vultos do futebol
Luiz Henrique Matos 06 Jul 2026
8 min de leitura
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Estou à procura de Haaland. Andando pelas ruas de Oslo há dois dias, não encontro vestígios do atacante ou de seus companheiros.
Na viagem de São Paulo para cá, na terça-feira, ainda na área de embarque do aeroporto, assisti ao final do jogo que garantiu a classificação dos noruegueses para as oitavas de final contra o Brasil. Só então me dei conta de que estaria em território inimigo quando a batalha acontecesse.
Ao desembarcar, assisti, nos monitores do lobby do aeroporto, ao noticiário da tevê local reportando que milhares de torcedores haviam tomado as ruas do Centro da cidade, nas proximidades do Palácio Real de Oslo, para festejar a vitória sobre a Costa do Marfim, com gols de Haaland e Nusa. Enfileirados, simulavam a cena coreografada de pessoas remando ao som da batida de tambores e bradando “Ro!”. O epicentro da celebração ficava a uma quadra do hotel onde eu estaria hospedado.
Tomei o trem do aeroporto para o hotel esperando testemunhar uma catarse nórdica. Mas nos arredores da estação Nationaltheatret só os pássaros cantavam. Nem sinal de festa, nem uma camisa ou bandeira hasteada, nem um vislumbre da imagem de Erling Haaland nas ruas. Não tem gente trocando figurinhas em bancas improvisadas na porta do comércio, não parece haver Copa do Mundo acontecendo por aqui fora da tela do televisor do quarto.
Saio à procura de Haaland. Entro em uma loja de conveniência e puxo assunto com o balconista, provoco o garçom do restaurante, ninguém manifesta entusiasmo pela disputa que se aproxima. Será que eles sabem o que está em jogo?
A Copa do Mundo em Oslo é um espasmo na rotina escandinava que gira em baixa rotação apenas nos dias de jogos da seleção local. Pequenos cartazes nas portas de alguns bares anunciam o jogo no próximo domingo: “Kom igjen! Teremos cervejas e snacks!” Não me sinto encorajado.
No parque Studenterlunden há tapumes, um telão instalado e meia dúzia de barracas que funcionam apenas durante os jogos da seleção. É ali o ponto de encontro nacional para que os moradores da capital, que tem pouco mais de 720 mil habitantes, se reúnam. Qualquer projetor instalado num estacionamento de shopping em Osasco reúne mais gente no meio da tarde para assistir Catar x Suíça do que esse espaço comporta. Fico em dúvida se um país que trata a Copa do Mundo sem o devido sofrimento é digno de ganhá-la.
A Noruega só chegou às oitavas de final de uma Copa uma vez, em 1998, última ocasião em que participou. Seu principal jogador hoje é um jovem de 25 anos nascido na Inglaterra, filho de um casal de atletas e artilheiro da Premier League em três das quatro temporadas que disputou. Na imprensa brasileira, ele ganhou o apelido de Cometa e, de fato, se destaca como um astro em torno do qual orbitam outros dez atletas do seu time. A seleção norueguesa está de volta ao mundial 28 anos depois, mas diferentemente do grupo que perdeu para a Itália em terras francesas, dessa vez os noruegueses entrarão em campo no jogo contra o Brasil com grandes chances de vencer.
Jogo? Quem falou em jogo? Isso é uma batalha, camaradas, uma questão de cunho existencial.
O pentacampeão Brasil sonha com mais um título, o sexto. O Brasil que mais ganhou jogos em mundiais, que nunca ficou fora de uma Copa do Mundo, onde nascem craques a granel, nosso Brasil nunca venceu a seleção da Noruega. A Noruega, aliás, é a única seleção, entre todas, que nunca vencemos.
Estou à paisana nessas terras hostis onde todos insistem em ser simpáticos. Falsos. Fazem de conta que futebol não existe e deve ser, claro que só pode ser, uma estratégia de cooptação adversária. Haaland não está nas ruas. Não há cartazes, outdoors ou fachadas de lojas com seu rosto. Não tem ruas pintadas, mural do Kobra, camisetas com seu rosto decalcado ou embalagens de Nescau com sua foto. Não se vende cerveja, conta em banco ou pacote de telefonia usando seu sorriso e um punho cerrado vencedor. Fosse no Brasil, seus cabelos loiros inspirariam embalagens de macarrão e seu apelido seria slogan de companhia aérea. Há uma civilidade fora de alcance em como essas coisas se dão por aqui.
As notícias a que assisti na tevê retratavam pessoas remando no meio das ruas de Oslo e de Nova York. Também falavam sobre nós, brasileiros. Não o time, mas a torcida, nossa paixão, a festa envolvida no desejo pelo título. Se eu não entendo o norueguês falado na reportagem, estou certo de que eles também não entendem o estado de suspensão da realidade que isso significa para nós. Especialmente agora que nos permitimos penetrar – ó céus! De novo deixamos isso acontecer – no perigoso terreno do deslumbre.
Encontrei Haaland em uma foto. Uma só. Na porta da loja da Nike, marca que o patrocina. E ele está ao lado de Vinicius Jr. O nosso Vinicius Jr. Sorrindo, gente boa, como todos os seus compatriotas com quem interagi. Ele não é a imagem do viking que eu tinha em mente como estereótipo desse povo. Erling é um gigante cabeludo com rosto de criança. Até o mês passado, minhas referências sobre a Noruega se limitavam ao A-ha, livros de Karl Ove Knausgård e Valor Sentimental (que levou o nosso Oscar e deu mais uma vitória para eles). Agora tem esse rapaz que comemora gols em posição de lótus. Ah, sim, tem Frozen também.
Véspera do jogo. Saio na rua com minha camiseta da Seleção. Faz 9°C e resisto ao frio para ostentar meu patriotismo. Se a Elsa consegue, eu também dou conta. Com meus óculos redondos, a barba alinhada (fui ao barbeiro antes das férias), tênis de corrida nos pés e jaqueta puffer, eu mais pareço um cosplay de candidato do Partido Novo do que o hooligan que habita minha mente. Sigo altivo, um contra todos, disposto a lutar por nossa campanha rumo ao hexa. Abro o Google Tradutor e procuro formas de decorar, em norueguês fluente, frases fundamentais para minha jornada: “Limpe essa boca antes de falar do Vini, rapaz!” («Skyll munnen din før du snakker om Vini, gutt!»). Mas os noruegueses não me ajudam a não gostar deles. São dóceis e prestativos em cada interação possível.
Os dias passam, viajamos por outras cidades e vai se tornando mais difícil não sentir uma simpatia por essa cordialidade escandinava. Tiro foto ao lado de um Troll chamado Olaf, troco algumas cortesias com o segurança do barco que nos leva em um passeio pelos fiordes. Tento manter alguma espécie de espírito competitivo em alerta, mas já quase me vejo no domingo à noite sentado no meio das ruas com sujeitos dois palmos mais altos do que eu e simulando vikings remando uma canoa aos berros de “Ro!”.
Estou com medo. Medo de perdermos o jogo e isso estourar, mais uma vez, essa bolha de ilusão que deixamos crescer desde a vitória milagrosa sobre o Japão na segunda-feira. Temos habitado em um estado de torpor desde aqueles 7 a 1 em pleno Mineirão em 2014 e ainda não despertamos. Minhas filhas nunca tiveram a alegria de ver a seleção brasileira campeã do mundo e festejar pelas ruas tomadas, pelo país em caos carnavalesco e ufânico. Mesmo nesse clima nórdico, eu queria que esse calor pudesse emanar.
Cruzamos o país usando a malha de trens que passa pelas montanhas e chegamos ao nosso destino. Bergen é uma cidade à beira-mar e porta de entrada para os fiordes, onde passaremos os próximos dias e veremos o jogo programado para este domingo às 22h do horário local. Há uma tenda montada no belo parque Festplassen em frente ao hotel, mas os bancos enfileirados ao estilo refeitório de colégio não pareceram convidativos. Talvez ali, finalmente, a população local se revele mais festiva para apoiar sua seleção.
Minha camisa amarela do Brasil não desperta comentários, provocações ou reações de qualquer natureza por parte dos noruegueses. Um sujeito britânico passa ao meu lado na viela Bredsgarden e balbucia: “Good luck tonight”.
Eu vi 16,5 pessoas com adereços em alusão à Noruega nas ruas. O total de fotos de Haaland nas vitrines e cartazes por aqui foi de três. A favor do Brasil, vi uma camiseta verde e amarela vindo em minha direção, sorri aberto à espera do primeiro compatriota nessa expedição, mas só até escutar o homem cantarolar “Brrazzill” com um sotaque indistinguível. Mais cedo, no ponto de ônibus, havia uma moça cujo gorro era dividido entre as cores da Noruega e do Brasil. Somos, portanto, 2,5 torcedores por essas terras. Contei mais pessoas usando burcas do que camisas de futebol.
Agora são 21h47 e estamos sentados em um restaurante com duas ou três dúzias de pessoas. Entre os presentes, poucos estão com camisas da Noruega, enfileirados no balcão, cervejas em punhos e, claro, civilizados em seu silêncio opressor. Duvido que alguém aqui já tenha xingado um juiz na vida. Lá fora, a torcida finalmente começa a aparecer na rua e fluir em direção à grande tenda. Uma fanfarra com oito integrantes passa pela calçada e na tevê, as cenas de um estádio apinhado de noruegueses dançando contrastam com tudo o que testemunhamos nesses dias.
Estou sentado com as meninas na entrada do salão, os olhos fixos no monitor onde se fala o idioma que não entendemos, mas se joga um que sempre falamos fluentemente e grita dentro de nós. O hino brasileiro toca no estádio e em nós ecoa o desejo de ganhar mais essa partida, de seguir vivendo iludidos com uma ideia prometida de país e de nos ver projetados em pernas bailando sobre gramas. O juiz apita.
Haaland aparece finalmente. Duas vezes. Mas de uma forma que eu preferia não ter visto.
Caminho no meio da festa norueguesa nas ruas de Bergen. Pessoas saem para celebrar. Batem palmas, cantam e sentam no chão para remar. Remam e remam por mais uma hora ou duas até que, como se amanhã fosse só uma segunda-feira, retornam para suas casas. Tudo volta ao silêncio de antes enquanto eu volto para meu hotel cantarolando o hino local: “Let it go… let it go…”.