obituário
Marcos Caetano, de Windermere 18 Jul 2026
6 min de leitura
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Há cinquenta anos, o rubro-negro João Bosco e o vascaíno Aldir Blanc lançavam um clássico da MPB: Latin Lover. Como acontecia com as melhores produções da dupla, a canção era praticamente uma crônica – e este obituário, embora obviamente não pretenda falar de música, mas de futebol, começará exatamente onde ela termina. Depois de narrar uma série de aventuras amorosas do amante latino que dá título à música, a letra do saudoso e genial Blanc termina nos seguintes versos: “As lembranças acompanham até o fim o Latin Lover, que hoje morre sem revólver, sem ciúmes, sem remédio, de tédio.” As palavras de Blanc, ele próprio um contumaz crítico do futebol sem imaginação, descrevem exatamente como me sinto diante de mais um fracasso da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Essa sensação pode ser resumida da seguinte forma: eu preferia mil vezes ver nosso escrete morrer de revólver, de Maracanazo ou de 7 a 1 do que de tédio.
O que mais me entristece na patética derrocada dos comandados de Carlo Ancelotti é, por mais estranho que isso possa soar, a completa falta de drama, a absoluta ausência de tragédia. O Brasil eliminado nas oitavas de final da Copa de 2026 não chocou absolutamente ninguém. O mundo inteiro não esperava que chegássemos a lugar algum e... não chegamos. Se isso não for a materialização da irrelevância no mundo do futebol, não sei o que poderia ser.
Quando perdemos em 1982, não ficou um olho seco no Brasil. Adultos e crianças choraram abraçados. Recordo de ter visto minha avó em prantos pela primeira vez na vida. Eu soluçava, entre copos de água com açúcar trazidos pela minha mãe. Um ano depois, ainda um adolescente, eu perderia meu pai – e até hoje sinto vergonha filial (e um estranho orgulho pátrio) por ter convicção de que chorei mais pela derrota do time de Telê Santana do que pela morte do meu amado velho. Tento amainar a vergonha dizendo que, a partir dali, era preciso mostrar quem era o novo homem da casa, mas isso é papo furado. Eu também chorei nas derrotas de 1986 e 1990, mas aí já misturado com saudades do pai. Em 1998 eu chorei dentro do Stade de France e, depois, só fui chorar de novo no Mineirão, na noite do 7 a 1. Mas esse foi um choro diferente, um choro ruim, de raiva e vergonha.
Desde então, nem eu nem quase nenhum outro brasileiro adulto voltou a chorar pela Seleção. A exceção, alguém poderá dizer, foi o patético choro de Neymar após mais uma eliminação. Mas esse eu nem conto, ainda mais quando recordo que ele gargalhou e fez gracinhas para o goleiro rival ao marcar o gol de pênalti no fim da partida – em vez de buscar a bola no fundo das redes e correr com ela debaixo do braço para o meio-campo, como fazem os verdadeiros líderes. Fora esse choro, que pareceu mais pelo fracasso pessoal do que pela dor de um país, não vi nenhum outro adulto chorando. Ninguém parecia se importar tanto. E isso, na liturgia do futebol, significa morte.
A Seleção Brasileira, depois de tanto ser vilipendiada por treinadores retranqueiros, pela busca de objetivos individuais de nossos craques influenciadores, pela asquerosa corrupção da CBF, pela indústria escrota das bets, e até por coisas menos importantes, embora significativas, como dancinhas bestas de comemoração, reportagens sobre o que há nas nécessaires dos atletas e cabeleireiros, coloristas (especialistas em tingimento de cabelos) e fotógrafos exclusivos dos jogadores fazendo parte da delegação – a Seleção está morta.
Como o futebol é meio kardecista, pode ser que um dia ela venha a reencarnar, mas hoje está definitivamente morta e enterrada. Ter acompanhado muitas Copas fora do Brasil me dá uma perspectiva diferente sobre como o mundo nos vê. Eu recordo o grande espanto da mídia internacional, e até mesmo da população francesa, quando Zidane acabou com a gente em 1998. Ninguém esperava aquela vitória da França e, apesar dela, continuamos vivos e prontos para retomar o trono, como fizemos, quatro anos depois. Nem mesmo o 7 a 1 foi suficiente para nos matar: o espanto continuava presente; o amante latino morreu envenenado, de emboscada, num tiroteio, na guerra ou de qualquer outro jeito espetaculoso.
“A dor não pode mais do que a surpresa”, escreveu Guimarães Rosa. O espanto daquela derrota foi maior até do que a dor, e aquele espanto nos conferiu dignidade. Nada disso nos resta mais. Nem o espanto. Depois da derrota para a Noruega, mesas redondas mundo afora falavam de Haaland, de Cabo Verde, da Argentina, da França, tudo menos do fracasso do Brasil. Nosso fracasso era quase, como diriam os matemáticos que defendem a imensidão de Neymar com números que pouco querem dizer no universo mítico das Copas, um dado da equação.
A derrota de 2026 não acarretou manchetes desesperadas nas capas de sites, jornais e revistas do Brasil e do exterior. Não teve a foto do menininho chorando no Jornal da Tarde de 1982. Não mostrou comentaristas chorando ao vivo. Nada disso. O fim do sonho do hexa, que vai durar pelo menos 28 anos – embora eu ache que vou morrer, e talvez até reencarnar, antes que isso aconteça de novo – gerou apenas uma coisa: memes. Ah, nisso, somos os incontestáveis campeões mundiais! Quando o assunto é meme, musiquinha ou dancinha, somos o Brasil de 1970. E faz todo o sentido, convenhamos. Uma vez que ninguém com mais de 9 anos de idade ainda chora pela Seleção, qual o problema de fazermos graça do assunto?
Tragédias devem ser respeitadas. A irrelevância apenas constrange. O Latin Lover que morreu de tédio, e não em um duelo de terríveis ciúmes, pode e deve ser escrachado sem dó. Entre as centenas de memes que vi, o mais significativo foi um que dizia assim: “vivi para ver o Brasil perder da Noruega no futebol e ganhar no esqui alpino.”
No fim, embora não seja surpreendente e nem mesmo doloroso, o desencarne da Seleção, ao menos para mim, não deixa de ser triste. Porque eu aceitaria perfeitamente ver nossa escola de jogar futebol ser superada por novas ideias. Por vinte anos, entre a derrota para o Carrossel Holandês em 1974 e o tetra de 1994, eu cheguei a achar que isso estava acontecendo. Nosso jeito de jogar, com dribles, cadência e criatividade, estaria sendo superado por uma nova escola, mais física, veloz e contundente. Tudo bem, pensei: é bonito morrer fiel ao próprio estilo. A Seleção seria o poeta parnasiano condenado a desaparecer como vítima do modernismo. Um dia se lembrarão de nós. Ou não. Mas eu lembrarei. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. O Brasil dos últimos tempos jogou – e perdeu – como uma seleção italiana. E isso dói bastante.
Dor maior do que essa, só mesmo a que senti após fazer uma última constatação: o destino de toda grande escola futebolística é morrer duas vezes. A primeira, quando deixa de vencer. A segunda, quando deixa de fazer falta. A morte da Seleção Brasileira, nesse sentido, corresponde a essa segunda morte. Eu abri este obituário com os últimos versos de uma canção de Aldir Blanc, e quero encerrá-lo com as últimas palavras do último romance de Machado de Assis: “Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.”
Do nosso outrora glorioso futebol restaram apenas os memes.