questões obscenas
JOÃO BATISTA JR., de São Paulo, ANA CLARA COSTA, do Rio de Janeiro, e BRENO PIRES, de Brasília 01 Out 2026
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Há cerca de três anos, Daniel Vorcaro estava empenhado em ampliar seu trânsito com poderosos, incluindo autoridades do primeiro escalão da República, quando decidiu que precisava ter um espaço para eventos. Não seria nem grande nem pequeno, mas deveria ser reservado, onde pudesse receber alguns homens e muitas mulheres. Na prática, queria ser dono de uma balada particular, exclusiva para seus convidados, onde todos tivessem acesso às mais variadas formas de diversão sem ter que pagar por isso.
Proporcionar experiências hedonistas a pessoas influentes não era um gesto abnegado do ex-banqueiro. Fazia parte de uma estratégia de cooptação daquelas que pudessem ser úteis a seus interesses econômicos – uma estratégia que se intensificou diante da iminente derrocada do Master. A evidência disso está em seu celular apreendido pela polícia, onde aparecem seus gastos com eventos luxuosos repletos de autoridades.
Com esse objetivo em mente, Vorcaro então pediu ao promoter Diogo Batista que fizesse uma busca por potenciais imóveis em São Paulo. Batista – que não respondeu às tentativas de contato da piauí – recebia um salário fixo de cerca de 60 mil reais do ex-banqueiro para trazer convidadas às suas festas privadas. Encontrou um espaço pequeno na Rua Tabapuã, no Itaim, que parecia ideal. Tratava-se de um bar de vinhos com capacidade para sessenta pessoas. Vorcaro visitou e gostou. No segundo semestre de 2023, toda terça-feira, o estabelecimento passou a servir como endereço fixo de entretenimento noturno de seus convidados. Referiam-se ao local simplesmente como “Wine Bar”.
Nas noites patrocinadas pelo ex-banqueiro, a música eletrônica, sobretudo house, embalava os convidados. Drinques, vinhos e champanhes eram servidos à vontade. Como de praxe, nenhuma conta precisava ser paga.
Três de cada quatro convidados eram mulheres. O público feminino era composto por modelos pouco conhecidas e garotas de programa. A piauí apurou que, entre os frequentadores poderosos, estavam o ex-ministro de Jair Bolsonaro Fábio Faria e o empresário Alberto Leite, do ramo de segurança e monitoramento. Do primeiro, Vorcaro comprou por um valor generoso uma usina eólica ainda em projeto. Ao segundo, vendeu uma fatia do resort Tayayá — como a piauí mostrou, a Polícia Federal pretendia investigar o negócio por suspeitar que o ministro do STF Dias Toffoli era o beneficiário final.
Apareciam com alguma frequência também o arquiteto Kiko Sobrinho, que projetava as residências de Vorcaro, e Marcelo Cohen, dono da agência de viagens Be Fly. A procura pelas terças insanas de Vorcaro crescia muito, até que o Wine Bar se mostrou incapaz de atender toda a demanda. O ar-condicionado já não refrescava o ambiente a contento e o vaso do banheiro feminino entupia com frequência.
Vorcaro então deu nova missão ao promoter Diogo Batista. Ele estava disposto a comprar uma balada já existente e com mais infraestrutura. Batista, em vez disso, encontrou um imóvel pequeno e discreto na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, na região dos Jardins, em cujo andar superior funcionava um estúdio de meditação equipado com cozinha e bar. No dia 12 de dezembro de 2023, uma terça-feira, o novo local mostrou que era capaz de atrair autoridades mais graduadas. Um dos convidados de um evento no imóvel foi o ministro Dias Toffoli. Estava de boné. Mais uma vez, foi um convidado com quem Vorcaro estreitou laços. Tempos depois, comprou sua participação no resort Tayayá.
Veio o ano de 2024, e o ex-banqueiro estava determinado a ter uma casa noturna para chamar de sua. Dessa vez, Batista parecia ter encontrado o lugar ideal. O Pappa Bar ficava na Alameda Lorena, também nos Jardins, e contava com uma cozinha no piso térreo e uma pista para 120 pessoas no andar acima. “Ele quis comprar o espaço, mas contaram que o dono era o Rueda [Antonio Rueda, presidente do União Brasil], então o Vorcaro decidiu alugar de forma fixa”, contou à piauí um prestador de serviços do ex-banqueiro, que participou dos preparativos dos eventos, mas pediu para não ter seu nome revelado. Embora fosse conhecido nas rodas paulistanas como dono, Rueda figurava em documentos oficiais apenas como advogado do estabelecimento, cabendo ao chef Pedro Mattos a assinatura de sócio na Junta Comercial. (Procurado por meio do escritório de advocacia de Rueda, que representa o estabelecimento, Mattos não retornou.)
Vorcaro manteve as noites de terça como fixas em seu calendário de festas, e sempre com exclusividade. Na porta, um segurança conferia nome por nome antes de liberar a entrada. A maior parte do público feminino ficava sob responsabilidade de Batista. “No Pappa Bar era assim”, contou outro prestador que acompanhou as noitadas. “O jantar era servido pelo chef Pedro Mattos, sendo finalizado até umas 23h30. Quando terminava, todo mundo subia para a pista de dança”, lembrou.
O ex-banqueiro costumava deixar o local de madrugada, por volta das 3 horas. Sua saída funcionava como uma senha: pouco depois, os demais começavam a ir embora. “Não tinha suruba, sexo, prostituição nas noites de terça. Então, se algum cara ficava com uma mulher ali, mesmo ela sendo do job, tinha de ser pelo seu talento”, disse um frequentador assíduo tanto do Wine Bar quanto do Pappa Bar, que pediu para não ser identificado. “Era uma noite para ele ficar de boa com amigos, gente em quem ele confiava mesmo. As questões de sexo eram em outro dia da semana”, disse um promoter que também falou em condição de anonimato. Em algumas ocasiões, Vorcaro mandava trazer algum DJ de fora para tocar para seus amigos, como na noite de 7 de maio de 2024, quando o francês Hugel veio ao país para se apresentar no Pappa Bar.
Vorcaro usou os dois estabelecimentos – o Wine Bar e o Pappa Bar – tanto para encontros com amigos quanto para finalidades mais adultas. No dia 27 de março de 2024, por exemplo, ele e o promoter Tiago Polo coordenaram um encontro mais privativo no Pappa Bar. “Quando puder, dá um OK pra organizar as mule”, escreveu Polo, em mensagens trocadas com Vorcaro, que foram obtidas pela Polícia Federal. Vorcaro passou as coordenadas de como desejava a sua noite: “4 mule. Jantarzinho. Romântico. Pappa. Sem ninguém da nossa equipe. Só as meninas atendendo. Mandar as guerreiras disfarçadas. Com prêmio conclusão missão”, solicitou o banqueiro.
Em outubro de 2023, em outro exemplo, Vorcaro escreveu a Diogo Batista sobre um encontro no Wine Bar: “Oi. Tô indo c 4 caras.” O promoter quis saber os nomes, e Vorcaro respondeu: “3 amigos. Meus. Além dos que você conhece [...] Tô com eles aqui. Alberto. E tropa. O problema é que tem homem pra kct. Se der um turn over de mulher.”
O dono do Wine Bar, segundo documentos da Junta Comercial, era um outro promoter, amigo de Diogo Batista, e que já trabalhara esporadicamente em eventos de Vorcaro: Giorge de Oliveira Campilongo. Em mensagem enviada à piauí, ele negou que Vorcaro fosse dono de fato do local. “É um espaço destinado à locação de eventos”, disse Campilongo. Ele também disse que nunca foi “promoter de Vorcaro”, mas admitiu que prestou serviços para um promoter que trabalhou com o ex-banqueiro.
Segundo as entrevistas concedidas à piauí por promoters e mulheres, a presença do empresário Alberto Leite no local era constante, o que ele nega. Por meio de nota, a assessoria de Leite diz que “o empresário nunca frequentou as casas Wine Bar e Pappa Bar” e que “a publicação de informações de natureza estritamente privada, insinuações maliciosas e sem embasamento podem caracterizar abuso à liberdade de imprensa e geram graves prejuízos à reputação do empresário”.
Na mesma conversa com Batista sobre o encontro no Wine Bar, Vorcaro pediu mais mulheres, algo que estimulou Batista a falar de sua estratégia: “Porém não chamei as soldadas. Vou colocar algumas de castigo. Vc tá mimando demais elas.” No dia seguinte, Batista mandou mensagem a Vorcaro comentando sobre a noite anterior: “Bom dia piroca!!! Chocolatinho mais forte esse heim... pqp.” Vorcaro respondeu: “kkk.” “Chocolatinho “, no caso, são os chocolates recheados de cogumelos, consumidos para alterar a percepção de humor e cognição. Essa era a droga favorita de Vorcaro, que oferecia open bar da substância aos seus convidados.
Os encontros sexuais com autoridades não se davam no Wine Bar, nem no Papa Bar. Em geral, ocorriam no tríplex de Vorcaro na Rua Leopoldo Couto Magalhães Júnior, no Itaim, às quartas e quintas. Segundo dois promotores que já trabalharam para o ex-banqueiro, autoridades frequentavam o imóvel. O amigo Kiko Sobrinho definiu os eventos de Vorcaro como as “Quartas 100 lei”, em mensagem enviada via WhatsApp no dia 18 de outubro de 2023, quando os dois falavam justamente de noitadas.
Nas noites do tríplex, o próprio Vorcaro se encarregava do casting. Recrutava garotas de sua confiança, que, por sua vez, chamavam as demais. No fim da tarde, ligava pedindo que cerca de dez mulheres estivessem em seu apartamento por volta das 20 horas. Exigia que chegassem muito produzidas. Quando elas entravam, a sala já estava escura e o bartender trabalhava a todo vapor. Vorcaro só aparecia depois que as convidadas já tinham começado a beber. Era comum vê-lo surgir de jaqueta de couro preta e camiseta branca.
Entre os frequentadores das noitadas no tríplex, havia estrelas do Judiciário, como o ministro Kassio Nunes Marques e seu filho, Kevin, e ambos trocaram contatos com pelo menos uma das garotas presentes. Em 7 de março de 2025, uma pessoa com o contato salvo como Rayanna no celular de Vorcaro escreveu para ele: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né. Ela disse que ficou com o kassio. Ela tá me cobrando aqui.” O banqueiro então pede dados e valores. Rayanna passa o preço do cachê: “10 né”.
Nunes Marques não respondeu aos questionamentos da piauí sobre os encontros no tríplex. Sua assessoria de imprensa afirmou que ele “nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro, nunca pediu nada ao banqueiro e nem autorizou ninguém a falar em nome dele”. Ele acrescentou ainda que “seu filho nunca recebeu dinheiro do Banco Master ou do banqueiro” e que “votou pela manutenção da prisão de Daniel Vorcaro”. E que “reafirma seu compromisso com as leis e a Constituição e seguirá seu trabalho com absoluta isenção na condução das eleições gerais e na atuação como integrante do Supremo Tribunal Federal”. A assessoria de imprensa de Kevin disse que ele não irá se manifestar.
O sertanejo Gusttavo Lima também frequentou o tríplex das festas privadas, ao lado do anfitrião e de Fábio Faria, conforme revelam mensagens trocadas entre o ex-ministro de Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O cantor dizia às companhias da noite que estava montando um banco digital em parceria com Vorcaro, projeto que nunca saiu do papel. (Procurado, Lima informou ter ido em duas ocasiões ao apartamento de Vorcaro para tratar de um possível patrocínio para um festival. Nas duas vezes, disse, estava acompanhado de sua equipe jurídica e com a finalidade de fechar negócios, sem a presença de mulheres. Em uma das ocasiões, diz ter ido a um restaurante para jantar na companhia do banqueiro.)
As garotas preferidas do ex-banqueiro também eram convidadas para prestar serviços fora de São Paulo, em festas privadas na mansão de Vorcaro em Trancoso, no litoral da Bahia. Antonio Rueda e Elmar Nascimento, deputado federal pela Bahia e terceiro vice-presidente do União Brasil, estiveram por lá juntos em pelo menos uma ocasião. Segundo participantes da festa, foram distribuídos às meninas chocolates feitos com cogumelos alucinógenos. Rueda e Nascimento trocaram contatos com algumas das convidadas.
Rueda foi procurado pela piauí. Ele afirmou que “nunca esteve em festas de Vorcaro”. A respeito do Pappa Bar, disse não ser “dono ou sócio de bar algum”.
Procurado, Nascimento enviou a seguinte mensagem à piauí: “Nunca estive em festa e se você publicar essa informação falsa, vou lhe processar. Se publicar, coloque essa resposta.” A piauí então enviou ao deputado detalhes da apuração reunida pela reportagem, mencionando especificidades das festas. Sua resposta foi outra: “Isso pode acabar com o meu casamento.”
Na troca de mensagens entre Elmar Nascimento e Vorcaro, as festas apareciam com frequência. No dia 13 de abril de 2024, por exemplo, o deputado mencionou uma visita a Belo Horizonte, terra do banqueiro, e falou de sua agenda: “Até 16 hs tranquilo. Depois no profano. Organizamos uma farra.” Mais adiante, Nascimento perguntou: “Tem um time aí? [seguido dos emojis 😜😈].” No dia 31 de julho do mesmo ano, Nascimento esteve em São Paulo. “Tudo certo hj?” Vorcaro perguntou qual seria o plano. Nascimento foi direto ao ponto: “Levar umas amigas pra algum lugar reservado.”
Em outras ocasiões, também passaram pela casa de Trancoso o ex-deputado e candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Em 19 de outubro de 2023, Vorcaro adicionou o contato de Neto no celular e escreveu para ele, citando um encontro de quarta-feira. “Fala meu amigo. Daniel Vorcaro aqui. Toda quarta reunião de conselho.” O baiano respondeu: “Irmão, foi bom demais. Não vou mais tomar falta de jeito nenhum. Rsss. Valeu mesmo!!!!” Vorcaro resolveu: “Kkk. Boa. Vamos juntos. Bom estar contigo, energia boa demais.”
À piauí, ACM Neto negou ter estado na casa na presença de outras mulheres, e afirmou que apenas esteve nas residências em razão de compromissos profissionais. “Jamais participei de nenhuma festa dele”, escreveu por WhatsApp. Ciro Nogueira não respondeu aos contatos da reportagem.
Além das quartas ou quintas-feiras no tríplex, Vorcaro mantinha à disposição dos amigos um apartamento na Rua Gomes de Carvalho, na Vila Olímpia, perto da então sede do Banco Master, para encontros com mulheres, prostitutas ou não. Para chegar ao quarto, era preciso atravessar uma sala com cara de bunker, onde havia uma grande adega e uma caixa fechada que se assemelhava a um cofre, segundo relatos obtidos pela piauí de pessoas que estiveram no local.
Vorcaro cuidava pessoalmente da contabilidade e do pagamento das garotas, cujos cachês variavam de acordo com os serviços prestados. Se a noite terminasse em sexo com algum de seus convidados, as mulheres envolvidas recebiam mais. O tipo físico mais cobiçado era “loira, magrela, de olho claro”, segundo uma pessoa que acompanhou os encontros. “Novinha” também era um pré-requisito. Mulheres “acima de trinta” já eram consideradas “velhas” pelos frequentadores, em sua grande maioria homens com mais de 50 anos.
Vorcaro chegou a oferecer festas a empresários russos e mexicanos, sempre guarnecidas de meninas brasileiras. Era comum que, durante as noitadas, algumas delas se comportassem como “namoradas” do anfitrião, embora nenhuma desempenhasse esse papel na vida real. Frequentadoras relatam que o ex-banqueiro era tão “encantador” que conseguia distribuir sua atenção entre todas elas sem provocar rixas em seu sultanato de influência.
Daniel Vorcaro fazia o uso recorrente da palavra quenga, que grafava como “kenga”, para se referir às garotas de programa, e daí criou uma série de variações junto a seus interlocutores. No dia 6 de março de 2024, em conversa com Marcelo Cohen, muito presente nas farras, o banqueiro referiu-se a uma mulher que andava ausente dos eventos e disse: “Deskengou.” No mesmo dia, Cohen definiu um encontro: “Kenga Party.” Na mesma conversa, Vorcaro fez um teste com seu amigo para disparar mensagens em uma lista de transmissão – com mensagens de mesmo teor, mas com destinatárias diferentes. “O ‘oi’ chegou normal?”, ele pergunta a Cohen. O amigo não entende a questão, e Vorcaro explica: “Tô testando lista broadcast. Assim mando um bom dia. Pra todas kengas.” Os dois riem. “Imagina como fica legal. Atenção pra todas. Toda mensagem fofinha chega em todas.” Procurado pela piauí, Cohen não quis se manifestar.
Na estrutura de festas de Daniel Vorcaro, Diogo Batista funcionava como chefe dos promoters. Quando necessário, convocava outros profissionais para eventos específicos. Foi o caso de Tiago Polo, que ajudou a organizar a “festa das suíças” no Madame Satã, e de Giorge de Oliveira Campilongo, que atuava no Wine Bar.
A “festa das suíças”, realizada no Halloween de 2023 e cujos detalhes foram revelados em reportagem da piauí em 10 de setembro, exigiu uma logística atípica até para os padrões extravagantes do ex-banqueiro. Sessenta mulheres vieram do exterior. A modelo russa Maryia Lubimova, que Vorcaro salvou em seus contatos como My Future Wife, foi uma das convidadas — e chegou ao Brasil num avião particular fretado pelo ex-banqueiro. “Tinham quatro americanas, duas italianas, mulher da Ucrânia, Polônia, Bielorrússia...”, contou um funcionário diretamente envolvido na organização da festa. Com exceção de Lubimova, as demais estrangeiras viajaram de classe executiva. Todas ficaram hospedadas no Rosewood São Paulo, um dos hotéis mais caros da cidade, e tiveram motoristas e carros blindados à disposição durante toda a estadia. Receberam ainda uma quantia em dólar para gastar no período.
Um dos organizadores da festança disse que essas estrangeiras não eram garotas de programa. Elas aceitavam vir porque, na sua concepção, passar alguns dias cercadas de luxo, sem desembolsar nada, tornava o convite irrecusável. “Quem não quer vir ao Brasil nesse padrão top?”, questionou. No caso da festa no Madame Satã, havia um atrativo adicional: era semana de Fórmula 1, período em que São Paulo costuma ficar repleta de homens endinheirados e sem as famílias a tiracolo. As garotas de programa brasileiras, cientes dos privilégios concedidos às estrangeiras favoritas de Vorcaro, referiam-se a elas mesmas como “vorcaretes”.
Entre as mais próximas, Vorcaro era tratado por “Dani”. No Madame Satã, pediu que elas dessem atenção especial a dois convidados. Um deles era Bruno Ferrari, de quem se tornou sócio em 2024 na Oncoclínicas, maior rede de tratamento oncológico do Brasil. O outro era o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Na troca de mensagens por WhatsApp entre Vorcaro e Diogo Batista, seu promoter particular, o banqueiro comentou pouco antes do início da festa que colocaria dez seguranças para evitar que os convidados entrassem com o celular e qual era o seu objetivo naquela noite: “Só tenho 2 para agradar”, disse, sem revelar o nome das autoridades. Procurado pela piauí, Bruno Ferrari confirma ter ido a happy hours e jantares na companhia de Vorcaro, seu amigo desde Belo Horizonte, mas nega ter ido ao Madame Satã. “Nego com veemência, zero chance de ter participado”, diz ele, sobre os encontros mais íntimos promovidos pelo banqueiro. Alcolumbre até hoje nega ter comparecido ao Halloween.
Vorcaro não pensava apenas em casas noturnas. Chegou a cogitar a compra de uma agência de modelos e enviou emissários para conversar com a Mega, a Joy e a Allure. Na troca de mensagens entre Vorcaro e os promoters Diogo Batista e Tiago Polo, ele fala do plano de ter agências de modelo. Seria uma maneira de fechar o ecossistema de suas festas e reduzir a dependência de intermediários. Eli Hadid, da Mega, afirma que nunca quis sequer se encontrar com o ex-banqueiro. Informado pela reportagem de que Vorcaro havia oferecido 10 milhões de dólares pela agência, reagiu: “O quê? Já me ofereceram mais de 300 milhões de dólares e não vendi.”
Daniel Vorcaro também fazia demandas extravagantes a Leonardo Serrano Giunchetti, sócio da SL Consulting, empresa que cuidava de suas movimentações no exterior. De 2017 até a sua primeira prisão, em novembro de 2025, foram 201 serviços prestados pela empresa de concierge de luxo. Vorcaro pedia diversas alternativas antes de decidir sobre qualquer atividade, fosse passar um final de semana em Roma, nas Maldivas ou em Dubai. E, uma vez no local, trocava mensagens com Serrano incessantemente para reservar restaurantes, contratar DJs ou pedir centenas de flores para o quarto de hotel.
Havia divergências entre os prestadores de serviços. Mesmo no exterior, Diogo Batista era responsável por levar mulheres aos lugares frequentados pelo ex-banqueiro, fosse uma balada ou restaurante. Isso significa que, tendo feito reserva para um restaurante ou boate, ele queria que seu promoter particular enviasse mulheres para entreter seus amigos – sempre amigos com alguma influência que Vorcaro queria comprar. Em uma viagem realizada em outubro de 2024, a Roma, Serrano avisou Vorcaro sobre o trabalho de Batista: “Dani eu NÃO vou me responsabilizar pelas pessoas que o Diogo mandar para a festa. Eu não sei trabalhar da forma que eles trabalham, eu não tô nem aí se ele vai mandar convidada ou não, pois não ganho nada com isso”, escreveu Serrano, em mensagem enviada no dia 10 de outubro de 2024. Ele prosseguiu: “Só que eles não são organizados, aparece gente na festa em cima da hora sem nome na lista, eu não tenho como controlar os promoters deles que vão acompanhar essas meninas deles.” Ou seja, levar determinadas mulheres – mais adiante, fica claro que se trata de mulheres jovens e magras – poderia jogar no lixo toda a experiência. Serrano conhecia bem o gosto de seu cliente. Ele segue com a mensagem: “Se ele [Diogo Batista] for levar mulher, que leve, pois no final quero que vc fique satisfeito. Mas não vou ficar controlando lista de gente que chegar em cima da hora deles, não quero que vc depois venha reclamar se os promoters dele levarem homem, forem desajeitados, levar convidada que dê problema ou fora da lista…… isso tudo não vou me responsabilizar e ficar gerenciando na confusão deles…” Vorcaro ignorou a mensagem de Serrano e não comentou as reclamações sobre os trabalhos de seu promoter.
Nessa mesma viagem, Serrano fechou um jantar para Vorcaro em um restaurante de Roma chamado Jerò Restaurant, seguido de festa na Jackie O, na Via Boncompagni. O resultado dessa experiência mostra um pouco da visão de mundo de Vorcaro.
No dia 11 de outubro de 2024, Serrano perguntou: “O jantar, no final das contas, foi muito ruim? Alexis disse que vocês até animaram...” Vorcaro desceu a lenha: “Muito ruim, não. Muito ruim era quando eu ia na Lagoa da Pampulha num boteco”, disse ele, sobre a região de Belo Horizonte, a sua cidade natal, antes de subir o tom de insatisfação. “Você tá brincando, né? Pedi um lugar para jantar, me levaram em uma churrascaria de estrada do Ceará. Nunca fui em um lugar tão ruim, nem quando era pobre.” Serrano explica que foi sugestão de um amigo, então Vorcaro começa a descrever as pessoas: “Entrada dois caras sem camisa pintados. Quando entro. Tem gorda. Velha. Nunca vi nada tão trash. Numa boa. PQP. Gorda negra. Não tô entendendo.”
Vorcaro mandou essas mensagens assim que chegou ao estabelecimento. Pela troca de mensagens, percebe-se que Serrano não está com ele no restaurante, mas de longe começa a resolver. “Dani, vou ser sincero com você, não tem como controlar casting de 60 mulheres de uma noite para outra.” Vorcaro rebate: “60, não. Tem um lugar com dois caras sem camisa na porta. Pintados. Na recepção. E 3 gordas no sofá.” Serrano entra em campo, mesmo a distância: “Deixa eu ver. Personagens da porta pedi para tirar já. As 3 mulheres do sofá são da lista de alguns dos promoters.”
Uma outra vez, em viagem a Dubai, no mesmo mês de outubro de 2024, foi a mesma coisa. Vorcaro deu instruções de como Serrano, que não estava ali, deveria agir imediatamente para atender aos seus desejos. Pediu para ele mandar alguém exigir que o DJ dê uma “animadinha” na música, na boate Coucou. “Ontem tava top. Hoje tá tocando Roberto Carlos. Mas alguma hora tem que dar uma animadinha”. Pouco tempo depois Vorcaro agradece a Serrano: “Deu certo.”
No aniversário de quarenta anos de Martha Graeff, em 2025, Vorcaro exigiu alternativas de Serrano. Não sabia ainda onde, mas queria impressionar. Pediu roteiros de opções e atrações para dias de festança em Marrakech, Capri, Roma. Acabou fechando St. Tropez, no Sul da França. Vorcaro fechou duas semanas no iate mais caro.
Na noite de 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso ao tentar deixar o Brasil rumo a Dubai. Ficou detido doze dias. Saiu da prisão usando tornozeleira eletrônica e proibido de deixar o país. No Réveillon, ele e sua família voaram para Trancoso. “Dessa vez, foi um evento menor, para quarenta pessoas”, diz um promoter mineiro contratado para prestar alguns serviços.
Alguns dos eventos internacionais realizados por Daniel Vorcaro já foram revelados quando seus sigilos foram quebrados. Em setembro de 2024, quando o Master estava em plena expansão mas já acumulava alertas da supervisão do Banco Central, o ex-banqueiro convidou amigos para voar em seu jatinho até o Sul da França.
Alguns convidados ficaram hospedados num iate, outros em hotéis da Côte D’Azur. Um dos mimos oferecidos era fretar helicópteros para levar a turma dos hotéis para o iate, nas recepções que o ex-banqueiro organizava em alto-mar. A logística ficava sempre a cargo de Leonardo Serrano, o que também aconteceu no evento para autoridades em Londres, em abril de 2024. “Eu estou acostumado com pessoas ricas, mas com ele era outro patamar”, contou um dos convidados, em condição de anonimato.
Os jantares se espalhavam por restaurantes de Saint-Tropez e Mônaco. Como a ideia de Vorcaro era sempre conquistar os influentes, ninguém colocava a mão no bolso. A empresa de Serrano, a SL Consulting, acertava as contas discretamente. Ao contrário de outros eventos promovidos por Vorcaro, nessa viagem não havia autoridades.
No aniversário de sua noiva, Martha Graeff, em Saint-Tropez, Vorcaro promoveu uma sequência de oito festas — entre jantares, gala, brunch e coquetéis. Tudo transcorreu entre 22 e 26 de agosto de 2025, três meses antes de o ex-banqueiro ser preso e dar o calote em 1,6 milhão de brasileiros. O tema da celebração remetia à Riviera Francesa dos anos 1960, e o dress code de cada compromisso era minuciosamente especificado. Para o almoço, a inspiração deveria ser “Verão na Côte d’Azur”. No churrasco, o traje era “Garden Saint-Tropez ’62”, referência ao período em que o balneário francês já era o destino favorito das estrelas, sob a influência de Brigitte Bardot.
Vorcaro levou os trinta convidados para o aniversário em jatinhos particulares, que partiram de São Paulo e de Miami, onde vive Graeff. Não queria mais de oito pessoas em cada aeronave. “Não estamos mais em época de faculdade”, escreveu à noiva, ao explicar o padrão de conforto que pretendia oferecer aos convidados. Para hospedá-los, alugou o badalado Kismet, um iate de 122 metros de comprimento, oito cabines, piscina, boate e heliponto. Serrano falou a Vorcaro sobre o uso do barco no verão europeu: 11 milhões de euros, o equivalente hoje a 64,4 milhões de reais. Vorcaro pediu a Serrano que os pagamentos não estivessem em seu nome, e ficou possesso quando o concierge emitiu uma fatura no valor de 20 milhões de dólares, em 17 de junho de 2025.
No primeiro dia, todas as convidadas ganharam uma bolsa de praia da Saint Laurent. A atração principal de um dos jantares foi um show da cantora americana de R&B Alicia Keys, na proa do iate, diante do Mediterrâneo. Vorcaro convidou a artista para se sentar à mesa com seus convidados depois da apresentação. Ela recusou.
Nesta ocasião, como seus negócios já estavam na mira das autoridades, Vorcaro pediu discrição. Os convidados não deveriam publicar nada nas redes sociais. O empresário americano David Grutman, do ramo de entretenimento e hotelaria, chegou a postar uma foto do iate em seu perfil no Instagram. Alertado, Vorcaro pediu que a apagasse.
Martha Graeff vestiu alta-costura de grifes francesas todas as noites. Os dias de extravagância embasbacaram até convidados acostumados às coisas caras da vida. “Todo mundo voltou pensando assim: ‘Gente, de onde vem esse dinheiro?’”, contou uma das convidadas à piauí, sob condição de anonimato para evitar atritos.
Uma festa dessas mobiliza muita gente nos bastidores. No Brasil, um ex-jornalista e atual produtor de São Paulo foi contratado para cuidar de detalhes da viagem. Procurado pela piauí, ele afirmou que só falaria mediante pagamento. Informado de que no jornalismo não se paga por informação, respondeu que sabia coisas de “EXTREMA importância” e aguardava uma “oferta” para “avaliar se vale a pena”.
Procurada para comentar a festa, Martha Graeff não respondeu aos contatos da reportagem.
O departamento jurídico do Wine Bar afirmou em nota que “o estabelecimento funciona desde 2020 como pizzaria e loja de vinhos de caráter familiar, sendo que o local também é, ocasionalmente, objeto de locação para a realização de eventos privados”.
O restante da nota diz o seguinte:
“Em relação aos questionamentos apresentados de forma insistente pelo jornalista João Batista, o Wine Bar declara enfaticamente que Davi Alcolumbre, Hugo Motta, Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro e os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli jamais estiveram presentes no estabelecimento, seja como frequentadores da pizzaria, seja em eventos privados realizados no local, independentemente de quem os tenha promovido ou contratado.
Quanto à presença de Daniel Vorcaro, nas ocasiões em que alugou o estabelecimento, estava acompanhado de amigos de Belo Horizonte (MG), em encontros privados e sociais.
O Wine Bar preza por sua reputação e pelo respeito aos seus clientes e frequentadores. Exige, portanto, que qualquer referência ao estabelecimento seja pautada pela apuração rigorosa dos fatos, afastando associações indevidas ou insinuações sem fundamento, sob pena de serem tomadas as medidas cabíveis.”