questões urbanísticas
Dafne Sampaio, de São Paulo Mai 2026 12h22
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Todos os dias, há cem anos, um barulho persistente corta o silêncio da Serra do Mar, na altura de Cubatão, no Litoral Sul de São Paulo. É o tum tum, tum tum das rodas, trilhos e cabos de aço de um funicular subindo vagarosamente o paredão da Mata Atlântica, em um trajeto que liga a Usina Hidrelétrica Henry Borden, no pé da serra, à sua casa de válvulas, 720 metros acima do nível do mar. Carregando os funcionários que precisam se deslocar entre a base e o topo, o bondinho faz o percurso com duas inclinações que chegam a quase 45 graus[1] . O itinerário leva pouco mais de dez minutos.
Atualmente, a Henry Borden é uma usina de backup: apesar de estar em funcionamento, a energia produzida por ela – 890 megawatts em sua capacidade máxima – não abastece o Sistema Interligado Nacional (SIN) de forma regular. Em caso de emergência, no entanto, sua energia pode ser integrada à rede em 15 minutos. Ainda assim, sua história ajuda a explicar o desenvolvimento de São Paulo e o modo como o crescimento acelerado do estado impôs ao poder público a necessidade de desenvolver novas formas de se obter energia elétrica.
A usina está dividida em uma parte externa e uma outra subterrânea. Na parte de fora, estão oito adutoras – grandes tubulações responsáveis por transportar a água que vem do reservatório Billings até as unidades geradoras, onde será transformada em energia elétrica. Essa estrutura é visível por quem viaja rumo ao Litoral Sul paulista pela Rodovia Anchieta
O processo é o seguinte: a água que vem da Billings é transportada por túneis até as oito tubulações com velocidade de 12 a 15 km/h, que estão no topo da serra. Levado até a casa de força pela queda de 720 metros, esse volume é pressurizado até alcançar 420 km/h. É essa a potência que gera os 469 megawatts de energia.
Outras seis adutoras compõem o sistema subterrâneo da usina. Elas estão em uma galeria que mede 120 metros de comprimento, 21 metros de largura e 39 metros de altura, construídas em cavernas incrustadas na Serra do Mar. Também são abastecidas pelo reservatório Billings e disponibilizam 420 megawatts de energia.
A transformação da água em energia ocorre nas catorze unidades geradoras instaladas na parte térrea da usina – oito para a parte externa e seis para a subterrânea. “A força da água gira a turbina que, por um eixo, movimenta o gerador, criando um campo magnético e, consequentemente, energia. A energia sai através de cabos do gerador e vai para a subestação aqui ao lado, e da subestação você liga no linhão e segue a distribuição da energia”, explica Emerson Laube, coordenador de operações e funcionário da Henry Borden há 31 anos.
O gerenciamento da usina é feito remotamente em uma sala de controle, em cujo mezanino convivem computadores e multitelas digitais com grandes e antigos painéis desativados, mas preservados por interesse histórico. Visitar o local é conviver com a história centenária da usina. Ao todo, oitenta funcionários trabalham ali, em funcionamento ininterrupto. Eles se revezam em turnos de 12 horas em escala 4x4, cada um com seis pessoas: três na sala de controle da usina externa, dois na subterrânea e um em campo.
A Henry Borden foi criada em 1899, quando a empresa canadense São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, mais conhecida como Light, chegou ao Brasil com intenção de levar energia elétrica para uma cidade com grande potencial e em franco crescimento: São Paulo. À época, a capital paulista tinha cerca de 230 mil habitantes.
Com a concessão para explorar geração, transmissão e distribuição de energia elétrica na capital paulista, a Light construiu, em 1901, próximo à cidade de Santana do Parnaíba, a Usina Hidrelétrica Edgard de Souza. A força da água do Rio Tietê virou o motor para a eletricidade que passou a iluminar a cidade e movimentar os bondes. Em 1906, foi a vez da construção da barragem que criou a represa de Guarapiranga, hoje Zona Sul paulistana.
Em 1924, diante de uma grande seca que diminuiu drasticamente o nível dos rios e reservatórios que alimentavam as poucas usinas existentes em São Paulo, a Light percebeu que era preciso criar um estoque permanente de água e construir novas e maiores hidrelétricas. Foi assim que nasceu o “Projeto da Serra”. O projeto era composto por diversas obras, sendo duas delas o reservatório Rio das Pedras e a Usina Henry Borden.
O reservatório de Rio das Pedras, criado a partir do represamento dos rios Grande e das Pedras, alimentou a Henry Borden até meados dos anos 1930, quando foi integrado à represa Billings, que homenageia o engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings (1876-1949). Foi dele a ideia de inverter e represar o curso dos rios do planalto paulista, desviando suas águas através de um canal para o então Córrego das Pedras e daí usar a descida da serra para criar energia.
A região de Cubatão foi escolhida para sediar a Henry Borden por se situar entre as duas mais importantes cidades do estado à época – São Paulo e Santos –, e por ter acesso a uma estação da São Paulo Railway, cujo trem vinha de Jundiaí trazendo café e descia a serra pelo lendário Funicular de Paranapiacaba.
A construção da Usina Henry Borden começou em abril de 1925. Uma parte da equipe trabalhava no alto da serra, na edificação da casa de válvulas e na primeira das oito adutoras. Outros colaboradores ficaram na parte de baixo, responsáveis por conceber a casa de força onde a água é transformada em energia elétrica. Estima-se que 6 mil operários atuaram na usina até 1950, período de sua estruturação completa.
A Light ergueu uma vila, a Vila Light, para os funcionários da parte de baixo do complexo. As casas tinham entre 90 m² e 200 m² e eram ocupadas por profissionais considerados essenciais para a operação e manutenção das unidades geradoras. Também era comum a exigência de que eles fossem casados para obter a moradia – os solteiros moravam em alojamentos próximos de Cubatão. Da década de 1920 até os anos 1960, as cerca de 140 residências de alvenaria viviam permanentemente ocupadas e com uma longa fila de espera. A vila ainda existe, com pouco mais de trinta famílias vivendo no local.
Quem trabalhava na parte de cima da Henry Borden morava nos dois andares superiores da casa de válvulas. Atualmente, o espaço está fechado. As janelas foram cimentadas para evitar chuva e vento, o que poderia comprometer a edificação. Um limo, verde e espesso, cobre boa parte dos corredores e alguns pixos indecifráveis decoram suas paredes.
Além da vila particular, a Light construiu dois hospitais de campanha para acudir os trabalhadores que viviam sob mudanças repentinas de temperatura na serra, problemas de calefação no inverno e mosquitos transmissores de malária e febre amarela. A empresa ergueu também a Escola Mista da Usina da Light, em 1934, a primeira instituição de ensino de Cubatão (a escola, que ainda existe e se chama Henry Borden, foi municipalizada no início dos 2000).
A partir da inauguração em 1926, a usina cresceu a passos largos. A primeira máquina da Henry Borden começou a funcionar com 28 megawatts, que Fernando Fernandes, o atual Diretor de Operação, classifica como um “um potencial energético violento” para a época. Ele diz ainda que o complexo praticamente dobrou a energia disponível para a cidade de São Paulo em um momento importante de sua expansão, além de ajudar a desenvolver o polo industrial de Cubatão.
A Henry Borden foi alvo de um bombardeio em 28 de julho de 1932, muito provavelmente por causa de sua função estratégica para a capital paulista. Era o primeiro mês da Revolução Constitucionalista, uma breve guerra civil que opôs São Paulo ao governo federal de Getúlio Vargas. “Uma das bombas perfurou o teto e caiu bem aqui”, aponta Fernandes para a antiga sala de controle da casa de força da usina externa. A bomba não explodiu, mas estilhaçou janelas e feriu sem gravidade alguns funcionários em seu turno de trabalho. Uma outra bomba errou completamente o alvo (os transformadores) e seu destino é incerto. Certeza mesmo é que as bombas foram lançadas por dois hidroaviões Savoia-Marchetti enviados por Vargas.
O atentado não impediu que a usina continuasse se desenvolvendo. Se em 1926, quando foi inaugurada, São Paulo possuía 850 mil habitantes, em 1950, a população havia saltado para 2,19 milhões. E todo mundo queria e precisava de mais energia. Mas não era possível construir mais adutoras na parte externa, por falta de estrutura. Então, os engenheiros da Light tiveram uma ideia: construir uma usina subterrânea dentro de um maciço rochoso na serra. A primeira unidade geradora incrustada na caverna foi inaugurada em 1954 e outras cinco foram instaladas até 1962, quando se encerrou um ciclo de 37 anos de obras na serra.
A entrada da usina subterrânea tem a altura e a gravidade de um portal e qualquer som, por menor que seja, ecoa pelas paredes tornando-o maior do que realmente é. “Fazer um túnel subterrâneo dentro da serra, sem apoio de tatuzão, GPS, sem nada disso... por isso que a gente fala que em termos de engenharia, a concepção dessa usina é uma coisa maravilhosa. A da externa também, cem anos atrás. Mas hoje em dia não faríamos dessa forma. Tem outros jeitos e com menos impacto ambiental”, reflete Fernandes. Ele complementa: “Mas entre a década de 1920 e a década de 1970, a Henry Borden foi a maior usina hidrelétrica do hemisfério Sul e uma das maiores usinas de altas quedas do mundo.”
A usina subterrânea foi a última realização do engenheiro canadense Henry Borden (1901-1989), que foi presidente da Light de 1946 a 1963. Um ano depois de sua saída, o complexo, que se chamava Usina de Cubatão, mudou de nome para homenageá-lo.
Os anos 1970 e 1980 foram de transformações para Henry Borden. O empreendimento perdeu protagonismo com o surgimento de novas usinas hidrelétricas, tais como Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Para se ter uma escala de comparação, as vinte unidades geradoras de Itaipu possuem uma capacidade instalada equivalente a quase dezesseis Henry Bordens. Laube, o coordenador de operações, afirma que, mesmo sendo uma usina de backup e com menos potência, a Henry Borden segue sendo fundamental para a região. “Temos característica que é única e estratégica, pois estamos próximos aos centros de consumo. Em uma eventual necessidade, a Henry Borden é acionada imediatamente pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, porque podemos saltar de uma geração mínima de 34 megawatts para 889 megawatts em 15 minutos”. Tal capacidade pode abastecer até 4,2 milhões de residências em São Paulo.
A partir de 1979, ano do fim da concessão que a Light tinha com o governo brasileiro, a Henry Borden foi administrada pela Eletrobrás e, dois anos depois, acabou adquirida pela recém-criada Eletropaulo, do governo paulista. A partir de 1992, movimentos ambientalistas conseguiram pressionar o poder público para criar e aprovar uma legislação que restringisse o bombeamento das águas poluídas do Rio Pinheiros para a Billings, reduzindo em 75% a energia produzida diariamente pela Henry Borden. Desde então, o bombeamento só é permitido para controle de cheias nos períodos de chuva intensa.
Em 1998, após privatização de parte da Eletropaulo, a usina começou a ser gerida pela estatal Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). E então, em 2024, a Emae também foi privatizada pelo governo de Tarcísio de Freitas (PL), mas manteve o nome e o controle tanto da Henry Borden quanto das pequenas centrais hidrelétricas do sistema paulista criado pela Light, como Edgard de Souza, Rasgão, Porto Góes e Pirapora.
Colada à casa de força da parte externa, uma edificação térrea abriga um auditório e um pequeno museu com a história da Henry Borden, além de uma ampla maquete com a localização geográfica e a topografia de todo o sistema de usinas hidrelétricas e elevatórias, reservatórios e barragens criados pela Light e mantidos pela Emae, de Salto a Cubatão. Nas quatro paredes do cômodo principal, fotos diversas: do Clube das Senhoras, que se reunia para produzir enxovais para crianças carentes da região; dos desfiles de Sete de Setembro; e das atividades esportivas do Clube Atlético Usina de Cubatão. Fragmentos da história de São Paulo e da usina Henry Borden. Lá fora, o tum tum, tum tum das rodas do funicular segue em perpétuo movimento.