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UM EX-BRAÇO-DIREITO DE CIRO NOGUEIRA NO FOGARÉU DA REFIT

Responsável por operar o orçamento secreto no governo Bolsonaro, o ex-número 2 da Casa Civil agora é alvo na operação contra as fraudes bilionárias de Ricardo Magro
Jônathas de Castro foi um dos dezessete alvos da Polícia Federal na operação Sem Refino - Michel Jesus/ Câmara dos Deputados
Jônathas de Castro foi um dos dezessete alvos da Polícia Federal na operação Sem Refino - Michel Jesus/ Câmara dos Deputados

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Jônathas Assunção Salvador Nery de Castro, de 42 anos, é um servidor público que já fez de tudo um pouco em Brasília. Durante os governos do PT, ocupou diferentes cargos administrativos no Ministério da Indústria e no Ministério da Integração Nacional. Na gestão de Michel Temer, subiu alguns degraus, tornando-se diretor da secretaria que cuidava das privatizações do governo. Ali, pôde trabalhar de perto com Tarcísio de Freitas, futuro governador de São Paulo. Mas prestígio mesmo Jônathas conheceu nos anos Bolsonaro. Foi escolhido, em 2021, para ocupar o cargo de secretário-executivo da Casa Civil, atuando como braço direito do general e então ministro Luiz Eduardo Ramos. Tornou-se o homem das emendas parlamentares no Palácio do Planalto, administrando os pagamentos do orçamento secreto. Manteve a função mesmo depois que Ramos foi substituído por Ciro Nogueira (PP-PI). Ao que tudo indica, agradou o novo chefe. Por influência dele, foi indicado – e aprovado – para o Conselho de Administração da Petrobras, em 2022.

Burocrata aplicado, cumpridor de tarefas e com perfil discreto, Jônathas não costuma aparecer nas manchetes. Mas virou notícia nesta sexta-feira (15): foi um dos dezessete alvos da Polícia Federal na operação Sem Refino, que apura um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. No centro da investigação está a Refit, a refinaria de Ricardo Magro. Desde o fim do governo Bolsonaro, quando deixou o conselho da Petrobras, Jônathas vinha trabalhando como lobista da empresa em Brasília.

A operação desta sexta-feira foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Na decisão de 87 páginas, ele reproduziu um trecho do relatório da PF que mostra transações financeiras atípicas feitas por Jônathas. Ali consta que, no dia 17 de março de 2025, o ex-número 2 de Ciro Nogueira abriu uma empresa chamada Sary Consultoria e Participações Ltda, com capital social de apenas mil reais. Apenas poucos dias depois de ser criada, no entanto, essa pequena empresa movimentou uma fortuna. Recebeu 765,7 mil reais da Refit, 382,8 mil reais da Roar Inovação, 320,3 mil reais da Fera Lubrificantes e 62,5 mil reais da Flagler – empresas que, segundo a investigação, são vinculadas a Magro.

O dinheiro, de acordo com a Polícia Federal, não permaneceu na empresa. “Os valores creditados foram rapidamente transferidos diretamente ao próprio beneficiário final Jônathas Assunção Salvador Nery de Castro, cerca de R$ 1.325.000,00”, diz o relatório. Para os investigadores, trata-se de um padrão típico de uma “empresa de passagem” – isto é, que existe apenas no papel e serve para movimentar dinheiro. Uma evidência disso, segundo a PF, é o fato de que a Sary Consultoria não tem despesas operacionais compatíveis com o que se espera de uma empresa desse tipo – como, por exemplo, folha de pagamento e custos técnicos.

A decisão de Moraes destaca as transações atípicas de Jônathas, mas, como reproduz apenas trechos do relatório da PF, não deixa claro qual é a suspeita dos investigadores a respeito dessas movimentações financeiras. Em outro trecho reproduzido pelo ministro, a Polícia Federal ressalta os laços políticos de Jônathas, descrevendo-o como “principal auxiliar do então ministro da Casa Civil, o atual senador Ciro Nogueira, a quem estava diretamente subordinado”. O contexto em que a frase se insere no relatório não é claro. Mas não terá sido a primeira vez em que Ciro é associado aos negócios de Ricardo Magro.

Os dois têm uma relação próxima e, como revelou uma reportagem da piauí, estiveram juntos em um evento com notáveis brasileiros em Nova York em maio do ano passado. Meses antes, Ciro havia apresentado uma emenda a um projeto de lei, no Senado, que buscava punir os “devedores contumazes”, assim chamadas as empresas que acumulam milhões ou bilhões de reais em impostos não pagos. As exceções defendidas por ele ganharam, entre parlamentares e técnicos do Congresso, o apelido de “emendas Refit”, pela conclusão de que beneficiavam diretamente Magro, considerado hoje o maior sonegador do país.

Quem também estava no evento em Nova York, em maio, foi o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Uma outra reportagem da piauí mostrou como Castro tentou criar vantagens tributárias para empresas ligadas a Magro, dono da refinaria Refit. Não conseguiu. Nesta sexta-feira (15), o ex-governador também foi alvo de mandado de busca e apreensão. Segundo o relatório da Polícia Federal, Castro agiu com “leniência” e facilitou “a criação de um ambiente propício” para que o empresário cometesse crimes.

Quando foi indicado pelo governo Bolsonaro para o Conselho de Administração da Petrobras, Jônathas Nery de Castro sofreu resistência. O Comitê de Elegibilidade da estatal deu parecer desfavorável à sua indicação, ponderando que, por ele ser um integrante do alto escalão da Casa Civil, havia risco de um conflito de interesses. Mesmo assim, em 19 de agosto de 2022, a assembleia de acionistas da Petrobras aprovou Jônathas. Empossado, ele se tornou o leva-e-traz de Ciro Nogueira na estatal. Passam pelo Conselho de Administração as principais decisões estratégicas da empresa, como a política de preços.

Depois da vitória de Lula na eleição de 2022, Jônathas deixou o funcionalismo público e foi acolhido por Ricardo Magro, que o contratou para cuidar das “relações governamentais e institucionais” da Refit. Em outras palavras, o convidou para ser seu lobista. Jônathas tem bom trânsito sobretudo no Senado, onde cultivou uma boa relação com Davi Alcolumbre (União-AP) e com o senador Marcos Rogério (PL-RO), ambos com interesses no setor que regula a Refit. A piauí apurou que, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) suspendeu as atividades da Refit, alguns amigos de Jônathas manifestaram preocupação em conversas com integrantes do governo. A interdição continua valendo até hoje.

Embora a atuação de Jônathas na Refit não seja segredo para ninguém em Brasília, o ex-servidor mantém a discrição. Não se encontram, na internet e nas redes sociais, registros do seu vínculo com a empresa. Mas há evidências. Entre elas, estão três e-mails obtidos pela piauí em que Jônathas convida diretores da ANP para uma visita técnica à Refit, no Rio de Janeiro. O e-mail usado por ele era jonathas.castro@fitpar.com.br. A Fitpar é uma empresa pertencente a Ricardo Magro. As mensagens são de agosto de 2024.

A Operação Sem Refino mira o que a PF descreve como uma organização criminosa estruturada em torno da Refit. O grupo de Ricardo Magro é acusado de usar distribuidoras de combustível, importadoras, factorings, fundos de investimento, holdings e offshores para ocultar receitas, lavar dinheiro, sonegar tributos e fraudar a cadeia de recolhimento de ICMS. A Refit, segundo os investigadores, era a face visível de uma engrenagem maior. 

A investigação também aponta um braço estatal do esquema. Uma demonstração disso foi a inclusão de Cláudio Castro na operação desta sexta-feira (15). Mas não foi só ele: entre os alvos da PF também estavam o ex-procurador-geral do estado do Rio Renan Saad, o ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Renato Jordão Bussiere, o desembargador Guaraci de Campos Vianna, ex-integrantes da Secretaria de Fazenda do estado do Rio e até mesmo servidores da PF. Os investigadores suspeitam que estruturas do Estado foram utilizadas para beneficiar a Refit e protegê-la de eventuais punições.

O caso conecta duas dimensões do poder de Ricardo Magro. De um lado, a rede empresarial e financeira descrita pela piauí na reportagem O labirinto, com offshores, fundos de investimento e estruturas complexas para garantir sua blindagem patrimonial. Do outro lado, a engrenagem institucional agora descrita pela PF, com agentes públicos acusados de favorecer os interesses de Magro. Lobista da Refit e ex-número 2 de Ciro Nogueira – a quem Magro costuma chamar de “amigo de fora da política” –, Jônathas Castro parece ser um ponto de contato entre essas duas frentes da investigação. 


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Repórter da piauí, baseado em Brasília