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Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, João Batista Jr., de São Paulo, e Breno Pires, de Brasília 01 Out 2026
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Onze meses decorreram entre a primeira e a última tentativa de Flávio Bolsonaro de falar com Daniel Vorcaro, segundo mensagens registradas no celular do banqueiro. O primeiro contato ocorreu às 22h10 do dia 16 de dezembro de 2024, por iniciativa do senador. Quase um ano depois, em 16 de novembro de 2025, às 15h46, Flávio Bolsonaro escreveu a última mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” Referia-se aos dólares que vinha recebendo do banqueiro. No dia seguinte a essa mensagem, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.
A extração de informações e documentos do celular de Vorcaro feita pela PF, e obtida com exclusividade pela piauí, permite reconstituir essa relação de ponta a ponta. O diálogo entre os dois tem 110 registros. São 50 mensagens de Flávio, 46 de Vorcaro e 14 ligações – oito delas atendidas. Entre as mensagens do senador, há cinco fotos e vídeos de visualização única, enviados na semana anterior à prisão do banqueiro, e uma mensagem apagada, em 23 de setembro de 2025.
Chat entre Flávio e Vorcaro, extraído do celular do banqueiro pela PF em 18 de novembro de 2025. Relógio ilustrativo: 9h40, hora de conclusão da cópia.
O conjunto mostra um clima de camaradagem entre os dois, com troca de amabilidades e sondagens. Das mensagens, pode-se depreender que a entre o senador e banqueiro tinha um certo grau de afinidade pessoal (as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem dezesseis vezes), mas se concentrava no âmbito dos interesses mútuos. No caso do banqueiro, era garantir sua influência junto à família Bolsonaro. No caso do senador, era o dinheiro: a intrincada negociação sobre remessa de dinheiro aos Estados Unidos e as insistentes cobranças que o senador fazia para o banqueiro para que liberasse os dólares atrasados.
As conversas se concentram entre agosto e novembro de 2025, mas isso não significa que não tenham existido diálogos nos meses anteriores. É que, após a primeira interação, o recurso de mensagens temporárias foi acionado por Flávio Bolsonaro, e as mensagens eram apagadas depois de 90 dias. Por isso, não é possível ver as interações de 16 de dezembro de 2024 a 17 de agosto de 2025. Foi nessa janela temporal que Vorcaro depositou 10,6 milhões de dólares com a justificativa de patrocinar a cinebiografia de Jair Bolsonaro – o nome Dark Horse não aparece nas conversas, mas eles se referem ao projeto como “o filme”.
Ainda assim, a partir de diálogos encontrados no celular do banqueiro com outros interlocutores e intermediários de Flávio pode-se concluir que eles mantiveram contato nesse hiato. Era um momento-chave na concepção da candidatura do senador. Flávio Bolsonaro sondava Vorcaro não apenas por meio de terceiros, mas também pessoalmente. Já se sabe que, após a primeira prisão de Vorcaro, já solto e com tornozeleira eletrônica, o banqueiro recebeu Flávio em sua casa, em São Paulo, no dia 4 de dezembro. No dia seguinte, Flávio confirmou a pré-candidatura à Presidência da República.
A relação entre os dois ocorreu ao longo do período de maior vulnerabilidade do banqueiro. Desde o fim de 2023, Vorcaro buscava proteção de autoridades do alto escalão da República, como a cúpula do Congresso e ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Sabedor de seus pecados, o banqueiro buscou blindagem em todos os cantos, como dizem fontes ouvidas pela piauí. “Ele acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo”, resume um político que pediu para não ser identificado.
Flávio Bolsonaro escondia sua proximidade com Vorcaro até de aliados importantes da política – um sinal de que ele próprio suspeitava de problemas nessas interações. Depois que o escândalo estourou, em maio deste ano, Flávio mentiu repetidas vezes. Disse que não conversava com Vorcaro e que não havia dinheiro do Master no Dark Horse. Afirmou que o último pagamento para a produção do filme ocorrera em maio de 2025 e que sua visita ao banqueiro depois da prisão foi “para botar um ponto final” nos negócios entre eles. A dureza da expressão “ponto final” usada em público contrasta com a forma amável e cordial com que os diálogos eram conduzidos em privado. Por fim, alegou que nunca havia entrado em um avião de Vorcaro. Em todas as ocasiões, foi desmentido pelos fatos.
A relação fugidia entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de 2026 em razão da captação de dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse envolvendo uma empresa que, agora se sabe, é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC. O inquérito apura crimes financeiros nos repasses ao fundo americano Havengate, que recebeu dinheiro enviado a mando de Vorcaro por meio da empresa Entre Investimentos, do doleiro Antônio Freixo Junior, bem como o possível uso desses recursos em finalidades que não eram a cinebiografia de Jair.
Entre 16 de dezembro de 2024 e 20 de agosto de 2025, a conversa entre os dois está em branco. A piauí, no entanto, reconstituiu esse intervalo a partir das mensagens que Vorcaro trocou com outros interlocutores: o empresário Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro; o cunhado e operador financeiro do banqueiro, Fabiano Zettel; e o amigo Flávio Carneiro, que chama o senador Flavio Bolsonaro de “meu xará”.
Nessas conversas, Flávio Bolsonaro aparece marcando reuniões, apresentando aliados, oferecendo acesso ao pai e cobrando o dinheiro prometido para a cinebiografia. Ao longo de onze meses, as conversas registram encontros marcados entre os dois em pelo menos seis ocasiões – de uma reunião na casa de Vorcaro em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no Dark Horse, na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025.
Uma parte dessas reuniões já foi revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo. O único encontro publicamente admitido por Flávio aconteceu depois da prisão, naquela reunião, ocorrida em 4 de dezembro de 2025, na véspera do anúncio da pré-candidatura de Flávio.
Diálogos entre Vorcaro e o publicitário e lobista Thiago Miranda também revelam um desvio na rota do financiamento que suspostamente bancou o filme. Thiago Miranda foi quem intermediou os contatos do banqueiro com Flávio Bolsonaro e os produtores executivos da cinebiografia, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro.
Em 16 de dezembro de 2024, Miranda recebeu uma minuta do contrato da parte dos Bolsonaro e encaminhou para Vorcaro. No papel, os 24 milhões de dólares seriam depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos.
Por alguma razão ainda desconhecida, no entanto, deu-se uma mudança. Em vez de a produtora receber o dinheiro, optou-se por um caminho mais longo e menos convencional. Em janeiro de 2025, os Bolsonaro elegeram um novo destino para os milhões de Vorcaro. Descartaram a conta corrente da produtora e acionaram a conta do Havengate, o fundo imobiliário registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto. Essa figura desconhecida no Brasil era não apenas amigo de Eduardo Bolsonaro, mas também responsável por seu processo de imigração. Calixto tinha um parceiro no Havengate: o corretor de imóveis Altieris Santana. Esse fundo foi o caminho do dinheiro que havia sido pedido pessoalmente por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.
Os investigadores que acompanham o caso, ouvidos sob condição de anonimato, trabalham com a hipótese de que os dólares – ou parte dos dólares – acabaram não sendo usados no patrocínio do filme. Avaliam que toda a operação pode ter sido, na verdade, uma simulação de investimento que permitiria retirar o dinheiro nos Estados Unidos para outros fins. Além disso, os investigadores detectaram indícios do uso de um meio fraudulento de remessa, via Entre Investimento e Participações.
A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro começou no dia 8 de dezembro de 2024. O empresário Flávio Carneiro escreveu a Vorcaro, de quem é frequente conselheiro: “Thiago tá cobrando se você vai num jantar c meu xará e o pai dele pelo que entendi, você tá ciente disso?” E opinou: “Acho uma roubada danada.” Ele falava de Thiago Miranda, o intermediador, e do encontro com Flávio e Jair Bolsonaro. Vorcaro respondeu: “Não sei nem de quem tá falando.” Carneiro explicou que Thiago Miranda insistia em juntá-lo com “o meu xará e o pai”, e o banqueiro encerrou: “Temos que pensar nisso.”
Pouco depois do meio-dia, Thiago Miranda escreveu ao banqueiro sobre “o filme do presidente”: “Flavio, bolso querem sentar com vc. Tem 40 minutos pra matarmos isso na quarta?” Disse ter “dois assuntos” (“Do filme do presidente e do SBT $$”) e que “Flavio [Carneiro] está ciente de tudo”. À tarde, Miranda insistiu: “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília.” Era o começo de tudo.
Em seu estilo de combinar exposição absoluta em alguns casos com discrição severa em outros, Vorcaro escreveu para Carneiro na noite seguinte: “Não fala dessa reunião bolso pra ninguém!” E acrescentou: “Esse negócio acaba comigo.” Carneiro respondeu que estava “morrendo de medo” e que já comentara com ele ter “receio do xará”. À época, Jair Bolsonaro já havia sido indiciado pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado no processo que o levaria à condenação e prisão no segundo semestre de 2025.
Na véspera do encontro, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem do senador, que dizia o seguinte: “Amanhã vou levar o dep Mário Frias por ser o idealizador do projeto. Tem algum problema?” Vorcaro não se opôs.
No dia 11 de dezembro, Flávio Bolsonaro se atrasou para o encontro por causa da votação da reforma tributária no Senado. A partir das 17h59, Frias fez seis chamadas para o banqueiro, que não as atendeu. Às 18h30, Miranda escreveu ao banqueiro pedindo desculpas pelo atraso de Flávio: “Desculpa a confusão que o Flávio fez. Vou conduzir isso da melhor forma.” Pouco depois, Thiago acrescenta: “Isso não se faz. Eu tinha combinado com ele. Como o cara aparece na sua casa assim.” As mensagens não esclarecem que era “o cara”, nem por que sua entrada em cena fora um problema, nem mesmo se a reunião aconteceu.
As mensagens, no entanto, deixam claro que, naquele dia, um pacto foi selado. Isso fica evidente porque às 18h22, depois da sexta chamada não atendida pelo banqueiro, Frias escreveu “Tmj”, abreviação de “estamos juntos”. Depois de mais duas chamadas não atendidas, finalmente Vorcaro retornou para Frias. Tiveram uma breve conversa. Logo depois disso, Frias gravou um áudio para o banqueiro. “Só te agradecer, meu irmão”. Disse que o projeto iria “mexer com o coração de muita gente” e seria “muito importante para o nosso país”. O deputado terminava a mensagem de áudio de 17 segundos dizendo: “Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Depois de ouvir o áudio, Vorcaro voltou a falar com Frias. O diálogo durou menos de 2 minutos.
Frias retomou a conversa quatro dias depois com a notícia de que o americano Cyrus Nowrasteh havia aceitado dirigir o filme e que o ator Jim Caviezel poderia interpretar Jair Bolsonaro, desde que o cachê fosse bom. Frias celebrou: “Milagres só são possíveis quando há fé.” E completou, em outra mensagem: “Vai ser a maior superprodução de uma história brasileira.”
No dia seguinte, 16 de dezembro, Frias escreveu ao banqueiro às 12h49: "Fala irmão. Tô com senador aqui. Pode falar ?!?”. A mensagem não identifica o senador, mas o contexto indica que era Flávio Bolsonaro. “Opa. Sim”, diz Vorcaro, e os dois iniciaram uma chamada de áudio que durou dois minutos e dois segundos. Logo depois dessa conversa Frias reforça em três mensagens:
- Tmj
- Aqui só os melhores guerreiros
- Família
Vorcaro responde com um “Bora”.
Uma hora e meia depois, Thiago Miranda escreve para Vorcaro. Disse que tinha acabado de almoçar com o pessoal do filme e que lhe apresentaria “todo o projeto e valores”. Às 19h24 e às 19h25, foram gerados os PDFs de um plano de negócios e de uma minuta de acordo de financiamento de Capitão do Povo, o nome que antecedeu Dark Horse.
Os documentos mostram que o investimento no filme seria de 25 milhões de dólares. Na página 9 do plano de negócios, um único investidor, identificado como “número 3”, aparece com 48 das 50 cotas de 500 mil dólares— o equivalente a 96% do orçamento previsto. A apresentação não permite identificar nominalmente esse investidor, mas nem precisava. Era um banqueiro sem nenhum filme no currículo, cuja experiência com o cinema, até então, se resumia à fantasia de Drácula que usou na festa “Halloween das Suíças”, para o qual convidou algumas das mais altas autoridades da República em 2023. Ele mesmo: Daniel Vorcaro.
A piauí comparou essa versão do plano, de dezembro de 2024, com uma versão anterior, editada pela Go Up em fevereiro do mesmo ano. O documento da Go Up dividia as cotas do filme entre três investidores e prometia concessão de green card, por meio de uma “empresa jurídica de imigração” – a descrição lembra os serviços do advogado Paulo Calixto, que também era o controlador do fundo Havengate. Também previa um quadro de “governança corporativa e compliance”, com prestação de contas, relatórios trimestrais e uma conta de garantia, conhecida no mundo empresarial como “escrow”.
A versão do plano de negócios que chegou a Vorcaro eliminou o green card, sumiu com as regras de controle e de complicance e reservou 48 das 50 cotas a Vorcaro. Na prática, virou o dono do filme.
Ainda naquele 16 de dezembro, às 22h10, Flávio Bolsonaro fez a primeira ligação para o banqueiro. Era o começo de uma troca que renderia quase uma centena de mensagens. Seis dias depois desse contato inaugural entre banqueiro e senador, Frias escreveu a Vorcaro dizendo que aquele era um filme de “justiça divina” e que “2026 é do Brasil”. A mensagem indica que os recursos para a suposta produção do filme, independentemente de implicações criminais, estava conectada com a futura campanha presidencial do candidato do PL.
Dias depois, Thiago Miranda escreveu para Vorcaro pedindo orientações sobre como proceder. Escreveu: “Já estou com tudo em mãos. Como prossigo?” Vorcaro lhe respondeu: “Tem que mandar 4 mm usd agora”, orientou, referindo-se à quantia de 4 milhões de dólares americanos, que correspondiam às duas primeiras de 2 milhões cada. Miranda avisou que tinha pedido “para o Mario Frias centralizar tudo comigo” e encaminhou dois arquivos. Eram mensagens encaminhadas de outra pessoa. “Aqui está o mapa do fluxo de investimento”, escreveu sobre o acordo.
A minuta, cujo texto foi recuperado da extração do celular de Vorcaro, previa que o financiador comprasse 48 cotas de 500 mil dólares, recebesse o dinheiro de volta com prêmio de 20% e depois uma fatia da receita, sem “direito ou autoridade legal para tomar decisões”. Os 24 milhões de dólares seriam depositados na “conta de produção Capitão do Povo”, da produtora americana Go Up Entertainment, de Karina Gama e Michael Davis, no Bank of America. O documento não tinha as assinaturas, o nome do financiador estava em branco, e o título interno do arquivo dizia: “Acordo financiamento da produção Eduardo final”. É um indício de que o modelo foi reaproveitado de uma versão ligada a Eduardo Bolsonaro. “Analisou algo do filme? Deixamos para resolver em janeiro?”, escreveu Miranda a Vorcaro em 20 de dezembro.
Procurados pela piauí, Karina e Davis não esclareceram a mudança da conta recebedora do dinheiro de Vorcaro. O produtor disse que processaria a revista caso fossem publicadas informações “afirmações materiais sabidamente falsas” a seu respeito.
Depois da ligação de 16 de dezembro de 2024, a conversa entre Flávio e Vorcaro só volta a ter registro em 20 de agosto de 2025. A perícia não recuperou mensagens apagadas no intervalo. Nesse hiato, a rota do dinheiro mudou, os dólares começaram a ser remetidos e depois rarearam, à medida que os rolos financeiros e legais de Vorcaro se agravavam. Mas o hiato pode ser preenchido com outras mensagens.
Logo em 6 de janeiro de 2025, Miranda pediu os dados da “empresa que vamos usar” para o contrato, e Vorcaro mandou o cunhado e operador Fabiano Zettel usar uma empresa dele mesmo, Zettel. E o banqueiro fez questão de alertar o cunhado sobre a relevância do negócio e pediu que não houvesse qualquer interrupção nas remessas de dólares. “Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais”, disse.
O dia 20 de janeiro marcava o início dos pagamentos do banqueiro para a produção de Dark Horse. “Hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme”, escreveu Miranda, referindo-se às duas parcelas que somavam 4 milhões de dólares. Naaquele mesmo dia, Vorcaro recebeu um print de uma mensagem que Flávio Bolsonaro enviou a Thiago Miranda pedindo “um gás" para desembaraçar o pagamento.
Para agilizar, o banqueiro resolveu usar, como fonte pagadora, a empresa Entre Investimentos e Participações, de Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. Mas o pagamento ainda demorou oito dias para cair, causando bastante inquietude para Flavio Bolsonaro. No dia 11, Miranda escreveu para Vorcaro: “Flavio B e Neypai estão me cobrando”, no que parece ser um referência ao pai de Neymar. O atraso deveu-se a um problema na remessa, que levou mais de uma semana para resolver.
Nos arquivos do celular, não há registro de quem decidiu trocar a conta da produtora Go Up pela conta da Entre Investimentos, nem por quê, criando uma escala na remessa do dinheiro.
O depósito na conta do Havengate, o fundo sediado no Texas, acompanhou a mudança de Eduardo Bolsonaro e família para os Estados Unidos. A primeira remessa saiu no meio de uma licença do então deputado. Três dias depois de o Havengate e a Go Up assinarem o contrato que fez do fundo americano o financiador do filme, em 24 de fevereiro, Eduardo se licenciou e se mudou para a região de Dallas.
Os documentos no celular de Vorcaro mostram também que, no papel, ele não era o financiador do filme. O banqueiro que corrompeu a República virou cotista do fundo Havengate, como mostra uma imagem da cláusula do novo acordo enviada por Miranda em 12 de março. É aí, para os investigadores, que o negócio deixa de ser cinema. Formalmente, Vorcaro não pagou um filme: subscreveu cotas, como quem aplica dinheiro num fundo. O dinheiro, porém, aparentemente não ficou aplicado, e o fundo serviu como ponte de passagem, segundo a PF.
Os investigadores ainda preparam o pedido de cooperação às autoridades americanas para rastrear o caminho do dinheiro. A PF concluiu que Eduardo “orientou” a gestão dos recursos nos Estados Unidos e investiga se parte deles custeou a estadia do ex-deputado no país.
No período sem registro de contatos diretos, entre dezembro de 2024 e agosto de 2025, Flávio Bolsonaro aparece nas conversas que Vorcaro travou com terceiros. Em 27 de fevereiro de 2025, depois de uma entrevista de Jair Bolsonaro à Leo Dias TV, Vorcaro perguntou a Flavio Carneiro se o evento havia sido bom “pro bolso”. “Segundo o meu xará foi fantástico”, respondeu o amigo, referindo-se a Flávio Bolsonaro.
Mas ele não acompanhava apenas à distância. Em 18 de março, Miranda escreveu: “Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme.” Três dias depois, encaminhou ao banqueiro uma mensagem atribuída a Eduardo, revelada pelo The Intercept, que orientava a mandar “o máximo possível [de dinheiro] ainda neste sistema atual, com o remetente atual”, porque “dos Estados Unidos para os Estados Unidos é tranquilo”. Essa mensagem motivou o pedido da PF para investigar as remessas de dólares ao exterior.
Em 24 de março, saíram mais duas remessas ao Havengate. Em 27 de março, Miranda contou que “Flavio e Mario” queriam “levar o presidente” à casa de Vorcaro, para assistirem juntos a um documentário.
Os deslocamentos do senador também cruzam com os do banqueiro. Em janeiro de 2025, Flávio voltou da Flórida com o amigo íntimo Willer Tomaz, um advogado que já foi preso na Lava Jato e é investigado no inquérito do INSS. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio e Willer voaram em um jato que Willer divide com Vorcaro, como mostrou a piauí. O trajeto no jato executivo de alto padrão Legacy, prefixo PP-NLR, foi de Fort Lauderdale para Brasília.
Em 25 de abril, a Entre Investimentos mandou mais 3,3 milhões de dólares ao Havengate. Seis dias depois, Flávio e Vorcaro pousaram em Fort Lauderdale, em jatos diferentes, com dezenove minutos de diferença, como também revelou a piauí. Duas semanas mais tarde, voltaram aos Estados Unidos em datas coincidentes: Vorcaro pela Flórida, e Flávio por Dallas, a cidade do escritório de Paulo Calixto. Não há registro de que os dois tenham se encontrado nessas viagens.
Há ainda uma mensagem reveladora em 1º de agosto, na qual Vorcaro reclama com Thiago Miranda de uma reportagem favorável ao filme no Portal Leo Dias. O lobista reage à bronca e diz ter falado “com o Mário e Flávio” e garantido que “não vai aparecer nome de ninguém”. A publicação foi excluída, como confirmou Leo Dia à piauí. Na entrevista, ele disse que Miranda era o elo em seu site com Flávio Bolsonaro.
O assunto então voltou a ser o dinheiro.
Em 7 de agosto, Thiago Miranda encaminhou a planilha “Funding Schedule - Havengate Dev Fund” para o banqueiro. A piauí obteve o arquivo original da planilha, extraído do celular de Vorcaro. Os metadados mostram que ela foi criada e editada por “Paul Calixto” em 4 de agosto de 2025 e estava guardada no servidor do escritório, numa pasta chamada “Calixsan Cap / CCM-3 Havengate Fund / Capitao do Povo”. A tabela lista as 14 parcelas que Vorcaro se comprometera a pagar e as seis que havia pago até então, que somavam 10,67 milhões de dólares.
Flávio Bolsonaro continuava acionando Thiago Miranda para fazer cobranças a Vorcaro. “Eles não fizeram o pagamento das parcelas. Flavio me ligou hoje”, escreveu o lobista em 27 de agosto.
Em agosto de 2025, o diálogo direto entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro volta a ter registro no WhatsApp. E logo na primeira mensagem, no dia 20, uma quarta-feira, parecem marcar um encontro no mesmo dia. “21 pode ser”, ao que o senador respondeu “Blz” e envia uma imagem a que a piauí não teve acesso. Vorcaro reage mostrando descontração: “Kkk. Boa.” A conversa ocorreu às 17h22. Às 21h47, Flávio escreve: “A caminho”, indicando que o agendamento deu certo.
Dias depois, em 26 de agosto, Flávio Bolsonaro encaminha um vídeo intitulado IMG_5262 e dá uma orientação clara e direta a Vorcaro. “Não postar nem encaminhar. Já estão em São Paulo. Começou!!!”. A piauí teve acesso ao arquivo. Era um vídeo que mostrava o diretor Cyrus Nowrasteh, Mário Frias e uma pequena parte da equipe de produção visitando pontos turísticos e locações em São Paulo. Com isso, o papel de Vorcaro se invertia. Ele, que orientava os seus a não publicar nada sobre o filme, agora era orientado por Flavio a evitar a publicidade.
É na interação seguinte, no dia 8 de setembro, que o senador enviou o áudio antológico ao banqueiro, revelado pelo The Intercept, em que cobrava os atrasos no pagamento das parcelas. Diz assim:
Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente está passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né? Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai, vai acabar, mas está na mão de Deus aí. E você também eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara. Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que que faz, cara, da vida, porque eu tem muita já tem muita conta para pagar esse mês e o mês seguinte também. E agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara. Todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Podendo dar um toque aí, irmão. Desculpa o áudio longo aí, tá? Um abração, fica com Deus, cara.
Ao fim da gravação, Flávio Bolsonaro escreveu: “Preferi te mandar um áudio pra vc ouvir com calma aí, mermão! abs!” Vorcaro respondeu pedindo desculpas pois “semana passada foi muito dificil pra mim”. Na semana anterior, em 3 de setembro, o Banco Central havia vetado a compra do Master pelo BRB. E completou: “Eu vou resolver amanhã”, disse Vorcaro. Os dois ainda se falaram por dois minutos e 38 segundos.
A cobrança só surtiria efeito depois de oito dias. No dia 15 de setembro, Miranda escreveu a Vorcaro contando que havia almoçado com Flávio Bolsonaro e que o senador queria encontrá-lo “pra te mostrar o que está sendo gravado”. Na manhã seguinte, Vorcaro procurou Flávio Bolsonaro. Os dois conversaram por telefone por 42 segundos, e a Entre Investimentos fez a sétima e última remessa conhecida ao Havengate, de 1,67 milhão de dólares, como revelado pela piauí. Ao todo, foram 12,3 milhões de dólares, confirmados por Freixo Júnior em delação homologada pelo ministro André Mendonça, do STF.
As conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro seguiram na semana posterior. Banqueiro e senador trocaram cinco ligações em dois dias e marcaram um encontro. “Quarta 14h30?”, propôs Vorcaro. Flávio telefonou ao banqueiro, e a chamada durou 1 min 50 segundos. Em 22 de outubro, Flávio escreveu, retomando as cobranças de dinheiro: “Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Minutos depois: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” “Deixa comigo irmão, vou ver agora”, respondeu Vorcaro, que na sequência escreveu a Miranda. “Liberei mais uma hoje”. Miranda respondeu que “Flávio disse que iria te ligar tb”. O banqueiro ainda disse ao intermediário: “Pede desculpas pelos atrasos, meu esforço tem sido máximo possível e prioridade total. Apesar de qq tempestade vou até o fim com isso.”
A promessa animou o senador, que na sequência da conversa convidou Vorcaro para jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair, e o diretor Nowrasteh, “totalmente reservado”. O banqueiro ofereceu sua casa em São Paulo. “Pode ser na sua casa, sim! Acho até melhor!”, respondeu o senador. Na mesma noite, Vorcaro perguntou se Flávio Bolsonaro ia a Dubai. “Não, acho que meu irmão tá indo”, disse o senador. “Tá precisando de algo lá? Peço pra ele te encontrar”, acrescentou o senador.
A parcela prometida na conversa de 22 de outubro, no entanto, não caiu. Em 30 de outubro, Miranda escreveu cobrando Vorcaro: “Flavio me mandou msg.” E a encaminhou: “Vc não pode dar um toque no investidor pra saber o que houve que veio o contrato, mas não veio o depósito? As vezes ele nem sabe.” Ao ouvir a cobrança de Flavio, Vorcaro respondeu para Miranda: “Já foi. Não bateu lá?” “Não. Só chegou o contrato”, afirmou Miranda. O banqueiro diz “que loucura” e avisou que ia checar o que havia acontecido. No dia seguinte, Miranda encaminha três mensagens que recebeu, aparentemente, de Flávio Bolsonaro. As mensagem diziam:
– Ele conseguiu ver o que houve?
– Preciso da sua ajuda
– Chegaram os documentos mas não o recurso
Vorcaro escreve a Miranda explicando que o pagamento “voltou”, mas “na segunda vai de novo”. Miranda agradece, diz que vai avisá-los e pede desculpa por “te perturbar com esse tema”. Três dias depois, no entanto, retoma a carga de cobranças: “Eles conseguiram refazer o pagamento hoje?” No dia 10 de novembro, nova cobrança de Miranda a Vorcaro: “Você tem alguma posição das parcelas? Pessoal está desesperado lá.”
A cobrança se repete no dia 12 de novembro: “Cara, desculpa te perturbar com esse tema. Você está a 1.0000 aí com outros [assuntos] maiores e mais sérios. É só pra eu dar uma posição pra eles. Como faço? Me passa as coordenadas. Por favor!” A última mensagem foi no dia da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro.
Como mostrou o Estadão, nos quatro dias que antecederam a prisão de Vorcaro, Flávio procurou o banqueiro e fez duas chamadas não atendidas. “Fala mermão, pode atender?”, perguntou nos dias 13 e 15 de novembro usando a mesma expressão. Vorcaro disse que retornaria. O senador envia duas imagens de visualização única e outra frase que passou a integrar a antologia da corrupção brasileira: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Vorcaro responde com foto de visualização única, e Flávio Bolsonaro envia a última mensagem ao banqueiro: “Amém!”
As mensagens de Mario Frias e a apresentação comercial de Dark Horse mostram que a produção era apresentada como uma história de exaltação política e religiosa de Jair Bolsonaro. Em 25 de novembro de 2025, oito dias depois da primeira prisão de Vorcaro, Flávio anunciou publicamente que seria o candidato escolhido pelo pai. Em 4 de dezembro, segundo o portal Metrópoles, o senador foi à casa do banqueiro. No dia seguinte ao lançamento da pré-candidatura, o Portal Leo Dias publicou imagens exclusivas de Caviezel como Jair Bolsonaro. O senador compartilhou o vídeo e deu entrevista à Leo Dias TV, articulada por Miranda, como revelou o The Intercept. Fez isso sem contar nada sobre o financiamento de Vorcaro para a cinebiografia.
A extração das conversas do celular de Vorcaro não mostra exatamente o que ele esperava em troca dos 24 milhões de dólares prometidos para financiar a cinebiografia. As conversas também não esclarecem para onde foram os recursos depois de chegar ao Havengate. Pelas contas apresentadas pela defesa da Go Up, o fundo repassou à produtora 13.393.081,29 dólares, mais do que a Entre enviou; a diferença, até o momento, não foi explicada pelos envolvidos no projeto.
Em 5 de abril de 2025, Miranda escreveu a Vorcaro que estaria com “o Flávio em um aniversário esse fds aqui no Rio”. “Ele falou que te ligou, né? Que o que precisar ele é ótimo estão prontos. Temos força de todos os lados”, escreveu Miranda. O sobrenome não é mencionado e não é possível afirmar que se trata de Flávio Bolsonaro. Miranda e Vorcaro tinham como interlocução frequente Flávio Carneiro – que, procurado pela piauí, disse que não esteve nesse aniversário no Rio.
“Thiago foi um parceiro de negócios. Ele é publicitário e eu sempre trabalhei com veículos de mídia, mas não tem nenhum contexto que imagino ele possa se referir a mim num papo com Daniel nesses temas aí, muito menos nessa data. Eles tiveram uma agenda paralela, mas não participei de absolutamente nada nessa relação nem nesses movimentos com políticos nem sei dizer do que eles trataram", disse à piauí.
Em abril de 2025, Vorcaro, de fato, pensava ter ajuda de todos os lados. Tinha contatos que abrangiam esferas polarizadas, de Flávio Bolsonaro a Alexandre de Moraes. E ainda esperava proteção da gestão Gabriel Galípolo no Banco Central – o que nunca conseguiu.
A piauí perguntou a Flávio Bolsonaro se algum recurso do Havengate foi usado em atividades de sua pré-campanha, qual foi o assunto da ligação de 16 de dezembro de 2024 e da reunião marcada para o dia 11, se ele participou ou foi informado da decisão de trocar a conta da Go Up pela do Havengate, quem a tomou e por quê.
O senador não respondeu aos contatos da reportagem. Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, disse que não poderia se pronunciar por causa do acordo de confidencialidade que envolve sua delação. Também procuradas, as defesas de Mario Frias, Thiago Miranda, Paulo Calixto, Eduardo Bolsonaro e Daniel Vorcaro preferiram não se manifestar.