vultos do jornalismo
Leão Serva 07 Set 2026
29 min de leitura
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O texto abaixo integra o livro Como se proteger de uma granada, do jornalista Leão Serva, que será lançado neste mês pela editora Matrix. Neste capítulo, Serva relembra a criação do Dia da Boa Notícia, no portal IG, um dos mais acessados à época, que deveria estrear em 11 de setembro de 2001, mas acabou abortado após os ataques ao World Trade Center.
Quando o despertador de Muhammad Atta tocou, nós acordamos.
Sou capaz de apostar que ele mal tinha dormido, deve ter passado a noite alerta, envolto por imensa ansiedade. Eu, de meu lado, estava em sono pesado, depois de uma noite curta e poluída por sonhos também intensos. Ele se levantou para começar o longo ritual de limpeza e orações com que iniciava seus dias e que antecederia o mais importante deles. (Isso não está nos inquéritos nem nos livros de história. Mas, como o gato no caminho do Golem no poema de Jorge Luis Borges, eu adivinho.)
Voltei a dormir, tentando aproveitar mais um pouco do sono. O atentado na noite anterior tinha sido como um sinal profético do que seria aquele dia, mas nenhum de nós tinha plena consciência. Estávamos lidando com mandamentos, limites, imposições antigas, prescrições claras que fingimos não reconhecer ou desafiamos. Mas, afinal, a condição humana desde o primeiro casal bíblico parece ter sido sempre a de desafiar limites e ampliar horizontes, construir torres altas o suficiente para alcançar o céu até ver a vontade de Deus ou Satanás derrubá-las em um eterno retorno, até a próxima destruição, que só não é plena porque sempre deixa a fresta para um novo começo. Não parece ser verdade o canto inocente dos cristãos que diz que “Deus para nós não é de vingança”. Basta olhar para trás e ver a mão brutal com que amassa como formigas quem desafia sua vontade.
Imagino que ele acabou de se vestir, no pequeno quarto de hotel em Portland, Maine, pegou os poucos pertences e se preparou para deixar a suíte mais ou menos quando eu acordei de novo para ver a hora, em meu quarto em São Paulo, Brasil. Virei-me e estiquei ainda um pouco mais a tentativa de cochilo.
No momento em que Muhammed Atta apresentou o passaporte no check-in da American Airlines no Aeroporto de Boston Logan, eu me levantei como um autômato, entrei em um banho rápido para acordar, me vesti mecanicamente e logo estava sentado à mesa para um café da manhã bem simples: café, torrada e queijo.
“Você mesmo arrumou as malas?” A pessoa no balcão deve ter feito as perguntas de praxe, ele prontamente respondeu “sim”, pouco depois das 7h35, quando eu voltei ao quarto para escovar os dentes e acabar de vestir meu “uniforme”: gravata e paletó, neutros, sobre a camisa branca, quase igual a todos os outros dias, tudo feito para não chamar atenção.
Enquanto ele embarcava, eu pegava os documentos, a chave do carro e a mochila. Quando faltavam dez para as nove, chamei o elevador. Um minuto depois, abri a porta, apertei o botão para a garagem, desci, movendo-me como as peças de um relógio se movem, sem emoção. Caminhei até o carro, abri a porta, entrei, sentei-me no banco do motorista, enfiei a chave no contato. Quanto mais automático, melhor, para não pensar nos engulhos de uma pequena ressaca: o atentado de ontem havia me pegado no meio do jantar, a ansiedade aumentou a quantidade de vinho ingerida e esticou para dentro da madrugada o final da refeição. O estômago ardia como o inferno do corpo, o que naquele tempo acontecia frequentemente.
Portas fechadas, motores ligados. Comecei a manobra. Muhammed Atta sentiu o alívio de saber que os planos agora estavam prontos para se realizar: agora era com ele e seu time. Dei marcha à ré, depois engatei para a frente e fui em direção à saída. Esperei um pouco até a abertura completa do portão. A torre deu o comando para decolar.
Partimos exatamente às 8h59 (7h59 em Nova York). Era o Dia da Boa Notícia.
O voo 11 da American Airlines, já sob o comando de Muhammed Atta, atingiu a primeira das Torres Gêmeas às 8h46, em Nova York. Em cerca de dez minutos, a informação chegou à redação do Último Segundo, pioneiro jornal online brasileiro que eu comandava em São Paulo. Pouco depois das 10 horas (9 horas em Nova York), eu seguia no congestionado trajeto para o escritório, que podia levar 25 minutos em um domingo ou quase uma hora em dias de semana, como naquela terça-feira.
Meu celular tocou. Atendi. Do outro lado, Carina Martins, uma jovem jornalista que era a chefe de reportagem do jornal e editava a homepage até a chegada dos editores do dia, a partir das 10 horas: “Leão, um avião bateu no World Trade Center, em Nova York.”
Eu imediatamente lembrei de uma imagem antiga de um pequeno monomotor encravado em um edifício, e essa imagem (talvez de um filme) se confundiu em minha memória com o acidente de 1945, quando um avião bateu contra o 79º andar do Empire State Building, também em Nova York, que era na época o edifício mais alto do mundo. Foi um acidente sem maior gravidade. Não perguntei, nem ela disse que no caso se tratava de um imenso Boeing carregado até a tampa de combustível, o suficiente para atravessar os Estados Unidos até a Califórnia. O edifício estava em chamas, mas não falamos disso. Agi automaticamente em sequência, com os três arquétipos básicos do cérebro reptiliano:
“Carina, hoje é o Dia da Boa Notícia, você sabe. Você não vai me ligar a cada má notícia, não é? Publique a notícia no site das más notícias...”
Ainda insisti, antes de ela desligar, resignada: “Hoje é o Dia da Boa Notícia!”
Repito a história que contei anteriormente:
Uma mandala indiana antiga tem no centro apenas três animais, que resumem a condição dos mortais comuns: um porco com a cabeça baixa chafurda na lavagem; à sua frente, os pés de um galo, que também pode ser um pavão, que tem diante de seu bico a cauda de uma serpente; esta, por sua vez, está pronta para picar o traseiro do porco. Eles encarnam as três reações psicológicas básicas, relacionadas aos aspectos mais animais da humanidade [...] Assim age o ser humano comum, com três estados de alma, comandados pela parte do cérebro que herdamos dos répteis: concentração hipnótica no chão, na condição orgânica; o susto, o medo e a ansiedade, que induzem a reações automáticas, possivelmente equivocadas; em seguida, um sentimento mau e vingativo toma o comando, como uma cobra pronta para destilar veneno no que se puser à frente.
Naquele momento em que Carina ligou, eu tinha os olhos presos no congestionamento e a mente vazia como a de um porco repastando. Nem me lembro de ter ouvido a notícia no rádio (embora eu acompanhasse as emissoras noticiosas durante todo o trajeto. Devo ter ouvido! Elas devem ter noticiado!...). Quando ela disse aquelas palavras totalmente “fora da casinha”, como dizíamos então, minha cabeça de galinha se agitou feito biruta. Em seguida, destilei o veneno de uma serpente. Tudo que eu queria era voltar a chafurdar no congestionamento e na rotina do script.
Era o Dia da Boa Notícia!
O segundo Boeing atingiu a Torre Sul do World Trade Center dezessete minutos depois do primeiro, às 9h03. Era pilotado por Marwan al-Shehhi, um terrorista sob o comando de Atta. Mas, se a primeira notícia levou alguns minutos para se espalhar, a segunda foi transmitida por câmeras em tempo real e assistida por olhos do mundo todo, que já acompanhavam o fogo consumindo o primeiro prédio. O pas de deux pareceu coreografado para amplificar o efeito do terror.
Quase instantaneamente, meu telefone tocou de novo. Era Carina. A jovem chefe de reportagem ouviu meu “alô” e já disparou:
– Leão, mais um avião bateu na outra torre do World Trade Center, parece que é terrorismo. Eu estou publicando na manchete, quando você chegar aqui, me demite...
Eu fiquei com o telefone na mão, provavelmente pensando naquele barulhinho repetido: pu, pu, pu... Na mesma hora, me dei conta de que ela tinha toda a razão. Hoje até rio ao lembrar, mas naquele momento não consegui esboçar sequer um sorriso irônico.
Era o Dia da Boa Notícia!
Muhammad Atta chegou aos Estados Unidos mais de um ano antes do Onze de Setembro. Foi uma longa preparação em escolas de pilotagem na Flórida, junto com dois companheiros que assumiriam, como ele, a cabine de outros aviões tão logo fossem sequestrados. Faziam tudo como se estivessem estudando para serem pilotos comerciais de Boeing. Atta e seu time conseguiram dissimular perfeitamente as relações que mantinham, os contatos com a rede terrorista internacional e suas intenções em relação aos conhecimentos adquiridos. Entre julho e novembro de 2000, ele acumulou treinamentos em simuladores de voo, conseguiu o certificado de piloto comercial e começou a fazer voos em treinamentos práticos com outros membros da célula terrorista. No Onze de Setembro, estavam bem preparados para provocar tudo que aconteceu.
A ideia do Dia da Boa Notícia também surgiu vários meses antes do Onze de Setembro. Foi um processo longo, primeiro de recusa e depois de preparação. O iG, portal de internet lançado em janeiro de 2000, oferecendo acesso e conteúdo, tinha conquistado a maior audiência do país em poucos meses, graças ao apelo da “internet grátis”, que estava consignado em seu nome. Os milhões de novos usuários, que antes não podiam pagar para usar a rede de computadores, agora acessavam gratuitamente o iG e em seguida navegavam pelos sites, que faziam algumas ações de relacionamento com os usuários, “ativações”, como se passou a nomear depois.
O Último Segundo, o jornal digital da empresa, era o mais informativo dos informativos online no país, publicava por hora um número de notícias maior do que todos os concorrentes, além de comentários, textos opinativos, didáticos, editoriais, era um pioneiro jornal online, completo, enquanto os concorrentes ainda se apresentavam principalmente como listas de notícias sem edição de manchetes, editorias e outras características que compõem um jornal. O nome nasceu de uma adaptação do famoso jornal popular chamado Última Hora, fundado nos anos 1950 e que teve seu auge nos anos 1960. Quando íamos lançar o jornal do iG, primeiro pensamos em “Último Minuto”. Foi o designer Jean Boechat, um jovem mago das artes gráficas digitais, que criou um logotipo muito legal, com um cronômetro que dava uma volta completa no dial em uns poucos segundos. Quando a arte ficou pronta, dias antes do lançamento, ele propôs aos fundadores do negócio: “Fica mais legal se for ‘Último Segundo’”. Fazia sentido. Ganhou!
O Último Segundo era um sucesso. Entre outras novidades, ele fazia intervenções curiosas na cena cultural brasileira. Uma delas, a mais famosa, tinha sido o “Dia sem gerúndio”, com 1.440 textos que não usavam uma única vez essa forma verbal tão rara no português falado em Portugal e tão comum no brasileiro, especialmente devido à absorção viciosa de influências do falar norte-americano. Como no inglês falado o infinitivo dos verbos de expressões como “vou fazer” é substituído por um gerúndio como “I will be doing”, passou a ser comum no Brasil um vício de linguagem envolvendo essa forma verbal: “Eu vou estar fazendo um telefonema”, “Nós vamos estar fazendo uma lasanha para o almoço”. O “Dia sem gerúndio” teve imensa repercussão: nenhum dos textos publicados pelo jornal tinha um verbo no gerúndio – e não fez nenhuma falta.
O Brasil estava muito chato naquele 2001. A desvalorização do real nos primeiros dias do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1999, tinha criado um baixo-astral resistente, uma crise econômica depois de anos de estabilidade, um aumento de preços generalizado, pois quase tudo após a globalização tem algum componente importado e pago em dólares na sua cadeia de produção. A crise inesperada levava mais tempo para ir embora, o “presidente da estabilidade da moeda” perdeu a credibilidade, e, para coroar a depressão, começou no país uma onda de sequestros-relâmpago, atribuída às organizações do tráfico de drogas, que estavam perdendo receita com as ações de repressão policial. As pessoas eram capturadas nos carros ou mesmo em suas casas e levadas para fazer retiradas de suas contas bancárias nas agências ou nos caixas automáticos.
Enfim, o Brasil vivia uma epidemia de más notícias, enquanto os economistas e especialistas em segurança pública garantiam que os dados concretos não correspondiam à impressão causada pelo destaque dado a essas más notícias na mídia. A imprensa era acusada de ter papel preponderante na percepção de baixo-astral. Sei que isso ocorre com frequência, muitas vezes a reclamação é verdadeira. Anos depois eu cheguei a escrever um artigo para a Folha de S.Paulo cujo título era No jornalismo, o crime compensa, mostrando que as estatísticas revelavam uma redução da criminalidade nas grandes cidades do país, mas as notícias seguiam tendo o mesmo destaque, talvez até mais, mantendo a população com a sensação de estar submetida ao crime. Trata-se do funcionamento clássico do terrorismo, que usa a imprensa e sua vocação de destacar más notícias para maximizar o impacto de suas ações. Certamente essa é uma das ferramentas que garantem votos para a extrema direita em todos os países do mundo. A prática jornalística é fundada em ideias que amplificam o efeito da notícia como fato inusual ou “má notícia”. Ditados como “se o cachorro morde o homem, não é notícia, se o homem morde o cachorro, é notícia” e “Boa notícia não é notícia” são passados de geração a geração, desde tempos imemoriais, como mandamentos do jornalismo.
Ainda assim, são muito raros os movimentos para romper ou balancear essa tendência. No início dos anos 1990, na Folha, tínhamos implantado uma prática: todos os dias haveria uma boa notícia no jornal, e ela teria uma chamada fixa na primeira página. Isso valeu por alguns anos e depois sumiu. A jornalista Dilea Frate, que por muitos anos foi o braço direito do ultrapopular Jô Soares, no início dos anos 2000 criou um site jornalístico que se chamava Companhia da Boa Notícia. Há várias outras iniciativas do gênero, que frequentemente se mantêm como ações benquistas e prestigiosas, mas sem audiência. Por isso, eu me mantinha cético quanto a ações desse tipo já desde que Otavio Frias Filho havia proposto a seção fixa na Folha, quando eu era secretário do jornal.
“Vamos fazer um Dia da Boa Notícia.”
Estranhei quando a ideia apareceu em uma reunião de pauta do Último Segundo no início de 2001. Reagi negativamente, citando o ditado inglês: “No news is good news.”
Mas a proposta voltava à pauta com frequência. O principal defensor era meu chefe imediato, vice-presidente de conteúdo da empresa, Matinas Suzuki, que, à parte todos os atributos profissionais, é um amigo de longa data, que havia se tornado uma espécie de irmão mais velho por afeição. Por isso mesmo, era ainda mais chato recusar.
Eu conheci Matinas quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC, em 1979. Ele participava de um jornal feito por estudantes na USP, que eu admirava, e escrevia em jornais alternativos textos sobre música popular brasileira, de que eu gostava. Por isso, defendi sua indicação para professor numa assembleia dos estudantes do novo curso de jornalismo da PUC que faziam uma greve para derrubar o primeiro time de professores, contratado pela universidade, e indicar novos nomes. Apoiei ou indiquei nomes como Matinas e Caio Túlio Costa, editor do jornal Leia Livros, que gozava de imenso prestígio e tinha um time impressionante de jornalistas escrevendo suas resenhas e matérias. Ambos se tornaram professores.
Logo que terminei a faculdade, em dezembro de 1982, os dois tinham acabado de ser contratados pela Folha, e Matinas foi promovido a editor da Ilustrada, o caderno que todos os jovens estudantes liam. Ele me convidou para escrever críticas de rádio, em janeiro de 1983, iniciando uma longa passagem pela Folha, até 1994, quando fui para o concorrente Estadão editar o segundo jornal da casa, o Jornal da Tarde. Matinas ficou mais três anos e saiu também. Nos reencontramos brevemente na Editora Abril, quando editei a revista Placar, em 1999, e, no fim do mesmo ano, Matinas me convidou para montar o time do que viria a ser o iG, que ele comandaria. Os investidores eram Nizan Guanaes e Aleksandar Mandic, junto com a poderosa financeira GP Investimentos, que era parte do grupo controlador da Telemar, empresa de telefonia que tinha a concessão para a região do Rio de Janeiro.
Era a chamada proposta irrecusável. Matinas era vice-presidente de conteúdo e me nomeou diretor de jornalismo. O iG foi posto no ar sigilosamente nos últimos dias de dezembro e teve imensa campanha publicitária a partir do dia 9 de janeiro de 2000. A campanha fez um sucesso estrondoso, com um cachorrinho como mascote e como trilha sonora a canção Aluga-se, de Raul Seixas, cantada pelos Titãs. O bordão Nós não vamos pagar nada, é tudo free... tocava mais no rádio e na tevê do que qualquer sucesso musical daquele momento. A empresa investiu 20 milhões de dólares (50% de todo o orçamento de marketing previsto para o ano) em pouco mais de um mês. Ninguém no Brasil ficou imune à mensagem do iG. “Criamos um portal de internet grátis e uma raça de cachorro”, brincava Nizan, pois, desde então, os cães da raça West Highland White Terrier passaram a ser conhecidos como “iG”.
Como tínhamos passado a maior parte da vida profissional juntos, eu intuía que Matinas não tinha criado o Dia da Boa Notícia. Achava que ele estava realizando uma ideia do presidente da empresa, Nizan Guanaes, um dos mais criativos entre a elite da publicidade brasileira, marcada por anúncios sempre com fortes pitadas de humor. Nizan tinha 41 anos quando fizemos o iG. Nascido na Bahia, ele tinha uma trajetória de sucesso impressionante, com início em Salvador, depois no Rio e em São Paulo, trabalhando em agências de publicidade famosas, como Artplan e DPZ, e depois com Washington Olivetto, com quem travava uma disputa de egos – maiores do que as torres do World Trade Center. Por superstição, tudo que faz tem um número 9. Por isso, decidiu comprar uma marca do publicitário Duda Mendonça, a DM9, para criar sua própria agência, em 1989. Dez anos depois, em 1999 (de novo, o nove), vendeu-a por uma pequena montanha de dinheiro. Uma parte do que recebeu, decidiu investir no projeto do iG, a primeira empresa a oferecer acesso gratuito à internet no país (uma tendência que estava começando em outros países).
Internet grátis era uma ideia meio óbvia, e parecia incrível que não tivesse surgido antes: as empresas telefônicas ganham dinheiro quando os usuários usam sua infraestrutura para acessar a rede. Portanto, não há por que cobrar uma taxa de acesso, que limita a capacidade de o usuário permanecer usando a rede. A taxa reprimia o crescimento da internet no país. Em vez de cobrar esse pedágio, como faziam as empresas pioneiras, as empresas de telefonia passaram a cobrar apenas a conta telefônica. Como vimos, o iG tinha como sócia fundadora a Telemar, telefônica do Rio.
Logo no primeiro mês de vida, o iG provocou a adesão à internet de mais gente do que todos os assinantes de todas as empresas de internet existentes no Brasil até então. Foi realmente uma explosão (“democratização” era o termo que usávamos). Então, como o iG se tornou líder de acesso, seus sites viraram líderes de audiência. E, como oferecíamos conteúdos atraentes, os novos usuários ficavam navegando pelo próprio iG e seus sites, garantindo bom faturamento publicitário também.
Não só por tirar clientes dos portais pagos, o sucesso do iG foi sustentado pela captação de usuários que nunca tinham utilizado internet ou só o faziam em locais públicos (universidades, empresas ou cybercafés, muito populares na época), por falta de dinheiro para pagar pela taxa de acesso. Assim, deixando de cobrar o pedágio, como faziam as empresas intermediárias (em outros segmentos da economia são chamadas de “atravessadoras”), a empresa atingiu um sucesso que nem a mais otimista das previsões havia projetado. Foi nesse contexto que chegamos àquele momento.
Era o Dia da Boa Notícia!
“Vamos fazer um Dia da Boa Notícia?”, Matinas repetia semanalmente a pergunta, e eu resistia. Até que um dia baixou o “Samurai Suzuki” (como o chamávamos às vezes). Ele me disse: “Leão, nós vamos fazer um Dia da Boa Notícia! Quando será?”
Eu entendi que agora a proposta não estava mais em discussão, então ponderei: “Ok, me dê um mês para que os repórteres produzam matérias especiais com boas notícias, que vamos guardar e pôr no ar nesse dia, porque não ocorrem tantas boas notícias em um único dia a ponto de preencher o site.” Naquela altura nós publicávamos 1.440 notícias por dia, uma por minuto. Nem tudo era produzido por nossa redação, muitas eram captadas diretamente dos serviços noticiosos das agências (como Reuters e Associated Press) e dos parceiros (Bloomberg, BBC e outros). Matinas topou.
Pedi também outra coisa:
“Vamos manter a publicação de todas as notícias, boas e más, em um site que não vai ficar exposto na home do iG. Ao final de cada texto nesse dia, vamos publicar um link: ‘Se você quer ler também más notícias, clique aqui.’ Quem clicar, abre o site completo, com boas e más notícias.”
Matinas também topou.
“Ok, vamos fazer esse site paralelo. E vamos fazer o Dia da Boa Notícia daqui a um mês. Que dia é hoje?”, perguntou Matinas.
“11 de agosto”, respondi.
“Fechado! O Dia da Boa Notícia vai ser 11 de setembro.”
O Dia da Boa Notícia já começou a naufragar pouco antes da meia-noite do dia 10 de setembro. Em torno de 23h45, me ligou Diego Toledo, o editor da homepage do iG, durante a madrugada. Eu estava jantando com amigos no Lika, restaurante japonês predileto do bairro da Liberdade, a Chinatown paulistana. O celular identificou a ligação e eu atendi com presteza.
“Leão, teve um atentado em Campinas e foi assassinado o prefeito Toninho do PT.”
Segunda cidade mais rica e terceira mais populosa do estado de São Paulo, Campinas fica a cerca de 100 km da capital, em um entroncamento de estradas, muitas existentes desde o tempo do Brasil Colônia, como o caminho indígena do Peabiru, que juntava o litoral onde hoje fica a cidade de São Vicente a localidades incas nos Andes. Essa característica de cruzamento de culturas garantiu sempre a sua condição de centro irradiador, a primeira porta do interior para quem vem de São Paulo ou, ao contrário, o anúncio da chegada da grande metrópole para quem vem do interior. Campinas era também um epicentro da onda de sequestros que tanto destaque ganhava no noticiário.
O arquiteto Antônio da Costa Santos, 49 anos, do Partido dos Trabalhadores, que fazia oposição ao governo do estado e ao governo federal, não tinha completado um ano no cargo quando foi a um shopping center da cidade, o Iguatemi, para buscar um terno que tinha encomendado. Saiu guiando o próprio carro, em torno de 22h20 do dia 10 de setembro. Foi alvo de três disparos feitos de outro carro; um deles atingiu sua artéria aorta. O crime, enterrado em uma lista imensa de interrogações, jamais foi esclarecido, e desde 2021 está prescrito. Era uma notícia muito importante – o prefeito de uma das maiores cidades do país e estrela ascendente da política brasileira foi assassinado.
Fiz várias perguntas ao Diego, que parecia ter se informado bem antes de ligar: atirador não identificado, não há suspeitos, há algum sinal de assassinato político, morreu imediatamente, estava sozinho no carro...
“E daqui a quinze minutos começa o Dia da Boa Notícia”, ele lembrou.
Sou dado a soluções rápidas e, para irritação de minha mulher, costumo repetir sempre uma brincadeira: “Meu nome é Solução!” As chamadas jornalísticas na homepage do iG e do Último Segundo eram sempre onze: a manchete principal e mais dez, alinhadas em duas colunas de cinco, bem no centro da tela do computador. Cada uma das dez chamadas tinha uma linha em letras maiúsculas e corpo pequeno, que continha o nome da editoria; e duas linhas com o título em letras maiúsculas e minúsculas.
“Vamos fazer a décima chamada da homepage, a última de baixo da coluna da direita, como se fosse editoria, MÁ NOTÍCIA. E no título, logo abaixo: Assassinado em Campinas o prefeito Toninho do PT. Você deixa essa chamada a noite toda, ela vai ser a única má notícia na homepage. Na reportagem interna, você sempre atualiza a mesma reportagem, de forma que quem clicar na chamada da home encontre sempre a notícia atualizada.”
Diego gostou da solução. Nos despedimos lembrando que, depois dessa, não havia mais notícia ruim. Já seria o Dia da Boa Notícia.
Ainda hoje não se sabe ao certo quando Muhammed Atta acertou com Osama Bin Laden que os atentados seriam realizados em 11 de setembro. Mas há toda uma numerologia que sugere que a data possa ter um simbolismo que levou à escolha desse dia antes mesmo dos preparativos concretos dos atentados. O último contato pessoal entre Atta e Osama Bin Laden ocorreu em uma viagem ao Afeganistão no início de 2000, quando provavelmente os dois combinaram os últimos detalhes do que viria a ser o maior ataque terrorista da história.
Depois dessa visita dos principais chefes da chamada “célula de Hamburgo” ao líder da Al Qaeda, eles voltaram para a Alemanha. Cada um, separadamente, declarou à polícia local que tinha tido o passaporte roubado ou extraviado (a forma clássica para apagar os traços de viagens ao Afeganistão, que já era considerado pista de radicalização), e passaram então a buscar vagas em escolas de pilotos nos Estados Unidos. Mudaram-se para o país em torno de junho e moraram juntos em Nova York até acertar com escolas da Flórida, sempre sem serem percebidos como terroristas.
Em viagens à Europa, Atta deve ter encontrado emissários de Bin Laden com os quais discutiu diferentes aspectos da operação, desde logo o financiamento, que exigia custos de viagem e instalação dos envolvidos, bem como o custeio dos cursos de piloto para os líderes (os demais, chamados “músculos”, tinham a função de render a tripulação e os passageiros).
Quando já estavam morando nos Estados Unidos, os terroristas tinham comunicação cifrada, usando outros nomes e sistemas de mensagens para sincronizar exatamente os passos que resultariam na coreografia perfeita que realizaram no Onze de Setembro.
Enquanto Muhammed Atta coordenava a preparação final de sua pequena falange terrorista para o seu “dia D”, de meu lado, eu coordenava a preparação de nosso time de jornalistas para o Dia da Boa Notícia.
Assim que cheguei à redação naquela manhã de 11 de setembro, já diante de toda a tragédia em cascata provocada pelos atentados, a primeira coisa que fiz foi cumprimentar Carina Martins pela coragem de pôr o jornalismo e o leitor acima de tudo, inclusive da ordem dogmática do chefe.
Também já tinha chegado ao jornal o Francisco Itacarambi, o Chico, outro jovem jornalista que tinha ganhado rapidamente muita experiência, a qual somou a uma capacidade inata para a liderança.
As televisões mostrando o incêndio e repetindo a cena do segundo avião batendo na Torre Sul, dezessete minutos depois do primeiro avião, quando já havia câmeras filmando o primeiro prédio em chamas... Até hoje é uma cena que impressiona, atrai os olhos de qualquer um como um ímã. Eu me sentei para ver a cena, um minuto, dois minutos, dez minutos. “Decifra-me ou te devoro”, me dizia a imagem.
Até que Chico levantou-se da cadeira e disse: “Pessoal, vamos fazer jornal, porque a história está correndo e os leitores querem ler as notícias. Senão vão todos preferir a televisão.” Ele tinha razão.
Enquanto isso, eu tentava falar com Matinas, que estava com o celular desligado enquanto dava aula na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, onde era professor. Quando finalmente terminou a aula e me ligou, aplaudiu a decisão de Carina de reverter o Dia da Boa Notícia. E disse: “Vou escrever um editorial explicando ao leitor o que aconteceu.”
O texto curto passou a entrar na tela dos usuários que acessavam o iG, como um “pop-up”, uma janela que se abria sobre a homepage. O texto desde então se perdeu, mas dizia mais ou menos o seguinte: “Nós tentamos fazer um dia só de boas notícias. Mas não foi possível. A história viveu hoje um grande apressamento e nos atropelou.”
Foi assim que acabou, ainda de manhã, de forma melancólica, em meio a uma das maiores tragédias da história, o Dia da Boa Notícia.
As reportagens produzidas anteriormente e reservadas para serem publicadas no Dia da Boa Notícia, assim como as apuradas no início da manhã daquele dia, tratavam de temas como bons índices econômicos, ações humanitárias e iniciativas que melhoravam a vida de comunidades carentes. Curiosamente, todos os jornalistas daquele time com quem eu converso hoje têm uma memória fragmentada, estilhaçada, por assim dizer, daquele dia. Não consigo puxar de minhas lembranças mais do que uma reportagem que pedi que fosse feita na região central da cidade de São Paulo, onde um grupo de jovens levava comida e, nas noites frias de inverno, agasalhos para moradores de rua. Também havia pautado uma reportagem mostrando os albergues para pessoas em situação de rua que ofereciam um atendimento bastante humanizado, melhor do que a imagem que aqueles não envolvidos possam ter desses locais, o que talvez reduza a procura por abrigo. E só. Não me lembro de nenhuma outra pauta.
Carina, a chefe de reportagem de providencial rebeldia, lembra-se de uma história publicada que teve ampla repercussão e que foi tema de reportagem de outros veículos posteriormente. Era a história de um morador de uma comunidade na Zona Sul de São Paulo que projetava filmes em uma tela na laje de sua casa, criando um cinema comunitário, uma opção de lazer e cultura numa área carente dos dois.
Carina sugeriu que eu falasse com o repórter Darlan Alvarenga para recuperar mais boas notícias. Quando o contatei, ele riu e disse: “Esse dia continua nos perseguindo...” E contou: “Lembro de ter feito uma reportagem sobre uma unidade-modelo da Febem, a fundação estatal responsável pelos menores infratores, que liderava na época os índices de ressocialização. Mostrava as oficinas e trazia entrevistas com internos.” Essa reportagem já estava pronta no dia anterior e publicada.
Depois, lembra Darlan, assim que chegou ao trabalho para produzir uma outra história, deu com a redação já em polvorosa diante dos atentados. Já estava tomada a decisão de abortar a sequência de boas notícias: “Fui pra rua mostrar a reação das pessoas que ficaram sabendo das Torres Gêmeas ao andarem pelas ruas e verem lojas e bares com tevês ligadas, acompanhando fixamente a cobertura dos atentados.”
Esse apagamento total dos fatos menos importantes diante de um momento de grande impacto é normal. O cérebro humano funciona como uma primeira página de jornal, reservando na memória espaços para várias histórias. Mas, se uma ocorrência entre elas tem um impacto maior, dominante, a “primeira página” vai ser ocupada inteiramente por ela, deixando esquecidas ou para as páginas internas e opacas as de menor interesse. Essa síndrome típica do estresse nos abateu a todos.
Para piorar: dois anos depois o iG teve uma mudança de softwares e as páginas do período anterior foram deletadas. Perdemos a memória e o banco de dados.
“Pessoal, vamos fazer jornal, porque os leitores querem ler a notícia.” Logo depois que Chico se levantou e fez com que acordássemos para começar a alimentar o site, aconteceram mais coisas impressionantes, essas inteiramente cobertas pelas tevês, filmadas em cada detalhe. Embora tenha sido atingida depois, às 9h03, a Torre Sul cedeu e ruiu inteira sobre si mesma às 9h59, 56 minutos depois da colisão e da explosão do avião cheio de combustível contra os andares em torno do 80º piso. Os terroristas provavelmente sabiam, mas nós não, que a estrutura de metal que sustentava as Torres Gêmeas, uma obra sensacional de engenharia, derreteria diante de um desafio como aquele incêndio com todo o combustível de um imenso Boeing. A Torre Norte desabou às 10h28, 102 minutos depois que Muhammed Atta entrou com o jato entre os andares 93 e 99, bem no alto do edifício. Só engenheiros podem explicar por que a torre atingida depois caiu primeiro e por que a terceira torre, que não tinha sido atingida por aviões, também pegou fogo e ruiu no final da tarde.
Um aspecto pouco lembrado é que o World Trade Center abrigava data centers cruciais do sistema de comunicação que forma a internet. Empresas como AT&T e Verizon tinham ali “nós” da World Wide Web, a rede mundial de computadores, concebida para que, se um de seus elos se rompesse (originalmente pensavam em um ataque nuclear soviético, durante a Guerra Fria), a comunicação encontrasse sempre caminhos alternativos para se completar. Isso de fato aconteceu, a partir do dia seguinte. No entanto, logo após o acidente, os incêndios e a queda dos prédios derrubaram o trânsito de informações pela internet por várias horas, reduzindo a capacidade de comunicação da rede ao longo do dia e mesmo nos dias seguintes.
No dia em que o mundo mais precisava de informações, com bilhões de pessoas curiosas em todo o globo, o novo sistema de comunicação, que já conquistava o planeta, falhou. O iG também. Quando os usuários clicavam para ver o site, demorava muito para abrir, assim como cada título ou link em que o leitor clicava, tanto que as pessoas achavam que estávamos travados, fora do ar. A solução foi criar uma página levíssima (“hotsite”, como chamávamos), apenas com as notícias sobre a tragédia, sem elementos gráficos ou imagens, só os títulos noticiosos. Todas as outras chamadas para os sites, as imagens, fotografias etc. foram “derrubadas”. Ficamos com uma página que se parecia com aquelas dos primeiros tempos da internet, bem simples. Com isso, no entanto, o download da página voltava a ocorrer em segundos e conseguimos atender os espectadores.
Se a queda da internet para todos era um problema, para o Último Segundo era ainda pior, mais uma entre todas as más notícias que nos torturaram naquele que deveria ser o Dia da Boa Notícia.
A lógica do terrorismo é maximizar o impacto de suas ações, para provocar uma percepção de poder que os terroristas não têm. A Al Qaeda não tinha um poder militar para fazer frente aos Estados Unidos, mas com cerca de duas dezenas de pessoas em quatro aviões sequestrados perpetrou um atentado que abalou a credibilidade da segurança dos Estados Unidos, com toda a sua superpotência. O ataque foi planejado para explorar os meios de comunicação. A primeira explosão não foi vista por muita gente, mas o incêndio atraiu todos os olhos e câmeras do mundo, que se voltaram para o World Trade Center a tempo de testemunhar o momento em que o segundo avião se aproxima e se choca contra a Torre Sul, provocando imediata explosão. A cena foi filmada por todos os ângulos e transmitida para todos os veículos de comunicação do mundo.
É algo inesquecível; nem mesmo roteiristas de filmes trágicos pensaram a magnitude simbólica e real daquele atentado. Vinte anos depois, quando eu dirigia o jornalismo da TV Cultura, produzimos um documentário que era composto apenas de depoimentos de pessoas, centenas delas, famosas ou não, dizendo onde estavam na hora do atentado de Onze de Setembro. Não há quem tenha esquecido o momento exato em que soube, o impacto da notícia e como todos ficaram tomados pela cena.
Para mim, a memória ainda é mais poderosa, porque eu vivia o trauma do Dia da Boa Notícia.
Um mito grego diz que, no instante imediato antes de nascer, as almas bebem de uma água mágica e esquecem todas as promessas e potencialidades, o destino que deveriam cumprir. Cada um de nós só vai se reconhecer como aquela alma e se reconectar com aquele plano ou destino no instante da morte, quando o mapa de seu projeto estiver finalmente realizado.
Certa vez eu editei um livro composto por uma seleção de obituários da Folha de S.Paulo. Foi um convite honroso de Otávio Frias Filho. Sabia que ele adorava o estilo jornalístico desses textos e o livro de obituários do The New York Times. Eu tinha a mesma predileção e adorei o desafio. Ao final da apresentação do livro, escrevi dois parágrafos:
Um antigo mito grego conta que a alma, antes de se depositar em uma pessoa que vai nascer, escolhe a vida que terá. Tudo está acordado, todos os detalhes de cada minuto de cada dia de cada ano de todo o percurso que será vivido. Feitas as escolhas, determinadas as missões e suas consecuções, as almas iniciam o longo caminho rumo ao mundo dos vivos. Durante esse percurso, elas atravessam um rio chamado Lete, ou Esquecimento. Sedentas, bebem de suas águas e, como deve ser, esquecem o destino que escolheram, perdem o mapa do caminho de sua vida. As narrativas do mito não dizem isso, mas tenho certeza de que ao final da vida, no caminho de volta ao mundo dos mortos, as almas rememoram o acordo e sua realização, e só então se dão conta da missão cumprida.
Há implicitamente uma espécie de intenção divina no trabalho dos jornalistas que compõem os textos deste livro: diariamente, eles tentam decifrar em poucas linhas a essência de uma vida, como se tivessem que desvendar o mapa deixado à margem do Rio do Esquecimento. Todos os dias, os textos publicados na seção de Mortes devem retratar toda a riqueza de uma biografia em pouco mais de mil letras, cerca de duzentas palavras. Quanto melhor o texto, mais o redator terá conseguido captar a alma de seu personagem. É um funeral jornalístico, laico como são os jornais.
Muhammed Atta deve ter recordado seu destino ao explodir com a primeira Torre Gêmea. Encontrou o inferno. Se não foi esse o destino consignado do “mapa do caminho” de sua vida deixado às margens do Rio Lete, nem o tinhoso vai ousar corrigir – o jornalismo repetindo 1 milhão de vezes seu nome na notícia que dizia “Um avião bateu no World Trade Center” fez de toda a sua vida algo irrelevante; a única coisa que importa de todos os seus dias e sua história é aquela:
“Ele bateu um avião no World Trade Center…”
Pode ter sido tudo culpa do fato de que, diferentemente de nós, brasileiros, que vemos naquele dia o número 11-9, os americanos enxergam 9-11, exatamente o número de emergência, que seria acionado inutilmente milhões de vezes naquela manhã em Nova York, congestionado pela população desesperada.
Um milhão de vezes mais uma: “Um avião bateu no World Trade Center…”
Os numerólogos procuram encontrar destinos na simbologia tradicional dos números expressos nas datas. 9 + 11 = 20, tira-se o zero = 2.
O dois é um símbolo de harmonia, de complementaridade, de união. Mas é também o duplo, aquele segundo que não é o primeiro, que tenta se passar por ele, que ilude pela semelhança. É o Doppelgänger alemão, o sósia fantasmagórico ou gêmeo maligno, o duplo semelhante, como um Golem. O diábolo.
No instante em que o Boeing se chocou com a Torre Norte do World Trade Center, Muhammed Atta percebeu que seu destino estava selado.
É possível que na intensidade daquele dia eu também tenha visto, ainda que de relance, o que estava escrito em meu destino, mas, assim como me esqueci dele ao nascer, naquele dia não me dei conta disso, não entendi, ou esqueci novamente.
Sei apenas que toda a minha vida, a trajetória pessoal e a profissional, pareceu de repente se resumir a um aposto:
“O editor do Dia da Boa Notícia.”