"Quando eu quis implantar um código de conduta na firma, meus colegas me chamaram pelas costas de 'Frachin'. Agora está ainda pior." - Crédito: André Dahmer
"Quando eu quis implantar um código de conduta na firma, meus colegas me chamaram pelas costas de 'Frachin'. Agora está ainda pior." - Crédito: André Dahmer

anais da psicanálise

NO DIVÃ COM FACHIN

Os bastidores de uma crise de identidade suprema

4 min de leitura

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—  Bom dia, Edson. Como vamos?

—  Bom dia, doutor. Bem, tem visto o noticiário?

—  Tenho sim. Imagino que esteja estressado. Por que o senhor não se deita no divã?

—  Melhor não. O povo já acha que eu tenho deitado demais.

—  Hmmm, fale mais sobre isso.

—  Antes eu gostaria de contar uma anedota, doutor. Prometo ser incontinenti.

— Ahn.

— Um juiz vai ao médico e diz que está deprimido. Ele diz que todo mundo está sendo duro e cruel com ele. Conta que se sente como se todos o achassem incompetente e prevaricador. O médico diz que o tratamento é simples: “O presidente do STF está na cidade, marque um café com ele. Ele pode te dar ótimos conselhos.” O homem se desfaz em lágrimas e diz: “Mas, doutor... Eu sou o presidente do STF.”

— Muito boa. Eu conhecia de um jeito diferente, mas muito boa.

— Então é isso, doutor.

— Mas pelo que eu vi o senhor agiu corretamente, não?

— A minha tragédia é essa, doutor. Eu agi corretamente. Mas agora a minha vida virou um inferno, né.

— E por quê? Por causa da revelação total do inquérito do Master?

— Não, doutor. Isso tudo vai muito além dos privilégios da banquitude.

— Mas então…

— Deixa eu te explicar: o STF não tem turmas à toa. Os grupos se comportam como se tudo fosse uma grande escola. Agora é como se ninguém quisesse sentar comigo na hora do recreio, entende?

— Ahn.

— Parece que voltamos aos tempos de anulação das condenações da Lava Jato. Eu me sinto... isolado. Periga nem mesmo me chamarem para o convescote de fim de ano.

— Entendo, deve estar sendo difícil. Mas esse é o custo de chegar na corte mais alta do país, não?

— Sim. O problema é que acham também que eu sou o bobo dessa corte.

— Como assim? Diga mais.

— O senhor não viu os memes? Quando o Xandão estava em alta, ele aparecia como Foucault, Amin Khader e outras figuras pop. O Mendonça chegou chegando, com a marca de ser o terrivelmente evangélico, o ungido. Já comigo é diferente. Tem imagens minhas de pijamas, gente dizendo que eu meti atestado para não trabalhar. Criaram a hashtag #ReageFachin e já me acharam até de Jaiminho do STF. Jaiminho! E eu odeio Chaves.

— Jaiminho?

— Sim, aquele do “eu quero evitar a fadiga”. Esse arquétipo está sendo péssimo para a minha imagem. Com os meus amigos eu era o gauchão, pô. Sente essa virilidade! 

— Hmm.

— Até pedi para uns amigos resgatarem o “vem ni mim que eu tô Fachin”, lá dos idos de 2015. Era demais. Fiz até camisa, na época.

— Você não precisa ficar procurando tudo o que dizem de você por aí. Isso não seria uma onipotência narcísica? Já passamos dessa fase.

— É inevitável, doutor. Na posição em que eu estou, eu também preciso capturar o calor da opinião pública sobre a nossa nobilíssima instituição. Ainda mais depois do 8 de janeiro.

— Entendi.

— E agora o que eu sinto é que o 8 de janeiro está vindo de dentro para fora. O problema é que esse é o meu jeitinho. Eu não sou de acelerar os ritos por pura pressão, pois o tempo da lei é o tempo da lei. Eu não coloco os dark horses na frente dos bois.

— Cavalos?

— Isso, desculpa o ato falho.

— Então me parece que temos aqui um clássico exemplo de ansiedade social.

— Mas antes não era assim. Lembra que, quando eu quis implantar um código de conduta lá na firma, os meus colegas me chamavam pelas costas de “Frachin”? Agora parece que o povo embarcou de vez nessa biltre narrativa de que eu sento nos processos por ser um juiz meia bomba. Biltre narrativa!

— Mas você sente que isso tem afetado o seu trabalho? Ou que está semeando dúvidas quanto à sua vocação?

— Sim. Além de panguão, parece que agora eu sou o policial mau da Corte, sabe? Aquele que pesa o rolê. O espalha-rodinha. A jujuba azul.

— Agora estou entendendo melhor.

— Eu realmente não entendo esse estardalhaço todo. Não foi por falta de aviso. Quando eu fui empossado como presidente da Corte, eu disse: “Juízes educam também por seus exemplos.” Isso todo mundo deveria estar careca de saber.

— Careca?

— Desculpa de novo. Mas isso tudo acaba, sim, fazendo com que eu sinta que eu não estou cumprindo bem com o meu sonho de vida, que é vestir essa toga. 

— Bem, já que você tocou no assunto, lembra daquele sonho antigo que você teve e me contou? Aquele de quando ainda era um menino no Paraná?

— Claro!

— Como era mesmo?

— Eu acordava com um alarme, colocava um uniforme com capacete, descia pro térreo escorregando por uma barra de ferro e corria a cidade num caminhão vermelho bem grande, apagando incêndios. Lembro até da sirene: uóóóóóóúúúúú. Era uma delícia. Eu estava bem vestido, imponente, todo mundo queria minha presença e me via como um herói. O meu sonho de criança era ser bombeiro.

— Então.

— … Entendi. Obrigado, doutor.

— Mesmo horário semana que vem?


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É checador e repórter do site da piauí, roteirista e apresentador da audiossérie Chumbo & Soul, um Original Audible produzido pela Rádio Novelo