vultos da dramaturgia
Tiago Coelho, do Rio de Janeiro Mai 2026 09h32
18 min de leitura
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Nas gravações da novela Três Graças, da TV Globo, havia pelo menos duas músicas capazes de despertar emoções profundas no cantor Belo, intensificando a sua atuação. A preparadora de elenco Fernanda Rocha, responsável por orientá-lo, prefere manter os títulos em segredo. “Durante a preparação para a novela, ele acessou lugares muito profundos. Não sei se devo revelar, porque isso é um trunfo do meu trabalho.” Fernanda me mostrou as músicas e pediu que eu não as citasse, mas não me proibiu de deixar algumas pistas pelo caminho. As músicas, de todo modo, não são o único nem o principal recurso usado por ela para preparar Belo, um estreante na dramaturgia.
Em Três Graças, que termina nesta sexta-feira (15), Belo interpretou Misael, morador de um bairro pobre de São Paulo que se entrega à bebida depois da morte da esposa, intoxicada com remédios falsos. Os remédios foram fornecidos pelo empresário corrupto Santiago Ferette, vilão vivido por Murilo Benício e responsável pela tragédia. Consumido pela dor, Misael transforma o luto em um desejo crescente de vingança.
O primeiro encontro
Belo foi chamado para um teste na Globo em maio do ano passado. Imaginou que faria apenas uma participação curta na novela, mas os diretores gostaram do resultado e decidiram estender seu papel. Eles sabiam, porém, que o cantor precisaria de preparação, já que nunca havia atuado. Em junho, quatro meses antes da estreia da novela, Belo e Fernanda Rocha se encontraram numa pequena sala de preparação dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Havia apenas uma mesa e algumas cadeiras.
“Como é que você está chegando?”, perguntou Fernanda Rocha, que, quando conversa com novatos, tenta entender o estado de espírito em que se encontram.
“Empolgado. Empolgadíssimo”, respondeu Belo.
Os dois começaram então a ler as primeiras cenas de Misael, um personagem complexo, cheio de nuances. Ele começaria a novela bêbado e enlutado.
“Sabe, eu não bebo. Nunca bebi”, disse Belo à preparadora ao passar pelas cenas em que o personagem aparece embriagado. “De onde vou tirar experiência para viver esse cara?”
“Você não viveu a bebedeira, mas você trabalha na noite. Deve ter conhecido muitas pessoas alcoolizadas”, respondeu Fernanda.
“Ele é um cara da periferia de São Paulo, de comunidade. De onde eu vim. E tem um senso de justiça forte, gosta de ajudar amigos, vizinhos. Gosta de ajudar os outros”, continuou Belo, analisando o personagem.
Cena a cena, naquela leitura de mesa, a preparadora e o pupilo conversaram sobre o personagem. Buscavam juntos entender sua personalidade, emoções e motivações.
“A Fernanda foi muito importante nessa construção, porque ela começou a puxar as histórias que eu já tinha vivido. Estou na noite há muitos anos. Já vi muita coisa. Já vivenciei muita coisa”, disse Belo à piauí, quando a novela já estava no ar.
A preparadora se refere a essa primeira fase de leitura do roteiro como “abertura de possibilidades” – um momento para pensar o personagem e seu contexto dramatúrgico. “É quando você expande a cabeça do ator e deixa ele preparado para, na hora da cena, estar disponível para o jogo cênico com os colegas e para o comando da direção.”
Fernanda queria que Belo chegasse “vivo” na hora da gravação, capaz de reagir ao que acontecia em cena, não apenas reproduzindo uma emoção decorada. “Há diferentes maneiras de sentir, falar, reagir, silenciar, olhar. Eu quis que a preparação fosse menos uma definição fechada de ‘como interpretar’ e mais uma investigação. Isso é especialmente importante no audiovisual porque as gravações são fragmentadas, com mudanças de última hora, e exigem grande capacidade de adaptação”, ela diz. “É muito perigoso quando o preparador entrega o texto para o ator e diz: ‘Esse é o caminho certo.’ Um ‘eu te amo’ pode ser dito de muitas formas. Então, ali naquela mesa, a gente estava justamente abrindo possibilidades e discutindo as emoções do personagem.”
O exercício acabou desembocando numa conversa íntima, atravessada por lembranças do passado. “Eu tive um problema de alcoolismo na minha família, com meu pai”, confidenciou Belo à preparadora. “Meu pai faleceu quando eu era muito jovem, 18 para 19 anos. Precisei assumir mais responsabilidades em casa. Já tinha dois filhos e cuidava da minha mãe, na periferia de São Paulo. Havia muitos Misaéis onde eu cresci.”
Embora a experiência do mundo real seja importante para dar consistência à atuação, Fernanda sempre estimula que o ator busque as emoções no personagem e no jogo cênico, e não tanto em sua própria biografia. “Mas às vezes isso acontece”, diz a preparadora, que se formou em artes cênicas pela Unirio. Vem de longa data o debate sobre acessar emoções pessoais para produzir verdade cênica. O Method Acting, por exemplo, que surgiu nos Estados Unidos dos anos 1930 e influenciou Marlon Brando e James Dean, estimula que os atores recorram às memórias para demonstrar sentimentos autênticos. Mas outras correntes criticam esse método por considerar que ele pode ser danoso aos atores, que se veem forçados a reviver traumas de forma recorrente.
Havia ali um caminho para se pensar no Misael. Era junho e Belo estava com a agenda cheia de shows por causa dos festejos de São João. Ele propôs que Fernanda viajasse com ele para trabalhar na estrada, mas ela explicou que o trabalho de preparação exigia uma maior concentração. Eles combinaram então de marcar outras datas.
“O Belo é muito corajoso. Ele não estava entrando para perder e fazer qualquer coisa. Ele me disse: ‘Quero muito fazer bem.’ Não mostrava ter muitos medos”, diz Fernanda.
Ao fim do primeiro encontro, Belo disse:
“Quero muito fazer bem esse personagem. Vou precisar de você. Tamo junto?”
“Tô contigo”, respondeu a preparadora.
“Posso te dar um abraço?”
Se abraçaram.
Os encontros seguintes
Depois da leitura, vieram os exercícios de corpo e voz. Começava a fase da imersão, que durou mais alguns dias até a estreia, em outubro. A preparadora conversou com Belo sobre a maneira ideal de usar a voz na televisão.
“Uma das principais questões da atuação é como impostar a voz. No teatro, a gente joga a voz para uma plateia. Mas quando você está atuando na televisão, seu colega está bem perto de você. Há microfones captando a sua voz. Pouco importam as pessoas que estão acompanhando a cena fora do estúdio. A sua voz tem que chegar para o colega que está próximo de você em cena”, explicou Fernanda para o novato.
Logo no primeiro capítulo, Misael aparece bêbado numa cerimônia em homenagem a Ferette e causa um escândalo, gritando que o vilão lucra às custas da enfermidade dos pobres. Ferette manda seu capanga perseguir Misael pelas ruas de São Paulo. A preparadora, então, indicou a Belo exercícios que simulassem um jogo corporal de caça e caçador. Ela o perseguia e ele precisava fugir. “Com isso, eu abria nele esse estado de sensação para que, ao chegar à cena, ele conseguisse acessar o que era necessário. Porque, num set de televisão, tudo acontece muito rápido”, diz a preparadora.
A ideia era que Belo criasse uma memória física de ameaça e vigilância. Em vez de trabalhar apenas a emoção de maneira abstrata, a preparadora buscava provocar respostas concretas do corpo. No ritmo industrial da novela, com gravações de cinco a doze cenas por dia, esse tipo de preparação ajuda o ator a acessar rapidamente determinados estados emocionais sem depender apenas da inspiração do momento.
A primeira música misteriosa
Nos ensaios, a música se tornou um recurso importante para dialogar com um artista que vem da música.
“Trabalhei com ele em cima de sensações. A partir da música, exercitamos o desequilíbrio. Eu queria dar a ele a percepção de instabilidade”, diz Fernanda Rocha. “Ele começava a novela bêbado e de luto. Como você prepara um cara que não bebe e não conhece essa sensação?”
A preparadora diz que cada ator requer um tipo diferente de estímulo. “Seres humanos são muito diferentes, não para acessar de um jeito só.” Ela tenta criar estados sensoriais e psicofísicos, não se restringindo à interpretação racional das emoções. Ao usar músicas para criar um estado inebriante, exercita o corpo e a percepção do ator para que ele acesse emoções como luto, confusão e embriaguez. Um método que dialoga com conceitos de memória emotiva e sensorial de teóricos como Stanislavski e Strasberg.
A música que Fernanda usou para deixar Belo num estado vertiginoso é instrumental, de um compositor inglês, feita para um filme que retrata a degradação física e emocional causada pela dependência química. Ela cria uma atmosfera sombria e uma impressão de caos emocional. É um tanto agressiva e melancólica. Remete à obsessão e ao colapso psicológico. Seu arranjo soa como uma espiral hipnótica e emocional.
Belo aprova o método. “A Fernanda ama essa coisa de música. E foi uma boa decisão, porque ela foi para um universo que é totalmente meu, que meu corpo domina. Ela trouxe músicas com batidas e arranjos que me trouxeram frequências sensoriais de tristeza, de sono, de alegria, de energia. É uma preparadora excepcional.”
A preparação durou um mês. Antes do início das gravações, em junho, todo o elenco se reuniu para se conhecer. Rolaram jogos de improvisos. “O Belo estava disponível para essa interação com os colegas. Fez improvisação com a Dira Paes e o Marcos Palmeiras. E o encontro terminou com ele cantando. Esse acolhimento dos veteranos foi muito importante para ele se sentir confiante”, diz Fernanda.
Começa a gravação
Além de Fernanda Rocha, a novela Três Graças contou com outras duas preparadoras de elenco e uma fonoaudióloga. Ao todo, eram quatro profissionais dedicadas a apoiar os atores. Fernanda entrou para a novela por indicação das outras preparadoras, que já conheciam seus trabalhos no cinema e no streaming, especialmente sua experiência na preparação de atores mirins.
O primeiro passo de uma preparadora de elenco numa novela é se reunir com a direção para trocar ideias e alinhar as expectativas em relação aos atores. A preparadora atua como um elo entre o elenco e a direção, mediando as demandas criativas de cada lado.
Embora haja uma preparação prévia, é no estúdio que o trabalho realmente ganha forma. A primeira cena em que Misael, personagem de Belo, enfrenta Bagdá, interpretado pelo ator e também cantor Xamã, foi acompanhada discretamente por Fernanda, que assistia a tudo por um pequeno monitor, com fones de ouvido. Badgá era um traficante; Misael, um líder comunitário. Antes que a câmera começasse a rodar, os dois ensaiaram. Fernanda fez uma observação que mudou o comportamento de Belo.
“Durante o processo de construção do Misael, nós percebemos coisas que nem sempre estavam explícitas no texto. Entendemos que ele era um líder, alguém que cuidava dos moradores e enfrentava o traficante da comunidade. Num dos ensaios no estúdio, percebi que o Belo abaixava o olhar durante esse embates. Chamei ele de lado e disse: ‘Não, você não abaixa o olhar. Você encara, porque ali existem dois líderes em confronto.’ A mudança de um olhar transforma a cena”, ela diz. “A voz revela imediatamente quando algo não é verdadeiro. Eu, por exemplo, não tenho a capacidade de perceber quando um músico desafina, mas, no ator, a falta de verdade é clara.”
A primeira gravação de Belo para Três Graças aconteceu em São Paulo, no início de julho. Foi uma externa em um ferro-velho, e marcou também seu primeiro encontro com Marcos Palmeira diante das câmeras. Fernanda conta que o clima era de ansiedade na equipe. Por melhor que seja um ensaio, tudo muda no momento em que a câmera é ligada. “Eu estava muito nervosa, e acho que todo mundo também. Era a estreia dele, então surgia aquela pergunta inevitável: ‘Será que vai dar certo? Como vai ser?’”
A cena era curta e continha um desafio extra: Belo interpretaria um acontecimento fora da ordem cronológica do roteiro. Seu personagem, Misael, aparecia bêbado e machucado depois de um acidente que ainda não havia sido gravado. Mesmo apreensiva, Fernanda pôde notar naquele momento uma qualidade do cantor. “Desde a primeira cena eu vi que ele escutava em cena. E isso, para mim, muda tudo. Tem ator que fica preocupado com a própria fala, querendo mostrar emoção. Mas, quando você escuta o outro de verdade, você está presente, a emoção vem. Quando vi ele escutando os outros atores, pensei: ‘Cara, ele está em cena.’ Ali eu entendi que ia dar certo.”
A reação da equipe foi semelhante. “Já no primeiro dia, as pessoas começaram a falar no estúdio: ‘Tá funcionando!’ Elas esperavam ver o Belo, mas viam o Misael.”
Fernanda acredita que parte dessa transformação se deve à caracterização. O visual do personagem ajudava a romper com a imagem pública já cristalizada do cantor. Para interpretar Misael, Belo escureceu os cabelos que antes eram platinados, cultivou um cavanhaque e ganhou peso. Seu figurino era composto de roupas simples. “Isso tirou completamente a imagem que as pessoas tinham dele. Foi engraçado: na primeira vez que ele saiu caracterizado pelos corredores da Globo, muita gente nem reconheceu.”
O segundo dia de gravação aconteceu ainda naquela semana, durante uma madrugada gelada no Centro de São Paulo. Belo estava gripado e gravava uma sequência em que Misael caminhava bêbado pelas ruas, perseguido pelo capanga de Ferette. Fernanda lembra que passaram alguns bêbados de verdade pela rua e, por um instante, a equipe de filmagem confundiu Belo na multidão. Ele se camuflou. Mesmo os curiosos que paravam na rua para acompanhar a filmagem não percebiam a presença do cantor.
Fernanda diz que Belo se entregou ao processo de aprendizagem. “Ele queria entender posicionamento de câmera, de luz. Passou a me chamar de professora e dizia: ‘Se você está dizendo que está bom, eu confio.’” Ao longo das gravações, ela percebeu que o cantor foi conquistando os colegas de elenco. A parceria com Marcos Palmeira foi uma das mais importantes. “Os dois criaram uma sintonia bonita. O Marquinhos ligava depois das cenas, comentava o trabalho, dizia que estava gostando muito do que via.”
Mesmo assim, Belo teve momentos de insegurança. Como no primeiro dia de gravação em estúdio, num velório, com muitos atores em cena e o ritmo acelerado típico das gravações internas com muitas câmeras. Belo baqueou. “Ele saiu achando que tinha ido mal. No dia seguinte, falou que nem tinha dormido direito. Mas eu dizia: ‘Cara, você foi bem.’ Depois ele assistiu à cena e falou: ‘É... eu estava bem mesmo, né?’ E estava.”
A recepção
A reação do público quando a novela estreou, em 20 de outubro de 2025, foi dividida. Num perfil sobre telenovelas no Reddit, rede social composta por fóruns de discussão, oito entre dez comentários sobre a estreia de Belo eram elogiosos. “Quem teve essa ideia de chamar o Belo pra novela [...] e ele ainda ir bem?”; “Pra alguém que está atuando pela primeira vez, ele tá indo muito bem, parece ter um futuro”; “Fiquei de cara, não esperava.” Houve um comentário neutro, e o único negativo dizia: “Achei muito ruim a atuação, chega até ser engraçado kkkk, mas não dá pra julgar muito por ser o primeiro trabalho como ator.” O site da CNN Brasil publicou uma reportagem sobre a reação do público. A maioria das pessoas demonstrava estar positivamente surpresa. Ninguém sugeria que Belo ganhasse um prêmio de atuação da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte, mas a percepção era de que ele fazia um bom trabalho. Na novela anterior, Vale Tudo, Paolla Oliveira recebeu críticas por sua interpretação de Heleninha Roitman, que é alcoólatra como Misael. Em contraste com Renata Sorrah, que havia feito o mesmo papel em 1988, a versão de Paolla foi descrita na imprensa especializada como caricata e de “gestual exagerado”, nas palavras da colunista do jornal O Globo Ana Luiza Santiago.
Há um artigo interessante chamado Production of intoxication states by actors: perception by lay listeners (Produção de estados de intoxicação por atores: percepção por ouvintes leigos), publicado em 1998 no periódico acadêmico Journal of Forensic Sciences. Nesse estudo, atores se apresentaram diante de uma plateia, primeiro fingindo embriaguez, depois realmente embriagados. O público reconheceu com mais facilidade os sinais artificiais da embriaguez do que a embriaguez real dos atores. A plateia identificava os atores como mais bêbados quando eles apenas simulavam intoxicação, e não quando estavam efetivamente alcoolizados. Talvez porque os atores realmente embriagados conseguiam, em alguma medida, mascarar os sinais para soar sóbrios.
Logo, podemos concluir, a embriaguez mais convincente em cena nem sempre é a mais fiel ao comportamento real, mas a que reproduz códigos que o espectador aprendeu a associar ao bêbado – como alterações na dicção e na coordenação motora. O estudo também aponta uma tensão central nessas atuações: enquanto pessoas realmente alcoolizadas tentam esconder a embriaguez, atores precisam torná-la legível para o público. Então qual seria a maneira ideal de interpretar um bêbado? Tentando mascarar a embriaguez? Explicitando a embriaguez? Ou talvez uma mistura das duas coisas?
Na tela ou no palco, convencer como bêbado não depende de tropeçar ou arrastar as sílabas, mas de encenar a batalha íntima entre um corpo intoxicado e uma consciência que ainda tenta manter as aparências. É a batalha vivida por Misael e por Heleninha. Quando o personagem é alcoólatra, e não apenas um bêbado ocasional, a tarefa é ainda mais complexa, pois o ator não interpreta um mero porre, e sim anos de desgaste, vergonha e dissimulação. Talvez a mais bela interpretação de um alcoólatra tenha sido a de Paulo José como o Orestes de Por Amor (novela de Manoel Carlos de 1997). Quando bebia, Orestes tentava mascarar os sintomas de coordenação e dicção. Mas mesmo quando não estava bêbado, as marcas do alcoolismo estavam lá, no olhar baixo e envergonhado do dia seguinte, nos rompantes de otimismo em que achava que era capaz de beber apenas um gole, numa sutil postura corporal de quem se sente vencido.
A cena do cemitério e a segunda música misteriosa
O terceiro capítulo de Três Graças mostra o enterro da esposa de Misael. Gravada num cemitério de verdade, com sepultamentos reais acontecendo ao redor, a cena foi uma das mais intensas para Belo. Seu personagem assiste ao velório da esposa à distância. Ele se sente culpado, porque acha que os remédios que a mataram foram fornecidos pela comunidade, e não por Ferette. A cena tem uma carga dramática muito forte.
Fernanda Rocha diz que ambientes assim causam um impacto completamente diferente de uma cidade cenográfica. “Dentro da Globo existe um controle sobre o espaço. No cemitério, não. Tinha gente sofrendo de verdade, além de jornalistas. A gente entrou escondido para ele conseguir chegar sem ser visto e se preparar emocionalmente.”
Durante toda a novela, nos momentos mais delicados, Belo recorria a uma música específica que o emocionava. “Ele já chegava e falava: ‘Põe aquela.’ Aí eu punha no ouvido dele, ele se concentrava e dizia: ‘Agora podemos ir’”, lembra Fernanda. Mas, para a cena no cemitério, a preparadora achou melhor levar outra música – uma que ela tinha descoberto durante a pandemia, em um curso online de bioenergética. “Quando ouvi pela primeira vez, chorei muito. Pensei: ‘O que é isso?’”, diz Fernanda. “Essa música acabou sendo uma ferramenta importante no nosso processo.”
No cemitério, Fernanda permaneceu o tempo todo ao lado de Belo, também escondida atrás de um túmulo, conduzindo o aquecimento emocional antes que a equipe de filmagem iniciasse a tomada. “Quando chegou a hora do close, o diretor [Luiz Henrique Rios] falou: ‘Vai no tempo de vocês.’ Então ficamos ali aquecendo. Eu colocava a música no ouvido dele e falava baixinho algumas coisas sobre a cena, sempre pensando no personagem. Dizia: ‘Agora acabou. Sua mulher está ali. É uma despedida’”
Embora Fernanda tentasse estimular a imaginação de Belo, sem recorrer à sua história de vida, emoções pessoais vieram à tona. O cantor diz que, para chegar ao resultado desejado, precisou acessar memórias e sentimentos guardados. “Não tem cristal, não é um choro mentiroso, é um choro de verdade. Ao mesmo tempo que eu vivo essa imersão, eu também estou vivendo um personagem. São duas coisas totalmente diferentes”, ele disse à piauí. Belo conta que Fernanda foi fundamental não apenas para fazê-lo entrar nesse estado de tristeza, mas também para fazê-lo sair. Isso era importante, já que frequentemente Belo tinha shows a fazer depois das gravações.
Foram vários takes no cemitério. Sempre que a filmagem estava para começar, Fernanda saía de perto de Belo e corria para trás da câmera. “Quando falavam ‘ação’, ele se jogava no chão chorando. Foi uma diária intensa. A equipe saiu muito mexida.”
A música escolhida por Fernanda é instrumental, de um compositor japonês. “Vou botar para você ouvir, mas por favor, não diga o nome da música na reportagem”, ela me pediu. O que pode ser dito é que a música já esteve num filme ganhador de Oscar. É composta principalmente de piano e cordas, e se tornou célebre por sua atmosfera melancólica e contemplativa. A melodia é lenta, repetitiva. Vai num crescente emocional, mas sem explosões grandiosas. Ao ouvir a música, confessei a Fernanda que tinha me emocionado. Ela respondeu: “Tá vendo, seu olhos já estão marejados.”
Depois da gravação, os dois permaneceram juntos algum tempo até que Belo saísse daquele estado emocional. “Ele é muito entregue. Então depois a gente tenta relaxar, distrair, ouvir uma música descontraída, voltar aos poucos para a vida real.” A intensidade da sequência impressionou quem acompanhava a gravação. “As pessoas comentavam: ‘Caramba, ele estava chorando de verdade.’ E estava mesmo.”
Viviane Araújo
Em janeiro, mais um episódio da vida pessoal de Belo acabou se misturando à trajetória de seu personagem. Viviane Araújo entrou para a novela para interpretar Consuelo, ex-namorada de Misael. Ela e Belo não se viam nem se falavam havia anos, desde o fim conturbado de um relacionamento de quase uma década, marcado por crises, acusações públicas de traição e enorme exposição midiática. Belo e Viviane foram um dos casais mais populares do samba e da televisão brasileira nos anos 2000, atravessando juntos períodos intensos, como a prisão do cantor por tráfico de drogas e associação ao tráfico, em 2004. Ele passou quase quatro anos preso. Sua pena foi extinta em 2010.
As semelhanças entre a história real do ex-casal e a história de Misael e Consuelo logo chamaram a atenção do público. Paixão tórrida, sofrimento, reconciliações e conflitos pareciam presentes tanto na ficção quanto na memória afetiva de quem acompanhou a dupla fora das câmeras. Ainda estreando como ator, Belo disse que queria separar as duas coisas. Para ele, aquela já não era mais a sua história com Viviane, mas a de Misael e Consuelo. O cantor também fez questão de afirmar que via o passado com carinho e acreditava que o reencontro com Viviane em cena seria leve, respeitoso e bonito.
O público comprou a ideia. O primeiro beijo entre Misael e Consuelo teve grande repercussão e mobilizou fãs que acompanhavam o casal lá atrás. A química em cena rapidamente virou assunto nas redes e impulsionou a audiência da novela. Mas, fora da ficção, Viviane parecia enxergar os limites dessa nostalgia com mais cautela. A atriz criticou o uso de cenas românticas da novela nos telões dos shows de Belo e pediu diretamente à Globo e à equipe do cantor que as imagens fossem retiradas. Para ela, uma coisa era a relação entre Consuelo e Misael dentro da trama. Outra, completamente diferente, era transformar aquelas imagens em extensão da vida pessoal dos dois.
Nos bastidores, a diferença de postura dos dois era perceptível. Belo demonstrava entusiasmo com a chegada de Viviane ao elenco e falava sobre o reencontro com expectativa. Já ela mantinha uma atitude mais reservada. Havia cordialidade, respeito e profissionalismo, mas também uma clara distância. Cada um ocupava o seu espaço. A relação entre os dois podia ser descrita como estritamente profissional, apenas.
Depois do fim
A novela termina nesta sexta-feira, 15 de maio. A avaliação da Globo sobre o trabalho de Belo é positiva, e a emissora renovou o contrato do cantor até 2030.
Ele e Fernanda Rocha, que no início da parceria diziam um ao outro “Vamos juntos?”, passaram a repetir ao longo da novela: “Vamos juntos até o fim.” Agora, na reta final, a dupla tem completado a frase de outra forma: “Vamos juntos até depois do fim.”