questões sociais
João Batista Jr., de São Paulo Mai 2026 15h27
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Em férias em Salvador, o estudante de artes dramáticas Henrique Borges, de 20 anos, e a namorada, a estudante de direito Luiza Escobar, também de 20 anos, decidiram fazer um programa em família no domingo, dia 11 de janeiro. Eles se reuniram ao pai e ao padrasto de Henrique – o empresário Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week, e o modelo Fernando Schnerocke – para uma noitada de samba e axé no Candyall Guetho Square, a casa de shows de Carlinhos Brown. Por volta de sete da noite, a convite do cantor, todos se instalaram na área VIP, dividida em dois andares, com uma vista privilegiada para o palco. O clima era de alegria e descontração.
Cerca de uma hora depois, Luiza mostrou ao namorado alguns recipientes cheios de bebida no chão, perto de onde os dois estavam. Os frascos pareciam cortesias do camarote, que é patrocinado por marcas de cerveja e de destilados. “Amor, tem Red Bull. Pega um para mim, por favor”, disse Luiza a Henrique. Quando ele se curvou para pegar uma lata, tomou um empurrão forte. “Seu ladrão, seu vagabundo. É seu? É seu?”, gritou um homem com idade para ser pai de Henrique.
O rapaz pediu desculpas e explicou que achava serem bebidas gratuitas à disposição dos convidados. O homem de porte atlético seguiu gritando – “Ladrão, vagabundo!” –, enquanto todos em volta olhavam, espantados, e a mulher dele pedia que ele se acalmasse.
Henrique e Luiza acharam melhor ir para o segundo andar da área VIP, mas a sensação de mal-estar com o que acontecera permaneceu. “Eu estava muito tenso”, ele recorda. Como não havia mais clima de diversão para eles naquele lugar, resolveram ir embora. Os dois desceram ao primeiro andar novamente, para que Luiza avisasse a Paulo Borges da partida. Enquanto isso, o jovem foi ao banheiro. Quando saía dali, a namorada se aproximou correndo e disse para Henrique voltar e ficar lá dentro porque o agressor estava no encalço dele.
No banheiro, quando ainda estava de frente para o mictório, Henrique tomou um soco na região do olho esquerdo e, depois, outro na altura da boca que o fez bater a têmpora direita na parede. Era o mesmo homem que o agredira verbalmente antes e que disse enquanto esmurrava o jovem: “Rouba, agora, seu ladrão. Vagabundo do caralho. Agora você vai aprender.” Um segurança finalmente apareceu e segurou Décio Caribé de Castro Júnior, de 48 anos, professor de karatê.
Henrique saiu às pressas do banheiro, com a boca ensanguentada e os lábios inchados. O pai e o padrasto o esperavam na saída. Os dois não sabiam o que havia acontecido, porque não estavam com o casal de namorados na hora da agressão, mas tinham sido avisados do incidente por Luiza. Paulo Borges entrou no banheiro para ver quem tinha agredido Henrique. Ao deparar com o agressor, disse a ele: “Você bateu no meu filho. Aquele rapaz ensanguentado tem um pai.” O empresário conta que olhou bem dentro do olho do agressor. “Senti que ele me reconheceu, eu me lembro de ele me ver dançando com o Henrique.”
Fernando Schnerocke, o padrasto de Henrique, resolveu permanecer na porta do banheiro. “Só saio daqui quando vier um Policial Militar”, ele disse. Alguém contatou oficiais da PM que estavam na portaria do evento. Enquanto isso, Henrique foi levado por Luiza até uma ambulância na saída da casa de shows (em geral, eventos com trezentas pessoas ou mais contam com ambulância no local).
Alguns policiais militares se aproximaram e perguntaram ao rapaz se queria fazer um boletim de ocorrência. Ele ficou em silêncio. Seu pai pediu, então, que todos saíssem da ambulância. “Você já passou por muita coisa nessa vida e pode decidir o que fazer. Se quer ir à delegacia e brigar por Justiça ou deixar de lado, a escolha é sua”, disse Borges ao filho. Henrique percebeu que aquele seria um momento de virada em sua vida. Daquela vez, decidiu então fazer um B.O.
Um agente da PM disse que Henrique e o professor de karatê teriam de ir juntos na mesma viatura até a 1ª Delegacia Territorial de Salvador. Até aquele momento, os policiais não sabiam quem era a vítima e quem era o agressor. Henrique se recusou a entrar no mesmo veículo que Castro Júnior. Após alguma discussão, a polícia acatou o pedido do jovem, e os dois foram levados até a delegacia em viaturas diferentes. Paulo Borges não foi autorizado a acompanhar o filho no mesmo carro e seguiu em outro veículo.
Por volta das 23h, Henrique começou a prestar depoimento para a delegada Izabel Ciuffo Sento-Sé Reis. Ele disse que pegou a lata de energético em um dispositivo térmico no chão porque achou que era uma cortesia da casa de shows. Contou que, após ter sido chamado de “ladrão, vagabundo” e ter pedido desculpas pelo mal-entendido, foi ao segundo andar da área VIP com a namorada e, vinte minutos depois, resolveu ir embora. Quando estava deixando o local, foi avisado pela namorada que o homem estava vindo na sua direção e se escondeu no banheiro. No b.o, consta que os dois socos atingiram a cavidade ocular e a boca, que “ficaram lesionados”.
Em torno da meia-noite, Castro Júnior prestou depoimento à mesma delegada. Segundo o boletim de ocorrência, afirmou que tinha notado Henrique e Luiza e que eles estavam “com a intenção de subtrair alguma bebida que se encontrava em suas sacolas térmicas”. Confirmou ter dito as seguintes frases a Henrique: “Isso é seu? Você pagou por isso? Rapaz, você é ladrão.” Disse também que as pessoas que estavam no local tiveram a mesma percepção que ele de estarem diante de “um ladrão mesmo”. Mas ele não indicou que pessoas seriam essas. Sobre a agressão física dentro do banheiro, disse ter sido quase uma autodefesa. Ao ver Henrique sair e voltar ao banheiro, ele teve a sensação de que o rapaz queria “roubar mais coisas” e se sentira “ameaçado” com a presença dele. O encontro dentro do banheiro não foi fortuito.
A polícia não quis colher o depoimento de nenhuma testemunha pelo lado de Henrique, como sua namorada ou seu pai. Mas duas semanas depois colheu o de uma testemunha apresentada pelo professor de karatê, o empresário Ricardo Mesquita Guedes, dono de uma academia de tiros e de uma empresa de delivery de bebidas. Guedes afirmou em seu depoimento que houve o furto de um energético. Ele disse ainda que Henrique devolveu o energético, “fugiu no meio do povo” e que todos ao redor chegaram à mesma conclusão: “Os populares começaram a chamar ele de ladrão.” O amigo relatou não ter visto o que aconteceu no banheiro, mas que o segurança do evento sugeriu que Castro Júnior registrasse um B.O. por furto.
Guedes havia acompanhado o professor de karatê à delegacia na noite da agressão. Paulo Borges contou que o empresário – que é também presidente da Sociedade de Amigos da Força Aérea Brasileira – circulou pela delegacia à vontade: “Ele conversava e dava risada com os policiais, demonstrando conhecê-los e ter intimidade com eles.” Chegou a debochar do professor de karatê, seu amigo, de frente para Borges. “Viu só? Ele nem é bom lutador. Se fosse eu, o pivete não teria conseguido se levantar do chão.” Houve um começo de discussão, até que a polícia ameaçou prender todo mundo. “Esse homem tinha tamanha certeza de impunidade que nos provocava e agredia com palavras”, diz Borges. “O meu filho estava ensanguentado, e mesmo assim era pouco.”
Borges faz outra observação sobre aquele domingo de noite na delegacia: “95% das pessoas que chegavam algemadas eram pretas ou eram mães chorando, desesperadas, em busca de informações sobre os seus filhos.” Guedes, futura testemunha de Castro Júnior, ao ver os jovens pretos saindo algemados de dentro de viaturas, provocou mais uma vez o pai de Henrique: “Esses pivetes sempre chegam aqui dizendo que não foi nada, né?” Falava em voz alta, como se estivesse diante de uma plateia, para que todos o escutassem.
Ao final de seu depoimento, Henrique recebeu um encaminhamento para realizar exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal, para onde foi em seguida. Lá, foi informado que o local estava sem funcionários suficientes para todos os atendimentos naquele domingo e o orientaram a ir a um hospital particular. Henrique seguiu então para o Mater Dei. No encaminhamento feito pelo IML constava hematoma no globo ocular esquerdo, edema no terço médio da face e trauma de face. Na delegacia, a agressão foi registrada como um caso de lesão corporal. A palavra racismo não consta no B.O. feito por Henrique Borges.
É comum vítimas de racismo e de assédios em geral se darem conta da dimensão do caso tempos depois. Existem duas razões para isso: a dissociação do trauma, em que a pessoa não processa a gravidade do que aconteceu na hora do ato, e a negação como mecanismo de autodefesa, quando a vítima ameniza o ataque do agressor para evitar uma dose maior de sofrimento imediato. Henrique, logo após ter sido empurrado, se culpabilizou por ter pensado que a lata de energético era uma cortesia do camarote.
A palavra também não aparece nos depoimentos, no B.O, de Décio Caribé de Castro Júnior, de 48 anos, e Ricardo Mesquita Guedes, de 50 anos.
Como fazia em todo início de ano, no começo de 2007 o empresário Paulo Borges procurou a astróloga Lydia Vainer, uma amiga, para que fizesse seu mapa astral. Daquela vez, ela fez uma afirmação que o espantou. Disse que, em agosto, Borges conheceria o seu filho e, no mês seguinte, os dois já estariam morando sob o mesmo teto. O empresário achou tudo aquilo um devaneio. Nunca estivera em seus planos ser pai.
Em junho daquele mesmo ano, a mãe do empresário faleceu, aos 90 anos. Quando ainda estava no processo de luto, Borges, com 45 anos, viajou para Salvador, onde tem um apartamento. Queria dar um tempo da agitação da moda em São Paulo e repensar sua trajetória de vida. Em meio a essa reflexão, veio à tona uma vontade inédita para o empresário: ter um filho. Pouco depois, ele decidiu, dar entrada em um processo de adoção na Vara da Infância e Juventude de Salvador, se colocando como uma pessoa apta a ser pai de um menino negro que, ele preferia, tivesse entre 2 e 5 anos.
Por escolher um perfil de criança bastante rejeitado pela maioria das pessoas, que preferem se candidatar à adoção de recém-nascidos brancos, Borges foi logo chamado para visitar a Associação Beneficente Casa de Santa Maria, uma entidade de acolhimento comandada pela Igreja Católica em Salvador.
Depois de certo tempo vivendo em um orfanato, as crianças sabem que elas estão ali à espera de uma família. Por isso, quando algum adulto ou casal chega para visitar o local, correm para agradá-lo. Com Borges, não foi diferente. Na Casa de Santa Maria, ele se viu cercado por inúmeras crianças, mas seu olhar se fixou em um menino encostado numa porta ao fundo, com as duas mãos no bolso, alheio àquela movimentação. Borges virou para a freira que acompanhava a visita e perguntou, já sabendo a resposta: “Aquele é o meu filho, não é?”
No dia 12 de setembro de 2007 – véspera do aniversário de 2 anos de Henrique –, a Justiça concedeu a guarda do menino para o empresário. Agora, Henrique tinha um pai. E Borges, um filho.
A adoção feita pelo criador da São Paulo Fashion Week chamou a atenção da imprensa de moda e de celebridades, ganhando destaque nas revistas Marie Claire e Caras. Em São Paulo, onde o empresário tem residência fixa, o menino foi matriculado em um colégio bilíngue de linha progressista. Aos 6 anos, o pai achou que seria melhor que o filho fosse criado mais próximo da natureza, e os dois se mudaram para uma casa de 700 m² em um condomínio na cidade de São Roque, a cerca de 60 km da capital. Henrique cresceu em um local decorado com obras de arte afro-brasileiras e imagens feitas por alguns dos principais fotógrafos do país, como Pierre Verger, Otto Stupakoff, Walter Firmo, Miro e jr Duran. Desde cedo, com acompanhamento psicológico, a criança soube sobre a adoção e que seu pai era gay. “Em casa, tudo foi sempre às claras e tratado com naturalidade”, diz Henrique.
De acordo com o IBGE, a população negra representava em 2016 apenas 17% do grupo que compõe o 1% mais rico da população brasileira, aquele cuja renda anual é igual ou superior a 260 mil reais. Henrique pertence a essa camada de privilegiados. Ele sempre estudou em colégios bilíngues e já viajou ao exterior inúmeras vezes. Por ser filho de quem é, cresceu em um ambiente marcado pela liberdade e as boas relações, convivendo com artistas, estilistas, modelos e celebridades variadas.
Tudo isso, porém, não o blindou de episódios de racismo. Ele não sabe dizer quantas vezes foi parado nas ruas de São Paulo pela polícia, para ser revistado, ou foi monitorado por seguranças em supermercados e farmácias. Até na escola bilíngue onde estudou a maior parte do tempo, em Alphaville, na Grande São Paulo, o racismo não deixou de atuar. Henrique foi chamado várias vezes à sala da diretoria para comentar sobre alguma baderna da qual ele sequer tinha conhecimento. “Alguns alunos jogavam tudo nas minhas costas e todos acreditavam neles. Daí, quando eu sofria racismo e procurava os professores, eles diziam que tudo não passava de brincadeira”, conta Henrique. O pai comenta: “Meu filho nem sempre se queixava para mim no dia em que sofria episódios racistas, eu só ia saber tempos depois, quando ele resolvia se abrir de forma natural.”
Aos 16 anos, quando as aulas presenciais foram retomadas depois da pandemia, Henrique enfrentou problemas de concentração nas atividades escolares e estava com as notas ruins. Era certo que seria reprovado no segundo ano do ensino médio. Um dia, em protesto pela situação, ele deixou o material escolar em casa e foi para o colégio levando apenas uma almofada. O diretor o chamou em sua sala. Henrique conta que ouviu dele a seguinte frase: “Você tem problemas.” O rapaz quis saber quais. Segundo Henrique, o diretor disse: “Você é negro em uma escola onde só tem alunos brancos, o seu pai é gay em uma sociedade machista e heterossexual, e você não tem mãe, por isso está agindo dessa forma. Eu bolei um plano e vou ter uma conversa com o seu pai, para colocar você em um lugar para se tratar.”
Henrique começou a bater boca com o diretor. “A minha doença é ser negro? Não tenho que me tratar de nada”, ele disse. O adolescente deixou a sala do diretor e foi direto para casa. O diretor então ligou para Borges, repetindo o mesmo discurso: o jovem precisava de tratamento psicológico para poder conviver em sociedade por ser negro, adotivo e não ter mãe. Borges ficou boquiaberto ao ouvir as explicações do educador e decidiu mudar seu filho de escola. Pensou em ir além e processar o colégio, mas Henrique pediu ao pai que não o fizesse.
Décio Caribé de Castro Júnior é membro de uma família conhecida em Salvador por difundir há seis décadas na cidade o ensino e os valores do karatê. O empreendimento começou com seu tio*, Denilson, que fundou em 1965 a escola Askaba – Associação de Karatê da Bahia, e ganhou diversos prêmios internacionais. Arte marcial criada no Japão entre os séculos XV e XVI, o karatê inclui, além das técnicas de defesa pessoal, valores como respeito, disciplina, humildade, autocontrole, perseverança e a busca pela paz. Castro Júnior ensina essa arte sobretudo para crianças e adolescentes. Em seu perfil profissional no Instagram, o professor recentemente publicou o seu mantra: “Mais do que formar atletas, o karatê forma caráter.”
A piauí procurou Castro Júnior para entrevistá-lo sobre o episódio envolvendo Henrique Borges, mas ele se recusou a falar com a revista. Afirmou apenas que não agiu por racismo e disse, por WhatsApp: “Não irei me manifestar, qualquer informação divulgada que não esteja de acordo com os fatos serão tomadas as medidas judiciais pertinentes contra quem publicar a matéria!”
A escritora e ativista Bárbara Carine avalia que houve, sim, racismo. “Nesse episódio no Candyall Guetho Square, nem precisamos tipificar como racismo. Está tudo posto”, ela diz. Nascida na periferia de Salvador, filha de ex-empregada doméstica e bisneta de mulher escravizada, Carine estudou na Universidade Federal da Bahia, uma universidade pública onde se doutorou em ensino de química. Em 2017, ela criou a Escola Maria Felipa, referência nacional em pedagogia antirracista. Em seus trabalhos, Carine fez de Salvador o seu laboratório de pesquisa sobre temas antirracistas, assunto sobre o qual ministra palestras e escreve livros, como o recente Raça social: uma leitura sobre a racialidade brasileira (Planeta).
Em sua análise do episódio, Carine faz uma comparação entre o racismo tal como praticado no Brasil e nos Estados Unidos. Lá, diz ela, o racismo é de base genealógica: quem tem sangue negro, mesmo tendo pele clara e cabelo liso, é tratado como negro. “Já no Brasil, ninguém quer saber de sua história genealógica. A sociedade vai julgar através dos códigos que os olhos e o cérebro interpretam. E, aqui, o entendimento racista é de que o negro é mais propenso ao crime.”
Ser negro e rico no Brasil, segundo Carine, pode causar proteção e aversão ao mesmo tempo, uma vez que o racismo é de “estampa” no Brasil. “A sociedade vai fazer uma leitura de quanto temos ou não no banco a partir de nossa estética”, ela diz. “Mas, além de racistas, somos colonialistas, então, quando o negro é viajado e se percebe visualmente que tem recursos e boa formação, parte da sociedade deseja humilhar para colocá-lo ‘em seu lugar’ de herança escravocrata. A violência contra o negro rico pode existir para que ele se reconheça como negro.”
A falta de representatividade dos negros em atividades de prestígio e mais bem remuneradas é visível na realidade e pode ser constatada nos números. Para citar um exemplo, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apenas 9 de cada 100 diretores em empresas exportadoras são negros no Brasil. Outro exemplo vem de uma pesquisa feita pelo Conselho Nacional de Justiça, segundo a qual somente 1,7% dos magistrados do país se declaram pretos e 12,8%, pardos. “Nos colégios onde estudei, raramente vi outro aluno negro”, diz Henrique. “Mesmo naquele camarote onde eu fui agredido e estavam os convidados VIP's, a maioria era de gente branca, apesar de Salvador ser a capital mais negra do Brasil.”
A Bahia lidera um ranking macabro: tem a Polícia Militar mais letal do país. Em 2025, foram assassinadas 1 569 pessoas pelas forças policiais do estado. O perfil dos mortos é muito parecido: metade deles tem menos de 29 anos e cerca de 80% são pretos ou pardos. Essa polícia também tende a ignorar o racismo, segundo Bárbara Carine. Ela diz ser muito comum que nas delegacias registrem como “agressão leve” uma violência física decorrente do “racismo”, como forma intencional de não documentar algo que o aparato do Estado nega. “Se esse sistema afirma que não existe o racismo estrutural, então por que eles criaram números e documentação de algo sobre o qual negam a existência? Isso é vil e intencional para desestruturar os dados e as políticas afirmativas. Se acreditam que o racismo seja ‘mi-mi-mi’, eles se recusam a tipificar um crime como racismo.”
O Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, órgão do governo baiano que presta apoio psicológico, social e jurídico às vítimas de racismo e de intolerância religiosa, registrou 310 casos de racismo entre os anos de 2023 e 2025. A delegacia especializada em racismo e intolerância religiosa da cidade teve 506 denúncias registradas em 2025, seu primeiro ano de atuação. Salvador é a capital com maior número de negros no país: segundo o ibge, 83% dos seus habitantes – ou em torno de 2,4 milhões de pessoas – se declararam pretos ou pardos no último Censo. Apesar disso, a cidade nunca teve um prefeito negro eleito pelo voto popular.
Após os três depoimentos no b.o – o de Henrique Borges, o de Décio Castro Júnior e o de Ricardo Guedes – terem sido lavrados, a 1ª Delegacia de Polícia não seguiu com a investigação, como ouvir mais testemunhas e requerer acesso às câmeras de segurança do Candyall Guetho Square. O caso então se transformou em um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), nome dado aos registros simplificados de infrações penais de menor potencial ofensivo, com pena de até 2 anos, que substitui o inquérito policial e foca na conciliação. (Os crimes de racismo podem ter penas de 2 a 5 anos de reclusão.) O TCO existe para desafogar o sistema judicial e, de forma indireta, o prisional. Muitas vezes, porém, simplifica e deixa de investigar casos mais complexos, sem solucionar injustiças. Em decorrência dessa decisão, foi marcada uma audiência de conciliação para o dia 4 de março passado.
Um dia antes, os advogados Vinícius Assumpção e Manuela de Sagebin, que representam Henrique Borges, enviaram um pedido ao Ministério Público da Bahia para cancelar a audiência, o que foi acatado. No documento, eles sugeriram que o caso retorne à polícia para que um inquérito seja instaurado – no caso, na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. “O objetivo é que o caso seja investigado como racismo, e não como lesão corporal”, diz Assumpção. “O racismo institucional conduziu a uma inadmissível simplificação da interpretação do ocorrido, dando origem a um mero termo circunstanciado, o que fez com que inúmeras diligências sequer fossem solicitadas.”
Assumpção explica que o crime de racismo nem sempre tem prova. No caso de Henrique, no entanto, há o exame médico, fotografia dos hematomas, testemunhas e imagens do sistema de segurança que podem ajudar na interpretação de que a agressão física se deu como desdobramento de racismo. Para ele, a maior prova desse crime se dá nas entrelinhas do depoimento de Castro Júnior. “Ele diz ter ‘se sentido ameaçado com a presença de Henrique’ e que observou ‘a intenção de subtrair alguma bebida’. Essas percepções só existem pelo fato de Henrique ser preto”, afirma o advogado.
“Quando não é expresso por palavras ou gestos, é muito difícil de a Justiça capturar a manifestação de racismo, mesmo com agressão física”, explica Felipe da Silva Freitas, secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia. A manifestação por palavras seria, por exemplo, dizer uma palavra injuriosa, como “macaco”, ou imitar o som do animal. Um melhor letramento e capacitação das polícias militar e civil seriam fundamentais para que o tema racismo emerja e conste nos b.os, permitindo que o promotor trabalhe o assunto.
Freitas dá um exemplo prático: quando Costa Júnior contou ter se sentido “ameaçado” por Henrique, quem conduziu o seu depoimento poderia ter perguntado que característica o fez se sentir ameaçado. “Porque, daí, a pessoa pode apresentar ou não um elemento objetivo”, diz o secretário. “O investigador ou o delegado poderia até não ler o caso como sendo racismo, mas, ao ter essa sensibilidade de querer saber qual fato objetivo trouxe o alegado medo, ajudaria a criar um referencial probatório maior para um juiz analisar.”
No dia 12 de março, os dois advogados tiveram uma reunião online com Jair Gomes Ferreira, do Juizado Especial Criminal do Ministério Público da Bahia, a fim de argumentar que se trata de um episódio de racismo, e não apenas de agressão física. No dia 19, o promotor apresentou seu parecer: o caso não deve voltar à delegacia, porque no boletim de ocorrência não há menção a racismo. “Entramos então na espiral do racismo que impede que a investigação ocorra”, diz Assumpção. “A delegacia não relatou nada de racismo como resultado da agressão e, então, o promotor também não vê racismo, porque se baseia em um documento que não faz jus à realidade dos fatos.” Em vista da decisão, Henrique Borges decidiu recorrer ao Conselho Superior do Ministério Público.
A situação é ainda mais complexa porque um escritório de advocacia inicialmente contratado por Henrique enviou ao Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos, do Ministério Público da Bahia, a comunicação de uma notícia de fato – relato ou denúncia de alguma ilegalidade, ponto inicial para investigações ou ações civis. Dentre os pontos citados no documento, consta que Paulo Borges notou uma reação homofóbica no olhar de Costa Júnior, quando este observava o empresário e seu filho dançando. “Sabe quando você percebe a pessoa te medindo? Tanto que, quando ele soube que eu era o pai do Henrique, lá no banheiro em que agrediu meu filho, ele fez cara de surpresa”, recorda Borges.
Por sorteio, a notícia de fato foi examinada pela promotora Márcia Regina Ribeiro Teixeira. Em uma audiência de escuta realizada com Henrique e seu pai, no dia 31 de março, ela entendeu que a agressão por racismo de fato aconteceu. “Como houve avaliações diferentes por dois setores do mp, em um conflito evidente de entendimento, o que esperamos é que o caso fique com a promotora Márcia Teixeira”, diz Assumpção.
Paulo Borges pediu à gerência do Candyall Guetho Square a filmagem do dia da agressão. Recebeu algumas cenas que mostram ele e o filho dançando, mas nenhuma imagem do agressor, nem qualquer registro do entra e sai no banheiro, onde os dois socos foram desferidos. “Alegaram que parte das cenas da noite já tinha sido automaticamente deletada”, diz Borges, que é amigo de muitos anos de Carlinhos Brown, o dono da casa de shows.
A assessoria de imprensa de Carlinhos Brown, fundador e sócio da casa de eventos, enviou à piauí a seguinte nota: “O Candyall Guetho Square manifesta repúdio absoluto a toda e qualquer forma de violência física ou de crime de ódio, motivado por preconceito. Esse espaço cultural tem como propósito a valorização e a promoção da cultura brasileira, portanto, miscigenada na essência, não sendo admissível qualquer tipo de agressão a quem quer que seja. Quanto ao episódio relatado, as imagens disponíveis estão à disposição das autoridades competentes para a devida averiguação dos fatos.” A piauí também perguntou à casa de shows, via assessoria, se existe a filmagem completa daquela noite e se ela foi entregue às autoridades, mas não obteve resposta.
*Versão anterior deste texto dizia que Denilson era pai de Décio. Na verdade, ele é tio. A informação foi corrigida às 13h49 do dia 13 de maio de 2026.