vultos da literatura
André Gravatá, de São Paulo Mai 2026 10h32
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A qualquer momento Adélia Prado pode ligar. E eu pararei o que for preciso para atender. Sua filha caçula, a atriz Ana Beatriz Prado, preferiu não marcar um dia e uma hora exatas para minha conversa com a poeta, que seria por videochamada, como preferia Adélia, às vésperas de fazer 90 anos, em 13 de dezembro de 2025. Fiquei de prontidão, dias antes do aniversário, esperando quando despontasse a melhor ocasião para elas.
Chegou então uma quinta-feira de novembro que Ana indicou como uma data promissora. Tomei café da manhã com uma amiga que já sabia da minha espera e combinamos que nosso encontro se encerraria de repente se Adélia Prado me chamasse. Quando eu estava terminando o café, chegou uma mensagem da filha da poeta: “Oi, André, tudo bem? Tem como ser agora?” Claro!
Enquanto eu aguardava o início da conversa, me lembrei de um trecho do romance O homem da mão seca, de 1994, em que a poeta diz: “Assim aconteceu o milagre, do modo mais corriqueiro.” Então, Adélia e Ana apareceram na chamada de vídeo. Elas entraram direto de Divinópolis, a cidade mineira de cerca de 240 mil habitantes onde a poeta nasceu e mora até hoje.
Adélia apareceu na chamada com uma roupa de finas linhas laranja entre listras pretas, colar e brincos discretos. Ao fundo, a cama e a mesa de cabeceira junto à parede pintada de um verde tranquilo. Sobre a minha mesa estava o livro mais recente da escritora, O jardim das oliveiras, de 2025, com 105 poemas, lançado depois de um intervalo de doze anos sem publicar. Anos atrás, ela pensou que Miserere, de 2013, seria seu último livro. Mas o fluxo da fonte não secou e foi sobre isso que falamos logo no início da nossa conversa. “Eu achava que não ia escrever mais”, ela disse. “E eu mesma levei um susto quando publiquei O jardim das oliveiras. Agora estão pintando umas novas ideias. Vou ver o que vai sair.”
Enquanto isso, a editora Record prepara o lançamento da Prosa completa de Adélia, numa edição especial prevista para o final do segundo semestre. Também acabaram de ser relançados os livros de prosa Solte os cachorros (1979) e Filandras (2001). São um convite para que seu trabalho como romancista e contista seja redescoberto. “Estou extremamente entusiasmada com o lançamento da reunião de prosa”, diz a poeta. “Tenho muito amor por esses livros.”
Até agora, Adélia publicou doze livros de poesia e dez de prosa – entre contos, romances e infantis. “Sou instrumento de alguma coisa. O livro, o poema, é maior que eu. Ele é sempre maior que eu. Não saio dizendo: ‘Ai, o meu livro. Ai, a minha obra.’ Que bobagem”, ela diz. “Se você tem essa consciência de ser um instrumento, não dá para ficar uma pessoa metida.” Mas, se quisesse, ela teria seus motivos para ficar assim, com as dezenas de prêmios que já acumulou. Para citar os mais recentes, em 2024 recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.
“Fiel ao chamado da poesia, qualquer povo encontrará a porta que se abre para a realidade”, disse Adélia no discurso lido por seu filho primogênito, Eugênio Prado, na cerimônia de entrega do Prêmio Camões em Brasília, à qual a escritora não pôde comparecer. Nessa frase tão sucinta, ela revelou uma chave de leitura de sua própria obra: o chamado da poesia descortina caminhos neste mundo turvo, ainda mais nessa época em que o real é colocado em xeque por artifícios da tecnologia e discursos levianos.
Também o chamado da política atravessou a vida da poeta. Ela chegou a ocupar, entre 1983 e 1988, o cargo de chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. “Na juventude e grande parte da vida adulta me engajei em lutas políticas. No meu livro Terra de Santa Cruz (1981) tem um poema, O falsete, em que acredito que falo melhor sobre minha relação com política.” Diz o poema, num trecho atravessado pelos anos da ditadura militar:
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
Na nossa conversa, outra perda aparece nas palavras da Adélia: “Perder a inocência para partidos é algo obrigatório depois que se faz 40 anos.” Nem por isso políticos deixaram de recorrer aos seus versos. Como fez o pernambucano Jorge Messias, ministro da Advocacia-Geral da União, que em junho de 2025 recitou o poema Janela durante um evento na cidade mineira de Mariana, ao lado de Lula:
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Indicado por Lula para uma cadeira no STF, Messias teve todas as janelas e portas fechadas pelo Senado. Mas, além de uma homenagem à autora, a citação do ministro foi uma provocação lançada ao então governador Romeu Zema (Novo) (hoje aspirante a candidato presidencial). Dois anos antes, durante entrevista a um podcast de Divinópolis, Zema recebeu de presente um livro da poeta e perguntou se aquela Adélia Prado era funcionária da rádio.
Adélia Prado nunca gostou de celebrar seu próprio aniversário. Até bem pouco tempo atrás, ela e o marido José de Freitas, conhecido como Zé, preferiam viajar no dia e entrar em retiro em algum canto. Mas para a festa de seus 90 anos, em 13 de dezembro passado, a família toda se reuniu na casa de Divinópolis. Estiveram ao lado dela os cinco filhos: Eugênio, de 65 anos, Rubem, de 64, Sarah, de 63, Jordano, de 62, e Ana Beatriz, de 59. Cinco de seus nove netos também compareceram. Ao longo do dia, os irmãos foram visitá-la e também várias outras pessoas. Ela gosta muito de rosas, sua flor preferida, mas naquele aniversário ganhou sobretudo orquídeas.
Na hora do brinde, Adélia, que toma remédios para diabetes há quinze anos, cometeu a pequena transgressão de comer bolo com açúcar e tomar uma taça de vinho. Como em toda festa realizada na casa, velas haviam sido espalhadas pelo local. Depois do brinde, todos rezaram juntos e foram dormir cedo.
Quando Adélia completou 40 anos, disse que preferia ter feito 42, achando que seria mais fácil fazer 42 anos. Dessa vez, sentiu a mesma coisa: pensou que fazer 92 deve ser mais fácil que fazer 90 anos. “O rim está com 100 anos, mas o espírito tem 18 anos incompletos”, ela brinca na videochamada. Deve ser o frescor dos 18 anos por completar que a levou a gravar vídeos para seu perfil no Instagram – @euadeliaprado –, em que lê seus poemas. Os posts têm feito sucesso, e o entusiasmo de Adélia transborda: “O que eu mais gosto de fazer é ler poesia”, ela diz num dos vídeos.
Ela também gosta de cantar – “e canta muito bem”, diz Ana Beatriz. Sem falar que fez teatro na juventude, na mesma época em que cursava a faculdade de filosofia, junto com o marido, com quem está casada há 65 anos. Aos 94 anos, José de Freitas convive hoje com uma doença neurodegenerativa chamada Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Da época de Adélia no teatro, Ana Beatriz se lembra em particular de um auto de Natal, O clarão, criado pela poeta em 1979, em parceria com o escritor Lázaro Barreto, no qual a filha atuou quando tinha 14 anos. A peça conta o nascimento de Jesus numa fila do INSS e foi encenada em igrejas de várias cidades, interpretada por conhecidos e amigos, sob a direção da própria poeta. Na década de 1980, Adélia prosseguiu no teatro, dirigindo e atuando no grupo Cara e Coragem, que encenou O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e A invasão, de Dias Gomes, entre outras peças.
O teatro não foi a única atividade artística, além da poesia e da prosa, em que se lançou: há uns dez anos tem se dedicado também à pintura, especialmente a retratos de Cristo. Para ela, todas as formas de arte se encontram num ponto: “É uma experiência humana de transcendência. Você vê a pedra e não vê só a pedra.” Para exemplificar, ela conta um episódio ocorrido durante a visita a um zoológico, quando se deparou com um leão que estava bem silencioso. Chegou o mais perto que podia do bicho. Demorou-se ali, olhando-o. “Eu vi no leão... Soa ruim falar, soa pernóstico... Vi não apenas o leão. Aconteceu!” O poema Neopelicano, do livro Oráculos de maio (1999), conta o que ela viu naquele dia:
Durou um minuto a sobre-humana fé
Falo com tremor:
eu não vi o leão
eu vi o Senhor!
As ideias continuam a encontrar Adélia em situações da vida como essa, que lhe dão uma vontade louca de escrever. “Não é de palavras que se faz poema. Tem palavra lá, mas é só para segurar a experiência que você teve”, ela diz, lembrando de um dia de maio, frio e maravilhoso, quando viu um velho atravessando uma linha de trem. “É um homem pobre, velho, e está atravessando a linha para ir aonde? Para ir até o fim do mundo? Para a morte? Para a vida?”, ela se pergunta. “Então essas coisas que mexem com a sua alma estão lhe dizendo algo. Estão cochichando para você. E às vezes a gente nem percebe. A gente acha que fez a poesia sozinha, mas não. Não fez.”
Se Adélia Prado não faz poesia sozinha, então quem cochicha o poema? “É o Espírito Santo que escreve, não é a gente não. Isso quando a gente escreve alguma coisa que presta, né?”, diz. “De vez em quando, a gente é abençoado com um verso muito bom. E às vezes dá vontade de escrever um verso maravilhoso, o mais bonito do mundo, mas não adianta, ele não vem. É na hora que Deus quer, ele toca você.”
Para ela, a chave de tudo, inclusive da poesia, é o mistério. “Na fé, em qualquer religião, você adora é o mistério. Porque, se o adorável não fosse o mistério, você não o adorava”, afirma. “Isso me trouxe o entendimento da poesia como coisa religiosa, ligada ao transcendente, ligada ao espírito, por causa da beleza. Se eu tirar um único verso, o poema desaba. Se eu pôr um a mais, ele desaba do mesmo jeito. Então, é puro mistério: eu estou falando de coisas que não entendo.”
Muita gente ainda torce o nariz quando o assunto é uma relação com o sagrado no processo de criação artística, mas Adélia Prado, que é católica, não hesita em afirmar esse vínculo. Carlos Drummond de Andrade foi muito certeiro ao perceber a comunicação da poeta mineira com o mistério e o sagrado, antes mesmo que ela ficasse famosa. Em uma crônica de 1975, no Jornal do Brasil, ele escreveu que São Francisco de Assis “está neste momento ditando em Divinópolis os mais belos poemas e prosas a Adélia Prado”. Com 39 anos, ela ainda não tinha publicado nenhum livro. Drummond havia tomado conhecimento de sua poesia por intermédio de um amigo, o também poeta Affonso Romano de Sant’Anna. No ano seguinte, ela publicou Bagagem.
Aconteceu há exatos quarenta anos. Adélia deixou então o anonimato em Divinópolis para ser protagonista de uma agitada noite de autógrafos numa livraria no Rio de Janeiro. No lançamento de Bagagem (1976) compareceram Carlos Drummond, Clarice Lispector e Juscelino Kubitschek, entre outros ilustres. A poeta diz que nem todo mundo estava lá por causa dela, pois na mesma noite Antonio Houaiss e Rachel Jardim também estavam lançando livros. Ela relembra aqueles momentos com tanta vivacidade que parecem ter acontecido há pouco. Como ao contar que Clarice, vestida com um casaco de couro marrom, se aproximou dela e disse: “Vim porque valia a pena.” Quando foi autografar o livro para Juscelino Kubitschek, a poeta precisou perguntar ao ex-presidente como se escrevia seu sobrenome. “Drummond achou aquela minha pergunta um atrevimento”, recorda Adélia, gargalhando.
Bagagem encantou a crítica, mas também os leitores em geral. Até hoje é o livro mais vendido da poeta, com quase 80 mil exemplares em 49 edições. A orelha da primeira edição, feita pela escritora Olga Savary, acertou na aposta que fez: “Acho que Bagagem, livro de estreia da mineira Adélia Prado, vai dar o que falar. Há muito não aparece poesia tão vigorosa, telúrica, intensa, com tanta garra e força primitiva, tão seiva, sangue, suor e sensualidade.”
São Francisco sempre esteve cochichando ao pé do ouvido de Adélia Prado. Toda a formação religiosa da escritora é de tradição franciscana. Ela nasceu numa família com pai e mãe católicos fervorosos, e chegou a usar o pseudônimo Franciscana em colaborações para jornais. Seu fascínio pela liturgia vem desde criança, quando ia à igreja escutar os monges cantando em latim. “Hoje estou entendendo que eu gostava tanto da igreja porque é poética”, ela diz. “Um batizado é extremamente poético, um casamento, uma ordenação sacerdotal de frades também. A própria missa é um teatro maravilhoso.”
Até em uma missa transmitida no YouTube, ela flagra a poesia e o inesperado. Como certa vez em que, numa transmissão pela internet, no momento da elevação da âmbula (o recipiente para guardar as hóstias), o padre de repente ajoelhou e desatou a chorar. “Dava para ver que ele estava transtornado”, ela recorda. Diante do padre aos prantos, os fiéis esperavam a continuidade da missa. Adélia teve a impressão de que o sacerdote se deu conta, talvez pela primeira vez, do mistério que ele estava celebrando.
Com o passar do tempo, a relação da poeta com o catolicismo se transformou. Ela conta que a Igreja Católica a fez sofrer muito por certas interdições. “Mas ao mesmo tempo me deu o mais precioso que eu podia ter: a consciência do sagrado.” Adélia avalia que, em sua época de formação, Deus era apresentado como muito severo e todo mundo levava a Bíblia ao pé da letra. “À medida que o tempo foi passando, entendi que certas práticas e exigências que a igreja me fazia não eram propriamente de Deus, nem de Jesus Cristo”, conta. “Eram coisas da igreja como instituição, como Estado do Vaticano. Então, isso foi me libertando. Eu continuei na fé cristã católica, mas muitas coisas eu já ousava fazer diferente, porque sabia que não era possível que Deus estivesse exigindo aquilo.”
Adélia chegou a acreditar que fora da igreja não havia salvação. Hoje pensa diferente, porque, segundo ela, Deus não é tão pequeno a ponto de achar isso. “Antigamente eu era estúpida mesmo. Era catolicona aos meus 14, 15 anos. Ao longo do tempo fui percebendo os pecados da instituição”, diz. “À medida que ouvia falar, por exemplo, que o cardeal responsável pela operação bancária do Vaticano não prestava contas e que padres haviam praticado abusos sexuais, falei para mim mesma: ‘Não, isso está errado, isso não é a Igreja de Cristo.’ Compreendi que a igreja, como instituição, é coisa humana. O papa Francisco e, agora, o papa Roberto [Leão XIV] têm essa perfeita compreensão. De modo que a vida foi me ensinando a não ser tão idiota, tão boba.”
Ela se lembra de que, ainda adolescente, era louca de vontade de dançar, o que era impedida de fazer, pois participava da congregação Filhas de Maria. Nos Carnavais, enquanto uma multidão de divinopolitanos se divertia nos bailes, as Filhas de Maria permaneciam em retiro na igreja. Namorar também era proibido. “Era uma coisa muito estreita: só peguei na mão do meu marido quando já estava com as vestes do meu casamento”, conta a poeta. “Eu sou muito crédula, sabe? Minha mãe morreu muito cedo. Ela também teve o mesmo tipo de educação, assim como meu pai. Fui me libertar disso muitos anos depois.”
A própria compreensão que tinha do sagrado se alargou. “Graças a Deus”, ela ressalta. Entre as suas leituras recentes estão os livros do iogue indiano Paramahansa Yogananda – uma indicação do ator e poeta Jorge Emil, seu genro, marido de Ana Beatriz. A poeta está muito impressionada com os hindus e destaca outro sinal do seu olhar ampliado: “Tem vizinhos aqui que são protestantes. Às vezes, eles me convidam: ‘Hoje vai ser dia de festa na nossa igreja!’ E eu vou, com a maior tranquilidade.”
Em um trecho de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, o personagem Riobaldo afirma: “Não perco a ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio.” Menciono essa passagem para a Adélia, e ela me responde: “Agora está uma beleza, qualquer religião eu dou conta de falar: vou ler um livro sobre budismo, sobre judaísmo, sobre isso, sobre aquilo, muitas coisas são comuns, principalmente nas religiões monoteístas. Dou conta de entender que um índio adora a Lua. Entendo o candomblé. São sentimentos reais que as pessoas têm da fé, da confiança, da adoração.”
Essa mudança se refletiu na sua própria poesia. No novo livro, O jardim das oliveiras, há um poema chamado O dervixe, que remete aos dervixes rodopiantes, como são conhecidos certos praticantes de uma corrente do Islã chamada sufismo. Adélia escreve:
Pois é completo dançar:
a máxima desatenção do corpo
diverte a divindade que me abençoa.
Tenho serventia.
Pode-se dançar nu.
O corpo é inocente e louva.
O entendimento de Adélia Prado sobre a instituição católica mudou ao longo do tempo, mas outros pensamentos se mantêm. “Sexo, morte e Deus. Eu penso nisso diariamente”, ela conta. “A morte é importantíssima. Deus nem se fala. E sexo também. A libido humana é uma coisa bonita. É uma coisa que pode ser gozada, aproveitada. Faz as pessoas felizes.” Mas antes não era dessa forma: “Antigamente, as mulheres se sacrificavam nos casamentos para poder salvar os maridos, achando que era assim que tinha que fazer, né? Hoje não!” Em seguida, ela indaga: “Não estou mais moderna agora?” E, olhando para Ana Beatriz, afirma: “Ela me ajudou demais, porque já nasceu num contexto diferente e tinha uma liberdade que eu nunca tive.”
Essa liberdade inclui também a dos outros, claro. Adélia se lembra de um aluno gay de uma das escolas públicas em que trabalhou durante 24 anos como professora. “Nunca esqueci desse menino”, diz ela, que defendia o garoto, para que o aceitassem da maneira que ele era. “Como é que a igreja pode legislar em cima disso? Os papas ainda não encontraram o caminho, não. Mas eu acredito que a misericórdia de Deus é infinita. E não tem ninguém que fique fora dela.”
Misericórdia é uma palavra que vai e vem na fala da poeta. É a tábua no mar de tormenta. “Deus é misericórdia. Pura misericórdia. Misericórdia que quero para mim. A gente erra. Mas erra, e erra mesmo. Erra vinte e cinco horas por dia. É triste. Mas é a condição humana”, afirma. “E mesmo se eu escrever o livro mais bonito do mundo – vamos supor que pudesse acontecer um fenômeno desse –, eu ia sentir a mesma coisa: continuo vivendo a mesma miséria, a mesma pobreza, a mesma necessidade, a mesma vulnerabilidade.”
Esse sentimento de misericórdia me lembra passagens do livro Notas íntimas, da escritora francesa Marie Nöel, que descobri por causa de Adélia. Nöel diz: “Fazem a ideia de Deus como um refúgio, como um asilo onde as almas insaciadas vão experimentar, na falta de coisa melhor, a alegria, a paz [...]. Meu Deus não é um lugar tranquilo, Deus é lugar de tormenta.” Numa troca posterior de mensagens, envio esse trecho para Adélia, que responde: “Me identifico muito com Marie Nöel. A visão que tenho de Deus às vezes é de fato esmagadora, sua face terrível se mostra em muitos momentos.” Ela diz ter medo de Deus igual a uma criança de 5 anos. Desde menina também a morte era apresentada para ela como algo terrível, uma inimiga. “Mas aí vem São Francisco que fala: ‘Morte, minha irmã.’ Ah, eu tinha que aprender alguma coisinha, né?”
Conversa vai, poema vem, Adélia muda de assunto, me surpreende: “Se você me aceitar como neto, eu te aceito também como avó.” Nem cheguei a contar para ela na hora, mas aquelas palavras me comoveram especialmente porque, poucas semanas antes, minha avó Maria havia falecido, aos 97 anos, no sertão da Bahia. No instante que recebi a notícia fiquei aturdido, em completo silêncio. Depois que contei sobre a morte da minha avó Maria para a médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes, minha amiga, que apoiara nossa família nos dias finais, recebi dela um trecho de um livro de Adélia intitulado Manuscritos de Felipa (1999):
Acho que morrer é assim:
– Deus, me passa no pontilhão?
– A pé ou no colo?
– No colo.
Você fecha os olhos e quando abre já passou.
Não doeu nada.
Eu, que não sou católico e no quesito religião estou mais para um Riobaldo que bebe água de todo rio, senti que as palavras de Adélia sobre a morte como uma passagem num pontilhão burlaram a secura da notícia da perda da minha avó, só lendo aquele trecho é que me permiti o desaguar do luto. E agradeço imensamente o gesto da amiga Ana Cláudia, que, em vez de me responder com a tão batida expressão “meus sentimentos”, enviou um texto que me tocou tão misteriosamente.
Mas os primeiros versos de Adélia Prado chegaram até mim por intermédio de outra amiga, que me apresentou ao poema Tempo, do livro O coração disparado (1978). Eu tinha 20 e poucos anos, e aqueles versos me apontaram uma urgência do corpo. O poema termina assim:
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
É frequente em Adélia a imagem da fome, muita fome por se roçar à vida e à palavra viva de paixão, como quando diz no poema Entrevista (também no livro O coração disparado):
Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem
é a santidade.
É no corpo que o sagrado e o profano germinam juntos. Num trecho do livro de prosa Os componentes da banda (1984), ela dá outra pista da sua maneira de perceber o prazer, quando a narradora Violante diz: “Deus não me fez até a cintura pro Diabo fazer o resto. Ou tudo é bento ou nada é bento.”
A primeira versão deste texto terminava falando sobre o prazer. Mas aconteceu uma emergência que demanda um acréscimo: em janeiro de 2026, a poeta foi internada às pressas. Sofreu um acidente doméstico, uma queda enquanto caminhava até o jardim, na direção de seu amado pé de caju. Não foi consequência de uma tontura: o que se sabe é que ela caiu e tentou se proteger com o braço. Quebrou o fêmur, o cotovelo e o punho, tudo do lado esquerdo.
Levada de ambulância, foi internada no Hospital São Judas Tadeu, em Divinópolis. Foram vinte dias de hospital, duas cirurgias e períodos no CTI. Os médicos ficaram impressionados com a capacidade de cicatrização do corpo da poeta. Adélia sempre demonstrando muita vontade de viver.
Bastante afeto chegou até ela na forma de mais orquídeas recebidas de presente, assim que voltou para casa. A poeta e toda a família ficaram muito agradecidas pela comoção das pessoas ao redor. Adélia até calculou a força do carinho recebido: disse que 60% da sua melhora se deve ao amor das pessoas. Brincalhona, logo que deixou o hospital, comentou com a filha: “Nada como um tombo para cair algumas fichas.”
Na sexta-feira, dia 15 de maio, Adélia voltou a ser internada no Hospital São Judas Tadeu para tratar uma infecção sistêmica. Ela recebeu alta nesta quarta-feira (27).