questões latino-americanas

UNIÓN PERFECTA NA VENEZUELA? CADA VEZ MENOS

A desconfiança crescente dos chavistas sobre Delcy Rodriguez
Manifestante empunha bandeira venezuelana em ato pela liberação de Maduro um mês após intervenção dos Estados Unidos - Pedro Pannunzio
Manifestante empunha bandeira venezuelana em ato pela liberação de Maduro um mês após intervenção dos Estados Unidos - Pedro Pannunzio

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A militante chavista Eudys Luis chegou pela manhã ao Cuartel de la Montanã, um antigo complexo militar transformado em mausoléu para homenagear o ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013. Naquele 5 de março, como ocorre em todos os anos desde então, o chavismo prestava honrarias ao principal líder da chamada Revolução Bolivariana.

Assim como uma centena de manifestantes, a maioria mulheres, Eudys  permaneceu no edifício até o início da tarde, quando foi retirada por seguranças da presidente Delcy Rodriguez. “É o povo que coloca eles lá e agora eles estão deixando o povo para fora?”, disse ela do lado de fora, ignorando o fato de que as celebrações civis estavam agendadas para as 17 horas. 

A presidente estava acompanhada pelo general Gustavo González López, que, semanas depois, viria a ser nomeado o novo ministro da Defesa. Ele substituiu Vladimir Padrino López, o mais longevo militar a ocupar a pasta desde a ascensão do chavismo ao poder e considerado um dos pilares do governo de Nicolás Maduro. 

González López foi o incumbido de receber, no aeroporto internacional de Maiquetía, o diretor da CIA, John Ratcliffe, que desembarcou em solo venezuelano cerca de duas semanas depois dos bombardeios norte-americanos a Caracas, em meados de janeiro, para se reunir com a nova mandatária do país sul-americano.

Desde que Delcy tomou posse, suas reuniões com altos funcionários do governo Trump se tornaram frequentes. Curiosamente, naquele 5 de março, antes de ir ao mausoléu de Chávez, a presidente estava reunida com o secretário do Interior norte-americano, Doug Burgum. Foram dois dias de agendas oficiais, em uma visita para discutir as possibilidades de exploração do ouro venezuelano. No retorno aos Estados Unidos, Burgum anunciou a repatriação de 100 milhões de dólares em barras de ouro venezuelano a serem investidos na indústria energética do país.

“Eu não gostei do que aconteceu”, afirmou a assistente social Carmen Serrano, referindo-se aos encontros entre Delcy e Burgum. Assim como Eudys, ela era mais uma chavista que aguardava do lado de fora do Cuartel de la Montaña para celebrar a história do ex-presidente. 

Às 17 horas, os manifestantes que estavam na porta do complexo militar se dividiram entre os dois lados da calçada para que carros modelo SUV com vidros escurecidos pudessem passar. Era a comitiva de Delcy deixando o complexo militar. Minutos depois, o acesso ao público foi liberado. Com flores de girassol em mãos, as apoiadoras partiram em direção ao mausoléu. Eudys Luis, no entanto, não quis entrar. “Perdi a vontade”, disse ela. 

O descompasso entre parte da militância e o governo de Delcy Rodriguez visto na cerimônia para Chávez tem ficado cada vez mais evidente. Empossada presidente encarregada da Venezuela em 5 de janeiro, dois dias depois do sequestro de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, a mandatária está longe de ser unanimidade entre os chavistas. 

Delcy foi diplomata em Londres durante o governo Chávez, mas sua trajetória política só deslanchou com a chegada de Maduro ao poder, quando foi ministra das Relações Exteriores, da Economia e de Hidrocarbonetos – os dois últimos postos foram acumulados com o cargo de vice-presidente do país, que ocupou a partir de 2018. 

Seu perfil tecnocrata e de boa interlocução com setores privados destoa dos líderes recentes do país, todos homens e de perfil carismático. Sem uma base de apoio sólida em torno de sua figura, é cada vez mais recorrente ouvir entre os militantes que ela não os representa. 

Para além do perfil político, há outras questões relacionadas à maneira de conduzir os interesses do país. Entram nessa conta a aproximação com governo dos Estados Unidos, as mudanças na legislação que regula a exploração e comercialização do petróleo no país sob forte influência da política norte-americana, e a aprovação da Lei de Anistia que libertou centenas de presos políticos, alguns deles críticos ao regime chavista.


Cuartel de la Montaña, no bairro 23 de Janeiro, na Zona Oeste de Caracas, é uma edificação inaugurada no início do século XX. O lugar ganhou um significado especial para o chavismo em 4 de fevereiro de 1992, quando Chávez liderou uma tentativa de golpe fracassada contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Na madrugada daquele dia, antes da derrota, os militares insurgentes conseguiram tomar o quartel, que anos mais tarde seria convertido em um dos principais santuários simbólicos do Movimiento Bolivariano Revolucionario

É nessa região que estão localizados alguns dos principais colectivos, organizações de base surgidas em comunidades populares da Venezuela, que detêm certo controle territorial e são alinhados ao chavismo. Esses grupos, muitos deles armados, são acusados pela oposição e por entidades de direitos humanos de intimidar adversários políticos e atuar ao lado das forças de segurança do chavismo, como uma espécie de força paramilitar na repressão a manifestações antigoverno.

No dia das homenagens pela morte de Chávez, em março, um importante sinal de desgaste junto a essa base veio a público. Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra Valentín Santana, líder do La Piedrita, um dos principais colectivos armados do país, em frente a uma bandeira com as imagens de Simón Bolívar e Hugo Chávez dizendo o seguinte: “Comandante [Chávez], nos ilumine. Nos dê a força para resistir a todas essas traições sofridas pelo nosso presidente Nicolás Maduro.” Ele prosseguiu: “Não vamos entregar essa pátria a esses yankees de merda. Não vamos entregá-la! Prefiro morrer bombardeado do que morrer ajoelhado aos gringos.” 

Três dias depois da publicação do vídeo, em 8 de março, a piauí foi até a sede do La Piedrita, que fica perto do Cuartel de la Montaña.

A área delimitada por uma cancela era monitorada por um vigilante. Avisei que era jornalista e que gostaria de falar com Santana. Minutos depois, ele apareceu. O chefe do La Piedrita é alto e magro. Vestia uma jaqueta corta-vento vermelha, um boné verde militar com a foto de Hugo Chávez estampada e um óculos esportivo preto. Ao se aproximar, avisou: “Eu não vou te dar nenhuma entrevista. Mas você pode entrar e ficar à vontade. Converse com quem quiser.”

Era um domingo ensolarado. Moradores da comunidade preparavam, em um panelão alto de alumínio, o tradicional sancocho, uma sopa de carne e legumes, para ser compartilhada entre os presentes. Naquele dia, a Venezuela realizava sua primeira consulta popular sob o comando de Delcy Rodríguez, e a sede de La Piedrita era um dos locais de votação. 

A consulta popular em curso é um mecanismo lançado por Maduro em 2024. Em linhas gerais, permite que moradores de todo o país escolham, por votação, quais obras e melhorias consideram prioritárias para seus bairros. Em assembleias locais, cada comunidade seleciona até sete propostas, posteriormente submetidas às urnas. O projeto vencedor recebe do governo federal o equivalente a 10 mil dólares para sua execução. O instrumento é propagandeado como uma evidência de implementação de um modelo de democracia participativa. Naquele domingo, a sede do coletivo havia sido transformada em local de votação. 

No La Piedrita, o único que aceitou conversar comigo foi Miguel Pavón, do Grupo Humanista Primer Paso, um colectivo que atua de forma integrada ao La Piedrita. Assim como Santana e as chavistas que renderam homenagens a Chávez no Cuartel de la Montaña, Pavón também está descontente com os rumos políticos do país. Reclamou, principalmente, da aprovação da Lei de Anistia, anunciada por Delcy pouco menos de um mês depois de assumir o poder. A legislação beneficiou centenas de presos políticos – ou “terroristas”, como ele prefere classificar, já que alguns dos anistiados faziam oposição ao regime de Maduro. “Há decisões que são um pouco difíceis, mas, enfim, é preciso aceitá-las, porque também há um processo de negociação para ver se liberam o nosso presidente Nicolás Maduro”, disse Pavón, ressaltando que seu apoio ao atual governo continua, mas não é incondicional. 

Alejandro Velasco, venezuelano e professor de história latino-americana na Universidade de Nova York, realiza pesquisas sobre os colectivos desde 2004. Para ele, esses grupos criaram uma espécie de dependência ao Estado que, agora, os coloca em uma posição delicada. “Eles estão absolutamente expostos e em uma posição vulnerável.”

Velasco explica que esses grupos surgiram nos anos 1980, inicialmente voltados à defesa territorial contra o crime, embora desde cedo já carregassem um componente ideológico. “Muitos integrantes desses grupos vêm das lutas estudantis ou guerrilheiras dos anos 1960 e 1970.” A chegada de Chávez ao poder, diz ele, produziu uma convergência entre o projeto cultivado pelos colectivos e aquele encampado pelo Estado. Não por acaso, essas organizações assumiram a linha de frente na defesa da Revolução Bolivariana. 

Com a morte de Chávez, Maduro herdou um governo tomado por disputas internas de poder e teve de lidar, ao mesmo tempo, com uma oposição fortalecida. “Maduro se viu obrigado a apelar a diferentes mecanismos para permanecer no poder e, um deles, obviamente, é a repressão”, diz Velasco, destacando o papel dos colectivos armados. “O que vai se criando aí é uma espécie de relação de dependência entre colectivos de qualquer vertente e Maduro, em que ambos precisam mutuamente um do outro para existir.”

A ascensão de Delcy ao poder chancelada pelos Estados Unidos estremeceu essa relação, mas até mesmo para eles uma ruptura com o atual governo seria custosa, pondera Velasco. “Os colectivos podem ser essa peça de ruptura, mas isso também é um desafio para eles, porque, quanto mais se expõem, mais criam uma instabilidade que poderia levar a outro tipo de intervenção dos Estados Unidos.”

Carlos Torrealba, professor do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidad Nacional Autónoma de México, que também pesquisa os movimentos sociais venezuelanos, acredita que as concessões feitas pelo governo Delcy aos Estados Unidos podem levar a uma ruptura, especialmente se forem contrárias aos colectivos como La Piedrita e o Humanista Primer Paso. “Se a tutela norte-americana começar a exigir ações contra esses setores, como a desinstitucionalização dos colectivos, aí vai haver uma maior possibilidade de quebra da ordem.”


Se os colectivos ainda não declararam de forma direta seus desacordos com o atual governo, o mesmo não se aplica à base de apoio formada por chavistas “comuns”, cidadãos que não respondem por nenhum grupo organizado. 

Em meados de janeiro, durante um evento organizado pelo PSUV, o Partido Socialista Unido da Venezuela, criado por Chávez em 2006, conversei com a militante Zaida Rangel. Ela me disse que apoiava o atual governo, mas que Delcy ainda precisava “conquistar o povo”. Na semana passada, quando Delcy anunciou a retomada das relações do país com o Fundo Monetário Internacional, voltei a procurar Zaida, e sua desconfiança com a atual gestão era evidente. “Parece que estamos sendo colonizados novamente”, afirmou, por mensagem de texto. 

Catherine Solorza é funcionária pública no Ministério da Saúde e militante chavista. Em seu apartamento, no bairro 23 de Janeiro, ela me disse que se sente “traída” com as ações de Delcy. Desanimada com os rumos do país, ela decidiu não participar da votação da consulta popular ocorrida na sede do La Piedrita. 

Solorza apoiou o regime chavista nos tempos de bonança e de crise, a partir de 2015, quando os venezuelanos testemunharam o desaparecimento de alimentos e produtos básicos, hiperinflação que corroeu o poder de compra da população e um dos maiores êxodos populacionais do século XXI – o último relatório da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados estima que, desde 2017, quase 8 milhões de venezuelanos deixaram o país por conta da crise. 

Mesmo com os anos de penúria, Solorza sempre apoiou Maduro. Com Delcy, no entanto, a conversa é outra. “Sinto que fomos enganados. Eles se submeteram ao poder dos Estados Unidos.” 

O chavista Jhony Morales, um auxiliar contábil que também vive no bairro 23 de Janeiro, diz que não está rompido com o PSUV, mas ressalta que não apoiará o partido enquanto Delcy estiver na presidência. Sua principal crítica diz respeito à reforma petrolífera aprovada pelo atual governo, que prevê a abertura ao capital estrangeiro para exploração e comercialização. “O petróleo praticamente está sendo entregue. Tudo aquilo que o nosso comandante supremo Chávez dizia que não deveríamos fazer. É uma traição.”

Antes de concretizar a operação contra a Venezuela, Trump já deixava entrever que as antigas expropriações do setor petrolífero não tinham sido superadas. Há duas décadas, Chávez intensificou nacionalização da exploração iniciada nos anos 1970 e instituiu um marco regulatório segundo o qual empresas privadas só poderiam explorar petróleo no país por meio de sociedades com a estatal PDVSA, um ataque duro às empresas norte-americanas.

Após a destituição de Maduro, o presidente norte-americano indicou a necessidade de recolocar as empresas dos Estados Unidos no centro da indústria petrolífera venezuelana, processo que está em curso. Executivos de companhias como ExxonMobil e ConocoPhillips querem garantias jurídicas de que não terão perdas caso voltem a investir no país.

Em 29 de janeiro, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou um projeto de reforma na lei dos hidrocarbonetos, que regula a exploração do petróleo. O texto de Delcy abre espaço para investimentos estrangeiros ao flexibilizar formas de pagamento, reduzir encargos e ampliar a autonomia operacional de conglomerados privados em relação à PDVSA, entre outros pontos. A aprovação foi celebrada por Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos.

“A reforma da lei dos hidrocarbonetos é compreensível. De fato, não há outra saída para driblar as sanções e boa parte dos dispositivos já tinham sido implementados na Lei Antibloqueio”, disse à piauí um militante chavista sob anonimato, referindo-se à legislação aprovada pela Assembleia Nacional em 2020. Para ele, no entanto, a nova reforma aprofunda o poder norte-americano nos negócios do país. “O problema é que os Estados Unidos agora controlam os nossos recursos sobre a venda de petróleo. Eu não posso falar isso abertamente, mas, evidentemente, isso é uma forma de tutelagem.”

O controle de recursos a que o militante se refere são os dispositivos previstos nas licenças emitidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), órgão vinculado ao Departamento de Tesouro dos Estados Unidos. O documento revoga temporariamente as sanções econômicas impostas contra a indústria petroleira venezuelana, mas determina que os lucros obtidos com a venda do produto ficam sob custódia de Washington, que decide quando e como libera o dinheiro. 

O documento também proíbe “qualquer transação que envolva” o envio de petróleo para Cuba, Coreia do Norte e China, até então o principal comprador venezuelano. Uma licença semelhante foi emitida para a exploração do ouro, com uma restrição adicional: fica vetado o comércio da matéria-prima com a Rússia.


Apesar das fricções na base de apoio chavista, há quem confie na atual presidente para comandar o país. Vice-ministro de Economia Comunal entre 2022 e 2024, Hernán Vargas é um defensor do governo de Delcy, mas reconheceu à piauí que há um descompasso entre o ímpeto de parte da militância e a estratégia das lideranças políticas. “É um exercício diário. Não posso dizer que já tenho tudo assimilado. Posso dizer que, dia após dia, vamos tentando assimilar coletivamente o que está acontecendo.”

Vargas afirma que, em reuniões com o alto comando chavista, militantes defenderam uma resposta armada à ofensiva norte-americana, proposta contida pela presidente interina e seus aliados sob o argumento de que o país não reunia condições militares para um confronto dessa escala. “Eu, como militante, poderia pensar que é a hora de ir combater os gringos. A questão é que o chavismo tem a responsabilidade de pensar no país e não apenas no que suas entranhas demandam.”

Vargas defende a tese de que as concessões feitas não representam capitulação, mas uma manobra para preservar o comando do país em circunstâncias adversas. “Há um processo liderado pelos Estados Unidos para tentar tomar o controle da Venezuela. Estamos fazendo todo o possível para evitar isso.”

Susana Zambrano, comunicadora social e militante chavista, também vê motivos para depositar um voto de confiança no governo Delcy Rodríguez. “Nós temos que saber que neste momento a presidenta tem uma pistola apontada contra a cabeça. Não se pode exigir muito.” Ela reconhece que há divisão entre seus companheiros de luta. “Nós não precisamos concordar com tudo, mas, neste momento, o que interessa ao império é nos separar. Não podemos permitir que nos dividam, porque, ao nos dividir, eles vencem.”

Para Velasco, da Universidade de Nova York, o atual momento da Venezuela “nos obriga a repensar o que é o chavismo”. O sentimento dos militantes que se dizem traídos por Delcy é, segundo ele, uma forma de preservar a ideia de que todo o sacrifício feito em nome do projeto bolivariano não foi em vão.

Em nome do chamado Socialismo do Século XXI, diz Velasco, a base chavista “fez sacrifícios muito reais por algo que ainda era muito efêmero e abstrato”. Agora, esse horizonte parece mais distante. Para ele, Delcy ainda não dispõe de uma base política própria, mas pode construí-la. “O que ela tem a seu favor é o tempo, já que não há prazo para novas eleições. Quanto mais o tempo passa, mais espaço ela tem para negociar com os Estados Unidos, obter recursos e distribuí-los de uma maneira que produza melhorias econômicas.”

Outro que acredita no sucesso de Delcy Rodríguez é Luis Vicente Leon, diretor do Datanalisis, um dos poucos institutos de pesquisa confiáveis que operam na Venezuela. Para ele, o que vai definir o nível de adesão da população às medidas da presidente interina é o seu sucesso econômico. “Há muitas pessoas que eram contra o governo anterior, mas agora sentem que há uma oportunidade de estabilização do país. Essas pessoas veem Delcy como um fator de equilíbrio. Ao contrário do que muita gente pensa, a maioria da população não está tão preocupada com a política. Muito mais do que o desejo de uma mudança política, elas querem saber se a abertura econômica vai gerar mais emprego e aumentar os salários.”


Nos primeiros dias após o sequestro de Maduro, o PSUV organizou marchas diárias sob o lema “Liberdade para Maduro e Cilia Flores”. Dezenas de outdoors com imagens do casal presidencial foram espalhados por Caracas, e o nome de Maduro era repetido com frequência pelas principais figuras do governo interino. Aos poucos, porém, a campanha pela libertação do casal perdeu intensidade, e as menções ao ex-presidente tornaram-se cada vez menos frequentes. 

No dia 26 de março, Nicolás Maduro e Cilia Flores compareceram ao Tribunal do Distrito Sul de Nova York para a segunda audiência preliminar do processo em que respondem por associação ao narcotráfico e posse de armas. Um dos temas analisados pelo juiz Alvin Hellerstein era o pedido da defesa de Maduro para anular a ação penal sob a alegação de cerceamento do direito de defesa, já que as sanções impostas à Venezuela impedem o governo de custear a defesa do casal presidencial, como prevê a legislação venezuelana. Embora Hellerstein tenha reconhecido o direito ao custeio da defesa, o pedido de anulação do processo foi rejeitado.

Do lado de fora do tribunal, centenas de apoiadores do ex-presidente se reuniram para pedir sua libertação, enquanto batiam boca com manifestantes contrários a Maduro. Em Caracas, as manifestações de apoio a Maduro foram tímidas. O PSUV se mobilizou de forma tímida e pequenos grupos de militantes se concentraram na Plaza Bolívar, no centro histórico da cidade, onde acompanhavam as notícias do julgamento por meio de um telão. 

Um senhor de boné, com os dois primeiros botões da camisa abertos, observava a certa distância. A ausência de manifestantes o surpreendeu. “É uma pena. Não entendo por que não tem mais gente aqui. Esse espaço deveria estar mais cheio”, disse ele, que não se definia como um apoiador de Maduro, mas também não concordava com a intervenção norte-americana. 

Pouco mais de duas semanas depois do sequestro de Maduro, a presidência da Venezuela divulgou uma foto da tríade que comanda o país interinamente: Os irmãos Jorge e Delcy Rodríguez, e Diosdado Cabello, atual ministro do Interior e secretário-geral do PSUV, representante dos movimentos sociais e responsável por manter o controle dos grupos radicalizados. “Unión perfecta por Venezuela”, dizia a legenda da imagem. Mas até quando?


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É jornalista baseado em Caracas