O regente no vídeo em que ironiza as denúncias e diz que seus mestres eram nazistas - Imagem: reprodução
O regente no vídeo em que ironiza as denúncias e diz que seus mestres eram nazistas - Imagem: reprodução

autos da denúncia

"IMENSAMENTE PIOR"

A mobilização da sociedade contra os abusos cometidos pelo maestro Marco Aurélio Xavier no coral Meninas Cantoras de Petrópolis

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A maquiadora Stephanie Cammarota conta que tinha “de 13 para 14 anos” quando uma amiga do coral lhe chamou: “Vamos pro quarto do maestro.” Àquela altura, já havia passado metade da vida como parte das Meninas Cantoras de Petrópolis, grupo no qual ingressou aos 7. Lembra-se que, apesar das broncas e humilhações constantes, ou mesmo em razão delas, se empenhava para pertencer ao rol das “escolhidas”, aquelas que eram mais bem tratadas pelo maestro e fundador do grupo, Marco Aurélio Xavier. 

“Eu ficava batalhando para poder fazer café para ele, isso era um grande privilégio. Até eu conseguir, e aí fazia café para ele todos os dias. Ia assistir às aulas das outras turmas para estar lá, mostrar que eu estava disponível”, conta Stephanie, hoje com 32 anos. 

A amiga que lhe chamou para o quarto do professor era um pouco mais velha, com 15 ou 16 anos, segundo sua memória. Já deveria ter se formado no grupo, “mas continuava pedindo pra ficar”. Ao entrar no local, a menina cantora confirmou uma antiga desconfiança. O maestro mantinha “relações sexuais” com sua amiga havia tempo, “questão de anos”. “E eu acabei me vendo naquela situação também.” 

A situação que Stephanie relata envolve uma situação dupla: a adolescente testemunhou “o ato inteiro” da amiga com o maestro, antes de ser envolvida, ela também, nos atos. “Ele fez essa menina me aliciar, entendeu? Ele a fez me levar”, afirma, reforçando que não tinha “cabeça nenhuma para consentir”. 

“Eu não consenti. Foi criado um ambiente para parecer que eu queria aquilo. É toda uma preparação, um processo de anos. Por isso que eu sempre falo que aquilo [o coral] era uma seita.” Esse processo confundiu e atrasou a percepção de Stephanie de que tinha sofrido uma violência. Ela enxerga sua amiga como vítima do maestro, mas imagina que a própria não se enxergasse assim. “Na cabeça dela, eles tinham um relacionamento”, diz Stephanie. As duas se afastaram, e a colega manteve os encontros com Xavier durante algum tempo.

Desde que deixou o coro, Stephanie nunca mais conseguiu cantar em público. 

No início de junho, a piauí publicou a reportagem Um grito preso na garganta, na qual dezessete ex-coralistas se recordam das agruras que viveram no grupo, incluindo casos de assédio moral e sexual. Stephanie se enxergou naquelas histórias. “Eu só sabia chorar, chorar, chorar. Me ausentei do trabalho durante dias, porque era só nisso que eu conseguia pensar.” 

Outras dezenas de mulheres procuraram a reportagem desde a publicação, pedindo para serem ouvidas. Até agora, conversei com 25 delas. Algumas diziam: “Ele é ainda pior do que está no texto.” Parte delas, entrevistadas ou não pela reportagem, publicaram relatos em suas redes sociais.

Quinze ex-alunas do coral, todas fontes da primeira reportagem da piauí sobre o caso, se organizaram para formar o Coletivo das Meninas Cantoras de Petrópolis. O objetivo da organização é buscar reparação jurídica, acompanhar os desdobramentos legais, responder a demandas da mídia e acolher outras cantoras e eventuais testemunhas que queiram contribuir com informações, pelo e-mail coletivomcp@gmail.com. Um formulário distribuído por elas tinha mais de cinquenta depoimentos até a conclusão deste texto. Não é uma lista anônima - cada denunciante registra seus dados para o coletivo – mas há possibilidade de pedir sigilo.

Pessoas famosas que conviveram com as Meninas Cantoras de Petrópolis em seu auge, em shows, discos e programas de tevê, se manifestaram depois da reportagem. A cantora Simone, que gravou com o coral o seu disco mais vendido, 25 de dezembro, lançado em 1995, prestou solidariedade às vítimas e afirmou à reportagem que “está de mãos dadas nesta causa”. Nas redes sociais, comentou: “Mulheres, jamais se calem! Estaremos sempre na luta!” 

No post da piauí no Instagram, a apresentadora Xuxa Meneghel, que teve o coral participando de muitos de seus programas, questionou: “Meu Deus, e onde está esse monstro?? Espero que ninguém diga ‘elas precisaram passar por isso pra serem quem foram’ (...) As pessoas romantizam abusos psicológicos, físicos e mentais… e o abuso de confiança é o pior… sinto muito por todas que passaram por isso.”

Dias depois, Marco Aurélio Xavier, que foi procurado durante a apuração e não quis dar entrevista, se manifestou. Num vídeo publicado em suas redes sociais em 24 de junho, se postou diante da câmera e disse: 

“Tem uma revistinha aí, uma repórter, sabe, que juntou umas testemunhas e falaram tudo de mau contra mim. Perderam tempo, porque, se tivessem me entrevistado, eu sou imensamente pior do que escreveram. Eu teria maiores barbaridades para falar sobre mim. Afinal, meus grandes mestres foram nazi... nazistas. Fica a dica.”

O post, apagado horas depois, foi reproduzido por páginas de notícias e motivou a abertura de um inquérito da Polícia Civil em Petrópolis, a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Promotoria de Justiça. À revista, o MP confirmou que “a investigação abrange as denúncias veiculadas na reportagem e também o vídeo com as declarações do investigado. Demais informações devem ser obtidas junto à Polícia Civil. Ressaltamos, ainda, que o procedimento tramita sob sigilo legal”. A polícia não respondeu aos questionamentos da piauí

A reportagem voltou a procurar o maestro, que não respondeu.

A vereadora de Petrópolis Júlia Casamasso e o deputado estadual pelo Rio de Janeiro Yuri Moura, ambos do Psol, haviam protocolado denúncias ao MP após a publicação do vídeo do acusado, cobrando providências imediatas e a avaliação dos requisitos para a decretação de sua prisão preventiva.

A Ordem dos Advogados do Brasil em Petrópolis divulgou uma nota pública de repúdio às declarações de Xavier. A Comissão de Direitos Humanos do órgão afirmou acompanhar, “com preocupação, as graves denúncias de assédio moral e de outras formas de violência relatadas por ex-integrantes do coral, (…) que revelam situações potencialmente incompatíveis com a dignidade da pessoa humana e capazes de configurar graves violações aos direitos fundamentais de crianças, adolescentes e mulheres”. A nota segue: “Também causa preocupação a manifestação pública posteriormente divulgada pelo destinatário das denúncias, especialmente pela utilização de referência ao nazismo.” 

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro acompanha o caso. Em mensagem à piauí, o órgão informou que “realizou uma reunião inicial com o grupo de meninas, voltada prioritariamente para o acolhimento e a escuta atenta de suas demandas”. “Neste momento, a instituição analisa cuidadosamente a melhor estratégia de atuação para garantir a efetiva proteção de seus direitos. Ressaltamos, no entanto, que todas as providências a serem adotadas e os desdobramentos do caso tramitam sob rigoroso sigilo, com o objetivo de preservar a integridade e a intimidade das vítimas, em razão da sensibilidade do tema.”

O coral Meninas Cantoras de Petrópolis foi fundado em 1976 por Xavier. Em um discurso tido frequentemente como feminista, defendia que as mulheres tivessem voz na música erudita, e por isso criou um grupo sem participação masculina. As alunas ingressavam a partir dos 5 ou 6 anos de idade e, a partir dos 9, poderiam se tornar integrantes, até deixar o grupo, com 15 anos. 

O coral se tornou tradição na cidade serrana e conquistou o auge da popularidade nos anos 1990, em que passou a ser onipresente em programas de tevê, de apresentadores como Xuxa, Faustão e Raul Gil. Com Simone, no disco 25 de dezembro, que inclui o hit Então é Natal, as MCP venderam mais de 3 milhões de cópias, somada a versão em espanhol, um dos maiores êxitos da indústria fonográfica brasileira.

Sob justificativas financeiras, Xavier encerrou as atividades em 2016, quando havia tempos não usufruía do mesmo destaque nacional. Ex-integrantes ouvidas pela piauí relatam que, durante as quatro décadas, se perpetuaram os casos que vão de apelidos jocosos a assédio sexual e estupro de vulnerável, já que ele tocava crianças de menos de 14 anos.

A advogada que acompanha o grupo, Thais Justen, ressalta que o grande obstáculo para a punição do maestro por abuso sexual é a prescrição dos crimes, pelo longo tempo transcorrido — no caso de estupro de vulnerável, por exemplo, a vítima tem vinte anos para denunciar o que sofreu. Mas, se o acusado passa dos 70 anos de idade, caso do maestro, esse prazo cai pela metade, dez anos (essa regra mudou em 2025, vedando a redução da prescrição, mas não vale para crimes anteriores à data). A partir de 2012, com a aprovação da Lei Joanna Maranhão, esse cálculo passou a ser feito a partir do momento em que a vítima completa 18 anos. 

“A prescrição continua sendo um dos maiores entraves do direito brasileiro para a proteção de crianças e mulheres vítimas de violência sexual”, diz a advogada, já que “o reconhecimento da violência, especialmente quando ocorrida na infância, costuma ser um processo longo e complexo, frequentemente marcado por medo, vergonha, culpa e silenciamento”, diz. 

Neste momento, Justen busca escutar outras vítimas e identificar casos em que a violência ainda não tenha sido alcançada pela prescrição, para superar o que chama de “lacuna” na legislação. “Isso não significa que os relatos das mulheres cujos casos estejam prescritos sejam juridicamente irrelevantes. Ao contrário, eles podem desempenhar papel fundamental para demonstrar a existência de um padrão reiterado de violência, a habitualidade das condutas e a identificação de outras vítimas cujos casos ainda permitam responsabilização criminal.”

A advogada analisa ainda a possibilidade de enquadramento de parte das condutas no crime de tortura; a responsabilização do maestro na esfera cível, por meio de ações de reparação por danos morais; e na esfera trabalhista, pela exploração do trabalho das meninas, que nunca foram remuneradas pelas apresentações nem pelas gravações e vendas de discos. Segundo Justen, a reparação é possível se houver “elementos que demonstrem que terceiros obtiveram proveito econômico da atividade desempenhada pelas integrantes do coral sem a correspondente remuneração”. 

Stephanie Cammarota, que fez parte do coral nos anos 2000, defende que o maestro, que ficou à frente do grupo por quarenta anos, lucrou com o trabalho das Meninas Cantoras de Petrópolis. Além dos discos e cachês por shows e gravações, o professor, a partir do ano 2000, passou a cobrar mensalidade para que as cantoras fizessem parte do grupo, embora fosse tratado por ele como um coro profissional. Isso porque, nessa fase, o coral ficou “independente”, depois de passar por duas escolas: de 1976 a 1997, era abrigado pelo Colégio Vicentino Santa Isabel; depois, pelo Colégio São José. 

O maestro acabou expulso de ambos, sem que nunca fosse explicado abertamente o porquê. Entre 2000 e 2016, deu aulas numa casa do Centro Histórico de Petrópolis, apelidada por ele de “óvni” — um lugar apartado das pessoas “comuns”, especial, cujas regras podiam ser de difícil compreensão para quem fosse de fora. Mas as violências não se restringiram à fase mais independente. Segundo as mulheres ouvidas pela piauí, os comportamentos inadequados do maestro começaram logo após a fundação do coral, nos anos 1970.

Integrante da primeira turma das Meninas Cantoras de Petrópolis, uma advogada, que pede para não ser identificada com medo de retaliações, diz que as quatro décadas de abusos relatadas por ex-alunas poderiam ter sido evitadas, caso ela tivesse sido ouvida. 

Ela entrou aos 10 anos e era “um dos brilhantinhos do grupo”, como define. Uma menina talentosa, colocada à frente do coro para solos, e, talvez por isso, “comigo ele era OK”. “Presenciei, sim, humilhações, rompantes de fúria desmedidos. Eu presenciava essas situações, mas comigo ele sempre era atencioso”, conta, aos 60 anos, em entrevista por vídeo. 

A situação se agravou no ano seguinte, 1977, na primeira viagem que fizeram, para uma apresentação em São João del Rei, Minas Gerais. Durante o trajeto de ônibus, segundo relata, estavam todos dormindo quando viu uma menina sentada no colo do professor. “Lá no final, no último banco… Eu estava sentada uns dois à frente, achei aquilo estranho, ela sentada no colo dele e uns movimentos que hoje eu sei do que se trata, mas na ocasião não sabia bem. Fiz o solo, voltei de viagem e contei para os meus pais que tinha presenciado essa situação. Meu pai ficou enfurecido, foi ao colégio e fez um escândalo.” 

De volta ao Santa Isabel, o maestro negou tudo, e a menina, aquela vista em seu colo, também. “As freiras disseram que não era possível, que elas estavam no ônibus, não viram nada. Disseram que eu devia ter me confundido, me deram a oportunidade, inclusive, de desdizer o que eu tinha dito.” A menina não voltou atrás, não retirou nada. E acabou expulsa do coral. 

“As freiras deram razão para ele”, ela lembra, quase cinquenta anos depois. Fora do grupo, mas ainda no colégio, a menina ficou sem amigas, “ele proibiu que as meninas falassem comigo”. A sua memória traumática seguinte é a sua festa de doze anos: sua família fez um bolo em casa, mas ninguém apareceu. “Zero pessoa. Não gosto nem de lembrar.” 

Para ela, a sua tentativa de romper o silêncio e denunciar o abuso foi tratada com "exemplaridade, no sentido negativo”: “Fiquei como exemplo pras outras, provavelmente, de um pacto (de silêncio).” “Foi muito traumatizante, porque era tudo pra mim, aquele coral. Por ser solista, por estar numa posição de destaque. Eu era uma menina alegre, eu adorava cantar, eu estava estudando piano. Eu acho que uma das grandes frustrações da minha vida foi não ter seguido como cantora.” 

Já o colégio das freiras, ela diz, só ganhou notoriedade e projeção.

No dia seguinte à publicação da reportagem da piauí, o Colégio Santa Isabel publicou uma nota em que se solidariza e acolhe as mulheres que relataram situações de abuso e violações de direitos. “A instituição reafirma seu compromisso cristão e educacional com a dignidade da pessoa humana, especialmente no cuidado e proteção de crianças e adolescentes. O colégio reitera seu veemente repúdio a toda e qualquer forma de violência, especialmente quando praticada no contexto de relações de confiança envolvendo crianças e adolescentes.” 

A reportagem procurou a instituição após o relato da ex-aluna sobre a denúncia de 49 anos atrás. Diretora-tesoureira da Associação de Educação São Vicente de Paulo, a freira Rizomar Bonfim Figueiredo explicou que as religiosas que acompanharam as primeiras gerações do coral já morreram. Mas afirmou que, dentre as histórias que as irmãs contam sobre a época, nunca escutou nada sobre abusos sexuais, e o relato de 1977 a deixa “abismada”. 

“A gente pede a Deus que, de fato, se isso aconteceu, é questão de pedir perdão mesmo. Foi uma negligência. Hoje é bem diferente, porque tem todas essas leis que até vão nos orientando, vão resguardando, e a gente vai se pautando em protocolos, fazendo todo esse estudo, orientando…” Segundo a freira, pelo que se sabe, o contrato com o maestro foi rompido pela escola porque ele era “muito rígido com as meninas” e por “contenção de despesas”. 


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Jornalista e escritora, é especializada na cobertura de violência contra meninas e mulheres. É roteirista e narradora da audiossérie Silenciadas, produzida pela Audible em parceria com a piauí. Publicou João de Deus: o abuso da fé (Globo Livros).