vultos das artes

O RETRATISTA DO ABSURDO

O artista de rua que grafita os rostos de vítimas da violência do Estado nos muros do Rio de Janeiro
O mural feito por Airá homenageando a médica Andréa Marins Dias - Foto: aquivo pessoal
O mural feito por Airá homenageando a médica Andréa Marins Dias - Foto: aquivo pessoal

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Do interior da loja de autopeças não era possível ouvir o chiado do spray do outro lado da Avenida Dom Helder Câmara, em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ainda assim, Eduardo Brandão, de 25 anos, dono da loja, notou que uma paleta de tons marrom cobria o muro bege da Paróquia Nossa Senhora do Amparo e Santa Maria Goretti. Curioso, decidiu atravessar a movimentada avenida naquela quinta-feira, dia 23 de abril, por volta das três da tarde.

Ao se aproximar, Brandão encontrou um homem em pé sobre uma escada dobrável de alumínio. Era Airá Ilu-Aiê Ferraz D’Almeida, de 44 anos, cujo suor pingava da blusa preta. Não fosse o boné, sua careca teria saído de um marrom médio para uma torra escura, ardente ao toque. Airá havia começado seu grafite no muro da paróquia no início da tarde e seguia sem pausa até o encontro com Brandão, mudando a escada da esquerda para a direita, subindo e descendo, num zigue-zague frenético.

Em um primeiro momento, o grafiteiro não prestou atenção em Brandão — muitos transeuntes paravam para fotografar ou só contemplar a obra que vinha construindo. “Seria legal você fazer tudo, mané”, disse Brandão, em referência ao muro de mais de 50 metros. “Pois é, mas cadê o dim, né?”, respondeu Airá, àquela altura cercado por mais de vinte latas de spray. Brandão contemplava a obra quando foi surpreendido por sua mãe, Genilda Ferreira dos Santos, de 66 anos, que apareceu de supetão. Em silêncio, ambos admiravam o muralismo em construção.

O grafite de Airá era uma representação do busto de Andréa Marins Dias, cirurgiã oncológica morta a tiros por agentes do 9º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro no dia 13 de março, quando acabava de sair da casa dos pais, em Cascadura, onde cresceu. Eles confundiram o carro dela com o de assaltantes que estavam perseguindo. A médica tinha 61 anos, a pele quase retinta e tranças rente aos ombros. Nas mãos, enquanto fazia sua arte no mudo da paróquia, Airá carregava a lata de spray e o celular com a foto de Andréa sorridente.

Após um breve silêncio, Airá, Eduardo e Genilda continuaram conversando. “Vou escrever ‘Milésimo caso isolado’”, explicou o artista. Genilda, no entanto, disse que ele deveria escrever “‘morta em Cascadura’: pra poder marcar mesmo”. “Eu não queria botar uma coisa assim de morte, se não acaba tirando um pouco do teor da homenagem; fica um pouquinho pesado”, respondeu o grafiteiro. “Mas vai botar o nome dela, né?”, retrucou Genilda. “Vou colocar ‘Dr. Andréa’ e ‘Milésimo caso isolado’”, confirmou Airá. Genilda lamentou o fato de ninguém ter sido preso após a morte, e seu filho desabafou. “Bandido mata, ninguém vai preso; polícia mata, ninguém vai preso.”

Depois de quatro horas de trabalho, Airá terminou o grafite que homenageia Andrea. O desenho mostra a médica tal qual uma de suas imagens mais disseminadas após a tragédia: de jaleco branco e um óculos da mesma cor, ela sustenta um sorriso desajustado de quem não conseguiu fingir naturalidade na hora de posar. Os olhos comprimem-se, enquanto suas tranças castanhas escorrem pelas laterais do rosto; ao redor do busto, um fundo de camadas laranja e amarelo, como se a médica irradiasse uma energia quase incandescente. “Milésimo… caso isolado”, lê-se logo acima do rosto.


Embora eternize vítimas de violência do Estado pelos muros do Rio de Janeiro desde 2018, Airá demorou mais de seis anos para se entender como alguém que realizava um trabalho de preservação da memória coletiva; aos seus olhos, fazia apenas alguns projetos esporádicos movidos por revolta política. O primeiro ocorreu após a morte da vereadora Marielle Franco, assassinada por sicários em março de 2018, no bairro do Estácio. Airá e Marielle estudaram na mesma escola e se conheciam da época em que realizavam encontros com militantes de esquerda para mobilizações nas Jornadas de Junho de 2013.

Como forma de homenagem, Airá grafitou em um muro, em duas horas, um retrato de 2,5 x 2,5 metros de Marielle durante uma manifestação na Avenida Brasil, numa altura próxima à favela do Parque União, no Complexo da Maré. Naquele momento, o artista começou a estabelecer um modus operandi que se repetiria em seus trabalhos posteriores: separa em média quinze latas de spray com cores variadas, escolhe um muro – sem pedir permissão ao dono do imóvel –, e homenageia a vítima sem avisar os familiares. Faz o que acha que deve ser feito, sem pedir ajuda financeira ou  esperar aplausos.

Esse modus operandi se repetiu, em abril de 2019, quando o músico Evaldo dos Santos Rosa foi baleado por soldados do Exército Brasileiro no bairro de Guadalupe, na Zona Norte do Rio. Ele estava em seu carro, com outras quatro pessoas, a caminho de um chá de bebê. Duzentos e cinquenta e sete disparos foram efetuados pelos soldados, 62 atingiram o veículo e nove, o músico. O catador Luciano Macedo tentou socorrer a família e também acabou vitimado. A homenagem feita por Airá se materializou no apelido do músico, Manduca, escrito no formato throwie, no qual as letras são inchadas, como se tivessem recebido uma lufada de ar. Fez sem contatar os familiares, uma ação rápida em um muro nas imediações onde o crime foi cometido.

As intervenções de Airá chamaram a atenção de um dos membros da movimento Flamengo Antifascista e o contato do grafiteiro circulou nos grupos de WhatsApp das torcidas politizadas do clube. Duas delas – Flamengo da Gente e Fla-Antifa – recorreram ao artista em fevereiro de 2020 para uma homenagem em memória dos dez adolescentes da base flamenguista mortos em um incêndio no Centro de Treinamento do time, conhecido como Ninho do Urubu, em fevereiro de 2019.

Airá propôs um mural com os rostos dos garotos. Como ele mesmo viria a descrever em uma postagem no Facebook após a conclusão da obra: “Seis dias atravessando chuva e sol, quase 60 m² de muro, sem apoio nenhum a não ser os próprios torcedores do clube que junto comigo investiram seu tempo, suor e dinheiro para essa realização.” O mural ostenta um fundo preto e sobre ele os rostos imberbes dos garotos vitimados: jovens pardos, brancos e retintos, alguns com poucos sinais de maturidade em bigodes ralos e cavanhaques ínfimos. Ao lado do busto de cada um, o respectivo nome. O apreço da torcida e das famílias foi tamanho que, em 2024, elas pediram que a arte fosse adaptada para ser a capa do livro sobre a tragédia, Longe do Ninho (Intrínseca), da jornalista Daniela Arbex.

Em frente ao estádio do Maracanã, o mural com os garotos do Ninho chamou a atenção de Bruno Martins, jovem de Manguinhos. Ele intuiu que o artista poderia fazer um trabalho em parceria com o grupo Mães de Manguinhos, organização de mães de vítimas da violência policial criada por Ana Paula Oliveira em 2014, após a morte de seu filho mais velho Johnatha de Oliveira Lima com um tiro nas costas desferido por policiais militares, na favela de Manguinhos.

Martins entrou em contato com Airá e mediou para que, em maio de 2022, ele pudesse expandir o pequeno memorial de banners e fotos das Mães de Manguinhos para um mural grafitado de 12 x 1 metro próximo ao principal gramado de futebol da favela. Ele seguiu a mesma estética feita com os jovens do Ninho do Urubu: um muro negro com os bustos das vítimas lembradas pela organização, oito naquela ocasição, e o nome em letra cursiva ao lado de cada um, identificando-os.

As matriarcas esqueceram de avisar que o artista deveria seguir a ordem exata das vítimas nos banners da organização, que seguem a cronologia de suas mortes. Airá seguiu a própria ordem e, sem saber, desenhou o rosto de Johnatha, filho de Ana Paula, próximo à casa de seus familiares. “Ele colocou o rosto do meu filho em frente ao beco onde a minha mãe mora. Quando a gente sai da casa da minha mãe, é um impacto muito grande”, relata Ana Paula, que conclui: “Fiquei super emocionada.”


Airá é filho de Maria Cecília e José Ricardo, que se conheceram por acaso em meados dos anos 1970. Advogada, ela tinha trinta e poucos anos e trabalhava no espólio de Carlos Augusto D’Almeida, um corretor imobiliário de Olaria, na Zona Norte carioca. Envolvida com a família, ela se apaixonou pelo filho do corretor, José, um jovem dez anos mais novo e galanteador, nas palavras de Airá. De acordo com o artista, o pai frequentava as principais rodas de debate dos movimentos negros do Rio e viria a seguir uma carreira de estudos em sociologia.

O grafiteiro explica que seus dois primeiros nomes – Airá Ilu-Aiê – vêm do iorubá: Airá é o nome de um orixá, a depender da nação do candomblé, ligado a Xangô, que, segundo o pai, pode significar algo como “não enfraquece”. Já Ilu-Aiê é uma corruptela de Ilu Ayê, que pode ser interpretado como “terra da vida”. “Terra da vida não enfraquece… É o meu mantra”, reflete o artista. Seus pais se separaram pouco depois do seu nascimento.

Pelos primeiros seis anos de vida, Airá residiu com sua mãe no apartamento dela na Rua Corrêa Dutra, no coração do bairro Catete. Suas lembranças desse período são esparsas: passeios no Palácio do Catete, a ausência do pai, o adoecimento da mãe, a visita dos parentes dela e, enfim, seu falecimento em decorrência de um câncer no colo do útero. Dali em diante, seguiu por dois anos entre casas de tios na Zona Oeste do Rio, até ir viver com o pai em Olaria, dos 8 aos 18 anos de idade.

Ao seu redor: a vasta biblioteca de um militante do movimento negro das décadas de 1980 e 1990. Teve acesso a colégios de qualidade, como o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, leu clássicos como as obras de Luis Fernando Veríssimo e Cem anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Ao mesmo tempo, navegava pelas vielas da Zona Norte descobrindo o pixo junto aos amigos da rua. Começou aos 12 anos de idade e à época assinava o vulgo Spy, em homenagem ao quadrinho mudo Spy vs. Spy, publicado na revista Mad, e à banda de rock australiana de mesmo nome.

Sua migração do pixo para o graffiti ocorreu após uma década de má convivência entre pai e filho. Aos 18 anos, Airá foi morar com um tio, irmão de sua mãe, em Pechincha, na Zona Sudoeste. Lá ajudou a fundar o Nação Crew, um dos primeiros coletivos de grafiteiros do Rio. O grupo era formado pelos artistas: Marcelo Ment, Bragga, Preás, Chico, Gais, Stile, Machintal. Foi no coletivo que Airá adotou para si a alcunha que utiliza até hoje: OCrespo. O começo não foi fácil. Um dos seus primeiros trabalhos nas artes foi para uma autopeças perto do Morro da Mangueira: “Porra, o cara pediu pra eu fazer uma moto… Eu fiz um bagulho feio pra caralho.” Após terminar os estudos no Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, Airá fez alguns bicos, mas logo passou a trabalhar com projetos sociais envolvendo artes e em editais culturais, atividades que garantem seu sustento até hoje.


De tempos em tempos, Airá retorna aos seus murais políticos para retocá-los. Faz isso com os de famílias com as quais manteve contato, com os que desenhou sem avisar ninguém, só porque sentiu que deveria gerar incômodo, e até com os que não dialogam diretamente com seu tema principal, a violência de Estado – em janeiro de 2020, em meio às discussões sobre a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), ele desenhou o personagem Quico, do seriado Chaves, intoxicado ao beber um copo d’água sujo, e a frase “A Cedae me obriga a beber a água que o Witzel [governador do Rio à época] não bebe. E o Quico? [o que tenho a ver com isso, em referência ao ditado popular]”

Essa dedicação fez com que ele enfim pudesse conhecer a família de Marielle Franco, anos depois de sua morte. Ana Paula, do Mães de Manguinhos, convenceu os pais de Marielle de que Airá deveria ser o responsável pelo retrato da vereadora na parede do pátio do Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, onde ambos estudaram. Assim, em junho de 2025, o artista retornou ao local que lhe deu as primeiras noções de grafite para homenagear outra vez Marielle, agora com a anuência da família, que até então não havia visto a primeira arte (o retrato foi apagado dos muros da Avenida Brasil). O novo trabalho traz a vereadora com um sorriso de ponta a ponta, usando um lenço preto na cabeça, em um fundo azul e amarelo.

Foi num período próximo à feitura da segunda homenagem a Marielle que Airá se entendeu como um preservador da memória coletiva, durante uma conversa com a pesquisadora e professora de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Tereza Ventura. Estudiosa sobre as cenas de graffiti em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Berlim desde os anos 1990, ela já vinha acompanhando o trabalho de Airá desde a época da Nação Crew. Decidiu entrevistá-lo para um livro que vinha escrevendo correlacionando memória e grafite. A ficha dele caiu conforme ela explicava a importância do seu trabalho sistemático. “Ele é tão herdeiro dessa memória, do genocídio negro, e desse lugar de fala, que não se vê como produzindo memória”, reflete Ventura.

Aos poucos, no entanto, o trabalho com memória coletiva feito pelo artista tem ganhado novas formas de reconhecimento. Conhecido nas cenas das artes urbanas, Airá teve exposição individual no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), em 2017. Sua carreira é marcada por parcerias longínquas com instituições como Fundição Progresso e AfroReggae, trabalhando em projetos sociais desde o princípio dos anos 2000, período em que começou e rapidamente acabou com uma carreira de MC (mestre de cerimônia) de batalhas de rima (“eu era bom de rima, mas não bom de batalha”).

Residente de Santa Teresa, ele mantém um quartinho de ateliê no segundo andar de um casarão ocupado por artistas no mesmo bairro. Lá, centenas de latas se acumulam cheias e vazias próximo à janela, com vista para o bairro. Não há centímetro ausente de respingos de tinta, não há poeira que não tenha algum traço de sua trajetória nos últimos treze anos, quando passou a ocupar o ateliê e produzir seus grafites pelas ruas do Rio.

Com um pé entre o socialismo e o comunismo, Airá pesquisa como intervenções artísticas podem “criar poder”, com objetivo de fomentar protagonismo cidadão a partir de uma arte consciente. Também propõe reflexões sobre o impacto social da arte. Essas ponderações fazem parte de uma investigação que ele define como política-filosófica-científica: “Pesquiso história da arte, sociologia, antropologia, psicologia, neuroestética, neurociência, pedagogia; um monte de competências que dizem respeito à cognição, ao sistema nervoso e à sociedade.”

Além de sua temática principal, a violência do Estado, Airá utiliza seus desenhos para abordar outras áreas do debate público. Foi assim em setembro de 2023, quando, à convite do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), ele concebeu a imagem de uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal, acompanhada da frase “Nunca antes na história desse país”. A obra foi feita na Rua do Lavradio, no Centro do Rio. Em janeiro, após a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, ele grafitou, também no Centro da cidade, um retrato do presidente Donald Trump com um chapéu de pirata e a frase: “Piratas do Caribe.”

Como mais um elemento da memória social, Andrea, a cirurgiã oncológica morta em março, se tornou parte da paisagem urbana de Cascadura com a permissão organicamente construída pela comunidade local — a autorização concedida pelo padre para grafitar o muro da paróquia ocorreu graças a uma moradora da região que conhecia o trabalho do artista; após o fim da obra, residentes elogiaram a sensibilidade do grafiteiro e a vida homenageada.

Perguntado sobre qual o próximo projeto, Airá explicou que fará uma referência à chacina decorrente da Operação Contenção nos Complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025. Foram 122 mortos, sendo 117 civis e 5 policiais. “Quero fazer uma montanha de corpos. E aí eu vou botar ‘Conto com o seu voto!’”, afirmou. O trabalho já tem local definido. “Queria fazer ao lado da Cidade da Polícia [sede da polícia civil, localizada em frente à favela do Jacarezinho], mas estou reunindo coragem.”


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Jornalista e sociólogo. Colaborou com Agência Pública, UOL, Folha de S.Paulo e Ponte Jornalismo. Autor de O coronel que raptava infâncias (Intrínseca).