04 Ago 2026
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Para entender o presente, é preciso voltar ao começo. Consuelo viaja a Formosa, em Goiás, onde Wesley e Joesley passaram a infância e aprenderam os fundamentos do negócio da carne. A partir das memórias de parentes, amigos e antigos funcionários, o episódio reconstrói a formação da família Batista, a trajetória do patriarca Zé Mineiro e os primeiros passos de um negócio que era apenas um pequeno açougue. É a história de uma família do interior moldada pelo trabalho, pela disciplina e pela obsessão em crescer.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Trovão Mídia e revista piauí.
Consuelo Dieguez: Ah, e eles vem aqui?
Sonora: Vem sempre. O pessoal não abre mão de Formosa. Formosa é Formosa né?
Consuelo Dieguez: Formosa é uma cidade no interior de Goiás.
Sonora: Você não é formosense, mas vai ser. Comeu aqui da refeição de Formosa, tomou da água de Formosa, já era.
Consuelo Dieguez: Fica pouco mais de uma hora de Brasília. É uma cidade pequena, com predinhos baixos, com fachada de vidro fumê e lajota. Sobraram poucas casas do século passado, de telhado meia água, jardinzinho na frente e pomar no quintal.
Sonora: O povo conta, né? Eles brincavam aqui na praça. Aqui ó.
Consuelo Dieguez: As ruas estão cheias de carros tipo SUV. Qualquer lufada de vento vem com um punhado de terra vermelha do cerrado, aquela poeira fina que cobre tudo. Eu viajei para Formosa em julho de 2025. Eu queria entender onde começou a história de Wesley e Joesley Batista. Logo no meu primeiro dia lá entrei no restaurante Casarão, de comida a quilo e churrasco.
Consuelo Dieguez: Tyson? Tudo bom, Tyson?
Sonora: Tudo bom? Satisfação.
Consuelo Dieguez: Por sorte, o garçom Tyson conhecia os irmãos.
Sonora: Mas era tudo garotão aqui em Formosa eles. Eles jogavam bola, tudo... Era.
Consuelo Dieguez: E até trabalhou para a família Batista.
Sonora: Eu era garçom deles. Eu servia eles lá. Sempre. Festa, aniversário... Ia para lá.
Consuelo Dieguez: Formosa foi um lugar importante na trajetória de Wesley e Joesley, quando ainda eram crianças. E o Tyson, assim como outros moradores com quem conversei, sabe disso.
Sonora: A Friboi, eles começaram a história deles aqui na praça do Hotel Imperatriz de Formosa, né? Ali era o escritório deles, ao lado do posto de gasolina.
Consuelo Dieguez: Hoje em Manhattan, Nova York. Nos anos 70, na Praça Pedro Chaves, em Formosa.
Consuelo Dieguez: Quando vir em Formosa, não esqueça de passar por aqui. Casarão sempre será sua casa.
Consuelo Dieguez: Tá bom. Obrigada.
Sonora: Eu agradeço. Abraço.
Consuelo Dieguez: Terminei o almoço e caminhei uns dez minutos até lá para ver esse escritório onde tudo começou. Eu tô aqui agora no Hotel Imperatriz. Cheguei na praça, que não é a principal da cidade. Ela é pequena, bem arborizada, com palmeiras, azaléias e banquinhos de concreto. Ali do lado tem uma casinha que foi o primeiro escritório da JBS quando ainda era Friboi.
Consuelo Dieguez: Bati na porta. Eu não tava esperando muita coisa. Uma placa na frente da casa indicava que ali funcionava uma clínica odontológica.
Sonora: Foram vizinhos nossos, aqui. Eles moraram nessa casa.
Consuelo Dieguez: Qual? Aqui?
Sonora: É.
Consuelo Dieguez: Mas, para minha surpresa, a pessoa que me atendeu era da família Batista.
Sonora: A clínica, hoje é do sobrinho do seu Zé Mineiro, que é o pessoal da JBS.
Consuelo Dieguez: Zé Mineiro é o pai de Wesley e Joesley e, onde hoje é a clínica, era a casa em que eles moravam. Do lado ficava o que tinha sido o primeiro escritório da Friboi.
Consuelo Dieguez: Ah, e você conheceu ele? Chegou a conhecer, não?
Sonora: Sim!
Consuelo Dieguez: Essa é a Vilma. A irmã dela é casada com um dos primos de Wesley e Joesley. E como é que eles eram?
Sonora: Pessoas simples, trabalhadoras. Tinha... A gente tinha amizade. Inclusive meu cunhado é sobrinho dele, do seu José Mineiro.
Consuelo Dieguez: Eu estava diante de uma casa bem modesta, numa pacata pracinha de cidade do interior goiano. Não era difícil imaginar um pequeno escritório funcionando ali, tocado pela família que vivia ao lado. O que era, sim, difícil imaginar é que dali saiu a maior empresa de proteína animal do mundo, um conglomerado global multibilionário, hoje comandado por aqueles mesmos dois garotos que brincavam na Praça Pedro Chaves na década de 70.
Consuelo Dieguez: Eu sou Consuelo Dieguez e esse é O Berro do Boi, uma série original da Trovão Midia com a revista piauí. Episódio dois: A engorda.
Consuelo Dieguez: A história começa com José Batista Sobrinho, o famoso Zé Mineiro, e começa antes de Formosa. Em 1944, aos 11 anos, Zé Mineiro saiu de Minas Gerais com os pais para morar em Anápolis, no interior de Goiás. Hoje, Anápolis é a segunda cidade mais rica do Estado e símbolo do poder do agronegócio. Mas naquela época era pequena, com cerca de vinte mil habitantes e uma economia rural acanhada. Foi em Anápolis que Zé Mineiro ganhou o seu apelido, uma referência ao estado onde nasceu. Zé Mineiro começou cedo a trabalhar com o irmão, o Juvensor, mas catando gado. Ou seja, eles saíam rodando fazendas para comprar e vender gado.
Sonora: Meu pai entregou um jipe para nós trabalhar e aí fomos.
Consuelo Dieguez: Esse é o próprio Zé Mineiro, numa entrevista que ele deu em 2022, falando desse começo. De tanto levar boi das fazendas para os matadouros, Zé Mineiro foi aprendendo mais sobre a cadeia.
Sonora: Depois de um certo tempo para frente, passou a trabalhar com gado gordo, boi, boi gordo.
Consuelo Dieguez: Zé Mineiro e o irmão conseguiam encontrar os melhores bois da região. Só que, na época como mascateiros, vendiam para o matadouro o boi por unidade, não por peso.
Consuelo Dieguez: Aí nós vendemos a boiada e falamos: "Ora! Poxa, nós estamos trabalhando com uma mercadoria que vale quanto pesa e não temos a mínima noção de peso. O que nós temos que fazer? Olha, é montar uma casa de carne no açougue".
Consuelo Dieguez: Aos 20 anos de idade, abriu, junto com o irmão, a Casa de Carnes Mineira, em Anápolis. O irmão comprava o boi, Zé Mineiro matava o bicho, separava a carne e vendia as peças no açougue. Era 1953. Essa é uma data importante, marca a fundação da JBS e hoje dá nome a uma linha premium de carnes da empresa. O negócio ia bem.
Sonora: Setembro de 1956.
Consuelo Dieguez: E ele estava no lugar certo, na hora certa.
Sonora: Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais.
Consuelo Dieguez: Estava começando a construção de Brasília.
Sonora: Juscelino Kubitschek, com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limite, lança os olhos sobre o amanhã do seu país.
Consuelo Dieguez: O deslocamento da capital do país do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste movimentou muito mais a economia local e o governo do presidente Juscelino Kubitschek estava dando incentivos fiscais para os comerciantes que se instalassem na nova cidade. Afinal, todo mundo que chegava a Brasília precisava comer.
Sonora: Aí eu falei "ah, vamos embora para lá", porque uma coisa eu matava em Anápolis, vendia com osso. Brasília, eu vendia carne desossada que agrega valor. Então eu tinha uma melhor margem.
Consuelo Dieguez: Em 1957, o açougue do Zé Mineiro passou a vender carne na Vila Planalto, um conjunto de acampamentos que abrigava os operários das construtoras.
Sonora: Caminhões vão levando ou trazendo material de construção. A mística de Brasília contamina o país, de onde caravanas de candangos marcham para o Planalto Central.
Consuelo Dieguez: Não tinha abatedouro. Zé Mineiro matava boi no mato, em pleno cerrado.
Sonora: E açougue, por exemplo, não tinha geladeira, não tinha nada. Se sobrar a carne, tinha que salgar, né?
Consuelo Dieguez: Foi mais ou menos nessa época que Zé Mineiro casou com Flora e tiveram seis filhos, pela ordem: José Batista Júnior, Wesley, Joesley, Valery, Vanessa e Viviane. Depois de mais de uma década em Anápolis vendendo carne em Brasília, Zé Mineiro viu uma oportunidade. Encontrou um frigorífico praticamente falido, à venda, numa cidade ainda mais perto da nova capital federal: Formosa.
Sonora: Para a época, era um frigoríficozinho bem razoável.
Consuelo Dieguez: A essa altura, Zé Mineiro já conhecia bem o mercado de carne. Um frigorífico é mais do que um açougue. É uma estrutura industrial que abrange todo o processo, desde o abate até o armazenamento e transporte da carne. O frigorífico de Formosa foi o primeiro da família e foi aí que Zé Mineiro teve que batizar o negócio. Friboi. O nome da marca vai direto ao ponto. É a junção das palavras frigorífico e boi. Em 1970, ele se mudou com a mulher e filhos de Anápolis para Formosa.
Consuelo Dieguez: Boa tarde! Tudo bom? Posso esperar aqui?
Sonora: Pode, fica a vontade.
Consuelo Dieguez: Obrigada. De volta a minha visita a Formosa. Eu entrei na clínica odontológica, onde tinha sido a casa da família Batista. O Odonto Center hoje é de três sobrinhos do Zé Mineiro, filhos da sua irmã. Naquele dia eu consegui conversar com um deles, o José Batista, que ganhou esse nome em homenagem ao tio.
Sonora: Onde... Já era Friboi, né? Então o pai deles trabalhava aqui. Eles ainda eram criança.
Consuelo Dieguez: Além de primo, José foi cunhado de Wesley e Joesley porque foi casado com Vanessa, uma das irmãs deles. Ele me contou que o Wesley tinha sete anos e José de tinha seis quando morava em Formosa. O Júnior, como é chamado o irmão mais velho, já trabalhava com o pai.
Sonora: Então a infância deles foi aqui nessa pracinha.
Consuelo Dieguez: E você brincava com eles? Você chegou... Você era contemporâneo deles?
Sonora: Eu era um pouco... Sou um pouco mais velho do que eles, né? Mas como primo, um pouco mais de idade, né? Eu brincava, arrumava, consertava as bicicletas deles e brincava com eles aqui.
Consuelo Dieguez: José me apontou para o hotel que fica até hoje na praça.
Sonora: Ali, naquele hotel tinha uma, vendia picolé, então a gente ficava... Passava final de semana aqui indo comprar picolé, chupar picolé e aqui aquela bagunça de primo, né?
Consuelo Dieguez: Naquela época, ver o abate dos bois era um programa para as crianças de Formosa. A matança era feita no abatedouro do frigorífico que ficava na saída da cidade. Para chegar lá, precisava pegar uma estrada de terra toda esburacada. Quando chovia, virava um lamaçal. Na época da seca, levantava um poeirão.
Sonora: E às vezes ia para a Fazenda Procotó, que era atrás do frigorífico. Tinha uma fazenda.
Consuelo Dieguez: Deles?
Sonora: É, deles. E a gente ia para lá para o final de semana também, tinha tiração de leite e tal.
Consuelo Dieguez: Foi nesse cenário, em Formosa, que Wesley e Joesley passaram anos decisivos da infância e adolescência. Foram anos de formação. Alguns anos depois, Zé Mineiro vendeu esse frigorífico em Formosa e continuou crescendo. Comprou outros dois frigoríficos, um em Planaltina e outro em Luziânia. As duas cidades ficam no estado de Goiás, nos arredores de Brasília, que foi para onde a família se mudou. Quando Wesley tinha 17 anos, e Joesley, 16, eles foram trabalhar nos frigoríficos. Era o fim dos anos 1980. Largaram a escola apesar dos protestos da mãe, Flora, que queria ver os filhos formados. O pai não se importava que os meninos preferissem trabalhar. Eram adolescentes e cada um ficou responsável por uma operação. Luziânia com Wesley e o frigorífico de Planaltina com Joesley. Zé Mineiro deixou eles tocarem o negócio como queriam. Os dois aprenderam tudo com os funcionários mais antigos, da contabilidade ao manuseio dos animais. Joesley era melhor nas contas. Wesley dominava o abate e o corte. No começo dos anos 90, a expansão estava a todo vapor. Os Batistas compraram mais dois frigoríficos, um em Anápolis e outro em Goiânia. No final da década de 90, os Batistas já eram conhecidos no mercado da carne. Embora ainda jovens, Wesley e Joesley já tinham mais de dez anos de experiência no negócio. O Friboi passou a fornecer mercadoria diretamente para grandes redes pelo Brasil, como Pão de Açúcar e Wallmart. Só que, para as famílias que comandavam o setor agropecuário no país, principalmente famílias tradicionais de São Paulo, os Batistas eram tidos como pouco sofisticados.
Sonora: Então, eles eram isso, fornecedor de carcaça para esses grandes players.
Consuelo Dieguez: Eram meros abatedouros de boi do interior de Goiás, mas não por muito tempo.
Sonora: A história toda muda quando eles vêm pra Andradina, porque aqui nós temos uma indústria frigorífica histórica. Foi a maior da América Latina.
Consuelo Dieguez: Andradina, no interior de São Paulo, foi o próximo grande passo da família Batista. E quem conta isso é o Mário Celso Lopes, ex-sócio deles.
Sonora: Ela é maior hoje do Brasil. Não tem nenhum maior do que esse Andradina, que é aqui do lado da minha casa. Eu estou conversando com você aqui e o frigorífico tá aqui na minha janela.
Consuelo Dieguez: Em 1999, Mário Celso vendeu esse grande frigorífico chamado Mouran para o Friboi. O Mouran era um frigorífico histórico fundado nos anos 50.
Sonora: É aqui que começa eles a entender, separar as peças, os cortes, fazer as embalagens a vácuo e daqui partir para o mercado externo, porque... É... Isso tudo é um processo de industrialização.
Consuelo Dieguez: Até aqui, o Friboi dos Batista basicamente matava o boi, cortava ao meio e vendia essas carcaças. Mas em Andradina eles sofisticaram a operação. Aos poucos, um por um, a família foi deixando Goiás e se instalando no Estado de São Paulo.
Sonora: Pegaram a pegada industrial, pegaram a pegada da exportação e aqui, então, foi a grande mola propulsora de todas as outras compras e do crescimento.
Consuelo Dieguez: Em Andradina, o Friboi então prosperou, arrendou e comprou outros frigoríficos pelo Brasil. Mário Celso acompanhou de perto essa fase da família Batista.
Sonora: Eles vieram pra cá, eles eram jovens, eles tinham... O Wesley tinha 29 anos e o Joesley tinha 28. E o Júnior, que era o mais velho, tinha 39 e eu era o mais velho deles. Eu já tinha 45.
Consuelo Dieguez: Zé Mineiro já tinha dado um passo atrás na liderança da empresa e o Júnior era então presidente do Friboi, muito respeitado pelos irmãos mais novos. Era um núcleo familiar unido, mas eu quis entender mais com Mário Celso sobre a dinâmica entre Wesley e Joesley.
Sonora: Wesley é um grande gestor, um grande administrador. Isso eu vi desde o primeiro dia que eu trouxe ele para Andradina, que eu entreguei a empresa por eles tocarem. E aí eu via quem tocava, que era o Wesley.
Consuelo Dieguez: Wesley ficava no dia a dia dos frigoríficos. Enquanto isso, Joesley se ocupava de outras atividades.
Sonora: O Joesley, ele ficava planejando como ele ia buscar recurso em banco, como que ele alavancava a empresa, como que podia fazer o crescimento dela. Sabe como é? Tanto a família dele morava aqui em Andradina, mas ele ficava a semana inteira em São Paulo. Ele montou um escritórinho em São Paulo e ele ia na segunda e voltava na sexta.
Consuelo Dieguez: Naquela virada dos anos 90 para os 2000, o presidente era Fernando Henrique Cardoso. 1 real valia 1 dólar e isso era fixo. Mas aí o governo fez uma grande mudança, mexeu nas regras de câmbio, o Real desvalorizou e passou a flutuar. Isso fez um monte de frigorífico quebrar. O escritório que o Mário Celso citou ficava na Faria Lima, coração financeiro de São Paulo. E foi ali que Joesley fez uma coisa inédita no mercado de carne até então, montou uma mesa de operações para se defender dessas mudanças do câmbio. Passou a atuar de forma agressiva no mercado de commodities e na bolsa de valores.
Sonora: Ali são duas peças que uma não sobrevive sem a outra. São duas peças que, se você separar, não dura um ano. Está falida.
Consuelo Dieguez: Mentira. É?
Sonora: Verdade, que os dois eles são como gêmeos, sabe? É de um ano só a diferença. Eles são como irmãos gêmeos.
Consuelo Dieguez: Menos de três anos depois de sair de Brasília e ir para Andradina, o Friboi foi comprando seus concorrentes e já tinha virado o maior abatedouro de boi do Brasil. Era 2002.
Sonora: Atenção! São 09:19 da noite do dia 27 de outubro do ano 2002. Neste momento, o Tribunal Superior Eleitoral declara Lula matematicamente eleito presidente da República Federativa do Brasil.
Consuelo Dieguez: O sucesso de Wesley Joesley coincide com uma novidade também na política, a chegada de Lula e do PT ao poder. Em 2004, a família Batista se muda de novo do interior paulista para São Paulo, capital, e chegam pela porta da frente. Compram no leilão a sede do icônico frigorífico Bordon, um prédio centenário simbólico para o setor de carne. Esse foi um marco na história da família. Eles admiravam há tempos os Bordon, que eram parte da tradicional elite pecuária brasileira. Wesley e Joesley gostam de contar a história de quando, ainda no começo dos anos 90, ficaram nervosos ao negociar com Geraldo Bordon, que Joesley chama de "o Steve Jobs da indústria da carne". Agora, em 2004, eram os Batista que estavam comprando o prédio do Seu Geraldo. O edifício na Marginal Tietê é enorme e até hoje é a sede da JBS. Nessa época, já em São Paulo, capital, acontece um abalo na estrutura da família Batista, que até então sempre foi muito unida. A dupla de irmãos mais novos vinha assumindo cada vez mais protagonismo e, ao mesmo tempo, Júnior, que ainda era o presidente do Friboi, queria entrar na política. Ele chegou a lançar a pré-candidatura ao governo de Goiás, mas depois de alguns ataques de opositores que respingavam no Friboi, a família convenceu ele a desistir, como conta o ex-sócio Mário Celso.
Sonora: Num certo momento, dentro dessa engrenagem, o Júnior ficou dispensável. E aí eles dispensaram o Júnior, entendeu?
Consuelo Dieguez: A família, então, decidiu que a partir de 2006, Joesley seria o presidente do Friboi. Logo que assumiu, o Joesley começou a botar em prática planos ambiciosos. Ele queria capitalizar a empresa para crescer ainda mais. E a solução estava na Bolsa de Valores de São Paulo. Em março de 2007, os irmãos Batista deram um enorme salto nos negócios. Foram o primeiro frigorífico a abrir capital no país. O valor do IPO, que em português significa oferta inicial de ações, foi estupendo: um bilhão e seiscentos milhões de reais. A maior operação feita até então na bolsa brasileira. Com o IPO, os negócios dos Batista foram da casa dos milhões para os bilhões. Para marcar a mudança na gestão com Joesley como presidente, o Friboi mudou de nome. Eles queriam agradar os investidores do mercado financeiro e tinham um pé atrás com a palavra frigorífico, por causa da fama de caloteiro que muitos tinham. Aí surgiu a JBS. A sigla vem das iniciais do patriarca José Batista Sobrinho. Mas Wesley e Joesley queriam mais e o governo Lula foi fundamental nessa empreitada. Poucos meses depois da abertura de capital, os irmãos foram procurados pelo banco de investimentos JP Morgan. O banco queria saber se Wesley e Joesley tinham interesse em comprar a Swift, uma empresa de carnes gigantesca e muito tradicional, fundada nos Estados Unidos no século XIX, um símbolo do capitalismo Americano. Os irmãos não tinham cash. O dinheiro levantado com o IPO não era suficiente, mas mesmo assim toparam o negócio. E aí é que entra o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ou BNDES. O banco brasileiro aportou 750 milhões de dólares e se tornou sócio da JBS na Swift. Esse movimento era parte de uma estratégia maior do governo Lula.
Sonora: Quando houve mudança de governo com a nova doutrina do PT, de criar os gigantes nacionais e tal... Aí as porteiras se abriram.
Consuelo Dieguez: A partir de 2007, o BNDES implementou a política dos chamados campeões nacionais. O Mário Celso, ex-sócio de Wesley e Joesley, lembra bem.
Sonora: O primeiro Bertin, pô, arrancou cem milhões do BNDES! Para capital de giro para exportação. Puta que pariu, 100 milhões. Na época, para tocar o frigorífico aqui, o o limite que a gente tinha era 1 milhão.
Consuelo Dieguez: O objetivo da política era injetar recursos em setores que o governo considerava mais competitivos, para que as empresas virassem gigantes e pudessem concorrer no mercado internacional. Entre os frigoríficos escolhidos, estava a JBS. Essa compra da Swift americana foi um divisor de águas na vida de Wesley e Joesley. Era o maior negócio que eles já tinham feito e o risco era enorme. Na época, a Swift era a terceira maior produtora de carne suína dos Estados Unidos, um segmento novo para os Batista. Depois da compra, Wesley foi convocado pela família para tocar a empresa americana. Essa é uma prática dos Batista. Em todos os negócios que entram, um deles é indicado para liderar operação e conhecer de perto como funciona. Quando Wesley, chegou em Greeley, no Colorado, onde fica a sede da Swift, ele não falava uma palavra de inglês. Levou um ex-executivo do grupo, Marcos Sampaio, como intérprete. Wesley conta que morria de medo do telefone. Olhava para o aparelho e pedia: "Não toca, não toca. Se esse bicho tocar aqui, eu to lascado". Quando tocava, ele gritava "Marco, corre aqui, atende isso". Mas se era ruim no inglês, era bom na operação. Para conhecer como tudo funcionava, chegava às quatro da manhã na empresa e não saía antes das dez da noite. Na época da compra, a Swift contava com 30 mil funcionários. Wesley visitou todas as fábricas e conversou com todas as lideranças, gerentes, coordenadores, supervisores e com executivos. Pedia que cada um contasse a sua história na empresa. Wesley diz que gosta de gente real e não almofadinhas, que falam muito e fazem pouco. No primeiro dia de trabalho, demitiu 50 executivos. Wesley achava que a estrutura da empresa podia ser mais enxuta. Nas palavras dele, "tinha muito poeta para pouco operador". Segundo me contou uma funcionária da JBS, a Swift era tocada por consultores que nunca tinham visto o parto de uma vaca. O CEO, por exemplo, chegava dirigindo um Porsche vestido de paletó com um lencinho no bolso. Wesley achava aquilo um exagero, um absurdo. Para ele, a fábrica é lugar de bota e picape. O CEO estava dando mau exemplo, ainda mais com a companhia perdendo dinheiro. Nas visitas frequentes às fábricas, Wesley descobriu que os funcionários deixavam muita carne no osso e isso era dinheiro jogado fora. Ele diz que o osso tem que sair branquinho. Cada quilo de carne que se perde num animal representa milhões de dólares no fim do ano. Essa é outra das histórias que Wesley mais gosta de contar e faz parte da mitologia da JBS. Diz Wesley que foi pessoalmente ensinar os funcionários a fazer a desossa do boi e a refilar a carne, ou seja, fazer a limpeza e acabamento das peças. Esse jeito de operar vem da infância em Formosa e dos ensinamentos de vida do pai que desde a época de Anápolis, abatia boi no cerrado. Zé Mineiro costuma dizer para os filhos: "Tudo o que vocês fizerem, segurem com as duas mãos. Agarrem os negócios com as duas mãos". Outro mantra da família é a obstinação pelo trabalho. O pai fala que vontade é pouco, tem que ser obcecado, tem que ser tarado pelo trabalho. Em pouco tempo, a Swift, que estava indo muito mal, reverteu o prejuízo milionário e passou a dar lucro. Esse caso de sucesso parecia uma vitrine para o modelo dos campeões nacionais do BNDES. Em 2008, de novo com aporte do banco, a JBS comprou outra gigante americana de carne, a Smithfield Beef Group. Em 2009, mais uma compra lá fora, a Pilgrim Sprite, a maior processadora de frango dos Estados Unidos. Outra novidade para Wesley e Joesley e sempre com participação do BNDES. Nesse mesmo ano, 2009, aqui no Brasil, os Batista ainda incorporaram um dos maiores e mais tradicionais frigoríficos brasileiros, o Bertin, do interior de São Paulo. Wesley e Joesley tinham começado administrando pequenos frigoríficos em Planaltina e Luziânia ainda adolescentes. Vinte anos depois, lideravam a maior processadora de proteína animal do mundo. Boi, porco e frango. Abatiam de tudo. Era o fim do segundo mandato de Lula.
Sonora: Atenção! Nos próximos quatro anos, e pela primeira vez na história, o Poder Executivo do Brasil será comandado por uma mulher. Dilma Rousseff está oficialmente eleita presidente da República.
Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley viviam uma época das vacas gordas. Quem via de fora não imaginava que logo viriam tempos difíceis. Da sangria ao abate. Te espero no próximo episódio.
Consuelo Dieguez: O Berro do Boi é um podcast original da Trovão Mídia e da revista piauí. Ideia original de Anna Bonomi, José Orenstein e Luna Grimberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Dieguez, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Assistência de roteiro da Giovana Romano Sanchez. Consultoria de roteiro da Luna Grimberg. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Mouallem. Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original de Arthur Decloedt e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidônio. Pela revista piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação, André Petry; editor-executivo, Daniel Bergamasco; e a produtora executiva, Mari Faria.