questões artísticas

PASSADO, PRESENTE E FUTURO NA 39ª PANORAMA DA ARTE BRASILEIRA

A curadora Diane Lima não cedeu à nostalgia e a nomes consagrados na escolha dos 33 artistas para a mostra, que ocorre em setembro
Obra "taturana que ajambra fiapo corre", da série "breu imaginário", da artista JOSI - Foto: Cortesia de Josi e da Mendes Wood DM/Estúdio Em Obra
Obra "taturana que ajambra fiapo corre", da série "breu imaginário", da artista JOSI - Foto: Cortesia de Josi e da Mendes Wood DM/Estúdio Em Obra

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Baseada atualmente em Nova York, a curadora Diane Lima, de 39 anos, está em Salvador para uma breve temporada. A estadia em terras soteropolitanas possui motivos variados. Além de visitar familiares que vivem na cidade, ela tem usado a capital baiana para tomar fôlego entre duas grandes atividades às quais tem se dedicado: a exposição Comigo ninguém pode, aberta em 9 de maio e que marca a representação brasileira na 61ª Bienal de Veneza, e a preparação de Depois de tudo que foi dito, mostra que está curando por ocasião da 39ª edição do Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Com previsão de abertura para 12 de setembro, a Panorama é a segunda mais relevante exposição bienal do Brasil, depois da Bienal de São Paulo, da qual Lima foi uma das curadoras-gerais em 2023.

A seleção de nomes, bem como o modo como ela imaginou a próxima edição da Panorama, foi o tema da conversa com a piauí no dia 20 de maio, durante uma chamada de vídeo. Lima surgiu para a entrevista com óculos de acetato com aros transparentes e cabelos crespos longos e úmidos. Perguntei a ela sobre a cor de sua camisa, ao que ela respondeu: “Uma grande coincidência inconsciente, mas ela é areia. Essa cor estava muito presente no projeto de direção artística, que submeti como parte da proposta para a exposição que agora estou curando para a Panorama.” A partir daí, detalhou o ponto de partida do projeto de comunicação visual, assinado pelo estúdio Porto Rocha: “Eu via tudo muito areia, em uma dimensão arqueológica, mas também da materialidade e muito contemporânea, porque está em metamorfose. E uma paleta de cores que vai para esses tons perolados, beges e que, apesar de se moverem, deixam marcas.” Lima explicou que o título da Panorama, como em outros trabalhos, indica um caminho, mas não tem uma única interpretação. “Eles são performativos e carregam essa sensação de que não estão encerrados, mas em processo, acontecendo no tempo.” Depois de tudo que foi dito foi pego de empréstimo de uma das formulações filosóficas da pesquisadora e artista carioca Denise Ferreira da Silva, que é professora na Universidade de Nova York. A acadêmica, que estuda a intersecção entre capitalismo, racismo e colonialidade, tem dois livros publicados em português: A dívida impagável: Uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo (Zahar, 2024) e Homo modernus: Para uma ideia global de raça (Cobogó, 2022).

Na exposição da Panorama, Lima parte do pensamento de Silva para refletir sobre a “arte como confronto” e formular um “convite à imaginação”, no qual indaga se seria possível “lançar mão de uma sensibilidade que presuma o que foi dito e feito sobre a violência colonial e racial, e o trabalho que elas realizam para o capital global”, mas que avance nas proposições sobre o tema “para além de tudo que foi dito”.

Ao especular essa possibilidade, a curadora cria uma proposta curatorial que analisa “o modo como as demandas por reparação social e as políticas afirmativas invadiram o debate social, inclusive artístico, e reconfiguraram a arte brasileira a ponto de estas não apenas inscreverem os debates raciais no campo da linguagem e da estética, como também serem influenciadas e expandidas por eles”, prossegue o texto de apresentação da mostra. Lima complementa: “Nossa produção não é nem pode ser estática. Existe muito trabalho a ser feito, estamos longe de um lugar de equidade e justiça, mas também não estamos mais em 2010. Algo aconteceu. Olhar em retrospectiva é a possibilidade de continuar entendendo o que o nosso movimento político faz.”

A curadora diz que a construção da lista de artistas teve dois momentos. O primeiro, mais específico, iniciou-se em agosto do ano passado por meio da realização de entrevistas com mais de cem artistas. O segundo, mais dilatado, é resultado de um longo processo de observação e pesquisa, muitas vezes influenciado por projetos anteriores, como a 35ª Bienal de São Paulo, intitulada Coreografias do Impossível, realizada há mais de dois anos. “Uma Bienal de São Paulo faz com que o curador entregue o que produziu até ali em termos de pesquisa. E tudo aquilo que o curador gostaria, mas não conseguiu fazer, fica em modo de espera. É o tempo longo.” Ao tratar da exposição que se aproxima, Lima pôde incorporar parte do que estava em suspenso: “Tinha coisas que eu já queria trabalhar e que caminharam para um lugar de amadurecimento. A Panorama foi um grande presente, no sentido de atualizar a lista de artistas com que trabalho e minha pesquisa como curadora.”

Durante a conversa com a piauí, a curadora antecipou a lista de 33 artistas confirmados até o momento. São eles: Allan Weber, Amorí, Ana Claudia Almeida, André Felipe Cardoso, Anti Ribeiro, Arorá , Bárbara Banida, Biarritz, Carolina Cordeiro, Caroline Ricca Lee, Chacha Barja, Darks Miranda, Emer Freire, Fykyá Pankararu, Helô Sanvoy, Gilson Plano, Lia D Castro, Iagor Peres, Josi, Jota Mombaça, Kuenan Mayu, Lita Cerqueira, Marcelo Conceição, Moacir Soares de Faria (1954-2025), Nazas, Osvaldo Gaia, Oto Ferreira, Rayana Rayo, Rafael Chavez, Rodrigo Cass, Rose Afefé, Thaís Muniz e Ygor Landarin.

A 39ª edição da Panorama da Arte Brasileira marca a reabertura da sede do MAM/SP no Parque Ibirapuera. Desde 2024, devido à reforma da marquise, a administração da instituição tem funcionado no Museu de Arte Contemporânea da USP, e as exposições, além do MAC-USP, têm sido realizadas junto a parceiros, como o Museu de Arte Brasileira da Faculdade Armando Álvares Penteado e o Centro Cultural Fiesp-Ruth Cardoso.


A lista de artistas da Panorama pode ser abordada de distintas formas. Uma delas é a partir dos nomes que vão desenvolver obras comissionadas, ou seja, concebidas especialmente para a exposição por encomenda do MAM. Nesse sentido, há projetos confirmados de Anti Ribeiro, Rodrigo Cass, Caroline Ricca Lee e Jota Mombaça.

Ribeiro, que é DJ e artista visual, apresenta uma instalação artística no corredor que dá acesso à principal sala de exposição Milú Villela, batizada com o nome da empresária e filantropa brasileira que presidiu o MAM-SP por 24 anos. “São esculturas sônicas, que construo a partir de uma estrutura feita com objetos de ferro coletados em ferro-velhos. Evidencio essa origem porque gosto de pensar nesse material como fragmentos da indústria, que saem momentaneamente do tempo da produção capitalista”, explicou Ribeiro à piauí.

A artista remodela os objetos para que eles abriguem um sistema de som automotivo, que reproduz sons ou composições que ela faz no computador. “Até agora já teve esculturas com som de raio e de vento. Para a Panorama, estou pensando mais em construir músicas.” Ribeiro afirma que a experiência no MAM-SP vai possibilitar um novo arranjo na forma como apresenta seus trabalhos. Se antes as esculturas eram exibidas de forma isolada, na Panorama a intenção é que elas formem um conjunto: “Em consonância com a ideia de ecossistema. Às vezes elas vão soar juntas. Outras vezes, não.”

A escritora e artista visual Jota Mombaça, por sua vez, vai ocupar a Sala de Vidro, um dos ambientes mais valorizados do MAM, e adiantou o título de sua obra: Um dia vou voltar, retirada de um verso da música Ponta dos Seixas, composta e interpretada pela cantora paraibana Cátia de França. A artista visual explica que o trabalho é parte de uma série intitulada Ghosts (Assombrações), construída a partir de 2022 e cujo processo de produção é inspirado pelo conceito de “realismo improvisacional”, presente nos escritos da antropóloga norte-americana Elizabeth Povinelli.

Nesse processo, Mombaça utiliza tecidos com 222 metros de comprimento por 1,5 metro de largura feitos de cambraia de linho. Eles são recortados em vários tamanhos, mergulhados em cursos d’água, manipulados e tingidos de forma espontânea. Depois de retirados da água, os retalhos são organizados em uma estrutura de metal. “Começo a olhar para esse material que foi criado e desenhar um esqueleto de metal que estará presente na instalação. Por fim, ocorre a junção do tecido e do esqueleto, de modo improvisacional, durante a montagem.”

Se em anos anteriores Mombaça desenvolveu trabalho da série Ghosts no exterior, em cidades como Amsterdã, Quebec, Nantes, São Francisco e Veneza, desta vez ela produzirá as obras na cidade onde nasceu: a capital potiguar Natal. E junto a um rio do qual é íntima: o Potengi. “Eu estava cansada de fazer esses afundamentos em territórios imperiais e centralizadores. Ao invés de fazer uma única vez um projeto com um determinado corpo d’água, agora vou mapear o território do qual sou parte. Isso gera questões: ‘quais são as guardas indígenas e comunitárias deste território?’ e ‘como eu penso o impacto que pode haver nesse ecossistema?’”

Cass e Lee vão expor obras que dialogam com o tema da religiosidade, mas cada um a seu modo. Cass, que foi frei carmelita entre 2000 e 2008, vai apresentar uma instalação – Manifestação Revolução Mística–, que se entrelaça com a sua formação católica. Até o momento, compõem o trabalho sete vídeos, uma quantidade ainda não definida de pinturas e, talvez, uma escultura. O número sete remete a um cântico, também com sete partes, que o artista compôs a partir de retiros espirituais que ele frequenta a cada dois meses, desde 2023. Segundo o artista, cada vídeo vai se relacionar com cores e manifestações físicas como água, terra, fogo, ar, amor e morte. “A ideia é levar para dentro do MAM um arco-íris, uma explosão de cores e sons”, adianta.

Lee, por seu turno, vai abordar a religiosidade de maneira explícita pela primeira vez – essa relação já era feita pelo público e pela crítica, mas não pela artista. “Eu ia à igreja com a minha mãe, mas também no centro espírita. Ela tinha várias amigas que eram da umbanda e do candomblé. Ao mesmo tempo, íamos em templos xintoístas e budistas.” Na instalação que pretende levar então à Panorama, intitulada Mercado de Dádivas, ela constrói uma espécie de altar com dois degraus que levam a um patamar mais elevado. No topo, no entanto, não há nenhuma figura a se cultuar, mas um corpo dividido em duas partes, que estão suspensas por correntes. A instalação tem outros elementos, como esculturas com forma de cabeças e objetos que dialogam com a história da família. Seu avô japonês mantinha uma loja onde vendia souvenires brasileiros para turistas japoneses. O outro avô chinês comercializava ornamentos, tecidos e mobiliário importado que referenciavam uma China antiga. “Um estava vendendo um mito de Brasil e o outro um mito de si mesmo. E eu adoro e investigo as contradições disso”, afirma Lee, que é nascida no Brasil.


Além dos artistas comissionados, a seleção evidencia outros debates. Afora Mombaça, com sua carreira bem consolidada na cena contemporânea, Lima compôs sua lista com nomes jovens em busca de consolidação, outros em estágio intermediário de carreira e veteranos à margem do circuito tradicional. A Panorama deste ano, portanto, pode ser uma vitrine importante para a propulsão da trajetória ou investigação da produção.

Na seara dos veteranos que merecem maior visibilidade há a fotógrafa soteropolitana Lita Cerqueira, o carioca Marcelo Conceição e o goiano Moacir Soares de Faria (1954-2025), conhecido por seus murais em Vila de São Jorge, em Alto Paraíso, e que faleceu no ano passado. O projeto para expor as obras de Faria, feito em diálogo com a sua família e a Cerrado, galeria que o representa, não está completamente delineado, mas a tendência é que sejam expostos pinturas, desenhos e cadernos. “Categorizaram Moacir como ‘artista naïf’ ou ‘artista louco’. Não quero que a apresentação reitere esses marcadores”, aponta Lima, que esteve com Faria no ano passado, antes de ele morrer.

Outro ponto a ser observado é o fato de a curadora escolher artistas que não trabalham com um tipo de obra frequente na pintura brasileira da última década, cujo foco é a figuração de pessoas negras. Ao falar sobre o assunto, Lima entende que é preciso ampliar a discussão em torno do tema. “Jamais vou dizer que não é importante [figuração negra]. Precisa ter artistas, sobretudo racializados, produzindo tudo. Agora, se isso responde ao tempo, é outra questão. Se o artista quer fazer figuração, abstração, não figuração é uma questão pessoal, e se há um curador ou instituição que acredita que aquele trabalho responde ao momento ou a um tema/questão específica, eu entendo. Mas a minha prática curatorial, ao menos nessa Panorama, me leva a outros caminhos para que eu consiga organizar e pensar a crítica deste tempo.”

Há um grupo expressivo de nomes – Amorí, Banida, Barja, Ferreira, Gaia, Plano, Miranda, Landarin e Peres – cujas produções partem ou dialogam com a prática escultórica, o que instiga a curiosidade por saber como serão ocupadas as salas expositivas do MAM. Vale dizer que o estúdio Vão, que trabalhou com Lima na Bienal de São Paulo em 2023, será responsável pela expografia da Panorama. Outro núcleo é o de nomes associados à linguagem da instalação artística, como Afefé, Cass, Biarritz, Castro, Cordeiro, Lee, Mombaça, Muniz e Weber.

As escolhas curatoriais de Lima mostram que não há clima de nostalgia nem de repetição de nomes famosos. Sua articulação de diferentes linguagens se soma a uma elaboração entre passado, presente e futuro, em uma perspectiva não linear, algo recorrente em sua trajetória e que se relaciona com o conceito de “tempo espiralar”, da poeta e dramaturga Leda Maria Martins. Dito de outra forma, poderíamos explicá-lo com um provérbio iorubá: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.