28 Jul 2026
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Em 2017, uma gravação feita por Joesley Batista quase derrubou o presidente Michel Temer, transformou os donos da JBS em inimigos públicos – e os levou à prisão. Oito anos depois, em 2025, a mesma família celebrou sua chegada à Bolsa de Nova York, o epicentro do capitalismo global.
Consuelo Dieguez revela os bastidores da impressionante recuperação de Wesley e Joesley Batista e apresenta a pergunta central da série: como os irmãos goianos conseguiram voltar ainda mais ricos e poderosos depois de atravessar uma das maiores crises da história recente do país?
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Trovão Mídia e revista piauí.
Consuelo Dieguez: Era o fim da tarde de uma quarta-feira.
Sonora: O jornal O Globo acaba de publicar na sua edição na internet, uma notícia que representa um forte abalo na vida política do Brasil.
Consuelo Dieguez: O plantão que interrompeu a programação da TV Globo dizia que o presidente da República, Michel Temer, tinha sido gravado escondido numa conversa extremamente comprometedora. O Brasil todo prendeu a respiração. Era maio de 2017. No ano anterior, Dilma Rousseff tinha sofrido impeachment.
Sonora: O dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, entregou ao Ministério Público Federal uma gravação feita em março deste ano. Nela, Joesley Batista conta ao ex, ao presidente Michel Temer, que está pagando pelo silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Diante da informação, Michel Temer incentivou: "Tem que manter isso, viu?".
Consuelo Dieguez: Era o presidente da República aparentemente envolvido em corrupção. Aquele dia tenso entrou para a história como Joesley Day. Foi quando muitos brasileiros ouviram o nome de Joesley Batista pela primeira vez e também do seu irmão Wesley. Mas eu já conheci Wesley e Joesley há um bom tempo. Meu nome é Consuelo Dieguez, eu sou jornalista e repórter da revista piauí. Eu comecei a me interessar pela história dos irmãos Batista por volta de 2015, quando fiz um longo perfil deles para a revista. Hoje, mais de uma década depois, essa história está ainda mais impressionante. É difícil consumir alguma coisa no Brasil que não tem a ver com a J&F, holding dos irmãos Batista, que controla a JBS e dezenas de outras empresas. São deles as marcas de carne e frango Friboi e Seara, e as comidas congeladas da Swift, as margarinas Doriana e Delícia, as massas Leve, as salsichas Bordon. Boa parte da carne dos hambúrgueres das maiores redes de fast food do país são deles. E eu não estou falando só de alimentos. Energia elétrica, J&F. Sabonete e desodorante J&F. Maquininha de cartão, J&F. Eles fazem também assento de couro para carro, caminhão para transporte de gado, piso reciclável e a maioria das latas que envolvem qualquer produto alimentício no país. A lista é interminável e vai muito além do Brasil. A J&F é a maior produtora de carne do planeta, a maior produtora de frango, a maior processadora de couro e a maior produtora de ovos da América do Sul. Até salmão da Austrália eles produzem.
Consuelo Dieguez: Os bois. Nossa, menino, cada boizão, né? Que boi é esse?
Consuelo Dieguez: Como eles consolidaram esse império, sendo que há poucos anos estavam no centro do maior escândalo de corrupção do Brasil até então.
Consuelo Dieguez: A gente está passando aqui embaixo dos dutos que levam o vapor para a fábrica.
Consuelo Dieguez: Para responder a essa pergunta e contar a saga dos irmãos, eu conversei com dezenas de pessoas próximas a eles e tive acesso aos bastidores dessa história. Percorri mais de cinco mil quilômetros de estradas de três estados: Minas Gerais, São Paulo e Paraná, acompanhando de perto a saída de bois das fazendas, a chegada deles ao frigorífico JBS até sua transformação em uma quantidade inimaginável de produtos.
Consuelo Dieguez: Agora eu estou entrando na Fábrica da Flora.
Consuelo Dieguez: Circulei por granjas para mostrar como são produzidos os milhões de frangos comercializados pela companhia.
Sonora: Cada caixinha dessa aí vai 100 pintinhos. 100. Nem 99, nem 101. 100.
Consuelo Dieguez: Estive no interior de Goiás para conhecer onde Wesley e Joesley cresceram e terminei na mega sede da empresa dos irmãos Batista, em São Paulo.
Consuelo Dieguez: Passando a primeira recepção.
Sonora: E a segunda recepção é no térreo.
Consuelo Dieguez: Obrigada!
Consuelo Dieguez: Mesmo depois de quase derrubar o presidente da República, mesmo depois de confessar inúmeros atos corruptos, terem sido presos, xingados e vaiados na rua, mesmo depois de ficarem no ostracismo por alguns anos, Wesley e Joesley estão de volta. Mais ricos e mais poderosos do que nunca. Esse é o berro do Boi, uma série original da Trovao Mídia com a revista piauí sobre o crescimento, a queda e o retorno triunfal dos irmãos Batista. Episódio um: A Cria.
Consuelo Dieguez: A Operação Lava Jato tinha conseguido algo que parecia inimaginável: o desbaratamento de um gigantesco esquema de corrupção entre o poder público e a iniciativa privada. Políticos de diversos partidos, executivos de empresas estatais e até o ex-presidente Lula foram presos.
Sonora: O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou na noite deste sábado à sede da Polícia Federal de Curitiba, onde vai começar a cumprir sua condenação de mais de 12 anos de prisão por corrupção.
Consuelo Dieguez: Entre 2015 e 2016, o escândalo arrastou também para a cadeia donos e executivos de algumas das maiores empresas privadas do país, como as empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez.
Sonora: O executivo Marcelo Odebrecht foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras.
Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley Batista estavam muito preocupados e sob forte pressão do Ministério Público. Suspeitos de terem corrompido meio mundo político em troca de vantagens para seus negócios, os irmãos Batista não saíam do radar dos procuradores. Em fevereiro de 2017, a situação deles era dramática. Estavam sendo investigados em diversas operações policiais. Encurralados, eles comunicaram os procuradores que iam fazer a delação premiada. Wesley e Joesley sabiam que tinham muito a oferecer e traçaram uma estratégia. Ao contrário dos outros donos de empresas, que adiaram o quanto puderam a delação, ficando com pouco poder de barganha após serem presos, os irmãos resolveram se antecipar. Numa jogada ousada, se comprometeram a delatar a alta cúpula da República, apresentando vários tipos de provas, inclusive vídeos e gravações. Entre os delatados, estava o presidente Michel Temer. A gravação que parou o Brasil tinha sido feita de maneira calculada.
Sonora: Temer incentivou: "Tem que manter isso, viu?".
Consuelo Dieguez: Com as provas em mãos, fizeram um pré-acordo de delação. Os advogados dos irmãos Batista exigiram alguns benefícios em troca do ouro que estavam entregando. Primeiro, seus clientes não seriam presos ou processados. Segundo, continuariam a ter acesso a empréstimos de bancos federais e a receber benefícios fiscais, justamente o que tinha catapultado seus negócios. O acordo foi assinado ainda em sigilo. Mas quando os benefícios vieram a público no Joesley Day, que parou o Brasil, foram questionados por juristas, advogados e imprensa. Afinal, qual a razão para os irmãos se darem tão bem quando todos os outros delatores estavam presos? A impressão era de que Wesley e Joesley estavam saindo por cima. E estavam mesmo.
Sonora: Essa embarcação tem 98 pés, o que está avaliado em mais de 30 milhões de reais.
Consuelo Dieguez: A embarcação era o iate de Joesley, batizado de Why Not, que estava sendo içado por um guindaste para ser colocado em um navio e ser levado da marina de Itajaí, Santa Catarina, para Miami.
Sonora: O iate chegou por aqui poucas semanas após o empresário ter proposto esse acordo de delação premiada. Então, se já era intenção do Joesley Batista deixar o país ou não, fica a critério de cada um.
Consuelo Dieguez: Parecia um grande deboche. Em vez de serem punidos, viviam em grande estilo. A situação se complicou ainda mais após a divulgação de outro vídeo.
Sonora: Doze horas depois de fecharem um acordo, eles embarcaram com as famílias para os Estados Unidos num jato particular, um Golf Stream 650, o mais luxuoso e potente que existe na aviação executiva.
Consuelo Dieguez: Joesley foi para Nova York com a família.
Sonora: As câmeras do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, registraram um Joesley Batista aparentemente tranquilo. Junto com ele, a mulher, o filho, a cunhada e a sobrinha. Sem bagagem, levam apenas bolsas de mão.
Consuelo Dieguez: Ele saiu com autorização da Polícia Federal, mas, para a opinião pública, parecia que ele estava fugindo do Brasil. O desgaste para o Ministério Público era imenso. Tanto que o procurador geral da República, na época, Rodrigo Janot, tentou reverter a impressão negativa. Quatro meses depois do Joesley Day, Janot pediu a suspensão dos benefícios obtidos pelos irmãos Batista no acordo de delação e pediu também a prisão dos dois.
Sonora: À 1:39 da tarde Joesley deixou a casa do pai no Jardim Europa, na zona sul de São Paulo, rumo à Polícia Federal.
Consuelo Dieguez: Em setembro de 2017, Joesley se entregou.
Sonora: Um grupo soltou fogos de artifício em frente à PF para comemorar as prisões.
Consuelo Dieguez: E três dias depois, foi a vez do seu irmão.
Sonora: As imagens da câmera de segurança mostram a chegada dos policiais à casa de Wesley Batista.
Consuelo Dieguez: Wesley também foi preso. Os irmãos Batista, afinal, não conseguiram escapar da cadeia. Mas o detalhe é que eles não foram presos pelas operações anticorrupção em que eram investigados, e sim por uso indevido de informação privilegiada e manipulação de mercado. O famoso insider trading. De acordo com o Ministério Público, os irmãos tinham se antecipado a divulgação da delação premiada na imprensa para vender ações da JBS e comprar dólares e, assim, faturaram dezenas de milhões. Ou seja, Wesley e Joesley eram acusados não só de ganhar com a corrupção que denunciaram, como de lucrar com a crise que eles mesmos tinham criado. Eles foram soltos no ano seguinte, mas a imagem e a reputação deles ficaram manchadas.
Sonora: Vagabundo! Vagabundo!
Consuelo Dieguez: Bem manchadas. Dois dias depois que Joesley deixou a prisão, Wesley foi xingado numa churrascaria de um bairro nobre de São Paulo.
Sonora: Ladrão! Vai pra cadeia!
Consuelo Dieguez: Teve que deixar o restaurante acompanhado da PM. Com medo de ataques, os irmãos se recolheram. O silêncio era uma estratégia, afinal, eles tinham virado inimigos públicos e comprado briga com o presidente da República. O Brasil não ouvia mais falar dos irmãos Batista. Só que longe dos holofotes, eles seguiram trabalhando mais ativos do que nunca. Os negócios dos irmãos Batista não só sobreviveram à Lava Jato e à prisão de seus donos, como triplicaram de tamanho. Como me disse um analista de mercado: "a JBS teve um jeito peculiar de crescer nos negócios. Eles não expandiram para depois comprar. Eles foram comprando para se expandir". E, a partir de 2018, se tornaram ainda mais agressivos. Depois de seis anos de silêncio, em 2024, eles saíram da toca. Começaram a aparecer em festas, eventos e a dar entrevistas. Fizeram até perfil no LinkedIn. Joesley abriu uma conta no Instagram. Na bio, escreveu "Filho, pai, avô, marido e amigo. Trabalhador, empresário, investidor e filantropo".
Sonora: Interessante. As pessoas comentam, uns falam bem, outros falam mal. Uns criticam, mas...
Consuelo Dieguez: Posta foto abraçado com o pai, a mãe e a mulher, Ticiana Villas Boas.
Sonora: Gente, olha que fantástico isso aqui.
Consuelo Dieguez: Em um vídeo no seu Instagram, Joesley se diverte com a família num carro Tesla pelas ruas de uma cidade americana.
Sonora: Tô num carro com piloto automático.
Consuelo Dieguez: Ticiana corrigiu.
Sonora: Não é piloto automático, é carro autônomo. Carro autônomo, que ele quer que a gente fique atento, entendeu?
Consuelo Dieguez: Em outro vídeo, ele filma um carro táxi que anda sozinho nas ruas de Los Angeles, quando uma moça entra pela porta de trás, diz para ela tomar cuidado.
Sonora: Meu Deus, menina, there is no driver. Take care.
Consuelo Dieguez: Mas não é só nas redes sociais que os irmãos Batista parecem mais à vontade. Desde que Lula assumiu a presidência em 2023, eles foram, aos poucos, voltando à intimidade com o poder, numa cerimônia de ajuda aos atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul, no começo de 2024, Wesley e Joesley estavam entre os empresários de peso chamados para ajudar na recuperação do Estado. Pela primeira vez desde o escândalo da delação de Michel Temer, os irmãos Batista entraram no Palácio do Planalto pela porta da frente. "Por que entrariam escondidos pela garagem?", me disse uma executiva do grupo. Mas foi no mês anterior, em abril de 2024, que um evento mostrou o prestígio dos irmãos junto ao governo federal. Passou meio despercebido. O presidente Lula está no frigorífico, de avental e botas brancas. Ele anda pelos corredores acompanhado por assessores e executivos. No primeiro plano, ao lado dele, aparece Wesley Batista. Observa a desossa, vê como é feito o empacotamento da carne. Entre bifes e hambúrgueres, ele para para abraçar e tirar selfie com funcionários que saem de dentro de uma sala fria. Esse frigorífico é a unidade Campo Grande II, da JBS, em Mato Grosso do Sul. É a fábrica que mais processa carne bovina na América Latina. O presidente estava lá para acompanhar o envio de um lote para a China, marcando a expansão das exportações brasileiras para o país asiático. Lula foi recebido pelos irmãos Wesley e Joesley pelo pai e fundador do império familiar, José Batista Sobrinho, também conhecido como Zé Mineiro. São as iniciais dele que dão o nome ao JBS. Era o primeiro encontro público do presidente com os donos da empresa desde que o Lula tinha voltado à presidência.
Sonora: Lula, guerreiro do povo brasileiro.
Consuelo Dieguez: Naquele dia, o presidente Lula foi até um pequeno palanque montado do lado de fora da fábrica.
Sonora: Queridas companheiras, queridos companheiros, é uma alegria muito grande estar de volta ao nosso querido Estado do Mato Grosso do Sul.
Consuelo Dieguez: E começou seu discurso cumprimentando o patriarca da família.
Sonora: O nosso querido José, o nosso jovem de 90 anos de idade. Eu estou dizendo pra ele que ele se prepare, porque como eu quero viver 120, nós vamos nos encontrar em algum lugar daqui pra pelo menos trinta anos pra gente comemorar ele fazendo 120 e eu fazendo 110 anos. Pode se preparar, seu Zé.
Consuelo Dieguez: Enquanto Lula faz graça, Zé Mineiro sorri e faz sinal positivo. Sentado no palco, na primeira fileira, entre Wesley e a ministra Simone Tebet.
Sonora: Eu conheci seu Zé no meu primeiro mandato, ainda não tão grande como ele está hoje e eu fico sempre muito orgulhoso quando alguém consegue vencer na vida.
Consuelo Dieguez: O clima era bem descontraído. Joesley também estava lá, na primeira fila, logo atrás do Lula, ao lado do Gilberto Tomazoni, CEO da JBS.
Sonora: Eu quero cumprimentar o Joesley, o Wesley aqui, que são os herdeiros primeiros deles. Responsável porque essa empresa se transformasse na maior empresa produtora de proteína animal do mundo. Isso pra mim é motivo de orgulho. Saber que se a gente quiser, a gente faz tudo que a gente sonhou.
Consuelo Dieguez: De 2017 a 2024, de delator a amigo do presidente, de vergonha ao orgulho nacional. Só que esse ainda não é o ápice da história. Os irmãos Batista tinham ambições maiores, bem maiores que o Brasil.
Consuelo Dieguez: Nova York, 25 de junho de 2025. Sete e meia da manhã. Joesley Batista, a mulher Ticiana, e os dois filhos deixam a cobertura de 685 metros quadrados numa área nobre de Manhattan. A mesma cobertura que ganhou as manchetes na época da delação. Perto dali, Wesley sai do seu hotel com a família. Meia hora depois, o clã Batista está todo reunido: pai, mãe, os seis filhos e sobrinhos. O ponto de encontro é o lendário número 11 da Wall Street, o coração financeiro da cidade.
Sonora: Aí chegou o dia da gente bater o sino aqui.
Consuelo Dieguez: E oito anos depois do Joesley Day, estamos no JBS Day.
Sonora: Hoje é um dia que o coração bate acelerado.
Consuelo Dieguez: A JBS está comemorando a chamada dupla de estágio. Ou seja, a partir daquele dia, as ações da empresa passaram a ser negociadas não só na Bolsa do Brasil, mas também na Bolsa de Nova York. Isso permite que investidores do mundo todo tenham acesso às ações, aumentando ainda mais o valor de mercado da empresa. Os analistas com quem conversei disseram que a chegada da JBS na bolsa americana abria caminho para uma expansão ilimitada.
Sonora: É realmente uma emoção.
Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley entraram sorridentes no monumental edifício da Bolsa de Nova York. Entre as imensas colunas de mármore branco da fachada neoclássica, um enorme banner estampava o logo azul e branco da JBS. Os dois estavam de terno preto e camisa branca. Se diferenciavam pelas gravatas. A de Wesley era vermelha e a de Joesley, azul. Eles foram recebidos pelos principais executivos da bolsa nova iorquina e levados para um espaço fechado para uma breve cerimônia. Ali, Wesley fez seu primeiro discurso do dia, acompanhado do pai Zé Mineiro, e da mãe, Flora, que ele fez questão de manter ao seu lado, quebrando o protocolo. São as iniciais deles, J e F que dão nome à holding bilionária.
Sonora: É um momento muito especial para a gente estar aqui. Lembrando o lugar onde nosso pai e nossa mãe começou. Muito trabalho duro, muito compromisso, muita dedicação.
Consuelo Dieguez: Wesley falou como um homem do interior do Brasil, focou nos valores familiares e contou um pouco da história dos pais desde a abertura do pequeno açougue em Anápolis, em Goiás.
Sonora: A gente ama o que a gente faz. E isso vale para a gente, para todo mundo aqui.
Consuelo Dieguez: Para uma plateia acostumada a ver ali CEO de empresa sem dono, a presença dos fundadores da JBS era algo inusitado. Quando escrevi o perfil dos irmãos Batista, em 2015, o faturamento anual da JBS era de 116 bilhões de reais. Em 2024, mais que triplicou, passando para 417 bilhões de reais. Não é à toa que o Salão da Bolsa naquele JBS Day estava lotado. A empolgação da plateia aumentava conforme Wesley trazia os números mais recentes da empresa, todos estratosféricos. Mas os olhinhos dos investidores brilharam mesmo quando os executivos mostraram a evolução da distribuição de dividendos aos acionistas. Foi de 246 milhões de dólares em 2019 para 812 milhões de dólares em 2024. Agora, com a dupla listagem, o céu é o limite. Na apresentação, Wesley explicou para os investidores que o crescimento estava no DNA da empresa, mas que, apesar disso, eles nunca deixaram de ser humildes. Contou que quando chegou aos Estados Unidos para gerir a primeira empresa do grupo no país, a Swift, não falava uma palavra de inglês. Agora falava de improviso. Às 09:30 da manhã, todos os Batistas se reuniram no histórico saguão do Grande Pregão, onde no passado, ocorriam as negociações físicas das ações. Era o momento mais aguardado do dia, a cerimônia do sino. A solenidade é um rito para todas as empresas que entram para a Bolsa de Nova York. Depois de ecoar o sino, sempre na abertura do pregão, o mercado acionário mundial é avisado de que um novo integrante faz parte daquela seleta comunidade dos maiores do mundo. Foi o pai, Zé Mineiro, no centro do grupo, que fez as honras. Numa área cercada ali perto, o restante da família celebrou com aplausos, gritos e selfies. Era a coroação da JBS no centro financeiro do capitalismo internacional. Era também um triunfo para o Brasil. Afinal, são poucas as empresas brasileiras que estão na bolsa americana. O conglomerado dos Batista já era o maior do país. Agora também representa o Brasil lá fora.
Sonora: Agora, de verdade, estando listada na New York Exchange.
Consuelo Dieguez: A dupla listagem era um sonho antigo dos irmãos. Desde 2015, quando escrevi aquele primeiro perfil para piauí, ouvi eles falarem disso. O projeto tinha sido adiado depois de tudo que Wesley e Joesley passaram com a delação e a prisão. Mas tem um fato interessante nessa cronologia. Nos Estados Unidos, a dupla listagem foi aprovada três meses depois de Donald Trump assumir a presidência. E adivinha quem foi a maior doadora da cerimônia de posse do Trump, com um valor cinco vezes maior do que empresas como Amazon e Meta? A Pilgrim's Pride, empresa do grupo de Wesley e Joesley nos Estados Unidos. A gente não sabe se a doação foi a causa ou a consequência desse relacionamento entre Trump e a JBS. E não dá para dizer que os irmãos Batista são super próximos do presidente americano. Mas acesso eles têm. Tanto acesso que Joesley teve um encontro com Trump a portas fechadas em setembro de 2025. A reunião foi bem na época em que Trump tinha anunciado o tarifaço de 50% aos produtos brasileiros, uma grande bomba para a economia brasileira. E o presidente americano estava irredutível. Não queria nem ouvir falar em negociar com o Brasil. Até que, poucas semanas depois do encontro com Joesley, no meio das negociações travadas do tarifaço, o presidente americano tromba com Lula nos corredores da Assembleia Geral da ONU.
Sonora: He seemed like a very nice man, actually.
Consuelo Dieguez: Horas depois, no seu discurso meio de improviso por causa de um teleprompter quebrado, Trump diz que eles se gostaram, que Lula parecia um cara legal.
Sonora: We had excellent chemistry, it's a good sign.
Consuelo Dieguez: Que rolou uma química e que agora ele estaria aberto a negociar com o Brasil. Essa relação íntima com o poder é um dos fatores que explica o sucesso da família Batista. Mas isso não veio de berço de ouro, nem de herança política. Foi tudo construído.
Sonora: Diz que eles vieram meninos que eles brincavam aqui. O povo conta que eles brincavam aqui na praça, aqui.
Consuelo Dieguez: E eu te conto como no próximo episódio.
Sonora: Eu conheço bem eles desde quando vieram pra cá. Ali são duas peças que uma não sobrevive sem a outra. São duas peças que se você separar, não dura um ano está falida.
Consuelo Dieguez: Mentira, né?
Sonora: Verdade.
Consuelo Dieguez: Berro do Boi é um podcast original da Trovão Mídia e da revista piauí. Ideia original de Anna Bonomi, José Orenstein e Luna Grimberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Dieguez, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Consultoria de roteiro da Luna Grimberg. Assistência de roteiro da Giovana Romano Sanchez. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Mouallem. Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original Arthur Decloedt e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidônio. Pela revista piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação, André Petry; editor-executivo, Daniel Bergamasco; e a produtora executiva, Mari Faria.
Consuelo Dieguez: Em memória do jornalista Conrado Corsalette, grande amigo e referência. Ele se entusiasmou com esse projeto desde o comecinho. Colaborou na pesquisa inicial e deu o título do podcast "Berro do Boi". Mais uma de suas grandes ideias. Saudades, parceiro.