questões cinematográficas

“ULISSES” – EFEITO TERAPÊUTICO (IV)

Antes de dirigir seu primeiro filme, Eisenstein foi aprendiz de Esfir Shub (1894-1959), montadora e diretora de “A Queda da Dinastia Romanov”(1927), entre outros documentários de arquivo
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Antes de dirigir seu primeiro filme, Eisenstein foi aprendiz de Esfir Shub (1894-1959), montadora e diretora de “A Queda da Dinastia Romanov”(1927), entre outros documentários de arquivo, tendo trabalhado com ela na condensação das duas partes de “Dr.Mabuse”, dirigido por Fritz Lang; Esfir Shub, por sua vez, colaborou na feitura do roteiro de “Greve” (1925).

Quando o projeto de filmar “Uma Tragédia Americana” foi cancelado, Eisenstein escreveu a Esfir Shub de Los Angeles contando que Robert Flaherty o fez se interessar pelo México. Isso, no mesmo dia – 18 de novembro de 1930 – em que recebeu intimação para deixar os Estados Unidos até o fim de mês.

Em depressão profunda, sem saber o que fazer, Eisenstein sentia que sua missão no exterior tinha fracassado. Com o apoio do Departamento de Cinema da Organização Soviética de Comércio Exterior (Amkino), recebeu autorização de Moscou para prolongar sua estadia no exterior e partiu para o México.

As filmagens de “Que Viva México!” começaram por uma tourada. Em janeiro de 1931, a equipe viajou às pressas para filmar em Oaxaca, onde ocorrera um terremoto.

Tendo tomado vacinas contra cólera e tifo antes de viajar para a região tropical onde filmaria mulheres sensuais deitadas em rêdes, Eisenstein e outros integrantes da equipe tiveram febre alta, além de gripe e diarréia. Mesmo enfraquecidos, trabalhavam 16 horas por dia na criação da imagem do paraíso.

Prevendo que precisaria de 6 meses para acabar a filmagem, notícias recebidas de Moscou começaram a preocupar Eisenstein. Em março, sua mulher, Pera Atacheva, escreveu: “Vai haver um levante. Está no ar. A atitude oficial em relação a você está mudando.”

Em setembro de 1931, foi a vez de Esfir Shub:

“[…] Estou contente que você estará logo em Moscou, e mais que tudo temo atrasos. Você precisa voltar o mais cedo possível para a URSS.[…] Conheço sua maneira especial – que o distingue de todos os outros – de não se deixar escravizar por seu esboço inicial de roteiro; de entender e ouvir o material durante as etapas de concepção e filmagem; e de moldá-lo a si mesmo, submetendo-o a uma nova ideia que surge no processo de trabalho.[…] Penso que seu México será uma revelação e uma revelação revolucionária. Eu gostaria de explicar de maneira concisa e completa por que estou apressando você e pedindo de maneira tão insistente que volte. É impossível ser sincera ao  escrever sobre isso.[…]”

[a última página da carta não foi encontrada]

Em novembro, o próprio Stalin escreveu ao escritor Upton Sinclair (1878-1968) – produtor de “Que Viva México!”:

“[…] Eisenstein perdeu a confiança dos seus camaradas na União Soviética. Ele é considerado um desertor que rompeu com seu próprio país. Temo que as pessoas aqui deixem de ter qualquer interesse por ele em breve. Lamento muito mas todos asseguram que é um fato.”

No dia 27, chegou um telegrama de Pera Atacheva:

“Rogo acredite com urgência. Sua situação insustentável muito muito séria. Impossível ficar México mais uma semana. Entenda. Impossível dar detalhes. Telegrafe imediatamente. […] Sem criancices desta vez.”

No final de dezembro, Eisenstein recebeu notificação oficial que era considerado um desertor.

Exausto, tendo perdido cabelo a ponto de ficar quase careca, obrigado a extrair sete dentes, parecendo ter envelhecido dez anos, Eisenstein consultou um neurologista. Depois de 14 meses no México – dez além do previsto – e de filmar 80000 metros – três vezes o planejado –, o produtor americano havia gasto o dobro do orçamento inicial. Em fevereiro de 1932, a filmagem foi suspensa.

De volta a Moscou, Eisenstein temia nunca poder terminar “Que Viva México!”. Quando soube que o material tinha sido entregue a outro diretor para ser montado, passou a dar demonstrações de que “estava enlouquecendo”. Quem descreve essa reação dele é Marie Seton (1910-1985), primeira biógrafa de Eisenstein, que o conheceu nesse período:

“Longos períodos de silêncio angustiado atrás da sua porta trancada davam lugar a tempestades de desespero.[…] Dia após dia falava em se matar e toda noite ela [Pera Atacheva] temia deixá-lo sozinho temerosa que perdesse a cabeça. […].

No primeiro encontro que tiveram”, Eisenstein falou de Cambridge:

“Quando fui a Cambridge sabia que era o lugar onde eu queria morrer. Cambridge é um lugar onde um homem pode estudar sem ser perturbado. Responderia a todos meus desejos.”

Remexendo uma pilha de cartas, envelopes e pedaços de papel, Eisenstein entregou a Marie Seton um recorte com a notícia de que “Que Viva México!” seria editado em Hollywood e lançado com o título de “Tempestade sobre o México”.

“Por favor, não faça perguntas”, ele disse. “Não há esperança.” [continua]

[Embora sem uso sistemático de aspas, além da biografia de Eisenstein escrita por Oksana Bulgakowa, “Sergei Eisenstein – A Biography. San Francisco: PotemkinPress, 2001, o texto acima é baseado em “Correspondence with a Friend”, em “Eisenstein 2”, Jay Leyda (ed.), New York: A Methuen Paperback, 1988; e Marie Seton, “Sergei M. Eisenstein”. London: The Bodley Head, 1952]


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