questões musicais
Astier Basílio 22 Jun 2026
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No Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão, no Rio de Janeiro, os craques do Botafogo comemoram a conquista do Campeonato Brasileiro de 2024, enquanto a voz do compositor e cantor Belchior (1946-2017) soa ao fundo, em um clipe da vitória preparado pela TV Globo:
Presentemente, eu posso me
Considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço
Me sinto são, e salvo, e forte
E tenho comigo pensado
Deus é brasileiro e anda do meu lado
[...]
Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro
A canção Sujeito de sorte, do álbum Alucinação, de 1976, se consagrou no imaginário popular como uma espécie de hino da resiliência nacional. Um dos responsáveis por isso foi Emicida. Em AmarElo – é tudo para ontem, documentário sobre as raízes da cultura afro-brasileira lançado em dezembro de 2020, o rapper entoa o estribilho da música de Belchior, ao lado de Pabllo Vittar e Majur. Como o país vivia a tragédia da Covid, o canto de Emicida ecoou o grito de milhões de brasileiros que enfrentavam a maior pandemia da história moderna.
O fato curioso é que os famosos versos “ano passado eu morri/mas esse ano eu não morro” não são propriamente de Belchior. Três anos antes de o álbum Alucinação ser lançado, o verso constava, com uma variação, na página 272 do livro Zé Limeira, poeta do absurdo, lançado em 1973 pelo pesquisador paraibano Orlando Tejo (1935-2018), em uma sextilha atribuída ao cantador de viola Zé Limeira:
Eu já cantei no Recife
Dentro do Pronto Socorro,
Ganhei duzentos mil réis,
Comprei duzentos cachorro,
Morri no ano passado,
Mais esse ano eu não morro.
Belchior não se preocupava em dar crédito às frequentes citações que fazia em suas músicas. Um exemplo significativo é a frase que se tornou uma espécie de cartão de visitas: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano.” Não foi uma criação sua. Por volta de 1975, o cearense Augusto Pontes, que ministrava aulas de filosofia na Universidade de Brasília, ao dar as boas-vindas para sua turma de alunos, disse: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares.” O também cearense Belchior estava na sala de aula da faculdade, que chegou a frequentar esporadicamente, e foi um dos muitos que riram com aquela inusitada apresentação. Gostou tanto que se apropriou quase por completo do que ouviu, como descreve Jotabê Medeiros na biografia Belchior: apenas um rapaz latino-americano.
Não foi a única vez que Augusto Pontes, um guru intelectual da geração de Belchior, compôs uma frase que o compositor adotaria como verso. Na canção Mucuripe, uma das poucas parcerias com Raimundo Fagner, Belchior não mexeu em quase nada ao produzir o estribilho “Vida, vento, vela, leva-me daqui”. Apenas alterou a ordem de uma única palavra no verso que Pontes costumava dizer em rodas de amigos. Classificando a si mesmo como um “falador”, muito mais do que um escritor, Pontes, que morreu em 2009, não se chateava com as apropriações feitas pelo pupilo famoso. Ao contrário, sentia orgulho do “empréstimo”. Ele se aborrecia mesmo quando alguém acusava Belchior de furto.
As referências alheias copiadas sem indicação de crédito não se restringiram às frases de Pontes. O jornalista Jotabê Medeiros escreve:
O encarte original do LP Alucinação tem uma frase no fim das dez letras: “Todas as músicas são de autoria de Belchior.” Fosse um pouco mais adiante no tempo, nessa era de advogados e copyright diligente, talvez uma ou outra canção fosse obrigada a deixar claras as citações que carrega: ele alude a Edgar Allan Poe, Dylan, Luiz Gonzaga, Beatles, Caetano Veloso, entre outros.
O expediente foi usado também na canção Sujeito de sorte com a sextilha de Zé Limeira (citada acima). É pouco provável que Belchior não tenha lido ou ao menos folheado o livro de Orlando Tejo. Antes de o álbum Alucinação chegar às lojas em 1976, veículos de alcance nacional, como a revista Veja e os jornais O Pasquim e Opinião, escreveram sobre a obra. Se não encontrou o verso no livro, Belchior seguramente o ouviu de alguém ou leu em algum lugar.
No convento dos capuchinhos, onde Belchior estudou a partir de 1964, ele impressionava pela capacidade de improvisar versos por horas seguidas. O jovem religioso punha em prática as lições que aprendera de ouvido quando assistia às apresentações dos violeiros na bodega do pai do seu pai, Antonio Belchior Fernandes. “Na casa do meu avô chegava muito cantador. [...] Eu me lembro de alguma coisa que eu ouvi e que ficou gravada. Eram motes e glosas, eram décimas perfeitas”, relembrou o cantor, anos depois, no programa Ensaio, da TV Cultura. Também na TV Cultura, quando participaram do programa Presença, Belchior e Fagner foram anunciados como “repentistas cearenses” que “cantam do repente ao martelo com grande categoria”.
Depois de desembarcar no Rio, Belchior tratou de criar um mito em torno de sua pessoa: espalhou que se bateu em pelejas de improviso pelas feiras do sertão. Não foi difícil encontrar quem acreditasse naquela narrativa fantasiosa. Afinal, a cidade cearense de Sobral, onde Belchior nasceu em 1946 e passou a adolescência, era um centro importante para os cantadores de viola. Naquele mesmo ano, Ariano Suassuna franqueou o palco do Teatro de Santa Isabel, no Recife, a repentistas, naquela que seria sua primeira aula-espetáculo. No ano seguinte, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, foi realizado um dos grandes acontecimentos da poesia popular brasileira, o I Congresso de Cantadores do Nordeste, que incluiu um torneio poético. A vitória coube a uma lenda do repente, o Cego Aderaldo, na ocasião com 68 anos. Ao lado dele, quem estava empunhando sua viola era um jovem de 23 anos, Otacílio Batista.
Em maio de 1976, no lançamento de Alucinação (que venderia 500 mil cópias), em uma reportagem para o Jornal do Brasil, o jornalista paraibano José Nêumanne Pinto talvez tenha sido o primeiro a colocar em dúvida a autoria de parte do refrão de Sujeito de Sorte:
O autor desses versos é difícil precisar. Pode ter sido Otacílio Batista Patriota, cantador afamado de São José do Egito, em Pernambuco; ou José Alves Sobrinho, bardo sertanejo e pesquisador acurado da poesia popular nordestina, de Campina Grande, na Paraíba. Heleno Firmino, um violeiro do brejo paraibano, também pode ter criado essa lorota num momento de genial loucura. Seja qual for seu verdadeiro autor, sabe-se, porém, que é uma “limeirada”. Quem fez foi Zé Limeira, um mito cada vez mais avassalador, a reunir numa só obra toda a antologia da marginalidade da viola do Nordeste.
Figura circunscrita ao universo da poesia oral nordestina, Zé Limeira ampliou bastante seu público quando naqueles anos 1970, graças ao livro de Orlando Tejo, seus versos estrambóticos deixaram de circular apenas de boca em boca e passaram a ser lidos, cantados e recitados por músicos nordestinos como Zé Ramalho, Alceu Valença e Vital Farias – até desembarcar na canção de Belchior.
A fama de Zé Limeira se manteve ao longo da década de 1980. O então presidente José Sarney era um fã declarado do livro de Tejo, de quem se aproximou quando o escritor se mudou para Brasília. “Naquele tempo, um deputado, pra falar com Sarney, era coisa de minutos. Mas, quando ele se encontrou comigo, passou bem uma hora, falando de Zé Limeira”, me contou Tejo, antes de sua morte em 2018, aos 83 anos. Com a ajuda de Sarney, o livro foi republicado, com texto do próprio presidente da República, na Coleção Machado de Assis, da editora do Senado Federal, com tiragem de 10 mil exemplares.
Nos anos 1990, o grupo Mestre Ambrósio, ligado ao manguebeat, colocou a obra de Zé Limeira mais uma vez em evidência, na canção Se Zé Limeira sambasse maracatu, apresentando o poeta do absurdo a uma nova geração:
Vi Zé Limeira descendo do firmamento
Vi Zé Limeira descendo do firmamento
Um batalhão de jumento
Vinha tocando corneta
Mais de cem anjo perneta
Celebrando um casamento.
O mérito de Orlando Tejo não foi apenas apresentar Zé Limeira para um público letrado. Sua obra introduziu uma novidade nos livros sobre cantoria de viola, que, antes, com a influência dos estudos folclóricos, davam mais ênfase à produção coletiva. Zé Limeira, poeta do absurdo foi o primeiro livro no qual um repentista de carne e osso ganhou protagonismo.
Mas, durante todo esse tempo, não foi divulgada nenhuma evidência documental da existência de Zé Limeira: nenhum retrato, nenhuma gravação, nenhum rastro escrito. O que levantou a hipótese de que talvez não tenha existido.
Não foram poucas as vezes que Tejo foi confrontado com isso. Ele em geral se esquivava do assunto. “Ora, numa situação dessas, eu tenho que invocar o in dubio pro reo, e no caso aqui, o réu sou eu mesmo, do tanto que me acusam de ter inventado esse poeta”, disse certa vez o pesquisador, que era formado em direito, mas nunca exerceu a profissão.
Em seu livro, porém, Tejo jamais coloca em questão a realidade de Zé Limeira. Ele conta inclusive sobre o encontro que teve com o cantador e que mudou sua vida, ainda na adolescência: “Foi numa nublada tarde de sábado de 1950 que ouvi pela primeira vez José Limeira. Cantava em um sombrio casarão da Rua Manoel Pereira de Araújo, movimentado centro do baixo meretrício de Campina Grande.” A amizade entre o jovem e o cantador durou cinco anos. O desejo de deixar registrado uma compilação de estrofes para a posteridade ficou martelando em Tejo por catorze anos. “Eu ficava o tempo todo pensando: eu não posso guardar isso só para mim, não posso.”
Também o cantador Otacílio Batista (1923-2003) disse ter conhecido Zé Limeira. Em depoimento a Nêumanne Pinto, que trabalhava então na Folha de S.Paulo, ele contou na reportagem publicada em 11 de dezembro de 1973:
Zé Limeira realmente existiu. Era um negro analfabeto e tinha uma voz muito bonita. Como não sabia cantar direito, arrumava os versos da forma mais estapafúrdia. Conheci Zé Limeira em 1948 e cantei com ele até 1954, quando ele morreu. Peguei o jeito de ele cantar e inventei muitas “limeiradas”. Hoje, muitos violeiros inventam “limeiradas” e Zé Limeira é um nome respeitado no sertão.
No Nordeste, a principal dúvida que paira sobre Zé Limeira nem é a respeito de sua existência, mas sobre o quanto há de invenção no livro de Tejo. Na região Sudeste, o ceticismo é maior. Lembro-me que em 2001 fui procurado por Claufe Rodrigues, um dos organizadores da antologia 100 anos de poesia: um panorama da poesia brasileira no século XX (O Verso Edições), que me pediu mais referências biográficas sobre Zé Limeira. Havia sido publicado na imprensa um artigo criticando o organizador por incluir na obra “um poeta que sequer existiu”. Em outra coletânea, Antologia pornográfica – de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso (Nova Fronteira), o poeta carioca Alexei Bueno, que a organizou, no verbete dedicado a Zé Limeira, descreve-o como um “cantador paraibano especialista no uso do nonsense e do bestialógico que provavelmente nunca existiu”.
Eu sabia que testemunhos orais, suficientes para a comunidade nordestina, não bastavam para as demais regiões do país. Era preciso algo escrito para convencer esse outro público. Durante minhas pesquisas, uma prova apareceu nos arquivos da Folha da Noite – jornal que em 1960 foi incorporado à Folha de S.Paulo –, em um artigo do jornalista e poeta paraibano Eurícledes Formiga (1924-83). Dono de uma memória prodigiosa, Formiga costumava decorar discursos improvisados de políticos e, de brincadeira, acusá-los de serem plagiadores. Como prova, era capaz de recitar o texto inteiro, de trás para frente inclusive.
Como repórter da Folha da Noite, Formiga publicou uma série de textos sobre a cantoria de viola e poesia popular, acompanhou congressos de repentistas, chegando a entrevistar o lendário Cego Aderaldo. No artigo Zé Limeira, o cantador dos disparates, ficou famoso com um improviso feliz, de 15 de julho de 1955, ele conta que conheceu Zé Limeira, oferecendo um testemunho de como era visto por seus conterrâneos:
Zé Limeira é conhecido no Nordeste como o cantador dos disparates. Vive em Campina Grande, na Paraíba, e se tornou figura indispensável entre os repentistas, como alguém que fornece o mais pitoresco material anedótico, tratando-se de cantoria. Ninguém o leva a sério e é sempre motivo de piadas no meio dos seus colegas. Suas audições são realizadas nos ambientes mais humildes da região, e há muita gente que o aprecia, dada a originalidade dos seus repentes. Quando canta, diz o que lhe vem à cabeça, com a preocupação principal de rimar, pouco lhe importando o conteúdo. Mesmo assim, conseguiu tornar-se conhecido, julgando-se até um dos mais respeitados improvisadores de sua terra.
Outra descoberta que pode corroborar como prova da existência de Zé Limeira foi realizada pelo historiador Mário Vinicius Carneiro Medeiros. Vasculhando os arquivos digitais da biblioteca de genealogias do FamilySearch, ele encontrou um documento que tem grandes chances de se referir ao repentista. Trata-se de um assento de morte lavrado pela Igreja Católica, equivalente ao moderno atestado de óbito. No livro nº 9 dos levantamentos de óbitos da Paróquia do Teixeira, no nº 57, consta a seguinte informação:
Aos quinze de setembro de mil novecentos e cinquenta e cinco, no cemitério desta cidade, sepultou-se José Limeira, com setenta anos de idade, amasiado com Liberalina Maria da Conceição, faleceu do fígado no sítio D. Vital. E, para constar, mandei fazer este assento que assino.
O dia da morte, 15 de setembro de 1955, corresponde a dois meses seguintes à publicação da matéria de Formiga. Com a indicação de que o falecido tinha 70 anos, pode-se dizer que o ano de seu nascimento é 1885. As datas são aproximadas das fornecidas por Tejo em seu livro: nascimento em 1886 e morte em 1954. Mas o elemento que oferece maior probabilidade de que o registro obituário seja mesmo de Zé Limeira é outro: o nome da companheira do falecido, Liberalina Maria da Conceição. No livro de Tejo, a esposa do poeta é chamada de dona Bela, um apelido plausível para uma pessoa chamada Liberalina.
Em vários depoimentos que colhi, uma informação sobre o paradeiro da viúva coincidiu com o registro da igreja: dona Bela passara a residir em Patos, município de maior porte, localizado a 30 km de Teixeira, provável cidade natal de Zé Limeira. Em dados colhidos também no FamilySearch, Liberalina Maria da Conceição morreu em 9 de novembro de 1975, aos 85 anos. No registro de óbito, foi apresentada como solteira. Algo compreensível, pois o casal Zé Limeira-dona Bela pode não ter formalizado a relação.
Conheci Orlando Tejo em dezembro de 1997 no Teatro Severino Cabral, em Campina Grande, na Paraíba. Ele fazia parte da comissão julgadora do Congresso Nacional de Violeiros, no qual eu era um dos declamadores. Era a primeira vez que eu me apresentava para uma plateia. Recitei alguns poemas do meu primeiro livro. Ao deixar a cena, me deparei com um senhor magro, de bigodes fartos, braços abertos na minha direção. Foi o início de um convívio intenso de quase uma década, marcado por telefonemas e visitas frequentes à sua casa, na Rua Monsenhor Fabrício, no bairro da Iputinga, no Recife.
Prestes a me formar em jornalismo, na Universidade Estadual da Paraíba, resolvi fazer um documentário sobre Zé Limeira. Sem qualquer habilidade com o audiovisual, convidei meu colega de curso, Guilherme Patriota, para manusear a câmera. Filmamos grande parte do documentário em Teixeira, cidade em que o cantador teria nascido, onde conversamos com pessoas que disseram ter convivido com ele. Também entrevistamos Tejo, que com sua voz grave e baixa contou histórias e recitou estrofes engraçadas.
Em 2015, Carlos Roberto Oliveira, que havia fundado a editora Patmos, me convenceu a escrever a biografia de Tejo – àquela altura uma celebridade literária regional que em 2013 havia sido tema do documentário O homem que viu Zé Limeira, dirigido por Maurício Melo Júnior e veiculado na TV Senado. Adquiri as onze edições da sua obra sobre Zé Limeira, cotejando-as, tomando notas e fixando uma espécie de índice com todos os personagens citados. Reencontrei antigos entrevistados. Viajei para consultar arquivos. Do material recolhido em órgãos da imprensa, organizei um livro curto com os poemas de Tejo, até agora inédito. No ano seguinte, com a morte de Oliveira, optei por interromper o projeto. Não demorou muito, e Tejo também partiu, em um domingo, dia 1º de julho de 2018.
A família de Tejo era de um estrato social privilegiado: o avô paterno teve grande influência política em Taquaritinga do Norte, e foi deputado estadual e senador por Pernambuco. O pai do escritor, também chamado Orlando Tejo, era juiz. O filho herdou dele o gosto pelo jornalismo – ambos trabalharam no Diário de Pernambuco – e o seguiu também na formação jurídica e na habilidade para fazer versos. Tejo pai, ao se sentir retaliado pelo governador, que lhe transferira para uma comarca distante, em vez de cumprir a ordem, limitou-se a mandar um telegrama:
Para trás não vou
Caranguejo não sou
Demitido estou.
A perda do pai acarretou problemas financeiros para a família e marcou a vida do jovem que, ao se iniciar na literatura, assinava como Orlando Tejo Filho, apesar de o último sobrenome não constar em seu registro. Embora viesse do Brasil letrado, foi no Brasil oral, dos repentistas, que Tejo descobriu a régua e o compasso para sua poética.
Seu encontro com o mundo dos cantadores se deu em 1948, quando tinha 13 anos, ao assistir a uma competição entre repentistas realizada no Sindicato dos Rodoviários, em Campina Grande. “A partir dali eu me tornei um piolho de cantoria”, ele me contou. Um dos repentistas que participavam do torneio era José Alves Sobrinho. Foi com esse cantador de viola, catorze anos mais velho, que Tejo aprendeu as primeiras e únicas lições que tomou referentes à metrificação e composição poética.
Em novembro de 1968, Maria das Neves, mãe de Tejo, estranhou quando o filho apareceu em casa sem o seu automóvel. “Cadê o seu jipe?”, perguntou. Ele havia trocado por uma máquina de escrever da marca alemã Elgin. “Mas, meu filho, o carro levava você para tanto lugar”, disse a mãe. Tejo riu e deu um tapinha na máquina: “Com o que eu vou escrever vou chegar mais longe.”
A redação de Zé Limeira, poeta do absurdo tomou três meses de trabalho de Tejo. O texto final tinha mais de trezentas páginas datilografadas e seguiu um périplo por várias editoras, que o recusaram, uma após outra. À medida que era constantemente anunciado, mas não publicado, o livro acabou se tornando motivo de chacota. Foram quatro anos de espera, até que finalmente foi lançado em Campina Grande, no dia 6 de outubro de 1973, em edição independente, bancada por um empréstimo da mãe.
Quando Tejo foi autografar o livro no Recife, o jornal Diário da Manhã saudou a obra como um “best-seller paraibano”. Não chegava a ser um exagero. Os mil exemplares da primeira tiragem haviam esgotado rapidamente. Para o evento no Recife, foi necessária uma primeira reimpressão, desta vez com 3 mil exemplares. Em uma resenha para a revista Veja, em 28 de dezembro de 1973, a jornalista Daura Lúcia Santos menciona que 2 mil exemplares foram vendidos entre as duas capitais.
Mas alguém dava sinais de não estar muito satisfeito. O cantador Otacílio Batista, um dos colaboradores de Tejo na recolha das estrofes citadas no livro, passou a dizer que boa parte do material da obra não era de Zé Limeira, mas composição sua.
Quase dois anos depois, Batista optou por uma ação mais incisiva. Derramou suas queixas ao músico Cussy de Almeida, maestro da Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e membro do Conselho de Cultura do estado. Numa reunião daquela instituição, Almeida afirmou: “O livro Zé Limeira, poeta do absurdo, de Orlando Tejo, não é autêntico, pois nada ou quase nada do que há ali pertenceu a Zé Limeira. Tudo foi ‘cantado’ por Otacílio Batista, de improviso para Tejo, conforme me contou o próprio Otacílio.” Esse trecho da acusação foi publicado no Diário de Pernambuco, em 12 de setembro de 1975.
O Conselho de Cultura pretendia realizar uma acareação entre acusador e acusado, mas Otacílio não compareceu. Orlando Tejo, então, foi submetido a uma sabatina dos membros da entidade durante algumas horas. Ao final, um dos conselheiros, Paulo Fernando Craveiro, ficou encarregado de redigir uma nota pública em nome do colegiado. O texto foi publicado no Diário de Pernambuco, em 15 de outubro do mesmo ano:
O livro Zé Limeira, poeta do absurdo, de Orlando Tejo, registra estrofes que não pertencem ao cantador que é o tema central da obra. Isso foi reconhecido ontem pelo autor da pesquisa, no Conselho Estadual de Cultura, que se defendeu da afirmação (do conselheiro Cussy de Almeida) de que faltava autenticidade ao trabalho. Na verdade, os versos foram feitos pelo cantador Otacílio Batista, muito embora [este] tenha dito que de Limeira era a autoria. Uma carta do próprio punho de Otacílio Batista revela que algumas estrofes foram inventadas por ele, o que levou alguns conselheiros a considerar que Tejo foi ludibriado pelo cantador. Das trezentas estrofes, uma dezena não é de Limeira. O irmão de Otacílio – o também cantador Lourival Batista – assinou também uma carta em que afirma que “bota a mão no Evangelho” pela honestidade do autor do livro.
Em 1976, Batista lançou um trabalho que lhe havia consumido mais de uma década de pesquisa: a Antologia ilustrada dos cantadores, assinada em parceria com Francisco Ferreira Linhares. E, mais uma vez, a questão Zé Limeira foi trazida à tona. Na obra, foram publicadas sete estrofes atribuídas a Zé Limeira, bem como um soneto (apenas duas dessas composições haviam sido publicadas por Tejo em seu livro).
A Antologia ilustrada apresentava Batista como uma figura principal na divulgação do legendário cantador. O argumento era o de que “o gênio de Otacílio Batista, que, fornecendo ao doutor Orlando Tejo sua fabulosa coleta de dados sobre Limeira, pode aquele intelectual projetar no cenário do folclore uma dessas criaturas geniais, perdidas nos rincões do vasto Nordeste”. Houve ainda outra declaração bem mais incisiva, em que Batista foi creditado como “descobridor e responsável” pela “ascensão extraordinária” de Zé Limeira, que vivia um inesperado momento de glória no cenário musical brasileiro.
Uma nova edição da Antologia ilustrada dos cantadores, publicada em 1982, trouxe uma “Classificação da poesia popular” em que constavam no tópico “disparate” os famosos versos cantados por Belchior, mas com a explicação de que haviam sido compostos por Otacílio Batista e atribuídos a Zé Limeira. Foi a primeira vez que Batista reivindicou expressamente a autoria desses versos, que já haviam se tornado famosos no Brasil inteiro.
Desde o lançamento do livro de Tejo, a poesia de Zé Limeira havia conhecido uma ascensão extraordinária. Em 1975, a Banda de Pau e Corda incluiu versos do cantador em seu espetáculo Alegoria, apresentado em outras regiões do país. Naquele mesmo ano, o escritor e diretor de cinema Fernando Monteiro lançou o curta-metragem Cultura marginal brasileira I – O mundo louco do poeta Zé Limeira. Ainda em 1975, chegou às lojas Nordeste: cordel, repente, canção, trilha sonora do documentário de mesmo nome, dirigido por Tânia Quaresma, em que versos de Zé Limeira aparecem na canção Martelo alagoano. Foi interpretada por Lula Cortes e Zé Ramalho.
Também a poesia de Otacílio Batista, então com 59 anos, começou a ganhar destaque na tevê e no rádio com a canção Mulher nova bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor, interpretada por Amelinha e que era tema da minissérie Lampião e Maria Bonita, da TV Globo. Foi feita em parceria com Zé Ramalho, que naquele mesmo ano assinou a produção do LP Otacílio Batista do Pajeú, lançado pela gravadora CBS, o sétimo da carreira do repentista.
Depois do lançamento do livro Zé Limeira, poeta do absurdo, em 1973, Daura Lúcia Santos escreveu na revista Veja que o repentista era alguém “completamente desconhecido além das fronteiras do interior nordestino” e que coube a Orlando Tejo “revelá-lo ao resto do país”. É verdadeira essa afirmação, mas em minhas pesquisas encontrei registros que indicam que os versos citados por Belchior já eram famosos antes mesmo da obra de Tejo.
O registro mais antigo é da mesma Veja, em uma matéria não assinada, publicada em 23 de outubro de 1968, com o seguinte título: A figura típica do cidadão que um dia decide disputar um lugar entre os vereadores. No texto, somos apresentados a um candidato a vereador (a cidade não é especificada) que a revista diz que “será chamado de Jesuíno”. O personagem postula a vereança pelo MDB em uma “cidade nordestina de mais de 100 mil habitantes” com “seis candidatos a prefeito”. Há fortes indícios de que a figura hipotética de Jesuíno tenha sido baseada em Orlando Tejo (que concorreu a vereador pelo MDB em Campina Grande, tendo obtido 691 votos, o que lhe garantiu uma suplência), sobretudo neste trecho:
A vitória, para Jesuíno, é uma certeza. Mas, se as urnas contrariarem sua certeza, não ligará muito. “Ganhando é bom, perdendo não é pior.” Porque, para Jesuíno, tão importante quanto a Câmara é o livro que está escrevendo. Vai se chamar “Poeta do Absurdo”, é a vida e obra do cantador José Limeira, um tipo muito engraçado que faz versos assim:
Eu já cantei no Recife,
dentro do Pronto Socorro
ganhei 200 mil réis
comprei 200 cachorro
morri no ano passado
mas esse ano eu não morro.
Outro registro data de 17 de maio de 1971, dois anos antes do lançamento do livro de Tejo, em uma matéria da Folha de S.Paulo sobre o repentista José Gonçalves, na qual ele cita os versos famosos, acrescentando que eram dos “mais conhecidos na Paraíba”. Na época, Gonçalves fazia dupla com Geraldo Amâncio, com quem iria se apresentar em São Paulo na peça O santo e a porca, de Ariano Suassuna. Ao jornal, Gonçalves, que era cearense de Várzea Alegre e largou a enxada em 1952 para se dedicar à poesia, contou:
Lembro-me bem que na feira de Campina Grande, em 1953, me deparei com o grande e falecido poeta Zé Limeira, de bengala, óculos e lenço vermelho amarrado no pescoço, mas aplaudido pelo povo. Zé Limeira ficou famoso pelas suas rimas absurdas e sua poesia incoerente e, apesar de eu ser um poeta racional, admiro muito seus versos aparentemente loucos, mas muito aplaudidos pela multidão. Nesta feira, me lembro que ele cantou:
Essa noite eu cantei
perto do Pronto Socorro
ganhei duzentos mil réis
comprei duzentos cachorros,
morri no ano passado,
mas este ano eu não morro.
Foi assim, na transmissão oral, que parte considerável do repertório de sextilhas e de outras composições dos patriarcas da cantoria de viola foi preservada. No processo, palavras e versos foram em parte recriados, e a autoria algumas vezes se deslocou para mais de um autor.
Processo semelhante aconteceu na Grécia clássica: ao longo dos séculos, gerações de poetas transmitiram e recriaram os cânticos que compuseram a Ilíada e a Odisseia. O pesquisador americano Milman Parry observou que a linguagem de Homero reflete uma tradição coletiva de menestréis, que ao longo do tempo, em vez de inventarem novos cânticos, iam adaptando e reelaborando os pré-existentes. Estima-se que a Ilíada foi composta por volta de 750 a.C. e que a fixação escrita do épico só tenha ocorrido um século mais tarde. Mas esta versão não sobreviveu ao tempo e dela só temos notícia graças a testemunhos de seus contemporâneos. A cópia escrita mais antiga e completa do poema é o chamado manuscrito Venetus A, que data do século X da nossa era.
A investigação sobre a autoria dos versos “Ano passado eu morri,/mas esse ano eu não morro” requer um escrutínio bem mais modesto que o da Ilíada – de apenas algumas décadas. No caso de Zé Limeira, repito o que Fernando Pessoa disse pela boca de Ricardo Reis: “Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero.”
Espero que o repentista nordestino negro não seja mais visto como um personagem do folclore, com a autoria de sua obra negada e apropriada por uns e outros, mas alguém de carne, osso, história, que teima em reviver ao repetir: “Morri no ano passado,/mas este ano eu não morro.”