O empresário Rafael Hawilla, caçula de J. Hawilla - Crédito: Reprodução
O empresário Rafael Hawilla, caçula de J. Hawilla - Crédito: Reprodução

estranhas transações

UM FANTASMA DO FIFAGATE NA INVESTIGAÇÃO DO MASTER

O Coaf aponta indícios de lavagem de dinheiro em uma transação entre o cunhado de Daniel Vorcaro e o filho de J. Hawilla, pivô do escândalo de corrupção da Fifa

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Localizado a duas quadras da Avenida Faria Lima, o edifício Heritage, em São Paulo, exala sofisticação e riqueza. Sua fachada é feita de curvas contínuas e aerodinâmicas, um traço marcante da Pininfarina, empresa de design italiana que assina o projeto arquitetônico. São 31 apartamentos, um por andar, que privilegiam a vista ampla da parte mais rica da capital paulista, com seu horizonte de prédios envidraçados. O apartamento de número 231, no 23º andar, tem 564 m², seis dormitórios – sendo quatro suítes –, sete banheiros e seis vagas na garagem. Em março de 2021, a construtora Cyrela, responsável pela obra, vendeu o apartamento para a Grip Negócios Imobiliários por 17 milhões de reais, em valores corrigidos. 

A Grip é uma das 21 empresas de Rafael de Menezes Hawilla, o caçula dos três filhos de José Hawilla, dono da empresa de marketing esportivo Traffic e um dos protagonistas do Fifagate, o maior escândalo de corrupção da história do futebol. Para escapar da cadeia nos Estados Unidos, J. Hawilla, como era conhecido, fechou um acordo de delação com a Justiça americana em 2013. Admitiu o pagamento de milhões de dólares em propinas para dirigentes de futebol. Parte do suborno foi pago pela Traffic em setembro de 2013, quando Rafael já era um dos diretores da empresa, ao lado do irmão Stefano. Apesar disso, nenhum dos filhos foi denunciado – condição exigida por J. Hawilla para assinar o acordo de delação, no qual também se comprometeu a pagar uma multa de 151 milhões de dólares.

Com a morte do delator, em maio de 2018, aos 74 anos, a ação penal na Justiça de Nova York foi extinta e a família ficou com todo o seu patrimônio intacto, no Brasil e nos Estados Unidos. A fortuna era estimada pelo próprio patriarca em 500 milhões de dólares, na época. Desde então, Rafael e Stefano deixaram para trás os negócios no futebol e passaram a investir na construção civil e no setor imobiliário. O apartamento adquirido no Heritage foi apenas mais um no portfólio da família.

Em março de 2024, exatos três anos depois da compra, Rafael Hawilla revendeu o apartamento por 51,7 milhões de reais (também em valores corrigidos) para a Super Empreendimentos e Participações, empresa de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro. Um lucro, portanto, de 34 milhões de reais. O valor impressiona não só pela rápida valorização, mas pela comparação com outros apartamentos do mesmo prédio. A cobertura do Heritage, um apartamento duplex com o dobro da área, foi vendida em agosto de 2022 por 32,5 milhões de reais.

Para fins fiscais, como o cálculo do IPTU, o apartamento vendido por Rafael Hawilla era estimado em apenas 7 milhões de reais. Por isso, o 9º Tabelionato de Notas de São Paulo, onde a escritura de compra e venda foi assinada, comunicou a transação ao Coaf, apontando uma suspeita de lavagem de dinheiro. Ao fazer isso, estava obedecendo à lei: desde 2019, por decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os cartórios devem informar ao Coaf transações imobiliárias cujo valor supere em 100% a avaliação fiscal do imóvel, para coibir casos de lavagem de dinheiro. No caso do apartamento de Zettel, a diferença era de mais de 600%.

A piauí obteve acesso ao relatório do Coaf produzido com base nesse alerta. Ele consta em um dos inquéritos sobre o Banco Master que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Além da valorização altíssima sem justificativa aparente, o relatório chama atenção para um outro ponto: a escritura diz que a empresa de Zettel pagou uma entrada de 5 milhões de reais, mas não esclarece como foi feito o pagamento. Em geral, escrituras de compra e venda, sobretudo quando envolvem valores na casa dos milhões, detalham o método de pagamento – se foi por transferência bancária, financiamento, cheque, dinheiro em espécie. É uma forma de dar lastro financeiro à transação. Omitir essa informação, segundo especialistas ouvidos pela piauí, é um recurso que costuma ser adotado por quem quer disfarçar a origem do dinheiro usado na compra do imóvel, já que dessa forma não se pode rastreá-lo.

A Grip, uma sociedade de Rafael Hawilla com a esposa Adriana, possui capital social de 10 mil reais, mas seu patrimônio imobiliário vale ao menos 38,4 milhões de reais em valores atualizados, segundo um levantamento feito pela piauí em bases de dados de cartórios. Fazem parte desse patrimônio duas casas no Jardim América e um apartamento no Jardim Paulista, bairros ricos de São Paulo, e uma casa em um condomínio privado de Bragança Paulista, no interior do estado.

A família, além disso, é dona da TV TEM, rede de afiliadas da TV Globo no interior de São Paulo. Tem também muitos projetos imobiliários em São José do Rio Preto, cidade natal de J. Hawilla, onde o empresário virou nome de praça e de anel viário, além de ter sido homenageado com uma estátua, em 2021. A Traffic, empresa que deu fama à família, continua ativa, com capital social de 381,7 milhões de reais, segundo os dados da Receita Federal. No quadro societário, Rafael Hawilla aparece como administrador, ao lado do irmão Stefano e da viúva de J. Hawilla, Eliani Maria Menezes Hawilla. A empresa, porém, não tem site nem perfil em redes sociais.

Indagado pela piauí sobre a valorização fabulosa do apartamento, Rafael Hawilla afirmou que o imóvel foi vendido no modelo “porteira fechada” – isto é, com tudo o que estava dentro, o que incluía mobília e decoração. Não esclareceu se esse foi o motivo da valorização – o que, caso tenha ocorrido, significaria que a mobília valia o dobro do que o apartamento em si. O empresário disse desconhecer o relatório do Coaf e negou qualquer irregularidade na transação. Segundo ele, o apartamento não estava à venda, mas um corretor o procurou e propôs a compra nesses termos.

“Diante disso, por livre acordo entre as partes, foi realizada a venda do imóvel, juntamente com sua mobília e decoração, em conformidade com a legislação brasileira aplicável, tendo sido devidamente formalizada, com recolhimento dos tributos incidentes e a correspondente declaração às autoridades brasileiras. Desta forma, tanto a aquisição quanto a posterior alienação do imóvel foram realizadas de forma regular, com a devida observância das obrigações legais, fiscais e declaratórias aplicáveis”, diz a nota, assinada pela Grip. Rafael não respondeu às perguntas da piauí sobre o pagamento de 5 milhões de reais feito por Zettel e a discrepância entre os valores do patrimônio imobiliário e do capital social da Grip.



A suspeita de lavagem de dinheiro apontada pelo cartório é reforçada pelo fato de que, segundo a investigação da Polícia Federal, a Super Empreendimentos e Participações era usada por Daniel Vorcaro para “formalizar contratos fictícios” e “viabilizar operações patrimoniais potencialmente simuladas destinadas a ocultar a origem de recursos”. Era por meio desse CNPJ, por exemplo, que o banqueiro transferia 1 milhão de reais por mês para Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, apontado pela investigação como líder da chamada “Turma”, a milícia privada de Vorcaro.

Os inquéritos do Master incluem muitos outros indícios de que Vorcaro e Zettel inflaram artificialmente o valor de empresas e imóveis para captar recursos no mercado financeiro. Um caso notório é o da Global Carbon e da Golden Green, empresas do ecossistema do Master. Embora fossem avaliadas em 45,5 bilhões de reais, seus créditos de carbono eram registrados em terras da União – e, portanto, jamais poderiam ter sido contabilizados, como mostrou a Folha de S.Paulo. Um outro exemplo foi revelado pela piauí em julho de 2025: um terreno que havia valorizado 11 mil% em apenas 36 dias estava sendo usado pelo Master como garantia de um empréstimo milionário. Na época, Vorcaro ainda não havia sido preso e tentava provar que seu banco era rentável, para vendê-lo ao BRB.

Agora, a piauí encontrou indícios de que esse mesmo modus operandi se repetiu em Minas Gerais, em transações ocorridas entre 2017 e 2020. Nessa época, Vorcaro já era sócio do Master, que ainda tinha o nome de Banco Máxima. Um caso que se enquadra nesse padrão é o da Fazenda da Várzea, uma propriedade de 76,6 hectares em Esmeraldas, município próximo a Belo Horizonte. O imóvel foi vendido duas vezes em um único dia, em junho de 2018, numa estranha sequência. Primeiro, a empresa MVN Transportes o vendeu por 6 milhões de reais para a Espaço Engenharia e Construção – que, em seguida, o revendeu para a VM Participações por 27 milhões de reais, em valores da época. Ou seja: em questão de horas, o valor da fazenda cresceu 350%. Dois meses depois, a VM Participações jogou a cifra ainda mais alto: estimou que o imóvel valia 37,5 milhões de reais e, com isso, o ofereceu como garantia para obter um empréstimo do banco de Daniel Vorcaro. Como o empréstimo não foi quitado, o Master em 2020 se tornou dono do terreno – um ativo milionário que ajudou a engordar seus balanços contábeis.

O mesmo ocorreu com uma fazenda de 60 hectares em Jaboticatubas, Norte do estado: no mesmo dia em que comprou o imóvel por 3,8 milhões de reais, em outubro de 2018, a Vista da Serra Empreendimentos Imobiliários assinou um contrato de empréstimo com Máxima/Master, oferecendo o imóvel como garantia. Mas, ao fazer isso, inflou o valor do terreno em 887%, chegando a 37,5 milhões de reais. Dois anos depois, como esse empréstimo também não foi quitado, o imóvel acabou incorporado ao patrimônio do Master com o valor de 40,4 milhões de reais.

Em outros casos, as transações envolvem empresas associadas aos esquemas criminosos de Vorcaro, como a Diedro Empreendimentos Imobiliários e Participações. Em dezembro de 2020, a empresa adquiriu uma fazenda de 142 hectares em Itamarandiba, Norte de Minas, por 465 mil reais, em valores da época. No mês seguinte, o imóvel foi avaliado em 16,8 milhões de reais (uma diferença de 3.600%) em um contrato de empréstimo da Diedro com o Master. Uma outra empresa, a Diedro Paulistana, foi utilizada por Vorcaro para pagar um grupo de milicianos ligados ao jogo do bicho no Rio de Janeiro, de acordo com a PF.

A piauí encaminhou à assessoria de imprensa de Vorcaro questionamentos sobre todas as transações imobiliárias descritas nesta reportagem, mas não obteve resposta.


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Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)