baixio das altas finanças
Consuelo Dieguez 02 Jul 2026
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Em 2018, o empresário baiano Augusto Lima propôs ao secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Jaques Wagner, hoje senador pelo PT, uma solução para a privatização da Empresa Baiana de Alimentos S.A. (Ebal), que vivia um impasse. A empresa dispunha de uma rede de supermercados, o Cesta do Povo, que vendia alimentos subsidiados aos servidores públicos e aposentados do estado, por meio de cartão próprio, o Credicesta (que então se escrevia com “i”). Os gastos eram abatidos nos contracheques dos servidores ou na conta dos aposentados, e podiam ser parcelados sem juros.
Augusto Lima sugeriu a Jaques Wagner ampliar o uso do Credicesta, que passaria a ser usado como cartão consignado em outros estabelecimentos, e não apenas no Cesta do Povo. Depois de adquirir a Ebal e o negócio do cartão em um leilão, Lima obteve várias vantagens do governo baiano, que lhe deram acesso a uma clientela cativa de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados dos três poderes do estado.
Com o Credicesta na mão, Augusto Lima associou-se a Daniel Vorcaro – e teve início uma corrida para conquistar políticos de todos os matizes ideológicos e vender a ideia do cartão consignado pelo Brasil afora, agora com o nome Credcesta. Pouco a pouco, o cartão foi adotado em 24 estados da federação e 176 municípios. Em 2018, o Master não tinha um centavo em consignado. Em 2024, eram 2,7 bilhões de reais.
Na piauí deste mês, uma reportagem conta os passos iniciais dos embustes praticados por Vorcaro e Lima, e como os dois caíram nas graças de alguns nomes da elite política e institucional, notadamente, os da direita e do Centrão – do PL ao Republicanos; do União Brasil ao Progressistas; do Partido Novo ao PSDB e MDB. Foram políticos desses partidos que garantiram ao Credcesta livre trânsito para atuar nos estados e municípios que controlavam politicamente, provocando um nível dramático de endividamento de servidores públicos.
A começar pelo Rio de Janeiro, que abriga 424 mil servidores, pensionistas e aposentados. Em 2021, houve uma negociação com o então governador Cláudio Castro (PL), por meio de uma articulação comandada por Antônio Rueda, futuro presidente do União Brasil. Consultado sobre o assunto, Rueda negou ter feito qualquer negociação. “Jamais participei de negociação, estruturação ou tomada de decisão de investimentos do Banco Master ou em qualquer instituição financeira”, disse.
O fato é que, no Rio de Janeiro, o Master conseguiu a garantia de exclusividade para operar o seu cartão entre o funcionalismo público e os aposentados do estado, que passaram a sofrer as mesmas agruras de seus colegas baianos: juros acima da lei e pagamentos de uma série de penduricalhos.
No fim de 2024, os servidores e pensionistas do estado do Rio receberam um golpe ainda maior. Houve um rombo bilionário no Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores. Ao longo de dois anos, com a autorização de Cláudio Castro, o Rioprevidência aplicou 3,7 bilhões de reais no Master, resgatou cerca de 600 mil – e os mais de 3 bilhões restantes viraram pó depois da liquidação do banco.
Em São Paulo estava o filé mignon, com seu quadro de quase 1 milhão de servidores, pensionistas e aposentados, com salários mais altos que os dos demais entes da federação. Em 31 de março de 2022, o último ato do governador João Doria (PSDB), antes de deixar o governo para tentar uma candidatura à Presidência da República, foi aprovar o Credcesta, mas sem garantia de exclusividade.
Doria acabou recompensado, ao menos pelo Master. O banco de Vorcaro financiou duas mesas de jantar da empresa do ex-governador, o Lide – Grupo de Líderes Empresariais, em Nova York, em novembro de 2022. Numa delas, sentou-se Vorcaro. Em outra, dois ministros do STF: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Era uma indicação de que o banqueiro já havia ultrapassado, em muito, as fronteiras dos estados e municípios.
Em setembro de 2022, Lima e Vorcaro avançaram mais uma casa. Entraram com o Credcesta em Minas Gerais, no governo de Romeu Zema, do Partido Novo. A primeira loja do cartão foi aberta no Centro de Belo Horizonte. Valendo-se das mesmas táticas usadas nos outros estados parceiros, Zema liberou Minas para vender o produto predatório aos seus servidores, mas não concedeu a exclusividade.
Com o avanço do Credcesta pelo Brasil, agora em sociedade com o Master de Daniel Vorcaro, o senador Jaques Wagner sente-se confortável para dizer que a Bahia, na verdade, não foi o precedente de tudo. O senador lembra que, na fase baiana do cartão, não havia o envolvimento do Master – o que é verdade. “Não tem fundo nenhum de pensão da Bahia que botou dinheiro no Master”, disse. E acrescentou: “O Credcesta, depois que saiu da Bahia, virou outro. Como ele prosperou na rua não é da minha conta.”
Para ele, há uma disputa política, já que o Credcesta se expandiu para outros 23 estados e 176 municípios, a maioria deles sob comando de partidos de direita. “O Centrão governa 14 desses 23 estados onde o cartão entrou, e o Flávio Bolsonaro fica dizendo que tudo começou na Bahia? Não, nada começou na Bahia. Na Bahia, não tem trambique.” E como o Credcesta se expandiu? “Deve ter rolado uma graninha, claro”, diz o senador. “O ACM Neto, até não gosto de falar porque fica parecendo jogo eleitoral, está recebendo até agora 5 milhões e pouco de uma consultoria para o Master com um CNPJ de consultoria em educação. Ora, ele não é professor, não é educador.”
Nossa conversa, que já batia nos 45 minutos, estava no fim. Ao encerrar, o senador disse que não tinha qualquer relação com o projeto que autorizou o cartão de crédito consignado a operar com o INSS. E completou: “Eu não tenho nada a ver com isso. Estou muito à vontade. A Federal não tem nenhuma conversa comigo, nem com o Rui [Costa].”
Dois dias depois, seu mundo estremeceu.