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RATINHO, A FACA E O QUEIJO

Como o governador do Paraná deu para trás na corrida presidencial, rachou seu grupo político e agora se prepara para uma eleição incerta
Ratinho Junior escolheu seu secretário de Infraestrutura, Sandro Alex, para disputar eleição ao governo do Paraná - Divulgação/PSD
Ratinho Junior escolheu seu secretário de Infraestrutura, Sandro Alex, para disputar eleição ao governo do Paraná - Divulgação/PSD

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O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), estava com a faca e o queijo na mão em março deste ano. Com aprovação superior a 80% entre eleitores do estado, segundo o Instituto Paraná Pesquisas, seu nome ganhava tração no cenário nacional. Incensado pelo presidente de seu partido, Gilberto Kassab, o paranaense vinha obtendo desempenho promissor como pré-candidato à Presidência. Teria que disputar o voto da direita com Flávio Bolsonaro (PL), o favorito entre os eleitores, mas estava no jogo. 

O desempenho nas pesquisas coroava uma trajetória quase sem revezes. Ratinho debutou na vida pública em 2002, aos 21 anos, sendo eleito pelo PSB como o deputado estadual mais votado até então na história do Paraná –, graças à fama e ao dinheiro do pai, o empresário e apresentador Ratinho, do SBT. Em seguida, elegeu-se deputado federal por dois mandatos consecutivos. Sua única derrota ocorreu em 2012, quando perdeu a eleição à prefeitura de Curitiba. Depois, tornou-se secretário de Desenvolvimento Urbano do então governador Beto Richa (PSDB), onde estreitou relações com prefeitos do interior, angariando capital político.

Dali a chegar ao governo do Paraná, foi um pulo. Foi eleito em 2018, surfando o bolsonarismo, e reeleito quatro anos depois. Com maioria absoluta na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), conseguiu isolar a diminuta oposição, ao mesmo tempo em que manteve afagos aos prefeitos – em um modelo de gestão que ele mesmo define como municipalista. Apoiado por 300 prefeitos dos 399 municípios paranaenses, tudo levava a crer que Ratinho Junior faria seu sucessor com facilidade, enquanto se colocaria na disputa nacional. Ainda que não vencesse as eleições presidenciais neste ano, se credenciaria para 2030, enquanto, no Paraná, manteria seu grupo no poder. Parecia um plano perfeito.

Até que chegou o dia 23 de março. Entre a manhã e o início da tarde daquela segunda-feira, o governador paranaense recebeu cerca de quarenta deputados estaduais de sua base, em um almoço servido no Palácio Iguaçu, a sede do governo. O encontro seria uma espécie de despedida, já que o plano era que Ratinho anunciasse sua pré-candidatura à Presidência dali a dois dias e se afastasse do cargo. 

Fontes ouvidas pela piauí, no entanto, afirmaram que o almoço foi jogo de cena. Ratinho havia decidido abandonar a disputa presidencial no dia anterior. No fim da tarde, após o encontro com os deputados, o governador anunciou sua decisão publicamente. A notícia surpreendeu Kassab, secretários de governo e deputados mais próximos. A nota que comunicava sua desistência ao Planalto dizia que o governador tinha tomado a decisão “após profunda reflexão com sua família” e que o foco seria terminar seu mandato. O PSD, então, decidiu apostar em Ronaldo Caiado.

Desde a mudança de rota, Ratinho Junior passou a se concentrar nas articulações para influenciar as eleições paranaenses. E tomou uma série de decisões controversas, que estremeceram suas relações com aliados e tem colocado em risco seu capital político no estado. A principal delas foi a escolha de seu sucessor, o deputado federal licenciado Sandro Alex (PSD), que ainda não decolou nas pesquisas. No levantamento da Quaest divulgado em 24 de agosto, ele aparece com 15% das intenções de voto. Sergio Moro (PL), o ex-juiz, alcança 37%. 



Sorridente e ao lado de Sandro Alex, Ratinho Junior participou, em 5 de agosto, da convenção do PSDB e da União Progressista (federação entre União Brasil e Progressistas). Era a oficialização das últimas adesões à chapa de seu pupilo, que também é apoiada por Republicanos, MBD, entre outras siglas menores. A coligação foi batizada com um slogan: “Unidos e em paz.” E a frase vem sendo repetida à exaustão, de modo a tentar colar a imagem de harmonia. 

Os caminhos que levaram à escolha de Sandro Alex como candidato ao governo estadual, no entanto, não remetem à união ou à pacificação. Até o início deste ano, outros dois nomes despontavam como favoritos para receber o apoio de Ratinho Junior: Guto Silva (secretário do Planejamento e das Cidades, e que já tinha sido chefe da Casa Civil) e Alexandre Curi (presidente da Assembleia Legislativa do Paraná). 

Ambos têm pontos em comum: são jovens e possuem ótimo diálogo com os prefeitos – a essência da articulação preconizada pelo atual governador. Em pesquisas realizadas no início do ano, eles apareciam com cerca de 15% de intenções de voto. Quando questionado sobre quem seria seu candidato, Ratinho Junior ficava em cima do muro. Dizia que “tinha bons nomes” e citava Silva e Curi. Foi levando-os em banho-maria.

No início de abril deste ano, o governador convocou Guto Silva em seu gabinete no Palácio Iguaçu. Foi uma reunião rápida. Em entrevista à piauí, Guto disse que Ratinho Junior comunicou que teria que fazer “uma mudança de rumo” e que ele não seria seu candidato. A decisão o surpreendeu. Àquela altura, o secretário já estava em pré-campanha, fazendo reuniões com bancadas de deputados comprometidos em torno de sua candidatura. Por ter sido um aliado desde o primeiro mandato do governador, Guto sentiu-se frustrado pela forma como Ratinho Junior conduziu o processo.

“Na política, nós [Ratinho e Guto] construímos todas as passagens, todos os desenhos”, disse Guto, ao exaltar a parceria política de uma década. “Não fui consultado no processo de ‘desconstrução’, de construir uma nova jornada. Só fui comunicado”, acrescentou ele, que até então tinha se mantido em silêncio sobre a ruína de sua candidatura. “Ainda tenho dificuldade de poder explicar e contextualizar o que aconteceu.”

Fontes ouvidas pela piauí do entorno de Ratinho Junior relatam que Guto era, de fato, o nome preferido do governador para sucedê-lo. A situação mudou quando o governador informou a Alexandre Curi, presidente da Alep, que ele havia sido preterido. Insatisfeito, Curi impôs duas condições para não romper com o governo estadual: ser candidato ao Senado e impedir Guto Silva de concorrer ao governo estadual. 

Curi nega que tenha vetado o nome de Guto Silva. Ele diz que o que houve foi um processo de diálogo em que todos cederam em nome da “unidade” do grupo político em torno de Ratinho Junior. “O governador sempre falou do meu nome, do [Rafael] Greca [ex-prefeito de Curitiba] e do Guto Silva. Então, tanto eu quanto o Greca colocamos o estado do Paraná acima de qualquer projeto político. Não tem vaidade pessoal nesse processo. E todo mundo ali cedeu”, afirmou Curi.

Sem Guto Silva nem Curi, outros nomes passaram a ser cogitados. Um deles, o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), não aceitou a missão. Outro era o secretário de Saúde, Beto Preto, que ganhara notoriedade pela forma técnica como conduziu as ações do estado durante a pandemia. Ele chegou a se reunir com Ratinho Junior, mas seu nome foi descartado porque Preto já havia sido filiado ao PT – partido pelo qual venceu a eleição à prefeitura de Apucarana, em 2012. Ele era visto como uma figura de “centro-esquerda” pelos aliados do governador.

Com o vácuo, Ratinho Junior decidiu apostar no radialista Sandro Alex, seu aliado há duas décadas, mas uma figura bem menos popular que outros nomes aventados. Deputado federal licenciado, Sandro Alex ocupava o posto de secretário de Infraestrutura e Logística, pasta responsável por executar obras em todos os rincões do Paraná. A mais badalada delas foi a construção da Ponte de Guaratuba, no litoral, que eliminou a dependência do sistema ferry-boat para chegar à Baía de Guaratuba.

Pessoas ouvidas pela piauí descreveram Sandro Alex como alguém que não dividia os louros das obras com os colegas de governo, apenas com Ratinho Junior. “Quando ia inaugurar obras importantes, iam apenas ele e o governador. E desprezava os políticos, principalmente os deputados da região, que se sentiam desprestigiados”, disse um deputado estadual aliado de Ratinho, na condição de não ter o nome revelado.

A aliados, Ratinho Junior tem justificado a escolha por Sandro Alex a partir de uma pesquisa de opinião encomendada pelo seu partido, o PSD. No levantamento, o candidato aparece com boa popularidade e chance de crescimento – atualmente, tem 15% das intenções de voto. “Ele [Ratinho Junior] me disse: ‘As obras são o símbolo [da gestão]. Gostaria que você representasse meu time, porque você foi meu braço direito que ajudou a tirar essas obras [do papel]’”, afirmou Sandro Alex à piauí

A decisão pegou o secretário de surpresa. “Eu nunca me coloquei como pré-candidato. Estava trabalhando pela unidade do grupo”, resume. Sua percepção é de que Guto Silva seria o escolhido. 

Sandro Alex foi anunciado por Ratinho Junior como seu sucessor no dia 13 de abril. Um tom de incredulidade se abateu sobre o meio político paranaense, da direita à esquerda. Entre os efeitos colaterais da escolha, um dos mais importantes foi a aposentadoria precoce de Guto Silva. Ele diz ter se sentido “traído em todo o processo” sucessório conduzido pelo atual governador. “Agora tem que deixar a coisa oxigenar e vou cuidar da minha vida”, afirmou. Procurado, alegando problemas de agenda, Ratinho Junior não deu entrevista à piauí. 

Passados quatro meses, o grupo político do governador parece ter assimilado a escolha. Os discursos têm evidenciado a ligação de duas décadas entre Ratinho e Sandro Alex e as realizações do secretário no governo paranaense, como grande “tocador de obras”. O deputado estadual Luiz Cláudio Romanelli (PSD) compara: “Ele é o Tarcísio do Ratinho”, aludindo ao fato de Tarcísio de Freitas ter vencido o governo de São Paulo, após ter sido ministro de Infraestrutura de Jair Bolsonaro (PL). Curi, por sua vez, diz que “Sandro não é conhecido, mas 100% dos paranaenses conhecem suas obras”. E ressalta que o candidato governista vai deslanchar a partir do momento que a população souber de seu currículo.



Os movimentos de Ratinho Junior não impactaram apenas as esperanças de Guto Silva. Ex-governador e ex-senador por quatro mandatos, Álvaro Dias (MDB) liderava as pesquisas para o Senado, com 20% das intenções de voto, segundo pesquisa da Quaest. Em 3 de agosto, no entanto, ele desistiu da candidatura e anunciou o fim de sua vida pública. Em nota, Dias fez menção às disputas internas dentro do núcleo político comandado pelo governador: “Infelizmente, compreendi que hoje não existem, dentro do grupo político liderado pelo governador, as condições necessárias para construir essa unidade que eu tanto almejei, também em torno de meu nome.”

Dias abandonou a corrida eleitoral porque descobriu que Ratinho vai apoiar outros dois candidatos ao Senado. Além de Curi, o presidente da Alep, o governador também estará na campanha da ex-jornalista Cristina Graeml (PSD). Foi uma reviravolta e tanto. Em 2024, Graeml era uma neófita que disputava a prefeitura de Curitiba, em sua primeira eleição, pelo nanico PMB. Com um discurso raivoso e alinhado à extrema direita, ela correu por fora e conseguiu ir ao segundo turno. Na ocasião, a candidata se colocava como “antissistema” e fez duras críticas ao PSD, partido de Ratinho Junior e Eduardo Pimentel, seu rival na disputa. Com a ajuda do governador, Pimentel saiu vitorioso. 

Um ano e meio depois, Graeml se filiou ao PSD com a articulação de Ratinho Junior. O governador tem feito vista grossa para o fato de a ex-jornalista apoiar Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, ainda que seu partido tenha um postulante próprio: Ronaldo Caiado. 

A presença de Graeml no círculo de aliados do governador tem gerado desgaste. Há resistências a ela não só no próprio partido, mas também entre os quadros de siglas da base aliada, como MDB e Republicanos, que tentaram barrar sua candidatura. Sob condição de anonimato, um deputado estadual do PSD diz que prefere atuar de forma oculta para eleger a petista Gleisi Hoffmann a apoiar Graeml. “A verdade é que, fora o governador, ninguém gosta dela”, disse outro deputado do PSD. Até o momento, Graeml apareceu com 8% na pesquisa de agosto da Quaest. 

Ao mesmo tempo em que frustra alguns de seus aliados, Ratinho Junior consegue isolar ou controlar nomes que podiam fazer frente ao seu domínio. Foi assim com o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca (MDB). Desde o ano passado, ele se colocava como pré-candidato ao governo, aparecendo em terceiro lugar nas pesquisas. Estava, no entanto, no PSD. Ao perceber que não seria o candidato de Ratinho, mudou-se para o MDB, com intenção de disputar o governo. Chegou a postar em suas redes sociais uma imagem feita por inteligência artificial, em que aparecia no topo de um prédio, com uma bandeira em que se lia: “Não vou ser vice de ninguém.” Dizia a correligionários que jamais seria vice “do radialista de Ponta Grossa” – em uma menção pouco amigável a Sandro Alex, que além de político é advogado e comunicador.

Em 31 de julho, Greca engoliu o próprio orgulho e cedeu. Mesmo aparecendo à frente de Sandro Alex nas pesquisas, ele aceitou ser vice na chapa do candidato escolhido por Ratinho Junior. “O Álvaro Dias foi o responsável por manter eu e o Greca. Foi um avalista, um padrinho desse casamento”, afirma Sandro Alex. Por ter conduzido essa articulação, Dias se sentiu traído por não ter sua candidatura ao Senado apoiada pelo governador. Os puxões de tapete não passaram despercebidos.



A corrida eleitoral pelo governo é liderada com folga pelo senador Sergio Moro (PL). A própria candidatura do ex-juiz foi viabilizada graças ao passo em falso de Ratinho, quando este tentava se lançar à Presidência. Ao perceber o movimento, Flávio Bolsonaro (PL) pressentiu que perderia seu palanque no Paraná. Por intermédio de Rogério Marinho, tratou de filiar Moro, que voltou a abraçar o bolsonarismo. Sobretudo graças ao espólio da Lava Jato, o ex-juiz continua com a popularidade em alta, principalmente no interior do estado.

Tanto para aliados de Ratinho Junior quanto para a oposição, o “x” da equação eleitoral é se o governador será capaz de converter em votos seu apoio a Sandro Alex. A entrada de Greca como vice deve ter impacto principalmente em Curitiba e região metropolitana, onde o ex-prefeito da capital tem seu reduto eleitoral. O começo da propaganda eleitoral, a presença massiva na tevê e o apoio do ex-governador devem impactar positivamente a campanha de Alex.

Alex reconhece que não tem um “nome de Big Brother”, mas não tem dúvidas de que haverá tempo hábil para que se torne conhecido do eleitorado. Ele também se apega a dados recentes da pesquisa Quaest. De acordo com o levantamento, 65% dos respondentes disseram que Ratinho merece eleger seu sucessor e que 44% ainda podem mudar seu candidato. “Quando a população souber quem é o candidato do Ratinho, isso vai mudar”, aposta. O deputado estadual Romanelli, do PSD, lembra ainda que a coligação do governador deve abocanhar metade do tempo de tevê da propaganda eleitoral. “Lá por 7 de setembro, o Sandro Alex já vai estar em um espetáculo de crescimento eleitoral. Temos certeza de que vamos para o segundo turno.”

Apesar do clima de esperança em torno da candidatura de Sandro Alex, a estratégia de Ratinho Junior para tentar eleger seu sucessor ainda causa ruído entre aliados. Há quem elogie o governador por isolar ameaças, manter certo equilíbrio em seu grupo ao fomentar disputas internas e só revelar seu jogo no último instante. Uma outra parcela, no entanto, acredita que Ratinho Junior deveria ter apostado nos nomes mais óbvios – Guto Silva ou Alexandre Curi – evitando atritos internos. Além disso, acreditam que uma derrota de Sandro Alex nas eleições pode enfraquecer o grupo politicamente no Paraná. E a nova pesquisa Quaest aponta que, hoje, Sandro Alex perderia um eventual segundo turno, tanto em disputa com Moro, quanto com Requião Filho (PDT), o candidato da oposição. 

Requião é o segundo colocado na pesquisa da Quaest de agosto, com 21% das intenções de voto. Para Arilson Chiorato, presidente do PT paranaense, caso não consiga emplacar seu candidato, Ratinho Junior poderá ver seu poder no estado se esfacelar. Seria um caso raro de alguém que almejava o Palácio do Planalto, mas que acabou perdendo o controle de sua base. “Aí, perdeu a faca e o queijo... ficou só o rato”, gracejou o petista.


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)