anais do capitalismo brasileiro
Consuelo Dieguez, do Rio de Janeiro 25 Jun 2026
9 min de leitura
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Sergio Rial ajustou a câmera do computador e encarou, do outro lado da tela, um grupo de presidentes e diretores dos maiores bancos do país. Durante anos, ele fez parte daquele clube. Construíra boa fama no mercado ao transformar o paquidérmico Santander, que presidiu de 2016 a 2022, em uma das instituições financeiras mais eficientes do Brasil. Talvez por isso, quando iniciou em 13 de janeiro de 2023 a conversa virtual com o seleto grupo de credores da Americanas S.A., ele achou – como um banqueiro diria mais tarde – que ganharia apoio de seus antigos pares na busca de uma saída para a empresa.
Dois dias antes, às 18h30, Rial havia divulgado um fato relevante que explodiu no mercado feito dinamite em tanque de combustível – e pediu demissão da empresa que assumira em 2 de janeiro. Ficara apenas nove dias no cargo. O fato relevante (nome que se dá ao comunicado que uma empresa de capital aberto faz aos seus investidores e ao mercado em geral sobre algum assunto de suma importância) informava que a Americanas, a gigante varejista controlada desde 1982 pelos três empresários mais ricos e admirados do país, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, tinha “inconsistências contábeis” em seu balanço – da ordem de 20 bilhões de reais.
Afora o rombo colossal, a companhia acumulava uma dívida de cerca de 22 bilhões de reais com os bancos e devia 6,67 bilhões de reais em debêntures. Tudo somado, o débito passava de 48 bilhões, quase cinco vezes o patrimônio líquido da Americanas. Em resumo: a tradicional varejista, fundada em 1929, estava quebrada. O rombo descoberto por Rial ao assumir o comando da empresa já seria, por si só, escandaloso em qualquer parte do mundo. Mas, nesse caso, escondia algo ainda mais grave. A expressão “inconsistências contábeis” era, na verdade, um eufemismo para se referir a uma fraude titânica.
Trata-se da maior fraude da história das corporações brasileiras, detalhada em uma extensa reportagem publicada pela piauí em junho de 2023. O caso hoje é investigado pela Polícia Federal, que foi às ruas nesta quinta-feira (25) cumprir mandados de busca e apreensão. A Justiça do Rio de Janeiro, por sua vez, determinou o bloqueio de bens e valores em nome de investigados até o limite de 54 bilhões de reais. Entre os alvos da operação, segundo o UOL, estão Paulo Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann, e Carlos Alberto Sicupira.
A fraude da Americanas chocou o país não apenas pelo valor exorbitante, mas também pelo fato de que vinha ocorrendo havia pelo menos dez anos. Pior. As primeiras investigações indicaram que tudo aconteceu com o conhecimento e a participação do seu então presidente, Miguel Sarmiento Gutierrez, homem de confiança dos controladores, que havia deixado o posto em 31 de dezembro.
Sergio Rial iniciou a conferência virtual com os banqueiros pedindo calma. Não falava mais como presidente da Americanas, e sim como representante dos controladores Lemann, Telles e Sicupira, que haviam pedido a ele para ajudar a amenizar a crise. Seu desafio era explicar como tinha sido possível esse rombo colossal de 20 bilhões de reais não aparecer no balanço. A operação – como ele contou – era intrincada e se dera por meio do mau uso de um instrumento legal, conhecido no mercado como risco sacado.
Trata-se de uma transação bastante comum entre os bancos e as empresas de varejo. Funciona assim: a varejista compra um produto do seu fornecedor, mas, para não se descapitalizar, transfere a dívida para um banco. O banco, então, paga o fornecedor à vista, mas com um pequeno desconto. A varejista passa a dever para o banco, com o qual, apesar da incidência de juros, consegue dilatar os prazos de pagamento – prazos largos que não conseguiria obter com seu fornecedor. Ao fazer essa transação, a varejista precisa lançar a operação de risco sacado no seu balanço como dívida bancária. Afinal, o débito que tinha com o fornecedor foi assumido pelo banco.
Foi aí que começou a fraude na Americanas: os gestores não contabilizavam tal dívida bancária no balanço. Para todos os efeitos, era como se não existisse. Eles recorriam a essa maquiagem por dois motivos. Primeiro porque, ao esconder as operações de risco sacado, a varejista conseguia apresentar um balanço com lucro (falso) e não com prejuízo (verdadeiro). Durante dez anos, o balanço brilhou como se a empresa fosse saudável e as ações da companhia se valorizaram, ano após ano, levando mais e mais investidores a comprar seus papéis – o que acabava garantindo mais dinheiro no caixa. Os bons resultados – fictícios – ajudavam a Americanas a se capitalizar e obter empréstimos junto aos bancos.
O segundo motivo era a ganância dos gestores. Como eram remunerados com base no desempenho da companhia, os executivos embolsavam bônus estratosféricos quanto melhor fosse o resultado. Parte desses bônus era pago em ações da varejista. Portanto, eles ganhavam duas vezes: com os bônus recebidos pelo bom desempenho da empresa e com a valorização das suas ações, turbinadas pelos números maquiados.
No balanço publicado pela Americanas em setembro de 2022, a dívida total de longo prazo com os bancos, referente aos empréstimos normais que a companhia tomava, era de 19,3 bilhões de reais. Para o mercado, não se tratava de um valor preocupante, dado que a companhia tinha um faturamento de 14 bilhões de reais por ano, e podia, portanto, arcar com seus compromissos sem dificuldade. Só que, quando os 20 bilhões que estavam escondidos vieram à tona, em janeiro, a dívida real da Americanas com os bancos passou da casa dos 40 bilhões. Era o dobro do que havia sido declarado oficialmente. E era impagável.
Os banqueiros, evidentemente, farejaram o calote. Depois de ouvir as explicações de Rial naquela conversa virtual, tiveram a certeza de que havia uma única solução possível para fugir do prejuízo: os controladores teriam que colocar a mão no bolso e cobrir o buraco, coisa que ainda não estava sendo nem cogitada pelo trio Lemann-Telles-Sicupira. Por isso, quando Rial encerrou sua explanação, propondo um entendimento para encontrar uma saída, recebeu de volta uma sucessão de ataques, conforme reconstituição feita pela piauí depois de ouvir dois dos presentes na videoconferência.
O primeiro cruzado veio, justamente, da instituição da qual Rial esperava mais solidariedade, o Santander.
– Rial – começou um diretor do banco –, para mim o que aconteceu aí é uma vergonha. É um negócio inacreditável. A gente não consegue fechar matematicamente esse rombo.
– Eu concordo com o que foi dito – disse o presidente de outro banco de varejo. – Essa história da Americanas é uma vergonha. Eu só estenderia um pouco mais: o que aconteceu aí foi uma fraude.
Era a primeira vez que a palavra “fraude” aparecia para definir o que se passara na varejista. Até então, o caso estava sendo diplomaticamente tratado como uma crise contábil. Outro presidente de banco pegou o mote e foi mais duro, resumindo, quase aos gritos, o pensamento do grupo de executivos:
– Porra, Rial, é um absurdo você estar aqui, não é? Porque não é com você que a gente quer conversar. Nem na empresa você está mais. A gente quer falar com quem é responsável por isso e tem capital para resolver.
Ele se referia, obviamente, aos controladores da Americanas. Lemann, Telles e Sicupira têm um patrimônio conjunto estimado em 180 bilhões de reais. E, desde que o escândalo viera a público, se mantinham mudos. Quando a palavra voltou para Rial, ele tentou contemporizar:
– Na próxima reunião, os controladores irão comparecer para negociar uma saída para o pagamento das dívidas.
Foi a última vez que Rial se reuniu com os credores. Depois disso, ele foi dispensado das negociações. Uma das razões é que Rial mantinha o seu posto de presidente do Conselho de Administração do Santander e, por isso, temia-se que o banco pudesse receber informações privilegiadas. Já o anúncio de Rial de que os controladores sentariam à mesa para conversar não se concretizou. Quem assumiu a dianteira das negociações em nome da Americanas foram os advogados.
Desde o início do escândalo, o trio de controladores, até então considerado a máxima personificação da eficiência do capitalismo brasileiro, passou a ser enxovalhado. Além da revolta com o prejuízo causado pela Americanas e a forma atabalhoada como a crise foi anunciada, o mercado, que idolatrava Lemann, Telles e Sicupira, sofreu um choque e começou a dar vazão a uma poderosa decepção.
A maior parte dos credores e gestores já havia trabalhado ou sonhara trabalhar em uma das empresas controladas pelo trio de bilionários. A começar pelo Banco Garantia, fundado por Lemann em 1972, que adquiriu uma aura mítica no mercado por ter mudado a forma como os bancos de investimento operavam, embora tenha sido vendido às pressas para o Banco de Investimentos Credit Suisse (Brasil), em 1998, abatido pela crise asiática. Gerações de gestores tentaram emular o talento de Lemann, Telles e Sicupira para os negócios, que ganharam visibilidade mundial com seu empreendimento mais radiante: a criação da AB InBev, uma das maiores produtoras de cerveja do mundo, proprietária, entre outras marcas, da Brahma e da Antarctica, da belga Stella Artois e da norte-americana Budweiser (esta última em parceria com o megainvestidor Warren Buffett).
Entre muitos daqueles banqueiros da reunião com Rial, o sentimento de desencanto era perceptível, como se a “divina trindade do mercado” os houvesse traído. “Se esses caras ficarem desmoralizados, quem serão os nossos modelos de empresários bem-sucedidos? O velho da Havan?”, me perguntou um ex-sócio do trio, que confessou ter passado a noite em claro conversando com um amigo para tentar entender o que havia acontecido para que se produzisse uma fraude dessa magnitude. O economista André Lara Resende, que trabalhou no Garantia no início da instituição, antes de assumir cargos de relevância no governo Fernando Henrique Cardoso, se disse inconformado. “Eles são meus amigos. Acho tudo isso muito triste. Não acredito que tenham a ver com essa fraude. Mas é lógico que é muito ruim ter a reputação abalada nessa altura da vida. É claro que é um baque para eles.” O dono de um grande fundo de investimento ouvido pela piauí traduziu assim a sua decepção: “Se na véspera do fato relevante alguém me falasse que uma fraude como aquela aconteceria na Americanas eu encararia como piada. Ninguém jamais poderia supor que uma coisa dessas pudesse se dar numa empresa cujos donos tinham um histórico de triunfo e de credibilidade.”
Para outros, a quebra de confiança não significou apenas o fim de uma ilusão: foi um ato imperdoável. Após o anúncio do fato relevante, muitos credores passaram a acreditar que havia um plano prévio dos executivos da Americanas para fortalecer o caixa da empresa antes de a bomba estourar, empurrando o prejuízo para cima dos fornecedores, dos investidores, dos credores e até dos funcionários – os chamados stakeholders, no jargão do mercado. O primeiro a chegar a essa conclusão foi o BTG Pactual, o banco de André Esteves.
Esteves fez carreira no Banco Pactual – fundado por Luiz Cezar Fernandes –, uma das instituições mais bem-sucedidas nas décadas de 1980 e 1990. Junto com um grupo de jovens sócios, liderou a tomada do controle do banco, que, sob o seu comando, passou a se chamar btg Pactual (BTG é a sigla de Banking and Trading Group). Com um histórico agressivo, similar ao dos controladores da Americanas, Esteves tratou de instruir os seus executivos a agir rapidamente para reduzir os danos causados pela varejista.