vultos do crime
Allan de Abreu, do Rio de Janeiro 08 Out 2026
8 min de leitura
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Claudinei Alves dos Santos, conhecido como Ney Santos, começou com pequenos delitos. Aos 19 anos, foi preso por receptação e formação de quadrilha. Quatro anos depois, foi detido novamente, dessa vez por roubar uma agência bancária. Na prisão, segundo a polícia, tornou-se membro do Primeiro Comando da Capital (PCC) – e ao ser posto em liberdade, em 2005, deslanchou. Seu patrimônio cresceu 2000% no decorrer de uma década. Sempre envolvido em negócios suspeitos, elegeu-se vereador e depois prefeito em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo. Até que em 2026, decidiu – e conseguiu – alçar um voo maior: com os votos de 118.566 paulistas, Ney se elegeu deputado federal pelo Republicanos, mesmo partido do governador Tarcísio de Freitas.
Será a primeira vez que o Congresso terá um parlamentar identificado formalmente pelo Ministério Público como integrante do PCC. Mas esse está longe de ser um fenômeno isolado. Como mostrou a reportagem Facções eleitorais, publicada na edição de agosto da piauí, o crime organizado vem avançando sobre as instituições públicas em várias partes do Brasil. Os resultados do último domingo (4) dão uma nova amostra desse processo.
Um levantamento feito pela piauí aponta que 23 candidatos que concorreram nestas eleições são investigados ou formalmente acusados de ter ligação com milícias e facções criminosas. Os dados foram obtidos por meio de um cruzamento das informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com relatórios do Ministério Público e inquéritos policiais. É uma trajetória de crescimento: nas últimas duas eleições gerais, em 2022 e 2018, o número de candidatos investigados por suspeita de vínculos com grupos criminosos foi de 20 e 10, respectivamente. Dos 23 que disputaram a eleição este ano, a maioria é do Rio de Janeiro (13), seguido por Paraíba (4) e Acre (2). As organizações criminosas que mais aparecem no levantamento são o Comando Vermelho (vinculado em investigações a 11 candidatos) e as milícias (vinculadas a 5). Três desses candidatos se elegeram, sendo dois deputados federais (entre eles, Ney Santos) e um estadual, além de um suplente de senador.
Ney Santos, embora não esteja sozinho, é o único desse grupo apontado como membro “puro sangue” de uma facção. Desde que deixou a prisão, ele passou a ser investigado pelo Ministério Público sob suspeita de operar negócios em benefício do PCC. Em poucos anos, trocou os pequenos delitos por uma carreira de empresário. Formou uma rede de 29 postos de combustível e uma transportadora, todos em nomes de testas de ferro, segundo a investigação do MP. Em 2010, ano em que Ney disputou pela primeira vez uma vaga de deputado federal (não se elegeu), a polícia apreendeu com ele um carro Ferrari avaliado na época em 1,5 milhão de reais. Naquela campanha, segundo a polícia, o candidato distribuía maconha nos seus comícios – em um desses eventos, foram apreendidos 35 kg da droga.
Para o Ministério Público, Ney é um braço empresarial e político do PCC. Em uma interceptação da polícia em Minas Gerais, em 2016, dois integrantes da facção diziam que ele era “intocável” por estar comprometido com o “comando”. Outros indícios reforçam essa tese. Em seu primeiro ano como prefeito de Embu das Artes, seu subsecretário de comunicação e seu segurança emparedaram a moto do cartunista Gabriel Barbosa da Silva, do jornal Verbo Online, e dispararam três tiros. Todos erraram o alvo de propósito – horas depois, o cartunista recebeu uma mensagem no celular: “os próximos tiros serão na sua cara pra aprender a parar de ser falador.” O motivo do ataque, de acordo com o Ministério Público, foram os trabalhos publicados pelo cartunista com críticas à gestão municipal.
Em dezembro de 2016, antes mesmo de tomar posse na prefeitura, Ney foi denunciado por associação criminosa e lavagem de dinheiro, e a Justiça decretou sua prisão preventiva. Mas o empresário não foi encontrado, e ficou foragido até o início do ano seguinte, quando obteve uma liminar em um pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal. A decisão lhe permitiu tomar posse do cargo. Até hoje, não houve sentença no processo.
Quando já era prefeito, em 2018, Ney e um secretário da prefeitura foram abordados pela PM na região de Campinas. No veículo, os policiais encontraram uma pistola com numeração raspada, um colete, 45 munições, um par de algemas e uma faca. Na época, uma denúncia anônima encaminhada à polícia havia informado que a dupla pretendia assassinar um desafeto de Ney. O prefeito e o secretário foram condenados por porte ilegal de arma de fogo. Ainda assim, Ney conseguiu se reeleger em 2020 pelo Republicanos.
No último domingo, ele celebrou nas redes sociais o resultado da eleição. “Deus é especialista em milagres e cumpre o que promete”, escreveu. A candidatura, no entanto, ainda está sub judice. O Ministério Público pediu a impugnação do ex-prefeito, apontando sua longeva ligação com o PCC. “A manutenção de candidatura vinculada a estruturas do crime organizado representa flagrante violação dos vetores constitucionais da moralidade e da probidade administrativa para o exercício do mandato, demandando a atuação imediata da Justiça Eleitoral”, argumentou o procurador Paulo Taubemblatt. Ao julgar o caso, entretanto, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo decidiu manter a candidatura de Ney. O Ministério Público recorreu e o caso agora depende de uma decisão do TSE.
Procurado pela piauí, o advogado de Ney, Francisco Tolentino, não quis se manifestar. Em agosto, quando foi publicada a reportagem Facções eleitorais, a defesa do ex-prefeito qualificou de “mentirosas” as acusações da polícia e do Ministério Público. “Ao longo de mais de catorze anos de apurações contra o ex-prefeito, não foi juntada uma única prova capaz de demonstrar essa falaciosa ligação entre o ex-prefeito e o Primeiro Comando da Capital. [...] Aconselhamos a leitura atenta dos autos das ações e investigações envolvendo o ex-prefeito, a fim de evitar a reprodução de narrativas construídas por determinados membros dos órgãos de investigação e pela oposição política, que se valem da imprensa para conferir aparência de verdade a fatos que não encontram respaldo nos processos judiciais.”
Para o diretor-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, a eleição de parlamentares ligados ao crime organizado é resultado direto da governança cada vez maior exercida pelas facções e milícias em diferentes partes do Brasil. De acordo com um estudo da Universidade de Chicago publicado em 2025, ao menos 50 milhões de brasileiros vivem em territórios controlados por grupos criminosos – ou seja, cerca de 25% da população. “Uma parcela crescente de eleitores ficou refém de vez dessas organizações criminosas, ao ponto de normalizar esse estado de coisas. Não percebemos, ou percebemos tarde, o quanto o crime define comportamentos nesses locais”, diz Lima.
O estado do Rio de Janeiro é o exemplo mais bem acabado desse fenômeno, na avaliação do pesquisador. “A corrupção institucional é tão profunda e arraigada no Rio que rebaixou o parâmetro de julgamento do eleitor fluminense.” Douglas Ruas (PL), que venceu a disputa no primeiro turno e está a uma decisão do TSE de se tornar governador do Rio, não é investigado por ligações com o crime organizado. Já seu pai, Capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo, foi citado no relatório final da CPI das Milícias, em 2008, como um dos líderes de uma milícia que atuava na cidade. A investigação, no entanto, nunca foi adiante.
Douglas Ruas é aliado do ex-prefeito de Belford Roxo Marcio Canella (União Brasil-RJ), eleito deputado estadual com 197.178 votos, a segunda maior votação. Canella tem vínculos antigos com grupos milicianos da Baixada Fluminense. Na campanha de 2018, quando também foi eleito para um mandato na Alerj, ele contou com o apoio do ex-policial Juracy Alves Prudêncio, chefe da milícia “Bonde do Jura”, condenado por homicídio e formação de quadrilha nos anos 2000. Em retribuição, Canella nomeou a mulher de Jura, Giane Prudêncio, como sua assessora na Alerj. Mais recentemente, nas eleições de 2024, quando venceu a disputa para prefeito de Belford Roxo, Canella foi visto em campanha com uma pistola na cintura. Meses depois, já tendo assumido a prefeitura, ele nomeou dois milicianos como secretários municipais: Luiz Eduardo Santos de Araújo (Indústria e Comércio) e Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão (Esportes e Lazer).
Como se já não bastasse, este ano a Polícia Federal encontrou um fuzil no porta-malas do carro de Canella, durante uma operação que investigava o uso de postos de combustível para lavar dinheiro do crime. Dos 197 mil votos que reelegeram o deputado nesta eleição, 68% vieram de Belford Roxo, de acordo com o TSE. Um estudo do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF) afirma que um terço do município é controlado por grupos criminosos – na maioria dos casos, milícias. À piauí, Canella negou vínculo com organizações criminosas na Baixada Fluminense. “Isso é conversa de quem sabia que perderia para mim no voto. Pura perseguição política”, disse.
Ainda no Rio, na cidade de Macaé, a Polícia Federal investiga a relação do clã do prefeito Welberth Rezende com Poliana Krisma Dutra, viúva de uma das lideranças da facção Amigos dos Amigos (ADA). O irmão do prefeito, Márcio Rezende (PSD), se elegeu deputado federal com 75 mil votos no último domingo (4) -- e Dutra aparece em fotos tiradas durante a campanha. Isso motivou o ex-deputado Felício Laterça (Novo) a pedir a impugnação da candidatura de Rezende, acusando-o de vínculos com o crime organizado. Dutra é investigada por ter coordenado a campanha da vereadora Manu Rezende (MDB), filha de Márcio, em quatro comunidades de Macaé controladas pela ADA, em 2024. A suspeita da polícia é de que outros candidatos tenham sido barrados nas comunidades.
A investigação tramita em sigilo. O pedido de impugnação foi negado pelo TRE, mas a campanha de Laterça recorreu e agora o processo está no TSE. Em nota, a assessoria de Márcio Rezende negou a acusação. “Márcio sempre esteve à disposição das autoridades e é o maior interessado na apuração completa do caso. Associar seu nome a suspeitas dessa gravidade [...] ignora os autos e as conclusões das instituições competentes.”
Além dos três deputados eleitos, o levantamento da piauí inclui Antônio Luiz Rodrigues Mano Júnior, conhecido como Júnior Mano. Ele é deputado federal e acaba de ser eleito primeiro suplente na chapa de Cid Gomes (PSB-CE) para o Senado. Como mostrou a piauí, Júnior Mano é investigado pela PF por suspeita de ter desviado de emendas parlamentares em um esquema comandado por Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto do Choró, um ex-prefeito vinculado ao PCC e atualmente foragido. À piauí, o deputado negou as suspeitas levantadas pela polícia. “A tentativa de vincular o deputado Júnior Mano a grupos criminosos é uma fofoca maldosa, sem qualquer fundamento, que já foi devidamente rechaçada pela Justiça”, disse sua assessoria, por meio de nota.