memória

O SABER ALEGRE DE EDGAR MORIN

O filósofo, que morreu aos 104 anos, alertou sobre o avanço do neofascismo e a força do conhecimento
Edgar Morin com o professor Juremir Machado Silva em visita ao Brasil, em 2011 - Crédito: Fernanda Becker
Edgar Morin com o professor Juremir Machado Silva em visita ao Brasil, em 2011 - Crédito: Fernanda Becker

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Em janeiro deste ano, eu almoçava em Paris com o sociólogo Michel Maffesoli, que foi meu orientador de doutorado em sociologia na Sorbonne (onde ele é professor emérito), e falamos da vitalidade admirável de um amigo dele: Edgar Morin. Prova disso era que, com 104 anos, este filósofo de extensa bibliografia havia publicado um ano antes o livro Y a-t-il des leçons de l’histoire? (Lições da História, 2025, L&PM). Maffesoli comentou que, apesar das limitações auditivas, Morin se encontrava em plena forma intelectual, e contou que iria jantar em sua casa em breve. Ao ouvir isso, fui assaltado por uma vontade antiga de conversar com o mestre. Não cometi a deselegância de tentar me incluir no jantar, mas perguntei a Maffesoli se não poderia me colocar em contato com o filósofo.

Eu havia lido muito os livros de Morin nos meus anos de formação. O cinema ou o homem imaginário (1956), um tratado pioneiro de sociologia do cinema, marcou de maneira decisiva meu entendimento sobre a malha social e a elaboração dos imaginários coletivos. Nesse livro, ele analisa com rigor sociológico como o cinema se faz um dispositivo antropológico que nos permite projetar os nossos desejos, medos e sonhos sobre a tela. A preocupação com o cinema se estendeu a outro estudo importante, Les Stars (1957), em que se detém sobre o tema do star system de Hollywood e a maneira como transforma os atores em deuses modernos para adoração das massas.

O envolvimento de Morin com o cinema não ficou só na teoria. No começo dos anos 1960, ele realizou com o diretor Jean Rouch (1917-2004) um filme que, seguindo a onda do cinema direto que vinha do Canadá e dos Estados Unidos, ajudou a revolucionar a forma do documentário: Crônica de um verão (1961). Na França, essa tendência foi denominada cinema-verdade e inaugurou um novo modo de registrar a realidade, com uma câmera bastante livre e leve, o som e os diálogos captados de maneira direta (incluindo a novidade do microfone de lapela) e um roteiro bastante aberto para o imprevisível.

Era uma maneira de colocar em prática o que Morin ensinava em Cinema ou o homem imaginário: as sociedades devem se ver refletidas num espelho para compreenderem a si mesmas e a sua relação com os outros. Foi justamente para isso que, em 1960, Morin havia chamado a atenção de Jean Rouch, um dos fundadores do cinema etnográfico e que já havia realizado vários filmes sobre sociedades africanas: faltava ao diretor filmar “a sua própria tribo” (nas palavras dele), ou seja, os parisienses.

Rouch acolheu a provocação, convidando Morin para realizar o filme a quatro mãos. Crônica de um verão dissecou a França moderna, seus anseios e autorrepresentações, a partir de um inquérito cinematográfico, protagonizado por habitantes de Paris de várias gerações e condições socioeconômicas: uma estudante branca desenraizada e deprimida, um estudante africano numa sociedade racista, um operário da fábrica de automóveis Renault, uma jovem secretária sobrevivente de um dos campos de concentração, um casal da classe média a lutar pela vida.

O filme termina com Morin e Rouch caminhando, lado a lado, ao longo de um corredor no Museu do Homem, em Paris, debatendo a metodologia usada na construção do filme (decorria então a Guerra na Argélia, e o verão era uma metáfora de todos os abrasamentos políticos, sendo Morin um ativista anticolonial). Fazendo uma autocrítica, eles concluem que o filme falhara em retratar uma comunidade atravessada por heterogeneidades. Mas não foi o que pensaram seus contemporâneos, sobretudo os mais jovens. Crônica de verão fascinou toda uma geração e influenciou decisivamente o movimento da Nouvelle Vague de Godard e Truffaut.

Morin, entretanto, não seguiu no mundo do cinema. Voltou à academia, sempre empenhado em trazer para o campo dos estudos sociais temas e objetos até então tidos na França e mesmo na Europa como pouco dignos de reflexão, como a cultura de massas. Atento aos movimentos da juventude, refletiu no calor da hora sobre as convulsões estudantis e proletárias em maio de 1968 na França num livro memorável, Mai 68, la brèche (Maio de 1968, a brecha), escrito em parceria com os filósofos Claude Lefort e Cornelius Castoriadis.

O Método (La Méthode), trabalho ao qual se dedicou durante cerca de trinta anos, entre 1977 e 2004, e publicou em seis volumes, é considerado a obra-mestra de uma renovação epistemológica, com sua crítica da lógica da especialização que fragmenta o saber científico. Em O Método, Morin sistematiza a tese sobre o “pensamento complexo”, defendendo que o mundo só pode ser apreendido nos seus funcionamentos, previsibilidades e devir por meio da interconexão entre os vários campos do saber – a biologia, a física, a sociologia, a filosofia, a história, a poesia etc. – e pela interseccionalidade do conhecimento.


Depois do nosso almoço em Paris, Michel Maffesoli me colocou em contato com Edgar Morin. Escrevi, então, um e-mail ao filósofo, propondo uma entrevista. Ele respondeu no mesmo dia: “Com prazer, se eu puder.” No dia seguinte, o filósofo definiu a geografia de nossa conversa: “Espero que o encontro seja em Marrakesh em fevereiro ou março.”

Morin costumava passar alguns meses do ano no Marrocos, país que considerava seu segundo lar e onde tinha uma casa, em Marrakesh. Em 2012, aos 90 anos, casou-se com Sabah Abouessalam, uma prestigiada socióloga e urbanista marroquina, na época com pouco mais de 50 anos. Juntos, eles escreveram várias obras, incluindo Changeons de voie – Les leçons du coronavirus (Vamos mudar de rumo – Lições do coronavírus, 2020), apelando a uma mudança no estilo de vida e na relação das sociedades com o tempo.

A casa de Marrakesh representava para Morin um lugar de paz, onde ele se refugiava do cinzento inverno de Paris, encontrando na amenidade do clima marroquino o ambiente propício para descansar, concentrar-se e prosseguir na escrita da sua vasta obra. No Marrocos, o filósofo era uma figura reconhecida e acarinhada nos círculos políticos e artísticos. A imprensa e os intelectuais locais referiam-se a ele como um “amigo fiel do Marrocos” e um “sábio leigo” (dado que não fazia parte do mundo muçulmano).

Fiquei entusiasmado com a possibilidade de nosso encontro ocorrer fora da Europa, em outro continente, naquele Magreb meio árabe, berbere, africano e francês, atravessado pelos fantasmas da geração beat e pelas areias do Saara trazidas pelo vento. Eu tinha muitas questões a colocar a Morin, da cultura digital à economia da aceleração e da atenção; dos Estados Unidos sob Trump ao lugar de Israel e do mundo árabe no mundo atual, da experiência do cinema-verdade ao sistema atual das imagens nas redes sociais e no streaming.

Em 12 de fevereiro, entretanto, recebi um e-mail de Morin avisando: “Me desculpe. Preciso ficar por mais algum tempo em PARIS.” Assim mesmo, com a capital francesa grafada em maiúsculas, para evitar a confusão entre cidades. Tentei então um encontro na capital francesa, ao que ele me respondeu: “Acho que estarei em Paris no dia 8 de fevereiro, mas ainda não tenho certeza. Minha vida não é muito planejada.” Compreendi que ele estava levando a vida dia a dia, como cabe a uma pessoa de 104 anos, e talvez a todos nós.

Trocamos mais alguns e-mails, com novas datas e novos cancelamentos da parte dele. Compreendi que alguma coisa estava acontecendo, até que não foi mais possível encontrá-lo. Em 11 de abril, o jornal Le Monde publicou uma entrevista de Morin, em duas páginas, intitulada Poderá ser em breve meia-noite no século, na qual o filósofo discorria sobre os “solavancos do mundo contemporâneo”: a regressão autoritária como paradigma global decalcado do modelo de policiamento digital da China, a crise das democracias ocidentais promovida pela perda de pensamento crítico e pelo crescimento dos extremismos. Ele também analisou na entrevista, com muita lucidez, a escalada das tensões identitárias, religiosas e bélicas na Europa e no Oriente Médio. “Obedecemos cegamente a deuses e ideologias, como se fossem entidades superiores externas a nós”, comentou, acrescentando: “Para esclarecer, pertenço ao grupo de judeus humanistas que se opõem a toda perseguição, desprezo e rejeição.” Foi a sua última entrevista.

Em 29 de maio de 2026, Morin morreu no Hospital Americano de Paris, em Neuilly-sur-Seine, próximo de Paris. Eram onze da noite em Lisboa, onde vivo, e quase meia-noite em Paris. Aterrado, escrevi de imediato um e-mail a Maffesoli, que devolveu nos minutos seguintes, com uma linha apenas: “O que aconteceu com os amigos...” Acompanhava o e-mail o recorte de uma página do extinto Jornal do Brasil. Eu conhecia bem essa página, porque estava emoldurada no escritório de Maffesoli.

A reportagem Aforismos filosóficos com caipirinha, do JB, traz uma foto que reúne Morin, Maffesoli e o também sociólogo Jean Baudrillard. Os intelectuais eram convidados do evento Semana do Pensamento Francês, em outubro de 1996. Conta-se que, naquele dia, Baudrillard tomou “uma caipirinha atrás da outra”. Foi essa a homenagem que Maffesoli partilhou comigo, no dia da morte de Morin: a alegria dos três amigos no Brasil.


Quando vivi em Paris, entre 2005 e 2010, tive a oportunidade de assistir a conferências de Edgar Morin em diferentes locais e na sala Henri Langlois, da Cinemateca Francesa. Ele quase sempre estava com o seu chapéu que parecia uma proteção feiticeira. Os olhos pequenos e perscrutadores miravam vivazes cada um dos interlocutores. Os auditórios ficavam invariavelmente lotados para ouvi-lo. Morin era um comunicador solar e um amigo dos jovens, pronto a entender as novidades do mundo e também os problemas que advinham delas, sempre atento aos limites da razão humana e à responsabilidade do seu ofício intelectual.

Nascido David-Salomon Nahoum, em Paris, em 1921, era filho de uma família judia sefardita originária da Grécia e que se estabeleceu primeiro em Marselha. Aos 10 anos, ele perdeu a mãe. Quando já estava nos 20 e poucos anos, engajou-se para a Resistência francesa contra os nazistas, com o codinome Morin, que adotaria para o resto da vida. Fez licenciatura em história e geografia, e também estudou direito, filosofia e ciências políticas.

Apesar de sua origem judaica, sempre se declarou ateu e manteve postura crítica em relação a Israel. Indignado, condenou as ações do governo israelense em várias das suas intervenções públicas nos últimos anos. Afirmou sentir-se profundamente “aterrado” com um trágico paradoxo da história contemporânea: ver os descendentes de um povo perseguido durante séculos se tornarem os responsáveis por um Estado que agora “coloniza todo um povo, o expulsa da sua terra”, entregando-se a um “verdadeiro massacre massivo das populações de Gaza”. Denunciou a apatia internacional em relação ao que acontece na Faixa de Gaza (o “silêncio do mundo”) e apontou diretamente a cumplicidade por omissão dos Estados Unidos, dos Estados árabes e das potências europeias, acusando-as de traírem os próprios valores de cultura e de direitos humanos, que tanto ostentam publicamente.

Não foi sua única polêmica mais recente. O ensaio De guerre en guerre – de 1940 à l’Ukraine, publicado em 2023, desencadeou debates na França e na Europa, por recusar o alinhamento cego com a explicação ocidental sobre a invasão russa da Ucrânia. Para ele – ex-militante comunista, expulso do partido pela oposição ao stalinismo em 1951 –, havia que se considerar o progressivo avanço da Otan rumo ao Leste Europeu como uma provocação do Ocidente à Rússia. Acusou, ainda, os Estados Unidos, a União Europeia e o conjunto da Otan de travarem uma “guerra por procuração”, e denunciou os líderes políticos que defendem o envio massivo de armamento à Ucrânia e a escalada militar.

Como toda guerra gera barbárie sistêmica, Morin recordou que os Aliados também cometeram crimes graves no passado, como o bombardeamento de Dresden e as duas bombas atômicas sobre o Japão. A maior controvérsia prática foi, no entanto, a solução que propôs para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Defendeu publicamente que um cessar-fogo e uma paz justa exigiriam a neutralidade protegida da Ucrânia (e a sua não integração à Otan), bem como a aceitação da russificação das províncias separatistas no país. Para os que exigem a devolução total das fronteiras ucranianas de 1991, a proposta foi classificada como uma capitulação intolerável ao autoritarismo de Putin.


O obituário no jornal francês Libération abriu com uma citação de Edgar Morin em que o próprio pensador descreveu, em meados da década de 1990, a sua condição periférica: “Filósofos, sociólogos e cientistas gemem e resmungam assim que meu nome é mencionado, e a alergia que lhes inspiro faz com que não suportem me ouvir [...]. Durante trinta anos, fui solitário, marginal, fora de moda, enquanto o sartreanismo, o althusserianismo, o lacanismo, o foucaultianismo, o deleuzianismo, o sociologismo, o marxismo e o estruturalismo reinavam.”

Sim, ele foi um intelectual que atravessou todas essas vagas filosóficas discretamente, mas sempre com um numeroso grupo de seguidores fiéis e dedicados, que sabiam ouvi-lo para além do rumor reinante. Enquanto os seus contemporâneos se dedicaram a desmontar as estruturas de poder, a linguagem ou as classes sociais, o itinerário intelectual de Morin pautou-se por uma série de eixos singulares: tentou aliar as ciências humanas às ciências naturais, propondo cruzamentos inéditos entre a biologia celular, a física quântica, a cibernética, a sociologia e a antropologia para explicar a nossa condição.

Morin foi a última figura de uma geração dos grands philosophes franceses que viveram a Segunda Guerra Mundial na Europa e sempre estiveram socialmente implicados. Foi uma figura da resistência intelectual que atravessou o século passado e entrou no século XXI com a curiosidade intacta, participando ativamente na construção de um olhar crítico sobre a passagem do mundo moderno à hipermodernidade. Para ele, nós não superamos de fato a modernidade histórica, mas a levamos a um extremo agudo, o que resultou numa hipermodernidade instável e multidimensional.

A vida na hipermodernidade implica aprender a “navegar em oceanos de incertezas através de arquipélagos de certezas”, como escreveu. O fim do mito e da confiança no progresso linear gerou uma incerteza sistêmica, em que as crises globais – ecológica, econômica, sanitária, política, em suma: civilizacional – são indissociáveis umas das outras. Morin defendeu que, quando um sistema atinge a sua máxima saturação (como o nosso estágio hipermoderno), está condenado ou à desintegração total ou a uma inevitável metamorfose, que segundo ele, avesso que era ao niilismo, precisaria passar necessariamente pela construção de uma solidariedade planetária.

Para Morin a realidade é uma teia em que o todo está nas partes e as partes estão no todo, indissociáveis, numa concepção holística da vida. Sob a ascendência de Eros, é preciso uma ética das ligações planetárias para se contrapor aos egoísmos nacionais, aos perigos ecológicos e à ameaça nuclear – daí sua noção famosa de Terra-Pátria. “Ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial”, ele disse várias vezes.

Em 2025, o lançamento do seu livro Y a-t-il des leçons de l’histoire? serviu para Morin reafirmar que a humanidade, com a simplificação dos discursos, “avança como sonâmbula rumo ao desastre”, incapaz de aprender com os erros do passado. Um dos combustíveis do desastre iminente – ele alertou na obra – é o vazio de pensamento dos líderes políticos, incapazes de orientar os povos nas sucessivas crises atuais.

Com um ceticismo lúcido, Morin foi uma encarnação vitalista do gai savoir de Friedrich Nietzsche, isto é, a alegria do conhecimento do mundo e de criar novos valores e novos modos de vida. Num momento em que a biopolítica e a tecnologia oferecem possibilidades imprevistas, a defesa por Morin de uma “ciência com consciência” e da interdisciplinaridade dos saberes é de uma atualidade absoluta. O conhecimento atento ao real é sua pedra de toque para enfrentar o avanço dos radicalismos políticos, da polarização ideológica e de todas as modalidades atuais de fascismo.

“Morin era um homem livre”, me escreveu Maffesoli, um dia depois da morte do filósofo. “Ele foi um discípulo de Montaigne, leitor e escritor prolífico, manteve-se um pensador independente no mundo acadêmico francês, por seu interesse em temas como a morte, o cinema e a evolução do mundo rural, que iam além da repetição interminável dos determinismos socioeconômicos.” E acrescentou: “Morin, Baudrillard e eu compartilhamos o opróbrio do ‘politicamente correto’, com indiferença e humor. ‘Esses erros, graças a Deus, vão passar’, costumava dizer Edgar.”

Morin conta ter verificado bem cedo, ainda durante a ocupação nazista da Europa, a diferença entre simplesmente viver e a aventura da vida: “Estar vivo implica correr riscos”, disse. Quase com 105 anos (que completaria em 8 de julho), ao ser interrogado sobre o segredo de sua longevidade, afirmou, com seu saber alegre: “Amor e curiosidade.”


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É ensaísta e professor universitário, doutorado em ciências sociais pela Universidade Paris Descartes (Sorbonne). Colaborador regular do jornal Público, de Lisboa, publicou os livros Teatro expandido! (2016) e Sequências narrativas completas (2020), entre outros. Tem no prelo o livro ABC da guerra, a ser editado pela Documenta.