questões pessoais
Renato Terra 18 Jun 2026
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Tudo aconteceu muito rápido. Era um câncer no pâncreas e o médico havia dado seis meses de vida para a minha mãe. Optei por ficar perto dela o máximo que pude.
Havia um esforço comovente de manter as trivialidades: a planta que ela regou e floresceu. O queijo cottage na geladeira temperado com cheiro-verde e azeite. Filmes, músicas.
Até o dia em que coloquei Maria Bethânia cantando Tocando em frente, composição de Almir Sater e Renato Teixeira.
Ando devagar/ Porque já tive pressa/ E levo esse sorriso/ Porque já chorei demais
Compartilhamos o silêncio reverente de quem está diante de algo misterioso. Como se a gente percebesse um perfume. Algo que se instaurava imediatamente no ar e preenchia os nossos sentidos e intuições. A presença da voz de Bethânia tomou a sala e nos conectou numa nova sensibilidade. Por alguns minutos, aquela contagem regressiva estava suspensa. Aquele momento era uma forma de oração.
Hoje me sinto mais forte/ Mais feliz, quem sabe/ E só levo a certeza/ De que muito pouco sei/ E nada sei
Minha mãe Silvia Kaufmann foi uma mulher luminosa, daquela que todos lembram com um sorriso. Tinha paixão por Bethânia e Gonzaguinha. Todos os dias falava “eu te amo” para os filhos e netos. Todos os dias. Cultivamos esse hábito de ouvir Maria Bethânia juntos. “Tocando em frente.”
Por razões misteriosas, viveu por mais dois anos. Em 2014, pude ver minha mãe pegar minha filha no colo.
É preciso amor pra poder pulsar/ É preciso paz pra poder sorrir/ É preciso chuva para florir
A doença voltou devastadora. Nunca saberei se foram restrições físicas, mas minha mãe parou de falar. No quarto de hospital, trocávamos olhares, cafunés e ouvíamos canções em silêncio.
Todo mundo ama um dia/ Todo mundo chora/ Um dia a gente chega/ No outro vai embora
No velório da minha mãe, meus irmãos fizeram lindos discursos. Agradeceram a presença de tantos amigos. Quando passaram a palavra para mim, tirei o celular do bolso e coloquei a nossa música para tocar. Queria que nosso momento fosse compartilhado, que mais pessoas pudessem sentir aquele perfume e aquela presença.
Em 2018, conheci Angelica Lino e queria também compartilhar com ela o perfume de Bethânia. Ainda não conseguia ouvir Tocando em Frente, mas lembro detalhes do dia em que coloquei o poema Quando o amor vacila do disco Maricotinha: ao vivo para perfumar a sala. Ouvimos o disco todo, em silêncio reverente.
Eu te amo desde os teus pés/ Até o que te escapa.
Casei com a Angelica em 2022. Seria natural que entrasse na cerimônia com minha mãe. Era hora de me reconciliar com Tocando em Frente. Já que minha mãe não poderia me dar a mão, entrei acompanhado da voz de Bethânia – que, neste 18 de junho, completa 80 anos de idade.
Cada um de nós compõe a sua história/ E cada ser em si carrega o dom de ser capaz/ De ser feliz
Uma versão deste texto foi publicada na newsletter do streaming Aquarius, em 2025