TERRORISTAS, LADRÕES E TRABALHADORES

Imagem Terroristas, ladrões e trabalhadores

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

" EUA veem PCC e CV como 'ameaças à segurança regional'", artigo de Mariana Sanches para o UOL.

"Vieira fala com Rubio após risco de EUA definirem CV e PCC como terroristas", artigo de Mariana Sanches para o UOL.

"Cláudio Castro e o dinheiro dos aposentados no Banco Master", episódio do poscast O Assunto.

"Lula moves to end Brazil’s six-day working week", reportagem de Michael Pooler and Beatriz Langella para o  Financial Times

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá! Sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista Piauí.

Sonora: O principal pedido do senador foi que essas organizações sejam designadas como organizações terroristas estrangeiras o quanto antes.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: Vossa Excelência não sabia da aplicação do RioPrevidência governado pelo seu partido no seu estado, Cláudio Castro? 970 milhões.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Se hoje nós não estamos votando um texto que fala sobre 4x3, é porque eles ocuparam os plenários, as redes para dizer que o fim da escala 6x1era um absurdo.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira e amanhã, para vocês que nos ouvem, Celso e Ana estarão comigo na Feira do Livro, na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, neste sábado, 18h, seis da tarde. A gente espera vocês por lá. Vamos, agora sim, aos assuntos da semana. A gente vai abrir o programa com a decisão do governo norte-americano de enquadrar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas internacionais. A notícia foi divulgada no início da noite desta quinta-feira pela Secretaria de Estado dos Estados Unidos, comandada por Marco Rubio. Ela passa a valer a partir de 5 de junho. É, obviamente, um imenso retrocesso. A medida não tem nada a ver com a segurança dos brasileiros. Ela significa que agora as Forças Armadas dos Estados Unidos poderão participar de ações de combate ao crime organizado no Brasil como se estivessem caçando Bin Laden. Significa também que a política intervencionista dos Estados Unidos, que atua ao arrepio da lei, escala alguns degraus e passa a incluir o Brasil entre seus alvos. No início do ano, quando Nicolás Maduro foi capturado e arrancado da Venezuela, o Brasil se posicionou contra. Países como México, Colômbia, Chile, Uruguai e Espanha também alertaram para o precedente extremamente perigoso para a paz e para a ordem internacional baseada em normas. A decisão ainda tem consequências econômicas, sobretudo para as instituições financeiras que operam nos Estados Unidos. É uma vitória do senador Flávio Bolsonaro, que esteve com Donald Trump na terça-feira e com Rubio na quarta. O encontro com o presidente americano não foi incluído na agenda oficial de Trump, mas Flávio disse ter pedido a ele que classificasse o PCC e o CV como organizações terroristas. Enrolado por suas relações mais do que suspeitas com Daniel Vorcaro, o candidato à presidência da extrema-direita tenta desviar a atenção dos rolos em que está metido com seu Dark Horse. Ainda é cedo para avaliar os efeitos disso, mas tudo indica que o mundo piorou nessa semana. No segundo bloco, a gente vai falar das últimas do indizível Cláudio Castro. Quem imaginava que Sérgio Cabral seria insuperável, agora está diante de um desafio. Castro vai somando pontos no campeonato da ladroagem. Investigações da Polícia Federal identificaram encontros e conversas entre o ex-governador do Rio e Daniel Vorcaro, antes de aportes do Rio Previdência no Master. O ex-banqueiro convidou Castro no dia 14 de maio de 2024 para uma degustação exclusiva de uísque em Nova York. O evento, restrito a dez pessoas, custou a bagatela de 1 milhão de dólares. No dia seguinte, o RioPrevidência realizou um aporte de 80 milhões de reais em letras financeiras do Master. É dinheiro roubado dos aposentados do Rio. Ao todo, a Polícia Federal identifica 3,7 bilhões de reais transferidos do sistema previdenciário fluminense para Vorcaro. É um valor quase quatro vezes maior do que havia sido divulgado nos últimos meses de 1 bilhão, que já era assombroso. Para viabilizar a lambança, houve até troca no comando do RioPrevidência antes de alguns aportes, quando já estava claro que o Master era um entreposto do crime. A gente vai reconstituir essas histórias e analisar seus efeitos políticos. Por fim, no terceiro bloco, vamos falar da decisão histórica da Câmara dos Deputados ao aprovar, na noite da última quarta-feira, em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição, que acaba com a escala de trabalho 6x1. Foram 461 votos favoráveis e 19 contrários, no segundo turno. O texto seguiu para o Senado, onde também precisa ser aprovado em dois turnos. Caso os senadores modifiquem a PEC, o novo texto volta para a Câmara e o processo tem que ser repetido. A PEC aprovada pelos deputados determina a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem perda salarial. Ficam garantidas duas folgas semanais ao trabalhador, sendo uma preferencialmente aos domingos. As mudanças entrarão em vigor 60 dias após a promulgação do texto, mas as empresas terão 14 meses para se adaptar às novas regras. É tudo lento, é tudo difícil, mas como diz um personagem de Samuel Beckett, "estamos avançando". É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, vamos começar com você. E você, ouvinte, saiba que nós gravamos esse bloco porque a decisão foi tomada na quinta à noite. Voltamos para o estúdio para regravar, porque Ana Clara está cheia de notícias. Diga lá, Ana Clara.

Ana Clara Costa: Bom, quero começar por ordem cronológica. Não é novidade que a família Bolsonaro está pleiteando essa designação já tem um tempo. E por que eles estão fazendo isso? Porque no início do governo Trump, ele assinou um decreto que estabelecia o processo para designação de cartéis internacionais de droga como organizações terroristas. Antes, não havia esse decreto. A partir do momento que o Trump baixou esse decreto, ao longo do ano passado, alguns cartéis foram denominados. Cartéis de El Salvador, do México, da Venezuela, do Haiti, do Equador e da Colômbia. Então, diante desse histórico, os irmãos Bolsonaro, do mesmo jeito que eles estavam pleiteando a Magnitsky, o tarifaço, eles também estavam pleiteando isso porque já havia esse histórico de coisas que o Trump estava fazendo. E essa designação vem como um ato executivo do Departamento de Estado. Ou seja, não precisa passar pelo Congresso americano, não precisa do aval de ninguém. Em tese, não precisaria nem do aval do Trump. O Rubio tem discricionariedade para fazer isso, mas obviamente, todas essas denominações passam pelo menos por uma pré-aprovação do Trump. Enquanto eles iam pleiteando isso, o governo brasileiro procurou não embarcar nesse assunto porque a avaliação deles era que se eles entrassem na onda da discussão sobre a designação, eles estariam, na verdade, dando palco para um pleito que eles consideram ilegítimo, né? A família Bolsonaro fazer esse tipo de intervenção ali, eles consideram isso legítimo. Então eles não faziam um trabalho também de lobby contrário a essa medida, para justamente não dar um tamanho de preocupação de Estado para isso. Tanto que a gente falou algumas vezes aqui no Foro que a agenda do encontro entre Lula e Trump, o governo brasileiro tinha preparado muita coisa para se falar sobre um acordo de cooperação no combate ao crime organizado, justamente para tentar abrir um outro flanco de discussão sobre esse tema e não ficar na discussão "Vai designar ou não vai designar o PCC, Comando Vermelho, grupos terroristas?". Para você talvez pensar num projeto mais de médio prazo e com algum tipo de efeito prático. Então, essa era muito a pauta. E eu me lembro de a gente ter falado também aqui, algumas vezes, que essa é uma das pautas, talvez uma das únicas pautas de intersecção entre o Trump e o Lula, né? Pois bem, pouco antes da visita de Estado do Lula ao Trump, o Departamento de Estado estava determinado a baixar essa designação. Quem noticiou isso foi a Mariana Sanches, colunista do UOL. E ela também apurou que o Mauro Vieira, nosso chanceler, chegou a ligar para o Marco Rubio para pedir para eles não publicarem isso antes da visita de Estado, porque, enfim, seria um constrangimento. Era um pleito da família Bolsonaro e tudo mais. E, de fato, não foi publicada. Mas a expectativa de que isso saísse era muito grande em Washington, já tem um tempo. Eu falei com fontes minhas lá, que me disseram que já tem mais ou menos 20 dias, que os bancos estão sabendo que isso estava para acontecer, porque os bancos são a parte mais afetada, né? Onde os Estados Unidos pode atuar, digamos, mais incisivamente, é no controle das movimentações financeiras desses cartéis, dessas organizações criminosas. Então, assim, o banco é o lugar onde eles podem pressionar e apertar e provocar danos. Então, o setor bancário brasileiro, que opera nos Estados Unidos e que é profundamente integrado com sistemas americanos, já estava sentindo o cheiro disso vir. E se os bancos estavam sentindo o cheiro disso vir, a família Bolsonaro também estava. E aí, o que aconteceu? Essa visita do Flávio aos Estados Unidos agora, para além de ser uma espécie de tentativa de diversionismo da pauta Master, que é a pauta que prejudicou o Flávio recentemente, ela também tinha um componente desse anúncio, o Darren Beattie , que é um dos encarregados da Casa Branca para assuntos de América Latina e que é o cara que teve o visto revogado pelo governo brasileiro recentemente, avisou a família Bolsonaro que sairia essa designação. Eles estavam sabendo que sairia essa semana. Eles estavam sabendo que sairia justamente na quinta-feira. Eles sabiam, inclusive, a data. Então, a decisão de ir para os Estados Unidos, ela foi construída para justamente fazer parecer que eles tinham pedido para o Trump. E esse pedido tinha sido acatado do dia para a noite. E não foi bem assim. É óbvio que eles tiveram um papel importante em fazer lobby por essa designação e eles estão fazendo esse lobby já tem mais de ano, né? Mas a decisão do Marco Rubio e da Casa Branca hoje, ela não decorre de um pedido do Flávio, feito na terça-feira. Você não consegue parir uma decisão como essa em 48 horas. Foi o contrário. É óbvio que ele não vai dizer isso porque teve, obviamente, gente que procurou o Paulo Figueiredo depois disso, para inclusive parabenizá-los, né? E ele tava se gabando ali de ter conseguido esse feito. Óbvio que ele não contou que eles já sabiam que isso ia acontecer e por isso foram para lá. Então, essa chave é importante porque mostra que é uma narrativa que foi construída. Não foi um acontecimento que decorreu da visita do Flávio. Então, da mesma forma que os bancos e a família Bolsonaro estava sentindo o cheiro dessa decisão, obviamente o governo brasileiro também estava. Então não foi, digamos, uma grande surpresa o que aconteceu para o governo, até porque houve, segundo a reportagem da Mariana Sanches, essa conversa do Marco Rubio com o Mauro Vieira, né? Agora, acho importante dizer que, embora haja essa conexão, continue havendo essa conexão do Flávio, do Eduardo e do Paulo Figueiredo, que é o tradutor deles ali nas visitas, porque o inglês deles não é muito compreensível, apesar de como a coisa foi construída, parecer que eles influenciam alguma coisa, sobretudo o Flávio, que foi visitar e tudo mais. Eles perderam muita relevância entre os assessores do Trump com quem eles interagiam. Isso aconteceu depois do tarifaço, depois que o Trump passou a estreitar relações com o Lula. Eles acessam hoje algumas pessoas, como esse Darren Beattie, que está especialmente irritado com o Brasil, aparentemente. Eles acessam o Jason Miller, que é um lobista que chegou a trabalhar na Casa Branca e hoje opera para o setor privado para trazer pessoas interessadas em negociar com a Casa Branca. Então, sim, eles têm alguns contatos. Mas é importante dizer que o prestígio, se é que tiveram algum dia nesse entorno Trump, desidratou bastante do ano passado para cá. E essa medida que a gente está vendo aí, ela está condizente com outras medidas tomadas pelo governo Trump ao longo desse ano e meio de mandato. Está totalmente condizente com o que eles fizeram com o países, inclusive governados pela direita, como é o caso do Equador, por exemplo. Então, a gente tem que primeiro separar a posição real dessa família dentro dessa discussão e também situar a posição deles em relação ao núcleo de poder na Casa Branca, que hoje está mais distante do que já foi, sobretudo antes do tarifaço, em que eles de fato estavam funcionando, de certa forma, como porta vozes do Brasil lá dentro. Mas não é mais assim.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Celso, quão preocupante é essa medida? O que a gente pode esperar no horizonte próximo? Eu acho, por exemplo, um subproduto provável é que isso vai dar gás para que a barbárie policial aqui. É um incentivo indireto para que operações como a do Rio de Janeiro sejam reproduzidas. Sabe? "Ah, são terroristas". Você pode fazer qualquer coisa.

Celso Rocha de Barros: Isso pode acontecer sim, Fernando. Totalmente na linha do que a Ana falou, eu acho que é bom a gente esperar para ver o tamanho disso que aconteceu, porque ele pode variar muito. Em vários desses países que tiveram organizações criminosas classificadas como terroristas, não aconteceu muita coisa. Então, no México, você tem na imprensa relatos de atuação na CIA, de voos de Drone, umas coisas assim. Mas pelo menos até agora, nos outros países não aconteceu coisa semelhante. Então pode ser que não aconteça nada por causa da decisão do Marco Rubio. Pode acontecer também um desastre completo em vários níveis. Então, pode ser que o Flávio Bolsonaro pode ter aberto a porta por uma intervenção militar americana no Brasil. Isso não aconteceu em nenhum dos países que passaram pela mesma experiência até agora, mas é uma possibilidade. Se tem terrorista no Brasil que ameaça os Estados Unidos, como o Rubio acaba de declarar, em tese, eles se dão o direito de intervir aqui. Bom, não podemos esquecer que a designação do Cartel de los Soles da Venezuela como narcoterrorismo foi uma das desculpas para o Trump ir lá invadir a Venezuela e sequestrar o Maduro. É bom deixar claro também que depois as próprias cortes americanas deixaram claro que não existe o Cartel de los Soles, que isso era uma denominação meio genérica, que era usado para corrupção de oficiais venezuelanos. O sol é um símbolo na farda dos oficiais venezuelanos. Então isso é Cartel de los Soles, é uma maneira de você se referir a grupos criminosos que envolvem oficiais. O que é um risco bem mais real e do Flávio Bolsonaro ter ferrado o sistema financeiro brasileiro. Então, para aquele pessoal todo da Faria Lima, que apoia o Flávio Bolsonaro, fica aqui o meu beijo. Porque veja bem, a Reag, por exemplo, a Reag é o Ciro Nogueira do mercado financeiro, ela aparece aqui no programa toda semana. A Reag lavava dinheiro para o PCC, segundo a Operação Carbono Oculto. E aí? Quer dizer, se o PCC é uma organização terrorista, o governo americano pode sancionar os donos da Reag, o que por mim tudo bem. Não vou perder o sono por causa disso. Mas veja bem, o Master tinha relações com reais e a gente ainda não sabe, a investigação prossegue, se o Master também não lavava dinheiro para o PCC. No mínimo, ele tinha relações com uma empresa que lavava.

Ana Clara Costa: Eles chegaram a usar fundos que eram usados para lavagem dessa organização, ou seja, o fundo era usado para lavagem e aí o fundo acabou sendo alvo de um interesse, digamos, das autoridades. Aí eles colocaram o fundo na prateleira, pegaram outro fundo e esse fundo da prateleira foi um fundo que foi usado pelo Master. Então...

Celso Rocha de Barros: Então, você vai vendo que tinha uma promiscuidade grande entre o Master e a turma que lavava dinheiro para o PCC. E aí, digamos que o governo americano "ah, então vou sancionar o Master também". Novamente, eu aqui continuo numa boa. Não é problema meu. Por mim, beleza. Agora, daí em diante, o Flávio ganhou 130 milhões de uma organização designada como auxiliar ao terrorismo.

Ana Clara Costa: É, e você fazer vista grossa já te coloca como alguém que auxilia.

Celso Rocha de Barros: O governo do Rio de Janeiro deu bilhões de reais para uns caras que auxiliam o terrorismo. O governo do Distrito Federal deu bilhões de reais para os caras que auxiliam no terrorismo. Metade da bancada de direita do Congresso lá tá todo mundo enrolado nesse negócio. E novamente, esses políticos todos que foram sancionados pelos estados, não é problema meu. Mas assim, isso pode ter efeito sobre instituições financeiras que não tem nada a ver com isso, porque, por exemplo, tinha várias instituições financeiras respeitáveis que vendiam o título do Master. Não era para vender. Obviamente que aquele troço ia quebrar. Os caras faziam isso contando com o FGC. Eles recomendavam para os clientes só botar até 250 mil, mas e se esses caras também são sancionados por terem se metido numa confusão com o ecossistema da Reag que lavava dinheiro para o PCC? Então, assim, a partir do momento que começa esse mapeamento da rede, a gente não sabe onde ele vai parar. Então a gente está meio que entregue ao bom senso das autoridades americanas sobre isso. E é claro que a designação como terrorista pode ser usada para justificar as mais variadas coisas. Por exemplo, o Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas, disse para uma matéria da BBC que, por exemplo, se o governo americano de repente considerar que o PIX é o sistema bancário brasileiro, tem infiltração das facções criminosas e que, por isso, precisa ser descartado do sistema internacional, ele pode agir. Você imagina o tamanho do problema que Flávio Bolsonaro encomendou para o Brasil, abrindo a porta para essa confusão. Novamente, o governo americano pode não fazer nada disso. É perfeitamente possível.

Ana Clara Costa: Ele não tem feito, né?

Celso Rocha de Barros: Exato e que não faça. É perfeitamente possível que o Flávio e o Pauleta lá tenham conseguido uma reunião com o Trump e tenham conseguido dizer: "Você toma essa decisão para mim? Isso vai me ajudar na eleição". "Sim, e é isso só que eu vou fazer por você". Isso também é possível, mas o Brasil passa a correr riscos totalmente desnecessários. Como se o Brasil não tivesse problemas suficientes para resolver, agora a gente tem que lidar com o risco de uma série de intervenções americanas que, aliás, podem ser pautadas pelos mais diversos interesses. Eu lembrei aqui do PIX, mas isso poderia ser usado para sancionar o mercado financeiro brasileiro, para sancionar empresas brasileiras que concorram com empresas americanas. Enfim, é toda uma possibilidade de pesadelos aí que foi aberto pela atuação do Flávio Bolsonaro.

Fernando de Barros e Silva: Exato. Você submete a um constrangimento ou a possibilidade de ação já é o problema.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Fernando de Barros e Silva: Mal comparando, é que nem a bomba atômica. Mal comparando, você faz para não usar, mas você tem aquele instrumento e aquilo passa a nortear ou dar o parâmetro para a ação dos agentes políticos, né? Então você tem essa ameaça permanente.

Celso Rocha de Barros: Sim. E novamente, a gente ainda vai saber qual é o efeito real disso. Pode ser zero. Pode ser que o Trump tenha dito para eles: "Eu vou entregar isso aqui para vocês e vocês que se virem. Eu vou cuidar do Irã ou de outros problemas maiores que eu tenho". Mas e se não for, né? E se o governo americano quiser se aproveitar disso para intervir no Brasil? Inclusive, tem uma coisa pode ser que governos futuros se aproveitem disso. Mesmo se o Trump agora não tiver interesse nisso, se você tem a caracterização que no Brasil tem grupo terrorista atuando, outros governos podem querer usar esse argumento para intervir contra o Brasil. E é bom deixar claro que o objetivo dos EUA no tráfico de drogas brasileiro é zero, porque no México eles de fato tem interesse em barrar o narcotráfico. Porque é quem faz o trânsito dos produtores de drogas para dentro dos Estados Unidos. Segundo todos os especialistas, as quadrilhas brasileiras atuam sobretudo no trânsito de drogas para a Europa e para a África. Então o Comando Vermelho PCC não são grandes exportadores de drogas para os Estados Unidos, ao contrário dos cartéis mexicanos, por exemplo. Então, se os Estados Unidos resolverem intervir aqui por causa disso, a gente já sabe que não é por causa do narcotráfico, porque a intervenção dos Estados Unidos contra o narcotráfico não é para resolver o problema da segurança pública nos países onde ele intervém. É para barrar a entrada de drogas lá nos Estados Unidos. Então, se o Brasil não tem essa questão, se o Brasil não manda drogas para os Estados Unidos, caso haja uma intervenção americana com base nessa palhaçada que o Flávio Bolsonaro fez, a gente já sabe que não é por isso. O que é muito mais preocupante.

Fernando de Barros e Silva: Exato. E como não é por isso também que operações criminosas como a do Rio de Janeiro, no Morro do Alemão, não tem nada a ver com segurança. Tem a ver com promoção pessoal do senhor Cláudio Castro.

Celso Rocha de Barros: Campanha eleitoral desse cara aí que botou 4 bilhões no banco Master.

Fernando de Barros e Silva: De quem a gente vai falar em breve, no próximo bloco.

Ana Clara Costa: Eu acho que a gente pode olhar também para isso com uma certa desconfiança, porque o próprio governo americano, ele, de certa forma, ele próprio, desidrata essa medida. Porque, por exemplo, eu conversei com uma empresa americana depois que a decisão foi anunciada, uma empresa muito grande americana, que atua no Brasil. E o que eles estavam me explicando é que o que eles têm que fazer a partir de agora, que vai ser um negócio oneroso para as empresas, é garantir que, por exemplo, eles não tenham fornecedores que negociem com nenhuma organização criminosa. Então, eles precisam criar todo um sistema de inteligência interno para garantir que a cadeia toda seja blindada, digamos. Isso estou falando de uma empresa séria, tá? Uma empresa grande, listada em bolsa... Empresa séria. Me questiono se na Colômbia, na Venezuela, no Haiti, enfim, El Salvador, as empresas estejam cumprindo todas essas milhares de regras de conformidade.

Fernando de Barros e Silva: Se você fosse uma produtora de cinema, você não poderia pegar dinheiro do Vorcaro, por exemplo. Seus radares indicariam "não pode ali, porque esse cara tá metido"...

Ana Clara Costa: Exato. Isso vai gerar um custo grande para as empresas inicialmente. Agora, porque elas vão ter que construir ali estruturas de fiscalização que elas não tinham. Não vai dar para deixar com as auditorias independentes, que não conseguem nem pegar uma fraude como Master, que dirá, enfim. E, sobretudo, as empresas que operam com os Estados Unidos vão ter que construir sistemas de inteligência próprios. Então, assim, é um custo elevado para se operar no Brasil. E é um custo Flávio, né? A partir de agora, pelo menos, ele está se dando essa importância. E por último, eu queria dizer que o Scott Bessent, que é o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, tentou até o último minuto fazer lobby pelo Brasil. Ele não queria que essa designação fosse assinada porque justamente o alvo mais fácil e que daria mais problema pra ele seria o sistema bancário. Já houve toda a questão da Magnitsky. E, bem ou mal, os bancos brasileiros que operam nos Estados Unidos são os grandes bancos e, enfim, são instituições respeitadas ali que têm uma boa relação com o Tesouro Americano e tal. Então, o Scott Bessent entrou numa queda de braço com o Marco Rubio para que isso não acontecesse. E perdeu.

Celso Rocha de Barros: E, ademais, só para deixar claro que o Flávio precisa se preocupar com a sua possível caracterização como militante terrorista, o Rodrigo Bacelar, que é o ex-presidente da Alerj do Rio de Janeiro, ele foi designado pela Polícia Federal como o chefe do braço político do Comando Vermelho. Convido aqui o ouvinte a procurar no Google a foto do Flávio Bolsonaro com o Bacelar conversando em Búzios animadamente ano passado sobre uma aliança para as eleições desse ano. Bom, se o Comando Vermelho é uma organização terrorista, podemos supor que o chefe do seu braço político também é um terrorista. Ou seja, nós temos uma foto do Flávio Bolsonaro com um líder terrorista conhecido.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Depois dessa intervenção do grande Casquinha, só me resta encerrar o primeiro bloco. Vamos encerrar o primeiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar justamente de Cláudio Castro, Vorcaro, etc e tal. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vamos começar com você. Vamos reconstituir aí os passos em falso do ex-governador do Rio. Que história, hein?

Celso Rocha de Barros: Bom, que o Claudio Castro é ladrão não chega a ser assim, um mistério assim, uma coisa que ninguém imaginava... O Octávio Guedes lembrou bem em uma participação dele no podcast O Assunto, o primeiro escândalo do Cláudio Castro, aquela história dele com uma mochila que tem um vídeo antigo, não sei o que lá. Aquilo era um desvio de um superfaturamento, uma coisa dessas, numa empresa que fornecia óculos para moradores de rua. E aí, o que que o Rio de Janeiro faz com esse cara que roubava óculos de morador de rua? Ele reelegeu em primeiro turno. Meus parabéns a todos nós. Bom, a Polícia Federal descobriu no celular do Vorcaro, que vale muito mais do que a delação, que o governador bolsonarista do Rio de Janeiro não tinha dado 1 bilhão dos aposentados para o Master, como a gente imaginava. Agora já está em quase 4 bilhões de reais dos aposentados do Rio de Janeiro, que foram doados para o Master. Na decisão do André Mendonça que autorizou a operação, entre outubro de 2023 e julho de 2024, a RioPrevidência realizou aportes de 970 milhões em letras financeiras do Banco Master. Esse dinheiro morreu. Sumiu. Ninguém vai ouvir falar dele de novo. Tá no bolso do Vorcaro, tá pagando filme Dark Horse, não vai voltar para os aposentados nunca mais. Posteriormente, em dezembro de 2024 e outubro de 2025, foram realizados novos aportes em fundos estruturados do Grupo Master, no montante que teria atingido 2 bilhões. E, vale dizer, em 2025 o Master já estava no bico do Corvo. Quando a RioPrevidência pega esses bilhões de dinheiro dos aposentados do Rio de Janeiro e dá para o Master, o Master já está quebrado, está mantido sob aparelhos. Está só aguardando decisão ali, de uma hora liquidar, de uma hora prender o Vorcaro. Tanto que, em 2025, o Tribunal de Contas do Rio, o TCE, já tinha identificado algo como 2,5 bilhões de dinheiro da RioPrevidência no Master, em vários fundos. E aí, se você for ver os fundos, por exemplo, você vai ver que tem fundo ali, que perdeu 90% do valor, que não valia nada. Então esse dinheiro que foi colocado lá, também sumiu. Os aposentados nunca mais vão ver. Tem vários fundos em que a RioPrevidência é o primeiro investidor do fundo. Então assim, os caras fazem um fundo para RioPrevidência botar dinheiro lá. Cara, uma das coisas de gestão de previdência privada ou pública é você só colocar dinheiro da maneira mais conservadora possível. Então você vai comprar título de banco grande, que tem risco zero. Pegar o dinheiro de aposentado e botar em um fundo que acabou de abrir é crime, é loucura, entendeu? É insanidade. O cara tem que ser preso só por fazer isso, mesmo se não tivesse quebrado. E a RioPrevidência fez algumas vezes isso. Outra coisa que ficou esquisita, a RioPrevidência botou dinheiro em fundos do Master, que mexeu com títulos da dívida pública. O que o Tribunal de Contas notou é que a RioPrevidência tem gente lá que sabe entrar no Tesouro Direto, enfim, tentar comprar títulos da dívida pública por si mesmos e fazer investimentos ali, se você quiser. Você não precisa pagar comissão para o cara do Master fazer isso para você. Isso não faz o menor sentido. Então, basicamente é mais dinheiro que é dado para o Master. A lucratividade dos fundos era horrorosa, por exemplo, o Fundo Arena, a rentabilidade média do fundo até dia 31 de agosto de 2025, segundo o Tribunal de Contas, foi de 4,05 por ano, que ficou menor inclusive que da poupança, que é a aplicação mais conservadora possível, que por isso, naturalmente paga menos. Então assim, era tudo golpe. Todas essas aplicações que a RioPrevidência fez no Master era transferência de dinheiro dos aposentados do Rio para o bolso do Daniel Vorcaro. É roubo, simplesmente. Basicamente, o Master em sociedade com o Cláudio Castro roubou 4 bilhões de reais dos aposentados do Rio de Janeiro. Isso sozinho já bota essa história entre os grandes escândalos de corrupção brasileiros. Mas não subestime o Cláudio Castro. Você ainda vai achar ele em escândalos como a Refit, que é mais dinheiro ainda. Enfim, isso ainda vai longe. E outra coisa que a polícia notou, é que há uma certa coincidência nos momentos em que esses aportes são feitos e as conversas e encontros do Vorcaro com o Cláudio Castro. Então, você já deve ter visto no noticiário que o Vorcaro chamou o Cláudio Castro para tomar um uísque de 1 milhão.

Fernando de Barros e Silva: 1 milhão de dólares.

Celso Rocha de Barros: 1 milhão de dólares, fazer uma degustação de uísque.

Ana Clara Costa: Cara, Cláudio Castro está tão inchado que ele deve ter tomado muito uísque.

Celso Rocha de Barros: É, deve ter tomado uns 3 milhões de uísque.

Ana Clara Costa: 3 milhões de garrafas.

Celso Rocha de Barros: Agora, se você pensa "pô, mas quem que dá um uísque de 1 milhão para o outro?". Bom, se o cara tiver te dado 4 bilhões de reais, você dá 1 milhãozinho de reais em cachaça para ele, até que tá barato, entendeu? Saiu no lucro. O melhor investimento do Master era o famoso CDB dos cupinchas do Bolsonaro, que esses caras realmente deram um retorno financeiro para o Master gigantesco.

Ana Clara Costa: Você inventou essa agora?

Celso Rocha de Barros: Foi. Se alguém quiser calcular aí quanto é o retorno, peça pro pessoal que tem formação em finanças. Vê aí, o cara deu 130 milhões para o Flávio. Aliás, não deu. Deu só 60, mas prometeu 130. Pagou uma cachaça lá de 1 milhão, que, tudo bem, era em dólares. Então é cinco, cinco milhões de reais para o Cláudio Castro. E ganhou quatro bilhões, cara. Só tô contando que os bolsonaristas do Rio fizeram por ele, porque os bolsonaristas do Distrito Federal botaram mais grana ainda através do Banco de Brasília. Então, essa grana que o Vorcaro dá para o Flávio Bolsonaro, para Cláudio Castro, é troco de pinga. No caso do uísque aqui, literalmente. Porque, assim, o que ele ganhou desses caras para o banco dele é descomunalmente maior do que ele gastou aí para pagar umas suruba para meia dúzia de cara, um uísque para o outro, enfim, um filmezinho vagabundo.

Ana Clara Costa: É que rolou dinheiro também porque a própria investigação fala de corretagem, né? Então assim teve essas benesses, mas também teve um repasse.

Celso Rocha de Barros: Teve repasse.

Ana Clara Costa: Financeiro. Teve grana real.

Celso Rocha de Barros: E já que estamos falando nisso, é bom notar que um lobista que fazia essa intermediação, que é o Ricardo Siqueira, era sócio do nosso amigo Paulo Figueiredo, de quem a gente vai falar no outro bloco, naquele projeto de fazer um hotel com o Trump no Rio de Janeiro. Então o Paulo Figueiredo, esse mesmo aí, o Pauleta que tá lá na Casa Branca com o Flávio. Esse cara era sócio do picareta que fazia a intermediação da RioPrevidência com o Banco Master. O Paulo Figueiredo foi preso por causa disso. Não sei por que soltaram, mas enfim. Mas por aí vocês vão vendo, bolsonarista é tudo sacanagem. Bolsonarismo é um esquema de roubar dinheiro dos outros fazendo escândalo sobre banheiro unissex em escola, inventando uma cascata dessa e roubando dinheiro das pessoas.

Fernando de Barros e Silva: Fora a cafajestada, que realmente é uma nota de rodapé nessa história toda. Mas como são vulgares, cafajestes!

Ana Clara Costa: Pois é, exatamente.

Fernando de Barros e Silva: Isso faz parte um pouco do conjunto da obra.

Celso Rocha de Barros: Faz parte. Sem dúvida. Sem dúvida.

Ana Clara Costa: Ele pedia para o Vorcaro para entrar no camarote na Sapucaí, para não ficar esperando na porta, né? Esse nível de promiscuidade. É muito, né?

Celso Rocha de Barros: Negócio muito tosco.

Ana Clara Costa: Você é o governador, né? Mas aí a gente tem que lembrar que ele não é governador. Ele é, apesar do cargo, ele é o cantor lá do...

Celso Rocha de Barros: Exato, é um picareta de baixíssimo nível, que é o que você deu o acesso para ele a roubalheiras incomparavelmente maiores quando ele virou governador por acaso. E aí ele, entendeu? Não teve limite nenhum.

Fernando de Barros e Silva: Dessa turma não está faltando mais nada. Só falta a gente descobrir agora que tem o leite condensado folheado a ouro, alguma merda dessa.

Celso Rocha de Barros: Nas próximas semanas, aguarde as revelações da Polícia Federal.

Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, você que abandonou o São Paulo e foi aí para o Rio de Janeiro, está bem informada sobre o seu governador, ex-governador, no caso.

Ana Clara Costa: Cara, e pior é que eu transferi meu título já faz tempo.

Celso Rocha de Barros: Gosta de viver.

Ana Clara Costa: Realmente, meu estado.

Ana Clara Costa: Bom, falando de questões sérias, embora haja vários pontos dessa investigação que sejam folclóricos e a gente dê risada para não chorar de tristeza, eu acho que tem uma questão bem complicada, que é a seguinte: esses fundos de previdência municipais, estaduais, eles têm uma fiscalização que é muito incompatível com o volume de dinheiro que circula ali. Esses RPPS, que é a sigla para esse tipo de fundo. Então, antes do valor caro descobrir essa forma de fraudar, de desviar recurso público, outras pessoas já tinham feito isso. Isso é uma prática até banal no mercado financeiro. Porque o que acontece? Para você desviar o dinheiro de fundo de pensão, de município e de estado, você precisa tirar o dinheiro do fundo e colocar em algum investimento. Geralmente, é o mercado financeiro que monta esses investimentos fajutos para proporcionar esse desvio. Então é um tipo de prática que, como todo crime de colarinho branco, é punida quase nunca. Mas era uma coisa que você não tinha um esquema tão grande. Você criar um banco, porque o Master, na verdade, ele foi criado para fazer esse tipo de fraude, porque o Vorcaro, antes de comprar o Master, ele já fazia esse tipo de fraude com esse tipo de fundo, os RPPS, quando ele estava em Belo Horizonte. Usando a Reag, com Tanure, a mesma gangue assim. Aí quando ele compra o Master, ele escala essas fraudes a uma proporção que hoje a gente está vendo qual é?. Mas por que isso acontece? Porque a fiscalização para esse tipo de fundo ela acontece num gabinete de cinco pessoas no Ministério da Previdência. Não existe estrutura. Você tem a regra, mas você não tem fiscalização. A Previc, que é a Superintendência Nacional de Previdência Complementar, que é o órgão que fiscaliza os investimentos dos grandes fundos de pensão, Funcef, Previc... Não que a Previc seja uma beleza, porque a gente sabe o quanto que esses fundos já não desviaram ao longo da história. Mas ao menos existe um órgão específico para isso. No caso dos fundos estaduais e municipais, a fiscalização, ela é rudimentar. Isso precisa ser revisto. Precisa haver um controle desse tipo de coisa, porque não é o TCE, por exemplo, que fiscaliza. Você imagina o TCE no Rio de Janeiro, que é quase inteiro comprado, né? Então, assim, você imagina os Tribunais de Contas do Amapá, entendeu? Inteiramente aparelhado pelo Alcolumbre. Rondônia, das cidadezinhas pequenas... Não existe fiscalização. E foi isso que o Vorcaro descobriu e nadou de braçada nessa história. Então, eu acho que, a princípio, a primeira coisa que deveria ser feita é a criação de uma estrutura de fiscalização desse tipo de fundo. Então esse é um ponto. Agora, por que essa operação aconteceu agora? Não sei se vocês tiveram essa dúvida, porque se você pegar o tamanho do rombo no BRB de 12 bilhões, dá para a gente se questionar por que não foi aquilo que aconteceu primeiro. Uma operação envolvendo Ibaneis ou a turma do BRB, ou os políticos que estavam sendo abastecidos por aquele núcleo do BRB. Por que aquilo não foi? Primeiro, já que é tão maior, né? Por duas razões. Primeiro, o pessoal da RioPrevidência. Oh, que surpresa! Foram muito menos cautelosos do que os colegas ali de Brasília, a ponto de jogarem dinheiro pela janela. Literalmente. Vocês se lembram que houve uma operação da Polícia Federal sobre esse caso há alguns meses em Balneário Camboriú e os investigados que trabalhavam na RioPrevidência...

Fernando de Barros e Silva: O sujeito jogou a mala pela janela de dinheiro.

Ana Clara Costa: De dinheiro. Foi isso.

Fernando de Barros e Silva: Do alto do prédio. Caiu o dinheiro do céu, literalmente.

Ana Clara Costa: Exato. Então assim, esse é o nível da galera que tava desviando esse dinheiro todo. Eles provavelmente não estavam tomando os cuidados devidos.

Celso Rocha de Barros: Talvez não tivesse.

Ana Clara Costa: Para um valor dessa monta e, por isso, a investigação avançou bem mais rápido no Rio de Janeiro. E, aparentemente, o governador também não tinha muita cautela ao conversar com o Daniel Vorcaro no celular. E aí tem uma outra questão, que é no caso do BRB, de Brasília, do Ibaneis e de toda aquela turma, tem a perspectiva de delação do Paulo Henrique Costa, que é o ex-presidente do BRB. E uma vez que há uma negociação de delação, se você fizer uma operação da PF no meio da negociação, a estratégia pode sofrer um solavanco ali. E tem um terceiro ponto. Politicamente, o Cláudio Castro se enfraqueceu muito, né? Poderia até tentar se candidatar ao Senado, mesmo o TSE tendo declarado ele inelegível, porque daí ele tentava derrubar isso na Justiça, mas o PL não quer colocá-lo nessa posição, não quer arriscar essa vaga no Senado, que eles acham que está tão garantida, colocando um cara que pode perdê-la. Então, há uma leitura também em Brasília de que esse enfraquecimento pode também ter colaborado para que essa operação acontecesse agora.

Fernando de Barros e Silva: O Cláudio Castro era uma situação que se fosse para Bangu hoje, o pessoal ia falar: "calma, que aqui tem bandido, mas não é qualquer um que pode entrar".

Celso Rocha de Barros: A vizinhança tá caindo de nível.

Fernando de Barros e Silva: Tá caindo de nível.

Celso Rocha de Barros: É, tá virando bagunça. A criminalidade aqui dentro tá piorando.

Fernando de Barros e Silva: Tudo tem limite.

Ana Clara Costa: Rogério Andrade vai ficar ofendido, né? Agora, o que eu acho irônico também dessa história toda é que o André Mendonça, há poucos meses, já no TSE, votou contra a inelegibilidade do Cláudio Castro. E eu me lembro de ter comentado aqui com vocês na época, eu falei assim: "poxa, se ele está acompanhando a investigação do Master e tem acesso a tudo que está acontecendo sobre o Master e o Cláudio Castro e a RioPrevidência e vota pela elegibilidade do cara, o que explica?". E agora, curiosamente, essa operação que aconteceu essa semana foi autorizada pelo André Mendonça. Então, assim, não sei o que ele tá pensando. E o que essa operação dessa semana mostrou também foi a participação do mercado financeiro nesse tipo de fraude. Conforme eu tinha falado para vocês no início do bloco, para você fraudar fundo de pensão esses RPPS, você precisa de mercado financeiro. E essa operação dessa semana fez busca e apreensão na Planner Corretora, que é uma corretora que esteve envolvida em todos os escândalos de corrupção, enfim, dos últimos 20 anos. Do mensalão para cá, sempre que alguém desviou dinheiro via mercado, a Planner tinha estruturado algum tipo de mecanismo para permitir que esse dinheiro fosse desviado. E nunca aconteceu nada com a Planner. Por exemplo, na Carbono Oculto, descobriu se que esses fundos que eram estruturados a pedido do Beto Louco na Reag para lavagem de dinheiro, para sonegação, para tudo de ruim. Quem fornecia parte desses fundos era Planner. A Planner, era a corretora que fazia essa estruturação. E aí, quando a Reag, parceira do Master em todos esses esquemas, é liquidada pelo Banco Central, quem assume os fundos da Reag? Porque a Reag tinha 500 fundos de investimento, ali você tinha fundo de picaretagem, mas também tinha fundo legítimo. Entre os fundos legítimos, aparentemente legítimos, eram os fundos dos irmãos Batista. Lá eles tinham pelo menos sete fundos na Reag. Quem herdou esses fundos e todos os fundos da Reag? A Planner. Então a Planner, hoje, ela opera o que a Reag tinha antes de ser liquidada.

Fernando de Barros e Silva: Eu tô pensando aqui. Você citou Mensalão, que ocorreu isso. A corrupção está associada à esquerda. Agora, com esse Vorcarão, é uma janela histórica muito grande para que essa questão seja revista. O grau de desmoralização da direita nesse escândalo em curso, as coisas realmente são assombrosas. A gente vai rindo, vai vendo um bife de ouro aqui, um uísque de 1 milhão de dólares ali, o Dark Horse... Existe uma janela histórica para que...

Celso Rocha de Barros: Pelo menos haja uma certa equilíbrio dessa perspectiva. Porque, especialmente no Petrolão, naquela crise que levou ao impeachment etc. Criou-se essa ideia de que a esquerda era mais corrupta do que a direita, mas isso nunca foi verdade. Você pega as delações da Lava Jato e os caras dizem que aquele esquema que eles faziam com o PT e faziam mesmo, isso existia. Ninguém vai dizer que não tinha.

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Celso Rocha de Barros: Mas aquele esquema já existia há muito tempo. Quer dizer, os caras da Odebrecht mesmo falam, os caras, os empreiteiros todos, falam.

Ana Clara Costa: O esquema começou com os militares. No caso da Odebrecht, inclusive.

Celso Rocha de Barros: Com a Odebrecht, foi durante os militares, inclusive. Inclusive, se vocês pegarem o ótimo livro da Malu Gaspar, você vai ver que os militares deram Angra 1... Olha que coisa simpática para você dar para um mutreteiro! Para a Odebrecht fazer. Foi a primeira grande obra que lançou a Odebrecht no circuito. Angra 2 e daí em diante, eles ganharam sem licitação.

Fernando de Barros e Silva: Angra 1, então, que é anos 70, começou no governo Médici.

Celso Rocha de Barros: Exato. No livro do Roberto Jefferson, "Nervos de Aço", que saiu em 2006, e que eu recomendo muito.

Fernando de Barros e Silva: Coitado do Lupicínio Rodrigues. Se chama "Nervos de Aço", o livro do Roberto?

Celso Rocha de Barros: É, a visão dele sobre corrupção foi um ano depois da denúncia do mensalão. Ele escreve um livro contando a história de todo mundo, não só do PT, e todo mundo fingiu que não viu o livro. E ele conta que sempre ouviu falar que a era de ouro das empreiteiras foi a ditadura militar.

Ana Clara Costa: E no petrolão o PP foi um grande sócio, o PP foi um grande...

Celso Rocha de Barros: Sim, exato. Estiveram lá.

Ana Clara Costa: O PP foi um dos principais sócios. Ele dividia com o PT as principais diretorias.

Celso Rocha de Barros: Tinha uma PMDB, uma do PP e uma do PT. E o PP já estava no mensalão porque era PP, PL, PTB que eram comprados.

Fernando de Barros e Silva: É interessante a gente colocar em perspectiva histórica.

Celso Rocha de Barros: E não é para passar pano para corrupção de esquerda não. É só para dizer a história de que a esquerda fosse mais corrupta do que a direita, isso aí sempre foi cascata, né?

Fernando de Barros e Silva: Casca! Eu gosto do Casca que ele vai do Habermas ao Roberto Jefferson.

Celso Rocha de Barros: Gente, eu recomendo muito esse livro do Roberto Jefferson.

Ana Clara Costa: Será que tem algum sebo?

Fernando de Barros e Silva: Eu recomendo muito esse livro do Habermas. A mudança da esfera pública.

Sonora: Esse aí também é bom! Mas para entender o Claudio Castro, eu acho melhor você ler o Roberto Jefferson do que o Habermas.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. A gente encerra assim o segundo bloco do programa. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, vamos falar finalmente alguma coisa boa. Vamos falar do fim da 6x1. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Tinha até pensado em a gente pular o bloco em homenagem ao fim da escala 6x1. A gente já diminui a nossa escala de trabalho também. A diretora não deixou.

Celso Rocha de Barros: Daria argumento para as pessoas que dizem que vai atrapalhar a economia.

Fernando de Barros e Silva: A diretora não deixou a gente fazer esse happening, então. Brincadeiras à parte, foi uma vitória muito importante e passou com uma margem muito grande na Câmara, na votação na Câmara. Realmente foi uma vitória avassaladora. E agora o texto seguiu para o Senado. Comemoremos?

Celso Rocha de Barros: Eu acho que sim, Fernando. Ainda vai para o Senado, né? O Senado ainda pode fazer muita besteira com esse projeto, mas não dá para subestimar a vitória, né? Eu nem sei se eu ainda sei pronunciar isso. Vou tentar agora. Foi uma vitória da classe trabalhadora. Olha só! Não me lembro da última vez que disse essa frase. Não sei se vou voltar a dizer, mas assim.

Fernando de Barros e Silva: Aqui a gente costuma dizer mais uma derrota da classe operária.

Celso Rocha de Barros: Exato. Exatamente. Mas dessa vez não. Olha só. E é bom lembrar o Financial Times, o Financial Times é insuspeito de ser de esquerda.

Ana Clara Costa: Defendendo os interesses das grandes corporações.

Celso Rocha de Barros: É o jornal da City, de Londres.

Fernando de Barros e Silva: É o Times do Financial. Justamente.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Eles estão dizendo que são do Financial, então não sou eu que tô acusando. E eles publicaram no dia 7 de maio, enquanto alguns países do Ocidente lutam pela semana de quatro dias na era da inteligência artificial, o Brasil só agora vai tentar trazer milhões dos seus trabalhadores dos seis dias para os cinco dias de trabalho na semana. Então, assim, no mundo desenvolvido, isso que a gente está fazendo aqui, é banal. E é sempre bom lembrar, vou dizer de novo: se você tem tempo de lazer o suficiente para ir na internet xingar alguém, é por causa dos sindicatos do século XX que conseguiram reduzir a jornada de trabalho. O conceito moderno de lazer, de tempo livre, disso tudo, são conquistas dos sindicatos. Tanto os brasileiros quanto os europeus, os americanos, etc, que conseguiram reduções da jornada de trabalho. Se não, você estava até hoje com jornada de dezesseis horas por dia limpando chaminé lá na Revolução Industrial.

Fernando de Barros e Silva: Me fez lembrar daquele meme "O trabalho está atrapalhando meu desempenho nas redes sociais".

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Exato. Bom, até agora não teve nenhum estudo mostrando efeito negativo do fim da jornada 6x1. Até porque, como a gente já disse aqui, não é fácil encontrar dados sobre a distribuição das horas pela semana para a maioria dos trabalhadores. Então, quantas pessoas estão trabalhando 44 horas? 6x1, 5x2? Enfim, isso não é muito fácil de achar, então é difícil medir qual seria o efeito positivo ou negativo das 6x1. Tudo que a gente viu até agora sugere que o efeito agregado sobre a economia brasileira deve ser mínimo, em termos de se cair a produção. Se tiver algum efeito, deve ser bastante pequeno. Em alguns setores, pode ser que o efeito seja maior e aí, talvez, se acontecer alguma coisa, o governo pode tomar medidas para amenizar esses efeitos e tal. Mas a expectativa é que os efeitos negativos para a economia sejam bastante modestos ou nulos e os efeitos para a qualidade de vida dos trabalhadores podem ser bastante substanciais. Assim você vai ter mais tempo para ficar com a sua família, você vai ter mais tempo de lazer, você vai perder menos tempo se deslocando para o trabalho se você tiver um dia a menos para ir trabalhar. Como notou o pastor Isidório, deputado um pouco folclórico, você vai ter mais tempo para fazer sexo. E as pessoas acharam meio engraçado o pastor falando sobre isso. Mas faz todo sentido. Assim, uma das coisas que a direita religiosa defende é mais fertilidade. Que as pessoas tenham mais filhos. E isso implicaria você ter mais, não só tempo para fazer sexo, mas tempo para cuidar dos seus filhos. Então, se você só tiver um dia de folga durante a semana, o tempo que você vai poder dedicar à sua família é muito menor. Então faz todo o sentido que os parlamentares que se dizem a favor da família apoiem a redução de jornada, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: Tá certo, pastor.

Celso Rocha de Barros: Exatamente, correto o pastor.

Fernando de Barros e Silva: Com a ressalva de que não se faz sexo para ter filho.

Celso Rocha de Barros: Exato. Mas de qualquer maneira é uma das possibilidades. Quanto à queda da jornada de 44 horas para 40, que é uma coisa que vai ter efeito para todo mundo, praticamente, menos para um setor que eu já vou falar. Isso pode ter algum efeito econômico, pode ser que tenha alguma turbulência em alguns setores, alguma coisa desse tipo. Mas a experiência histórica, inclusive brasileira, o pessoal que estudou o efeito da redução de jornada de trabalho quando saiu a Constituição é que, em pouco tempo, esse efeito é absorvido pela economia sem maiores traumas. Não tem um surto de desemprego, não tem quebradeira de empresa, não. Tem um período de adaptação. Alguns lugares podem sofrer mais, outros podem sofrer menos depois. Alguns setores podem até ser reforçados pela força do lazer e coisas desse tipo. Não há evidência de que isso vá causar também uma grande perda de dinheiro para a economia. E, novamente, tem um ganho de qualidade de vida bastante substantivo para as pessoas que vão ter mais tempo de lazer, mais tempo de descanso, vão ter mais tempo para cuidar da própria saúde. Enfim, é uma coisa bastante positiva. Se fosse adotada a proposta de 36 horas que estava lá no projeto inicial, isso poderia ter um impacto grande, econômico, porque a absorção seria mais difícil. Mas enfim, não é essa a proposta que está na mesa. Uma coisa que eu achei inteligente é o limite deixa de existir se você for um trabalhador muito bem remunerado. A classificação aqui é quem ganha 2,5 vezes o teto da Previdência, que hoje daria mais ou menos 21 1.188 reais. Para essas pessoas, a jornada de trabalho não vai ter esse limite. Isso para mim faz um certo sentido. Assim, eu acho que a nossa preocupação em regular a jornada de trabalho tem que ser com o trabalhador pobre, que faz um trabalho ultra cansativo, que leva duas horas para o seu trabalho e ganha muito pouco. Então, para ele é bom. Agora, se tem um cara, por exemplo, operador de mesa de corretora de valores que fala "não, quero trabalhar mais cinco horas, porque cada hora a mais que eu trabalho eu ganho mais 20 mil reais". Aí eu já acho que pode deixar, entendeu? Ele não está sofrendo nada. Não é uma pessoa que está submetida a condições desumanas. É um cara rico que está fazendo uma decisão consciente de como investir seu tempo. Regulação trabalhista é para a gente evitar, enfim, sofrimento humano. Para evitar que a desigualdade no poder de barganha dentro do mercado de trabalho, gere desigualdade, gere pobreza, etc. Esses caras que ganham mais, têm mais poder de barganha no mercado de trabalho, tanto que eles ganham mais. Então, eu acho razoável que para esses setores a coisa seja mais flexível mesmo. Na última hora da votação, o PL tentou criar uma bagunça dizendo o seguinte: "Bom, era ruim votar contra 6x1. O fim da 6x1 é popular e é ano de eleição". Então eles resolveram dar uma chutada de balde e dizer: "não, quer saber? A gente vai bancar o 4x3. A proposta original do projeto da Erika Hilton". E aí, como disse o Nikolas Ferreira em um vídeo nas redes sociais, a direita deveria apoiar 4x3 para que eventuais impactos econômicos negativos acontecessem antes da eleição.. "A gente quer mostrar que quando der merda, a culpa é deles". Veja-se o raciocínio do estadista, um sujeito realmente preocupado com o interesse público. Só que aí, cara, isso foi meio tiro no pé. Porque é o seguinte: se der merda, os empresários vão perder muito dinheiro e os empresários também não estão a fim de perder dinheiro só para o Nikolas ganhar a eleição, entendeu? Então os empresários vão virar parao Nikolas e falar: "ô moleque, você vai buscar teu voto aí fazendo teus videozinho babaca, mas assim você querer que eu tenha prejuízo, o PIB cair e o bonitão aí ganhar eleição, você va a merda". De qualquer maneira, é o seguinte, a aprovação do projeto foi uma vitória da esquerda. Não só pela aprovação, mas pelo sucesso em mudar a pauta das discussões, que era uma coisa que a esquerda queria fazer há muito tempo. Quer dizer, ninguém tá discutindo aqui, sei lá, ideologia de gênero ou uma daquelas maluquices qualquer de bolsonarista. Enfim, o assunto passa a ser uma coisa real. Uma coisa que tem de fato impacto na vida das pessoas. É uma pauta em que a esquerda defende propostas populares, é uma vitória do vereador Rick Azevedo, aqui do Rio, que foi quem começou o movimento contra a 6x1, é uma vitória da deputada Érika Hilton, que apresentou o projeto. É uma vitória do deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, que tinham um projeto anterior para redução de jornada. Enfim, não é todo dia que a gente diz isso, mas a esquerda ganhou alguma coisa aqui.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Eu tava vendo aqui as movimentações no Senado. O assunto agora foi para o Senado. A CNI, Confederação Nacional da Indústria, marcou audiência com Alcolumbre na terça-feira e defendeu que o assunto de tamanha importância não pode ser discutido de forma açodada, que eles esperam que os senadores só votem isso depois da eleição. Veja as movimentações da classe dominante. E um senador que, eu confesso, não conhecia de nome Orovisto Guimarães.

Ana Clara Costa: Ele é dono da Positivo. Sabe a empresa Positivo de computador?

Fernando de Barros e Silva: Ele discursou contra falando que tem um efeito devastador em escala privada.

Ana Clara Costa: É porque ele não quer contratar mais gente para a empresa dele.

Fernando de Barros e Silva: A gente vê se o Senado tivesse debatendo ali na véspera da Lei Áurea, esse senhor Oriovisto estaria falando que o fim da escravidão ia causar danos irreparáveis à economia brasileira. Deu graças a essa turma, aparentemente, estar sendo derrotada. Ana Clara.

Ana Clara Costa: Bom, eu acho que para além da conquista para o trabalhador, o que a tramitação dessa PEC mostrou para gente é um sistema que pode ser reproduzido em outras pautas de interesse da sociedade, sobretudo da classe popular. O Rick Azevedo era um farmacêutico, trabalhava numa farmácia, estourou nas redes defendendo essa pauta. Se elegeu vereador, conseguiu ser visto pela Érika Hilton, que é uma deputada que também é muito popular, e que fez essa proposta ser apresentada na Câmara. O governo, que estava numa seca de propostas conectadas com o trabalhador, abraçou a proposta. Essa proposta tramitou, obviamente, a direita foi contra e quis desidratar e tudo mais. Houve todo um debate ao longo desses últimos meses, mas você tem também o timing que ajuda muito, que é a eleição. Que deputado que quer carregar esse peso de ter votado contra essa PEC para sua campanha? E aí, também quero pegar o detalhe de o deputado Reginaldo Lopes também ter apresentado essa proposta no Congresso. Você vê que é muito difícil para um deputado bem-intencionado, estou partindo do pressuposto que ele estava bem-intencionado, apresentar uma proposta no Congresso em defesa do trabalhador e isso tramitar por puro acordo político. Você precisa ter um amparo popular. A população precisa estar engajada, precisa estar envolvida. E foi o que aconteceu nesse caso, né? Então eu acho que fica de lição a aprovação dessa PEC como um sistema que funcionou e que pode ser replicado para outras pautas de interesse da sociedade. Ou seja, se houver uma mobilização das pessoas nas redes sociais, essa geração de deputados, ela é muito sensível a isso, né? Como ela não faz nada ou faz muito pouco, ela é muito vulnerável ao voto, né? Como tem muito pouco para apresentar, né? Você vê o que é aprovado em prol da sociedade? É quase nada. São sempre projetos de lei que beneficiam setores muito específicos, corporações tal, aquele corporativismo e tal. Benefício popular, é difícil. Então, o cara não tem nada para apresentar para tentar uma reeleiçã, aí ele fica apelando para essas pautas, os costumes. Se você tem na sociedade um engajamento para esse tipo de assunto, eu acho que esse exemplo da PEC mostrou que é possível que isso vire realidade, entendeu? Então, eu acho que, como não só a vitória dos trabalhadores com essa pauta, mas também isso mostra esse sistema possível. Porque, por exemplo, uma outra pauta que não está necessariamente relacionada ao trabalhador, mas que ela é economicamente importantíssima, que é a justiça tributária, que é a questão da tributação das grandes fortunas, de que as pessoas que realmente ganham dinheiro paguem imposto de verdade no Brasil, porque o que acontece não é bem assim. Então, se houvesse, por exemplo, um engajamento popular para essa pauta, que foi uma pauta que o governo Lula tentou emplacar, sobretudo ao longo da gestão do Haddad, e foi muito difícil, porque também é um tema que não é tão popular, não é tão fácil de ser compreendido, mas a realidade é essa. Se você tem na população o engajamento nesse assunto específico, vamos supor, da Justiça Tributária, que é de interesse de todo mundo. Você poderia fazer isso tramitar no Congresso de uma forma um pouco mais transparente. E nessa tentativa da direita de melar essa PEC, eu acho que fica muito evidente o que eles são de fato, né? No caso do PL é muito óbvio, né? Assim, a gente defende uma classe, que é a classe empresarial. Nada pode ser mais óbvio que isso. Quando o Nikolas fala o que ele fala, né? "A gente quer que isso dê uma crise agora para isso prejudicar o governo e nos beneficiar na eleição". É tão claro, eles não escondem realmente que o interesse que os move não é o interesse público. Quando Sóstenes fala que mudou de ideia e vai apoiar e orientou a bancada a apoiar, não é porque acredita que essa causa seja necessária. É realmente porque eles querem envenenar a PEC para que ela prejudique as pessoas. A gente às vezes lê isso no noticiário e meio que passa batido, né? Mas existe um grau de crueldade na atuação legislativa desses parlamentares. E nesse ponto, eu acho que a Rosângela Moro, que votou contra a PEC, é até coerente. Ela foi lá e votou contra, possivelmente porque o marido dela vai ganhar como governador. Pelo menos, é o que as pesquisas mostram hoje. E ela deve estar, enfim, mais preocupada com outras coisas do que na própria reeleição. Ou talvez porque o eleitor dela seja justamente, não à toa o Oriovisto Guimarães é do Paraná, né?

Fernando de Barros e Silva: Eu tava até aqui fazendo uma pesquisa. Ele nasceu em Batatais, em São Paulo. Ele é do Paraná, do PSDB. Onde foi parar o PSDB, hein? Nossa Senhora!

Ana Clara Costa: Mas é isso. Ela, pelo menos, foi coerente com a trajetória, né? No sentido "não sou a favor, vou votar contra". E é isso. Agora a gente vai ver o que o Moro vai fazer no Senado. Será que ele vai?

Celso Rocha de Barros: Não vamos esperar grandes coisas, né?

Fernando de Barros e Silva: Bom, muito bem. Vamos encerrando então o terceiro bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, Kinder Ovo. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta, Diretora. Vamos ver o que você aprontou para gente. Solta aí.

Sonora: Então é difícil você ler o que vai acontecer nos próximos dias, né? É óbvio que o...

Ana Clara Costa: Valdemar?

Celso Rocha de Barros: Valdemar.

Sonora: Agora se sabe, é grave e merece explicação.

Ana Clara Costa: Kassab?

Sonora: Bolsonaro que está...

Fernando de Barros e Silva: É o prefeito Ricardo Nunes.

Sonora: Se ele vai sustentar sua candidatura

Ana Clara Costa: Baleia Rossi

Sonora: Até o mês de julho.

Fernando de Barros e Silva: Não é o Ricardo Nunes?

Sonora: Por enquanto, eu não vejo crime no que aconteceu.

Ana Clara Costa: Não é o Oriovisto? Não, né?

Fernando de Barros e Silva: Oriovisto? Caramba, não ia acertar. Diretora pegou a gente. Quem fala é Rodrigo Garcia, ex-vice governador de São Paulo, para o canal Warren Investimentos no You Tube.

Ana Clara Costa: Tá difícil, hein?

Fernando de Barros e Silva: Ela vai buscar no Warren Investimentos... É fogo!

Ana Clara Costa: Não, ela vai buscar Rodrigo Garcia.

Fernando de Barros e Silva: Tem a Dark Horse e a Dark Internet. Ela vai nas profundezas do oceano. Muito bem. Depois dessa derrota da classe operária, Celso, aí sim.

Celso Rocha de Barros: Não se pode ganhar tudo.

Fernando de Barros e Silva: Kinder Ovo. Vamos para o melhor momento do programa, o Correio Elegante, o momento das cartinhas, o momento de vocês. E eu vou começar com uma mensagem do João Marques. "Poxa Ana Clara, iniciar o comentário sobre o Flávio com 'tá tudo rachado' foi maldade. Perdi a concentração, tive que parar para voltar a ouvir depois das risadas". Tá tudo rachado, tá tudo dominado.

Ana Clara Costa: Pior é que não foi de propósito.

Celso Rocha de Barros: Ficou muito bom. Eu achei que era de propósito.

Ana Clara Costa: Queria ter essa sagacidade. Depois do assunto Dark Horse da semana passada, o Giovane Rodrigues postou "Eu processaria o Celso por me dar spoiler de tanta porcaria". Porra, eu contrataria o Celso.

Celso Rocha de Barros: Pô, tem que saber aproveitar.

Fernando de Barros e Silva: O nosso Celso aqui já tá sendo convidado para ser comentarista do Oscar no ano que vem.

Ana Clara Costa: Se eu fosse a Netflix, eu contrataria.

Celso Rocha de Barros: Comentarista daquele Framboesa de Ouro. Sabe? Dos piores...

Ana Clara Costa: Agora eu queria aqui fazer um comentário aproveitando a mensagem do Ruy Donato, que escreveu: "Ana, Odair José é o cantor popular. O deputado do PT de Minas que está indo para o TCU é o Odair Cunha". Ruy, o nome do Odair Cunha é Odair José da Cunha. Eu falei só metade do nome. Eu juro que não conhecia Odair José. Vocês me perdoem pela falta de referência de música popular nesse momento.

Fernando de Barros e Silva: Odair José é um clássico, Odair José.

Ana Clara Costa: Então, mas.

Fernando de Barros e Silva: Você é jovem, né?

Ana Clara Costa: Minha idade não justifica. É ignorância pura.

Celso Rocha de Barros: Odair José cantava o clássico "Pare de tomar a pílula".

Fernando de Barros e Silva: Pare de tomar a pílula. Pois é.

Ana Clara Costa: Nunca ouvi ele.

Fernando de Barros e Silva: Olha, aqui no Wikipédia diz o seguinte que ele é conhecido como Bob Dylan da Central do Brasil.

Celso Rocha de Barros: Esse foi o melhor nome que eu já vi dar para um cantor.

Sonora: Pare de tomar a pílula. Pare de tomar a pílula...

Ana Clara Costa: Bom, resultado é: eu tive que dar um Google no Odair Cunha e estava escrito Odair José da Cunha. E eu li só o Odair José. Peço desculpas pela leitura incompleta. Talvez o deputado Odair José da Cunha tenha recebido esse nome em homenagem ao cantor.

Fernando de Barros e Silva: Se eu tivesse, se eu fosse nomeado Bob Dylan da Central do Brasil, você não precisa mais nada na vida, né, Celso?

Celso Rocha de Barros: Esse título é a glória!

Ana Clara Costa: Obrigada gente por todos esses esclarecimentos. Prometo que eu vou ouvir no Spotify.

Fernando de Barros e Silva: Momento cultural. Teve um momento cabeção aí com...

Sonora: Cabeção!

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Esse correio elegante foi só de mensagens curtinhas e acho que essa do Manoel Carneiro é porque ele gostou do programa passado: "Tem semanas que é dolorido ouvir o Foro e tem semanas que parece coca geladinha". Ah, que bom, cara.

Fernando de Barros e Silva: Coca geladinha, valeu! O melhor elogio que já recebi na minha vida.

Celso Rocha de Barros: Cara, o Fernando tá emocionado aqui, entendeu? Você tocou o coração do Fernando aqui, mano.

Fernando de Barros e Silva: Eu sou um cocolatra. Muito bem. A gente vai chegando ao fim do programa e eu devo dizer a vocês que tirarei três semanas de férias. Folga, como vocês querem. Vou aproveitar o embalo do 6x1. Vou tirar três semanas. A minha querida Ana Clara vai fazer as vezes do apresentador e, no final de junho, eu volto. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitzky. A edição é da Barbara Rubira e da Paula Scarpin. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro do grande Danny Dee, e no Rio de Janeiro. Eu me despeço dos meus amigos, então. Ana Clara Costa. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau Fernando. Tchau todo mundo.

Fernando de Barros e Silva: No sábado estaremos juntos na Feira do Livro. Quem não estiver na Feira do Livro, vê a gente ou ouve a dupla e mais o terceiro convidado na semana que vem. É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!


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