questões políticas
Abr 2026 18h05
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“Fotografia de política tem muito mais de futuro do que de passado”, dizia o fotógrafo veterano Orlando Brito (1950-2022). Ele costumava contar a história do dia em que, zanzando pela Câmara dos Deputados, viu Tancredo Neves sozinho, com a mão repousada no ventre. Achou aquilo estranho. Um ano depois, Tancredo foi hospitalizado – morreu de uma diverticulite aguda que só se tornou pública depois de sua internação, em 1985.
É difícil discordar da tese de Brito quando se olha as fotos feitas por ele durante o governo Dilma Rousseff. A começar pelo primeiro dia: é de sua autoria a imagem, hoje famosa, em que Dilma recebe de Lula a faixa presidencial enquanto é observada por um soturno Michel Temer. O vice escanteado, apartado do governo, dali a cinco anos tomaria a faixa para si. “Em pé, ao mesmo tempo próximo e distante de tudo, o vice aplaude o casal. As mãos rígidas e a posição dos braços sugerem um aplauso contido, em sintonia com o sorriso à meia-boca e o olhar fulminante. O conjunto fala por si”, escreveu a repórter Julia Duailibi, em um texto publicado – junto com as fotos de Brito – em maio de 2016, na piauí.
A revista fez uma cobertura extensa do impeachment de Dilma, que está completando dez anos. A votação na Câmara dos Deputados, liderada por um sorridente Eduardo Cunha, aconteceu no dia 17 de abril de 2016 – exatamente uma década atrás. Em seguida, foi a vez do Senado chancelar o afastamento da presidente, entregando a faixa presidencial a Michel Temer. O processo se concluiu de vez em 31 de agosto, quando Dilma perdeu em definitivo o cargo para o qual havia sido eleita dois anos antes, com 54 milhões de votos.
Foto: Orlando Brito
A derrocada do governo, porém, começou bem antes, e reler as reportagens publicadas naquela época pode ser esclarecedor. Em um artigo publicado na piauí em janeiro de 2015, assim que Dilma iniciou o segundo mandato, Fernando de Barros e Silva já pintava um quadro preocupante. “Dilma não formou uma equipe; parece, antes, conformada (ou deformada) por ela. Cercada de amigos da onça por todos os lados, provavelmente nunca esteve tão só.” O final do texto, lido com a distância dos anos, tem hoje um aspecto de profecia. Fernando escreveu que era “difícil, por ora, diante do caldo social que engrossa a cada dia, acreditar que a presidente terá condições de evitar o desmanche em curso. Saberemos melhor quando chegar a hora da revenda do país, em 2018. Talvez antes.”
O desmanche só se acelerou. Em uma reportagem publicada em fevereiro de 2016, a repórter Carol Pires relatou um café da manhã de Dilma com jornalistas e observou os pequenos sinais da crise que se agravava. O mês seguinte foi apelidado de “março sangrento”, como contou Carol em outra reportagem. “Durante a maior parte do primeiro mandato, Dilma e Lula se falavam com muita frequência. Hoje as conversas são mais raras e, muitas vezes, rudes”, ela escreveu, relatando a tensão crescente no governo diante das manifestações pró-impeachment e os escândalos diários produzidos pela Operação Lava Jato.
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Em 11 de maio, a piauí fez uma cobertura em tempo real da votação do impeachment no Senado. As atualizações, escritas minuto a minuto, dão conta do clima frenético que se instalou no Congresso naqueles dias. “O maior perdedor desse processo é o PSDB. Perderam espaço para a extrema direita e vão ser sócios minoritários de um governo de merda”, esbravejou o então senador Lindberg Farias, do PT. O desfecho da votação já era conhecido, e o governo Temer, àquela altura, estava virtualmente montado. “Ministro, parabéns”, disse o então senador Ronaldo Caiado (hoje governador de Goiás) ao deputado Osmar Terra, naquele dia. Terra era cotado para ser – e de fato se tornou – ministro do Desenvolvimento Social e Agrário.
Ainda em maio, a piauí publicou um artigo do cientista político César Benjamin intitulado O golpe é outro. Seu argumento era de que o golpe não se resumia ao impeachment de Dilma, e deveria ser compreendido como a formação de um governo ilegítimo que não passou pelo crivo das urnas. “O impedimento mimetizará uma eleição indireta. Aqui desembocou a esperteza política do PT e de Lula, tão enaltecida nos últimos anos. Foram eles que se juntaram a figuras lombrosianas e lhes deram tanto poder.”
Enquanto isso, a repórter Paula Scarpin viajou a Belágua – uma minúscula cidade no Norte do Maranhão, que na época havia sido classificada como a mais pobre do país – para observar como os moradores dali acompanhavam o impeachment. O resultado foi a reportagem Deu chabu. Já em Brasília, as repórteres Carol Pires e Julia Duailibi escreveram sobre uma noite agitada no Piantas, restaurante famoso da capital, durante a votação do impeachment no Senado. Ministros de Dilma comiam ao lado de opositores ferrenhos do governo.
Tudo chegou ao fim em agosto. “A Dilma foi bem, centrada. Se os senadores quisessem realmente ouvi-la, teriam de absolvê-la”, disse Lula à piauí, depois de assistir à longa sabatina a que a ex-presidente foi submetida no Senado. O presidente se esforçava para sorrir, mas seu olhar era taciturno. “Espero que o jogo termine com uma vitória nossa. Afinal, não é sempre que a gente consegue trazer o Chico Buarque para o Senado.”
Foto: Carol Pires
O jogo não terminou com vitória. Dias depois, em 31 de agosto, Carol Pires e Julia Duailibi escreveram sobre as últimas horas de Dilma no Palácio do Planalto, já afastada de forma definitiva pelo Senado. “Dilma caminhou cercada de aliados até o hall do Alvorada, forrado por folhas de ouro e no qual se via um púlpito, ainda com o brasão da Presidência da República. Dilma estava de vermelho, cor que evitou durante todo o processo. Ali, ao lado de ex-ministros, ex-assessores e militantes, fez o discurso mais contundente desde o começo da crise”, escreveram as repórteres. “Já não precisava mais dos votos indecisos. Já não precisava mais da política. Dilma precisava fazer valer sua versão da história.”