O BERRO DO BOI #6 - O CHURRASCO

No episódio final do podcast, a expansão dos negócios da família Batista e os planos para o futuro da JBS
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ERRATA:  A primeira versão deste episódio afirmava que os irmãos Batista não foram a evento com o presidente Lula na fábrica da Avibras, no fim de julho de 2024. Joesley estava presente. A informação foi corrigida em 2 de setembro de 2026.

Enquanto a JBS bate recordes de faturamento, a família amplia sua presença em novos setores da economia: bancos, energia, mineração, petróleo, celulose, mercado financeiro e até projetos ligados à área nuclear. Ao mesmo tempo, continua cultivando relações estratégicas em Brasília, no mercado e no exterior. Neste episódio final, Consuelo Dieguez acompanha a nova fase dos Batista. Existe limite para a ambição dessa família? Entre negócios bilionários, apostas de alto risco e planos de sucessão cuidadosamente preparados, O Berro do Boi termina olhando para o futuro. Para Wesley e Joesley Batista, o próximo negócio parece sempre mais importante do que o anterior.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Trovão Mídia e revista piauí.

Consuelo Dieguez: No dia 29 de janeiro de 2026, Wesley e Joesley estavam de volta a Nova York. De novo, acompanhados da família. De novo, para uma celebração. E de novo, para tocar o sino. Isso foi sete meses depois da dupla listagem da JBS na B3, em São Paulo, e na Bolsa de Nova York, da qual falei no primeiro episódio deste podcast. Só que dessa vez não tinha nada a ver com alimentos.

Sonora: PicPay! PicPay, PicPay, PicPay!

Consuelo Dieguez: Era o dia do IPO do PicPay. Ou seja, o dia da abertura de capital na bolsa do banco digital dos irmãos Batista. Foi na Nasdaq, a maior bolsa de valores eletrônica do mundo, focada em ações de companhias de tecnologia. Quando uma empresa entra para o clube, o ritual é tocar o sino.

Sonora: Olha que legal! Aqui é o estúdio da Nasdaq, transparente de vidro, aí fica aqui de frente para a rua.

Consuelo Dieguez: Ticiana Villas Boas, esposa de Joesley, estava lá com o marido e os filhos e fez a cobertura do evento no seu Instagram.

Sonora: Good morning everyone, thank you all for being here with us today.

Consuelo Dieguez: Eduardo Chedid, CEO do PicPay, fez um discurso em inglês para os investidores.

Sonora: Nasdaq is not the finish line.

Consuelo Dieguez: Ele tinha ao seu lado dois executivos, além de Wesley e Joesley, um em cada ponta. Depois da cerimônia do sino, a família Batista andou pela Times Square. O icônico centro turístico de Nova York estava com seus painéis luminosos cobertos de anúncios do PicPay no tom verde da marca.

Sonora: Que legal! Olha que legal!

Consuelo Dieguez: No vídeo, Joesley está risonho e encantado, tirando fotos com seu celular, como tantos turistas fazem ali. Ele parece surpreso com o próprio sucesso. E realmente foi um sucesso. O PicPay levantou quase meio bilhão de dólares naquele dia. A ação do banco digital chegou a quase 20 dólares, o teto do preço esperado. Foi a primeira abertura de capital de uma empresa brasileira desde 2021. Os irmãos Batista estavam de novo no auge. Um auge diferente, bem longe do agro e do mercado da carne, mas ainda bem perto do risco e do poder.

Consuelo Dieguez: Eu sou Consuelo Dieguez e esse é o último episódio de O Berro do Boi, uma série original da Trovão Mídia com a revista piauí. Episódio seis: O Churrasco.

Consuelo Dieguez: Wesley e Joesley Batista estão à frente de um dos dez maiores conglomerados de controle familiar do mundo, a J&F. No ano passado, eles faturaram o equivalente ao PIB do Uruguai. A holding tem mais de 300 mil funcionários em 23 países e o PicPay, junto com o banco original, compõem a frente financeira desse império global. Os irmãos Batista começaram a comprar ações do PicPay lá em 2015. Foi uma boa sacada deles, porque essa área ia explodir nos anos seguintes. O PicPay era, no começo, um aplicativo que permitia pagamentos entre pessoas pelo celular e aí depois virou banco. E foi crescendo numa velocidade espetacular. A entrada no mercado de crédito consignado foi um marco. Aposentados e pensionistas do INSS já podiam tomar esse tipo de empréstimo junto a bancos. Mas em 2022, no governo Bolsonaro, as regras mudaram. Aposentados e pensionistas passaram a poder comprometer uma parcela ainda maior dos seus benefícios com crédito. Foi nessa hora que o PicPay entrou nesse mercado. E aí, no ano seguinte, uma nova oportunidade se abriu. Em 2024, o governo criou o Meu INSS Vale Mais, programa que permitia a aposentados e pensionistas antecipar uma parte do benefício do mês seguinte para pagar despesas emergenciais. O banco adiantava o dinheiro para o cliente e o INSS, depois, repassava o valor para o banco. Alguns bancos se habilitaram, mas só um conseguiu operar o programa, o PicPay. Só que começaram a aparecer problemas, o INSS recebeu denúncias de cobranças que não estavam previstas nas regras do programa e uma fiscalização do Tribunal de Contas da União apontou que o PicPay não tinha comprovado o envio dos contratos das operações devidamente assinados com biometria. O INSS suspendeu o programa e parte do dinheiro que deveria ser repassado ao PicPay ficou retida. E esse não foi o único problema do banco com aposentados e pensionistas. O PicPay também passou a ser investigado por irregularidades na oferta de crédito consignado. Havia denúncias de empréstimos que os clientes diziam não ter contratado, descontos indevidos e operações em que o crédito vinha acompanhado de serviços como seguro de vida e auxílio funeral, aumentando o valor da dívida. As denúncias acabaram chegando a CPI do INSS, mas como a CPI não deu em nada, ficou tudo como estava. O PicPay afirma que nunca fez cobranças indevidas nem cometeu quaisquer irregularidades. Ainda na frente financeira, Wesley e Joesley tiveram outro importante momento recentemente. No fim de dezembro de 2025, a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, responsável por fiscalizar o mercado financeiro, reconheceu a prescrição de uma multa de 150 milhões de reais imposta Joesley Batista por manipulação de preços de ações da JBS, feita ainda em 2010. Ou seja, na prática, a CVM perdoou a multa milionária. E um dos votos decisivos para esse perdão a Joesley foi do então diretor da CVM, Otto Lobo. O voto de Lobo chamou a atenção porque contrariou o seu próprio entendimento sobre prescrição em casos anteriores. Acontece que, às vésperas do voto, Joesley esteve com o Lobo. Ele chegou a fazer uma foto ao lado de Joesley e compartilhar com o pessoal da sua equipe na CVM. Eu apurei que Lobo apagou a foto logo em seguida. E eis que, pouco tempo depois...

Sonora: O presidente Lula encaminhou ao Senado a indicação de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.

Consuelo Dieguez: No mercado, não restou dúvida de que essa indicação de Otto Lobo para presidência da CVM teve o dedo de Joesley Batista em agradecimento ao voto de Lobo em seu favor. O caso gerou mal-estar no Ministério da Fazenda. O então ministro Fernando Haddad preferiu um nome mais técnico. Chegou a sugerir dois à Lula, mas Joesley ganhou a parada. Wesley e Joesley parecem mesmo ter voltado a ter boas relações no mercado financeiro. Mas isso é recente. Quando os irmãos caíram em desgraça e foram presos, os grandes bancos evitavam fazer negócios com eles, principalmente os que envolviam recursos da família. Desprezados, os Batista foram buscar abrigo para seus investimentos próprios em instituições de segunda linha. Foi aí que encontraram a Reag Investimentos, que atuava como corretora, distribuidora e administradora de fundos próprios e de terceiros. No ano passado, a polícia mostrou que muitos dos negócios da Reag eram fraudulentos. Uma das maracutaias era precificar artificialmente os valores dos fundos, entre eles os do Banco Master, melhorando o balanço do banco. Aliás, eu cobri esse escândalo do Master desde o começo. Você pode ler todas as reportagens na revista piauí. Bom, para piorar, a Polícia Federal revelou também que a Reag operava como lavanderia de fundos do grupo criminoso PCC, o Primeiro Comando da Capital. E aí, na apuração deste podcast, quem eu descobri que estava entre os maiores clientes da Reag? Justamente a J&F, a JBS e a família Batista. Antes da corretora ser liquidada pelo Banco Central, em 15 de janeiro de 2026, por uma série de irregularidades, eu apurei que a Reag administrava nada menos do que 15 fundos do grupo da família Batista. Não é possível afirmar que houvesse algo irregular nessa relação, afinal, muitos grupos mantinham recursos na Reag. João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente da Reag, chegou a ser preso e é investigado por envolvimento nas fraudes ligadas ao Banco Master e ao PCC. Os negócios do grupo seguem em constante expansão. Alimentos, mercado financeiro e energia, de todos os tipos. Para começar, elétrica. A entrada da J&F no setor elétrico se deu, discretamente, em 2015 com a Fundação da Âmbar Energia. Mas foi a partir de 2023 que Wesley e Joesley dobraram a aposta no setor energético. Por meio da Âmbar, eles compraram a termoelétrica de Candiota, no Rio Grande do Sul, uma usina a carvão. Aí, em 2024, compraram doze termoelétricas no Amazonas. Em 2025, avançaram sobre o Acre, onde compraram mais três termelétricas. Não satisfeitos, compraram a usina termelétrica norte fluminense. A lista é longa, mas, como não podia deixar de ser, a entrada dos Batistas no setor não se deu sem briga, polêmica e relacionamento político. A confusão maior aconteceu na compra das doze termoelétricas amazonenses. Essas doze usinas geravam energia especificamente para a Amazonas Energia, uma distribuidora que estava afogada em uma dívida de mais de 10 bilhões de reais. Ou seja, quando Wesley e Joesley compraram as usinas, o negócio era um mico, porque seu principal cliente estava quebrado. Era muito arriscado. Só que, três dias depois da Âmbar anunciar a compra das usinas, o governo federal publicou uma medida provisória transferindo parte dos custos operacionais e desses passivos da Amazonas Energia para conta de luz de todos os consumidores brasileiros. Com isso, não só o negócio dos Batista foi salvo, como a própria distribuidora, a Amazonas Energia que estava endividada, se tornou atraente e aí os irmãos fizeram uma proposta para também comprá-la. A Aneel, agência reguladora do setor, armou um fuzuê contra aquele repasse das dívidas para as contas dos consumidores, que favorecia Wesley e Joesley. A briga da agência se deu principalmente com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Silveira, em entrevista, disse que o intervalo curto de datas entre a compra das usinas e a medida provisória que ajudou a Âmbar foi mera coincidência. Em abril de 2026, o caso foi concluído. As usinas e a distribuídora foram definitivamente para as mãos da Âmbar. Vitória de Wesley e Joesley. Os irmãos passaram a controlar tanto quem gera quanto quem distribui energia no norte do país. Hoje, a Âmbar é uma das maiores empresas de energia elétrica do Brasil, com mais de 50 usinas em 14 estados.

Sonora: Segundo Breaking News da edição. A Eletrobrás acaba de anunciar que vendeu a sua participação completa na Eletronuclear para a J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista.

Consuelo Dieguez: No ano passado, os irmãos Batista foram ainda mais ousados Compraram um pepinão. Uma fatia relevante das usinas de energia nuclear de Angra dos Reis, incluindo Angra I e II, que estão operando, e a famigerada Angra III.

Sonora: Angra III, está para ser concluída há apenas 40 anos. Cada governo que entra um bota dinheiro, tira dinheiro, bota dinheiro, outro não bota.

Consuelo Dieguez: Esse é o John Forman, consultor em energia.

Consuelo Dieguez: Para concluir Angra III e gerar energia, você precisa de 21 bilhões. Se você decidir não ir em frente só para pagar os contratos, multas, devolver financiamentos, dá o mesmo valor.

Consuelo Dieguez: Ou seja, não é que tinha assim uma fila de gente interessada na Eletronuclear. Mesmo assim, Wesley e Joesley compraram a participação na Eletronuclear por cerca de meio bilhão de reais. E viraram sócios do governo brasileiro, que é o controlador da empresa. Para os irmãos Batista, essa compra representa a entrada em um dos segmentos mais estratégicos do setor elétrico brasileiro. Além de diversificar seu portfólio, hoje concentrado em gás natural e termelétricas, eles passam a ter participação em uma fonte de geração firme, que produz energia de forma contínua e previsível, sem depender das condições climáticas. O lado arriscado é que a J&F assume compromissos financeiros bilionários, entre passivos herdados e investimentos futuros e passa a depender de decisões do governo sobre os próximos passos de Angra III e da própria política nuclear brasileira. Mas desde quando Wesley e Joesley tem pudor de assumir negócios complicados, de grande escala, que demanda investimentos pesados e estreita relação com o governo? E isso vale, inclusive, para além das fronteiras brasileiras. Em dezembro de 2023, Wesley e Joesley compraram a Fluxus uma empresa de petróleo e gás. A partir dela, foram se expandindo no setor pela América Latina. Os irmãos Batista adquiriram ativos em Neuquén e Salta, na Argentina, e campos de gás na Bolívia. No final de 2025, a J&F entrou ainda no ramo de logística e distribuição de gás, comprando 90% da Logás Logistica. Essa operação foi aprovada em março de 2026 pelo Cade. Para analistas do setor energético, é evidente que a J&F tenta controlar vários elos da cadeia. Produção de gás e petróleo, transporte, comercialização, geração de energia e venda ao consumidor final. E é claro que, nessa lógica de expansão no setor de óleo e gás pelo continente, Wesley e Joesley voltaram os olhos para o país com a maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela. Os irmãos Batista já faziam negócios lá, mesmo quando os Estados Unidos impuseram sanções pesadas aos venezuelanos a partir de 2017. A JBS conseguiu continuar exportando alimentos para a Venezuela, que há muito tempo vive uma grave crise humanitária com escassez de comida. E assim, Joesley, sempre mais político que Wesley, foi estabelecendo relações com o então presidente Nicolás Maduro. Tanto que, quando os Estados Unidos de Donald Trump começaram a ameaçar Maduro, pedindo que ele renunciasse nos meses finais de 2025, veio a notícia.

Sonora: Segundo informações, Joesley esteve em Caracas na semana passada para reforçar um pedido feito por Trump que Maduro deixe o poder de forma pacífica.

Consuelo Dieguez: Esse fato se tornou público no começo de dezembro pela agência Bloomberg, e confirmou o lado, digamos assim, chanceler de Joesley Batista.

Sonora: O encontro teria acontecido em 23 de novembro, dias antes de Trump ligar para Maduro e solicitar a renúncia.

Consuelo Dieguez: Como eu contei lá no primeiro episódio desse podcast, o acesso direto de Joesley a Trump já tinha sido importante para quebrar o gelo com Lula e ajudar na negociação do tarifaço imposto ao Brasil pelos americanos em meados de 2025. No caso da Venezuela, o governo americano disse na época que sabia da visita de Joesley a Maduro, mas que o empresário brasileiro foi lá por conta própria em seu jatinho particular. Só que o esforço diplomático de Joesley não deu muito certo.

Sonora: Olá pessoal, bom dia. Agora, 05h37 a gente entra no ar com a informação de que a capital venezuelana, Caracas, foi alvo de explosões durante esta madrugada.

Consuelo Dieguez: Em 3 de janeiro de 2026, o governo de Trump invadiu a Venezuela, capturou o Maduro e o levou para os Estados Unidos. Ele está preso até hoje em Nova York. No lugar dele, Delcy Rodríguez assumiu o poder e adivinha com quem ela se reuniu seis dias depois de assumir? Em 9 de janeiro, ignorando avisos das autoridades americanas para evitar o espaço aéreo venezuelano. Joesley pousou seu avião em Caracas, vindo diretamente de Washington. Segundo a agência Reuters e a CNN, Joesley saiu da reunião com Delcy dizendo que a sucessora de Maduro parecia disposta a abrir o setor de energia para investimentos e manter os compromissos com os Estados Unidos. A agência e a emissora relatam que o dono da J&F voou de volta a Washington e transmitiu as informações às autoridades do país. Fato é que Joesley tem acesso ao poder da extrema direita, a extrema esquerda no continente.

Sonora: Já algumas empresas brasileiras que têm tido contato com empresas venezuelanas e têm visitado a Venezuela nos últimos anos, antes do que aconteceu desde o início deste ano, como é o caso da J&F.

Consuelo Dieguez: Esse é o embaixador Laudemar Aguiar, que foi por três anos secretário de Promoção Comercial do Itamaraty. Ele foi enviado pelo governo brasileiro à Venezuela, agora no fim de abril, e me contou que o Brasil está animado com as oportunidades de negócios que se abriram, com as recentes mudanças na legislação venezuelana. A Fluxus, empresa de óleo e gás de Wesley e Joesley foi a primeira a conseguir autorização do órgão do Departamento de Tesouro Americano para atuar na Venezuela em projeto com a PDVSA, estatal de petróleo daquele país. Já faz mais de dez anos que eu acompanho os passos de Wesley e Joesley Batista. A essa altura, nada mais deveria me surpreender. Mas na semana retrasada eu me surpreendi. Eu e boa parte do mercado. Na sexta, 21 de agosto, os irmãos goianos anunciaram a compra de 100% da Avibrás. A Avibrás é uma empresa estratégica da indústria bélica brasileira. Fabrica mísseis, foguetes e sistemas de artilharia. A compra por um valor não divulgado não foi feita pela J&F ou pela JBS, mas pela Globe, empresa de investimentos pessoais de Wesley e Joesley. A operação ainda depende da aprovação do Cade. Como o povo disse nas redes, os irmãos agora investem no boi e na bala. A Avibrás é uma empresa histórica fundada por engenheiros do ITA, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica. No passado, vendeu armas para o Iraque de Saddam Hussein e, mais recentemente teve entre seus clientes potências regionais, como a Arábia Saudita e Indonésia, além do próprio Estado brasileiro. Mas a empresa estava parada fazia quase três anos, em recuperação judicial, com dívidas milionárias e uma longa greve dos trabalhadores. Então, por que os batistas se interessaram pela Avibrás agora? No mercado, as especulações são muitas. A primeira é de que eles atenderam a um pedido do presidente Lula, que não queria que a Avibrás quebrasse ou fosse comprada por um grupo estrangeiro. Afinal, é uma empresa de alta tecnologia na área de defesa e num mundo tão instável, seria ruim para o Brasil perder um ativo estratégico.

Sonora: Eu quero as Forças Armadas bem preparada, bem treinada com os soldados que for suficiente para tomar conta desse país.

Consuelo Dieguez: Lula visitou a fábrica em julho, quando a Avibrás já tinha voltado a operar graças a um aporte de 300 milhões de reais feito meses antes por um fundo privado e que contou com o investimento de Joesley.

Sonora: Para que a gente possa andar de cabeça erguida, sem nenhuma arrogância, falando em paz, mas preparado para não deixar ninguém meter o nariz no nosso país.

Consuelo Dieguez: Os irmãos Batista não estavam presentes nessa visita do presidente. Executivos ligados ao Wesley e Joesley me disseram que não tem agenda política oculta nessa aquisição, que os Batista estão fazendo o que fazem de melhor: comprando uma empresa quebrada, mas com potencial para crescer. Como me disse um general da reserva: "deixando as teorias da conspiração de lado, se eu tivesse o dinheiro que eles têm, investiria na indústria de armamentos. Esse negócio vai explodir". A procura por armamentos aumentou muito em razão dos vários conflitos ao redor do mundo, principalmente na Ucrânia e no Oriente Médio. Os países da OTAN decidiram, em 2025, elevar investimentos em defesa para 5% do PIB nos próximos dez anos. No Brasil, também existe um projeto no Congresso para quase dobrar o orçamento das Forças Armadas. A Avibrás tem ativos tecnológicos muito mais valiosos do que uma empresa quebrada aparenta ter. Seu principal produto é o Astros, sistema de artilharia capaz de lançar diferentes tipos de foguetes e também o míssil de cruzeiro MTC 300 com alcance da ordem de 300 quilômetros. Fecha contratos de centenas de milhões de dólares diretamente com governos. Mas tem ainda uma outra hipótese para essa compra que eu ouvi de especialistas. Antes dos Batista, a Avibrás esteve perto de ser comprada pela Norinco, estatal chinesa da indústria de defesa. A negociação não foi adiante e isso ajuda a entender uma das especulações que circulam agora.

Sonora: Tudo o que os Estados Unidos não precisam agora é de uma empresa de defesa no quintal deles, entre aspas, caindo na órbita de alguma ingerência direta ou indireta da China.

Consuelo Dieguez: Piero Leirner é professor da UFSCar e pesquisa a temática militar desde 1990.

Sonora: Eu acho que, nesse caso, eles aproveitam esse trânsito que eles têm no próprio governo Lula para suprir uma demanda que é uma demanda americana, que é: compre a empresa e afaste os chineses dela.

Consuelo Dieguez: Eu tô gravando esse podcast em agosto de 2026 e pode ser que quando você escute Wesley e Joesley já tenham comprado mais um ativo em algum lugar do mundo. Tenham avançado em mais um setor. Eles não param de crescer e de dar mostras de intimidade com os altos círculos do poder. Uma fonte me contou que neste ano, o presidente dos Estados Unidos estava em uma reunião no Salão Oval, quando de repente entra uma secretária e interrompe a conversa e mostra um cartaz escrito "Mister Joesley is here". Joesley está aqui.

Sonora: E ao longo de 15 quilômetros, com o Rio Araguaia de testemunha, eles vão cortando os campos onde o tempo parece passar mais devagar. Na imensidão da fazenda do Zé Mineiro.

Consuelo Dieguez: Em maio de 2025, a família Batista se reuniu toda em Aruanã, interior de Goiás, fronteira com Mato Grosso. Chapéu, cinto e bota. Estavam lá os irmãos Wesley e Joesley, além de Júnior e Vanessa.

Sonora: É onde o passado mais uma vez se encontra com o presente. Aproximadamente cem cavaleiros, entre homens, mulheres e crianças. Ao som dos cascos e do velho carro de boi.

Consuelo Dieguez: A cavalgada teve cobertura do Canal Rural que pertence aos Batista. A reportagem, de quase oito minutos mostra filhos e netos de Seu Zé Mineiro cavalgando pela fazenda do patriarca da família.

Sonora: Eles vêm como vinham os antigos, firmes na sela, guiados pelo cheiro da mata e o som da tropa de cavalos, burros e mulas. Só que nesta viagem, o que se transporta vai além da carga, é história, saudade e o orgulho de ser do interior.

Consuelo Dieguez: Todo mundo que participa da cavalgada veste uma camisa preta de manga longa bordada com os logos de algumas das empresas do conglomerado. No lado esquerdo, na altura do peito, J&F. Do lado direito, JBS. E, logo abaixo, PicPay. Nas mangas, na altura do ombro, do lado direito Canal Rural, Âmbar, Energia e Banco Original. Na manga esquerda, Eldorado Celulose, Flora Cosméticos e LHG Mining.

Sonora: Desde menino nós fomos criado.

Consuelo Dieguez: Wesley aparece de chapéu cavalheiro creme e lenço preto no pescoço.

Sonora: Mas desde molecotinho, já montando em cavalo, em égua, no pêlo, vivendo no campo, mexendo com com gado.

Consuelo Dieguez: Emocionado, fala da infância no meio rural. Depois, fala Joesley com um sorriso calmo no rosto.

Sonora: Pra nós, esse aqui é um, é um ambiente natural de onde a gente nasceu, veio e e viveu nossa vida. Para os filhos, meu pai ensina mais com os exemplos do que com as palavras E através do agronegócio, criou a família, conduziu os filhos, netos. Estamos aqui agora com a terceira geração.

Consuelo Dieguez: A reportagem termina com Zé Mineiro e Flora sentados à frente do imponente lago da fazenda da família. A cavalgada aconteceu no dia do aniversário de casamento deles.

Sonora: E forma 70 anos de conhecimento, quatro de namoro e 66 de casamento. É uma vida, né?

Consuelo Dieguez: A simplicidade é um valor da família, mas o pano de fundo é de luxo. Foi nessa mesma fazenda de mais de 36 mil hectares e edificações suntuosas que Zé Mineiro comemorou 90 anos, com direito a show dos cantores sertanejos Henrique e Juliano, Wesley Safadão, Daniel e do Bruno, da dupla Bruno e Marrone. Daniel chegou cantando a música Romaria, de Renato Teixeira, e carregando uma imagem da Nossa Senhora. Um bolo de cinco andares com uma sela no topo, como se fosse vela de aniversário, ocupava o meio do salão. Na época, a notícia foi de que houve um congestionamento de jatinhos em Goiás por causa da festança. Tanto que o governador do Rio, Cláudio Castro, do PL, desistiu de ir. Outros governadores compareceram, como Ibaneis Rocha, do MDB do Distrito Federal, Ronaldo Caiado, do PSD de Goiás, e Ratinho Júnior, do PSD do Paraná. Depois de tantos altos e baixos, depois de tanto dinheiro, o núcleo Batista continua unido. Wesley e Joesley seguem em perfeita harmonia no comando dos negócios, multiplicando o patrimônio já bilionário da família. Eles são atualmente os únicos sócios da J&F, cada um com 50% das ações da holding. Zé Mineiro, Flora, Junior, Valério, Vanessa e Viviane já venderam suas fatias do negócio. Dois dos filhos mais velhos de Joesley trabalham no PicPay e no Banco Original. Já Wesley Batista Filho, de 34 anos, treinado desde cedo pelo pai, é o atual CEO da JBS nos Estados Unidos, a maior e mais rentável operação do grupo e já foi anunciado agora em agosto como o novo presidente global da marca a partir de janeiro do ano que vem. Wesley e Joesley foram certa vez questionados pela mãe: "Por que vocês continuam trabalhando tanto se já tem tudo?". Wesley me deu a resposta na entrevista que fiz com ele na sede da JBS.

Sonora: Mas não é sobre isso, mãe. É o que a gente ama fazer. Não é sobre dinheiro, não vai mudar a nossa vida. Não vamos vestir diferente, não vamos mudar nada. Mas é isso que nos move, a vontade de ir lá e empreender. É do nada. O que te move é o teu trabalho. Cada um na sua área tem prazer de fazer aquilo. Então foi isso.

Consuelo Dieguez: Esse foi o último episódio de O Berro do Boi, o podcast original da Trovão Mídia e da revista piauí. Ideia original de Ana Bonomi, José Orenstein e Luna Grimberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Dieguez, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Consultoria de roteiro da Luna Grimberg. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Mouallem. Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original de Arthur Decloedt e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidônio. Pela revista piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação, André Petry; editor-executivo, Daniel Bergamasco; e a produtora executiva, Mari Faria.

Sonora: Em memória do jornalista Conrado Corsalette, grande amigo e referência. Ele se entusiasmou com esse projeto desde o comecinho. Colaborou na pesquisa inicial e deu o título do podcast "Berro do Boi". Mais uma de suas grandes ideias. Saudades, parceiro.


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