Guerra Civil Espanhola. A união permitiu à jovem adotar outra identidade. “Me tornei Claudia Andujar porque estava cansada de Claudine Haas. Queria esquecer minha infância deprimente e recomeçar”, afirmou numa entrevista de 2015.
O relacionamento naufragou rápido. Separada, a suíça conheceu um cineasta e pintor casado, o filipino Ramon Estella. A dupla engatou um romance, e o artista estimulou o nascente interesse da amante pela pintura abstrata. Eles protagonizaram juntos duas mostras em Nova York.
Quando o romance acabou, Claudia Andujar resolveu visitar a mãe. A governanta emigrara de Neuchâtel para São Paulo com a intenção de reencontrar um antigo namorado romeno. Em junho de 1955, a filha desembarcou no Porto de Santos, sem passagem de volta. Trouxe dos Estados Unidos tudo de que precisava. Caso gostasse do Brasil, iria permanecer nos trópicos.
Por uns meses, Andujar dividiu o teto com a mãe e o romeno. Depois, se mudou para um apartamento no Centro paulistano e conseguiu trabalho como professora de inglês. Ela também dominava o húngaro, o francês e o alemão, mas não sabia nada de português. Na tentativa de se aproximar dos brasileiros, teve a ideia de fotografá-los. Comprou uma câmera Rolleiflex, desvendou por conta própria as manhas do equipamento e saiu clicando a metrópole. Não raro, levava a máquina em viagens pelo litoral ou pelo interior. Retratava principalmente os pobres e marginalizados, que lhe remetiam às empregadas da casa paterna. “Eu não imaginava virar fotógrafa profissional naquela fase. Usava a fotografia apenas para compreender melhor o Brasil e me comunicar sem depender tanto do português”, explicou em inúmeras palestras e reportagens.
Mesmo que não planejasse, a suíça – cada vez mais afastada dos pincéis – alcançou certa relevância como fotojornalista já no início da década de 1960. Colaborava com a imprensa nacional e estrangeira, fazia exposições e colhia aplausos de colegas renomados. Em 1966, ingressou na Realidade, publicação mensal que a Editora Abril estava lançando. A revista de assuntos gerais perdurou até 1976 e se notabilizou pela ousadia. Embora o país amargasse uma ditadura militar, a redação dispunha de carta branca para abordar temas controversos ou delicados com linguagem similar à literária, profundidade e arrojo gráfico.
Nos cinco anos em que participou da Realidade, Andujar produziu mais de trinta ensaios. Registrou, por exemplo, os pacientes de um hospital psiquiátrico, as cirurgias espirituais do médium Zé Arigó e uma longa viagem do “trem baiano”, que transportava migrantes desempregados. Os fotógrafos da revista – um time de primeira grandeza, que incluía o paulista Jorge Bodanzky, o italiano Luigi Mamprin, a inglesa Maureen Bisilliat e os americanos David Drew Zingg, Lew Parrella e George Love, segundo marido da suíça – frequentemente se valiam de filtros, lentes e enquadramentos incomuns no jornalismo clássico.
Em outubro de 1971, a Abril publicou uma edição da Realidade toda dedicada à Amazônia, bioma que os brasileiros mal conheciam. O número especial, com 348 páginas, motivou uma guinada no percurso de Claudia Andujar. Ela fotografou para o projeto os yanomamis da Comunidade Maturacá, em São Gabriel da Cachoeira (am). Nas duas décadas anteriores, já tinha retratado os xikrins do Pará, os bororos de Mato Grosso e os karajás de Goiás (atualmente, a região que ocupavam faz parte do Tocantins). Nem por isso a fotógrafa deixou de se maravilhar pela aldeia do município amazonense.
Com o propósito de mergulhar na cultura dos yanomamis, então quase isolados, Andujar abandonou o emprego e a vida urbana. Passou cerca de vinte anos muito próxima daquele povo, também presente em Roraima. Testemunhou, assim, a devastação progressiva da Floresta Amazônica e as consequentes ameaças às sociedades locais. Não por acaso, junto de ambientalistas e líderes indígenas, comandou o movimento que resultou na demarcação do território yanomami em maio de 1992.
O sólido elo de Andujar com a etnia gerou milhares de imagens. A curiosidade antropológica, a consciência política e a disposição para experimentações visuais possibilitaram que a fotógrafa captasse as nuances de uma população intrinsecamente ligada à natureza. Várias fotos da época trazem distorções, rastros de luz e cores saturadas que expressam tanto o universo espiritual dos indígenas quanto as emoções de Andujar. “Nunca desejei ser mãe biológica. Preferi eleger os yanomamis como meus filhos”, costuma dizer a fotógrafa, que enxerga semelhanças entre o Holocausto e o extermínio dos povos originários. Pela força poética e importância histórica, a produção de Andujar na Amazônia conquistou o status de arte e prestígio internacional. Hoje, um terço de tudo que os trabalhos sobre os indígenas faturam vai para a associação yanomami Hutukara.
“No ensaio da Look, a fotógrafa ainda estava construindo um olhar que se tornaria mais complexo depois. Ela buscava entender as dinâmicas sociais do Brasil conforme a tradição da fotografia humanista, documental. Retratava as pessoas com beleza e empatia, apesar de certo distanciamento. Já na Amazônia, o mundo interior de Andujar irá se fundir à cosmovisão yanomami. Do amálgama, surgirão cenas arrebatadoras”, avalia Thyago Nogueira, coordenador de arte contemporânea no Instituto Moreira Salles[1] e curador de duas exposições sobre a trajetória da fotógrafa.
Andujar enfrenta agora os infortúnios da idade avançada. Não se locomove sem cadeira de rodas, usa aparelho auditivo e depende de cuidadoras. Diariamente, lê a Folha de S.Paulo, vê telenovelas e edita imagens do próprio acervo. Nos fins de semana, passeia pela Avenida Paulista, onde mora. Tem bastante apego por uma boneca húngara de pano e um castor de pelúcia, o Snook. Nem sempre está lúcida, esqueceu muita coisa, mas continua se lembrando dos yanomamis.









[1] O fundador da piauí foi presidente do Conselho de Administração do IMS.