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OS BENS E OS ROLOS DE NELSON WILIANS

Alvo de uma operação que investiga fraudes fiscais bilionárias, o advogado ostentação já esteve outras vezes na mira da lei
Crédito: Egberto Nogueira
Crédito: Egberto Nogueira

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“Eu não roubei, não preciso ter vergonha”, disse Nelson Wilians em abril de 2022, ao receber a piauí em sua mansão, em São Paulo. “Falam que eu ostento? Eu não mostro nada que não seja meu”, continuou, e pôs-se a enumerar: “O avião? É meu. O helicóptero? É meu. Os carros são meus, a mulher é minha, os filhos são meus. A casa é minha.” E que casa. São 2 mil m² de área construída, com dezesseis quartos e uma adega subterrânea com 4,6 mil rótulos. Erguida em 1951, no estilo château francês, tem um pé-direito imenso e piso de mármore. Nas paredes, viam-se telas de Picasso, Portinari e Di Cavalcanti. Na decoração, uma peça de Brecheret, cômodas que o dono garante terem pertencido a Napoleão – e esculturas de Bia Doria, a mulher do ex-governador paulista. Na garagem da mansão, a família armazenava 21 veículos.

O advogado parecia viver tempos dourados. Estimava o faturamento de seu escritório em 450 milhões de reais. Ele havia ascendido rapidamente no universo da advocacia atendendo famosos, como João Doria e Rose Miriam di Matteo, mãe dos filhos de Gugu Liberato. Concorrentes já acusavam-no, desde então, de práticas desleais, como a de reduzir seu preço para roubar clientes, uma abordagem repudiada pelas bancas de advogados. Além disso, ele acumulava mais de 70 milhões de reais em dívidas tributárias e previdenciárias com a União.

Mas mesmo os adversários mais ferrenhos de Wilians provavelmente não imaginavam tudo o que viria a seguir. O advogado vem acumulando atritos em série com a lei. Nesta quarta-feira (15), foi um dos alvos de uma operação do Ministério Público de São Paulo que investiga fraudes fiscais bilionárias. A suspeita é de que escritórios de advocacia, entre eles o de Wilians, participaram de um esquema que fraudava créditos de ICMS, o imposto cobrado sobre mercadorias e serviços – e, com isso, lesava os cofres públicos.

Antes disso, Wilians apareceu em outras frentes de investigação. No ano passado, como mostrou a piauí, o advogado foi alvo da Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que investiga o roubo a aposentados e pensionistas do INSS. O que motivou o mandado de busca e apreensão contra Wilians foi a suspeita de que ele seja sócio oculto de Maurício Camisotti, empresário que controla três associações implicadas na fraude bilionária. A investigação também apurava se Wilians havia lavado dinheiro para Camisotti. A PF rastreou transações financeiras entre os dois somando ao menos 28 milhões de reais. Os policiais trabalhavam com a hipótese de que o esquema havia ajudado a enriquecer Wilians – e, por isso, confiscaram objetos luxuosos que adornavam sua mansão em São Paulo. Entre eles, obras de arte, esculturas de bronze, relógios, garrafas de destilados e uma Ferrari SF90 Stradale, que deu dor de cabeça nos policiais. Além disso, a PF apreendeu um helicóptero de 41 milhões de reais que, meses antes, o advogado havia transferido para o nome de sua mulher. A polícia suspeitava de ocultação de patrimônio.

Ao mesmo tempo que era cercado pelo escândalo do INSS, Wilians se viu às voltas com a CPMI das Bets, no Congresso Nacional. Em outubro do ano passado, o senador Marcos Rogério (PL-RO) apresentou aos colegas de comissão indícios de que um outro helicóptero que pertecenceu a Wilians era um ponto de contato entre o inquérito do INSS e a lavagem de dinheiro das casas de apostas. A suspeita não fruto do acaso: o advogado mantinha relações próximas com Ernildo Júnior de Farias Santos, dono da PixBet. Além de representá-lo na Justiça, Wilians foi seu sócio na fintech XBank Digital Soluções de Pagamentos, criada em 2023 para administrar as transações dos clientes de bets.

Pouco tempo depois, ficou claro que a relação entre Wilians e Santos era mais íntima do que os dois admitiam publicamente. O advogado, sempre que indagado sobre o ex-sócio, dizia ter com ele uma relação de advogado e cliente, nada mais. Mas uma reportagem da piauí mostrou que não era bem assim: um iate e uma casa de veraneio pertencentes a Wilians foram usadas para gravar propagandas da PixBet. Não é um tipo de relação comum entre advogados e clientes. Em nota enviada à piauí, o advogado Santiago Schunck, que representa Nelson Wilians, reafirmou que seu cliente e Ernildo Junior têm uma “relação profissional de advocacia” e que “não há qualquer sociedade constituída” entre os dois.

Nascido em uma família pobre de Cianorte, no interior do Paraná, Nelson Wilians Fratoni Rodrigues não pode nem ouvir falar de roça. Quando recebeu a piauí em sua mansão, em 2022, ele almoçara em Brasília com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, do MDB. Contou que o papo foi bom, mas azedou quando Rocha começou a lhe contar sobre seu gosto pelo campo. Wilians mudou de humor. Detesta o assunto. “A minha origem é muito ruim. Meus pais são muito ignorantes. Eles falam um dialeto, têm o segundo ano primário. Quando xinga alguém, meu pai não fala ‘desgraçado’, ele diz ‘desgracido’”, conta. “Vivi uma vida desgraçada de restrições de todos os tipos, ganhava salário de auxiliar de escritório, trabalhava de dia, fazia bico de tudo que aparecia e ainda estudava à noite.”

Para ascender, Wilians agiu com agressividade. Primeiro, encurtou o nome para “Nelson Wilians” para não ser confundido com o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Em 1990, deixou a roça e, dois anos depois, mudou-se para Bauru. Empregou-se no departamento de recursos humanos da Santa Casa de Misericórdia de Jaú, nos arredores de Bauru, e, à noite e nos fins de semana, dava duro num posto de gasolina. Conseguiu formar-se em direito pela Instituição Toledo de Ensino. Em 1999, montou um escritório com um sócio, com o qual rompeu cinco anos depois. Conta que, no fim da sociedade, não pôde nem pegar as fotos que tirara com o então futuro presidente Lula. Começou, “com a roupa do corpo”, como ele diz, uma carreira solo. Seu ex-sócio, Adirson de Oliveira, conta que não foi bem assim. “Não é verdade. Eu jamais o impediria de entrar”, rebate Oliveira. “Algumas coisas aconteceram que não eram necessárias, uma coisa pessoal, já passou. Não guardo rancor. Se ele realmente quiser a foto com o Lula, eu tenho aqui. Posso enviar”, disse, rindo.

Em menos de um ano, Wilians, com escritório instalado na capital paulista, abriu “filiais” no Paraná, no Rio de Janeiro e no Ceará – as tais filiais consistiam em um advogado local e uma salinha num espaço de trabalho compartilhado. Em 2008, o Banco do Brasil abriu concorrência para a maior terceirização de serviço jurídico do país, da qual só poderiam participar escritórios que atuassem em todas as áreas e tivessem representação em todas as capitais do país. Sem a capilaridade e o tamanho exigidos pelo edital, o escritório de Wilians não tinha como participar da concorrência. Mas aquilo lhe valeu como “um verdadeiro manual de como deveria ser a Nelson Wilians”. Era uma bússola, segundo o advogado. “Naquela época, eu estava, confesso a você, meio desorientado, não tinha uma visão de futuro.” Com o edital em mente, concluiu que não existia “o maior escritório de advocacia do Brasil”, pelo menos não nesses termos. E resolveu que o título seria dele.

Começou abrindo filiais, contratando advogados e ampliando o leque de atuação. Seis anos depois, em 2014, quando o Banco do Brasil abriu nova concorrência, a Nelson Wilians Advogados estava habilitada para disputar. A licitação valia 1 bilhão de reais. O vencedor teria de cuidar de 230 mil ações em diversas áreas, com potencial de passar de 1 milhão. Wilians ficou em primeiro lugar – e virou alvo. Concorrentes acusaram seu escritório de contratar advogados-fantasmas só para atingir o número mínimo exigido pelo edital, enquanto os advogados de verdade ganhavam salários inferiores ao mínimo. O caso chegou à polícia e ao Tribunal de Contas da União, mas no fim, dois anos depois, Wilians venceu em quase todos os pontos e levou a licitação.

Quase que numa tacada só, seu escritório ficou gigante – mas o prestígio nunca chegou na mesma proporção. O criminalista Alberto Zacharias Toron, um dos mais renomados advogados do país, é considerado por Wilians um amigo, porque fazem parte de uma mesma confraria, que se reúne com alguma periodicidade na mansão do Jardim Europa com o cardápio conhecido – vinhos caros, charutos e mesa farta. Para Toron, a confraria, à qual ele mesmo só compareceu uma única vez, na verdade não passa de um grupo de WhatsApp. “Eu o conheci anos atrás quando era um advogado do interior e o reencontrei mais recentemente como um grande advogado, o que muito me surpreendeu”, disse Toron.


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