questões políticas

UM COMPLICADO CORPO A CORPO

Em minha pesquisa para a Universidade de Syracuse, entrevistei 311 candidatos a vereador do Rio. Cerca de 80% evitou fazer campanha em áreas de risco por falta de segurança
Cerca de 35% do eleitorado carioca vive em áreas de conflito - Eduardo Anizelli/Folhapress
Cerca de 35% do eleitorado carioca vive em áreas de conflito - Eduardo Anizelli/Folhapress

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No início da manhã do dia 11 de março, agentes da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro bateram à porta do vereador Salvino Oliveira (PSD), no âmbito da Operação Contenção Red Legacy. A operação investigava o Comando Vermelho, suas redes financeiras e operacionais, bem como possíveis conexões com intermediários da esfera pública — entre eles, mas não apenas, o vereador Oliveira, que foi preso e teve seu telefone celular apreendido. Durante a operação, seis policiais militares também foram presos.

A acusação formal contra o parlamentar do PSD é a de que ele negociou acordos com traficantes locais para viabilizar sua campanha vitoriosa à Câmara Municipal em Gardênia Azul, favela localizada na Zona Sudoeste e que está atualmente sob domínio do tráfico, mas que anteriormente era controlada pela milícia. As evidências apresentadas pelos investigadores para sustentar essa acusação incluem mensagens de texto trocadas entre integrantes do CV a respeito da campanha de Oliveira, que cresceu na Cidade de Deus, território vizinho também marcado pela presença do tráfico. 

Em um trecho das mensagens usadas como prova contra Oliveira, um membro da facção pergunta se os líderes “autorizaram o Salvino a trabalhar” na favela, e se ele deve “dar suporte e ajudar nos projetos dele [do Salvino].” As acusações da polícia provocaram forte reação entre apoiadores e aliados do vereador — entre eles o ex-prefeito Eduardo Paes, seu correligionário e candidato ao governo do Rio de Janeiro — que afirmam que a prisão teve motivação política. Oliveira foi solto dois dias depois de sua detenção, em 13 de março, por falta de provas. Afirmou ter sido vítima de injustiça e que os policiais foram “covardes” e “mentirosos”. No início de maio, o inquérito contra o vereador foi trancado pelo juiz Renan de Freitas Ongaratto, da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, também por ausência de provas. 

Estudo há uma década a relação entre grupos armados e política eleitoral no Brasil, e minhas pesquisas sugerem que grupos armados são parte do sistema político fluminense. Não estou dizendo que não existam políticos e candidatos que possuam algum tipo de vinculação com facções criminosas – investigações como a CPI das Milícias demonstram isso. Mas existem variações nos tipos de relação que candidatos têm com grupos armados. O ato de pedir e obter autorização para fazer corpo a corpo em determinadas áreas faz parte do processo imponderável de uma campanha eleitoral que ocorra em áreas de conflito. Esses pedidos, aliás, não são uma característica exclusiva da política, mas da cidadania carioca – como abaixar os vidros do carro ao entrar em uma favela. 


Minha pesquisa quantitativa foi realizada entre julho e setembro de 2024. Entrevistei 311 candidatos  — 30,6% do total de 1.017 postulantes[¹], em um questionário aplicado por telefone com duração média de vinte minutos. Alguns temas abordados foram segurança de campanha, estratégia eleitoral, e percepções sobre o uso, por parte de seus adversários, de práticas ilícitas de campanha — entre elas o pedido de autorização a facções criminosas para fazer campanha em áreas conflagradas.

Os resultados mostram que 22,8% dos assessores/subordinados foram ameaçados fisicamente, e 31% dos candidatos receberam ameaças físicas, percentual similar ao de candidatos que pediram apoio da polícia para eventos de campanha. Além disso, 80% dos respondentes optaram por não fazer campanha em determinadas áreas por razões de segurança.

Também questionei os entrevistados sobre medidas de segurança que podem diminuir os riscos durante a campanha. A principal delas – o uso das forças de segurança do Estado, como a polícia – foi citada por 28% dos candidatos. Diante dos casos frequentes de violência e da insegurança constante na cidade, me pergunto se esse percentual poderia ser mais alto, ou seja, que mais candidatos recorressem à proteção policial. 

Se um 1 em cada 3 candidatos antevê problemas de segurança em sua atividade política, dois terços não confiam na polícia para protegê-los. Minha hipótese é que, para os postulantes neste recorte, a proteção policial não seria capaz de entrar (ou de proteger) candidatos em territórios conflagrados – em alguns casos, sobretudo em áreas de milícia, o perigo pode ser a própria polícia. 

80% dos candidatos deixou de fazer campanha em alguma área por falta de segurança

Dada a situação de insegurança, candidatos se veem obrigados a encontrar alternativas. Se utilizar a polícia nem sempre é a primeira opção, uma alternativa é pedir autorização a traficantes e/ou milicianos para entrar em determinados territórios. Perguntei aos entrevistados com que frequência eles acreditavam que seus concorrentes tentavam entrar em áreas controladas por grupos armados sem pedir autorização. Mais de 70% dos entrevistados disseram acreditar que seus concorrentes nunca ou raramente fariam isso. Ou seja, eles percebem que, se seus adversários entram em comunidades controladas por grupos armados, o mais provável é que tenham feito algum tipo de acordo para se protegerem.

Segundo estimativas do Instituto Fogo Cruzado, 35% dos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem sob controle do crime, o que representa uma fatia significativa do eleitorado. É lógico — e racional — que candidatos queiram se dirigir ao conjunto de eleitores que vivem nessas localidades. Na ausência de segurança pública adequada por parte do Estado, uma das formas de fazer isso com algum grau de segurança é pedir autorização aos criminosos.

Maioria dos candidatos acreditam que seus concorrentes só entram em áreas de conflito após acordos com criminonos

Perguntei aos entrevistados com que frequência percebiam que seus concorrentes faziam acordos eleitorais com intermediários influentes durante a campanha. Os resultados mostram que outros políticos já eleitos são o tipo mais comum de intermediários com quem candidatos fazem acordos (88%), seguidos por lideranças religiosas (73%), presidentes ou lideranças de associações de moradores (72%) e funcionários públicos (52%).

As perguntas sobre acordos com milicianos e traficantes apresentaram maior taxa de abstenção do que as demais categorias, provavelmente em razão de sua natureza sensível.[²] Entre os postulantes que responderam à pergunta, 40% fizeram acordos com milicianos e 33% com traficantes.

Isso significa que qualquer candidato que receba esse tipo de autorização de um grupo armado é integrante da facção ou da milícia? Não necessariamente. Minha hipótese é que esse acordo pode significar apenas que o grupo armado não considera o candidato uma ameaça aos seus negócios e, por isso, permite sua entrada na comunidade. 

Políticos eleitos ainda são os principais interlocutores de candidatos ao fazer campanha


Quando o Estado não consegue prover segurança pública para toda a população, grupos armados — como traficantes ou milícias — frequentemente passam a garantir a segurança dos candidatos nas áreas onde atuam. Quando o Estado permite tal atuação, concede a eles também o poder de decidir quais membros da população terão acesso à proteção e às propostas de um candidato. 

Embora o assunto tenha ganhado repercussão a partir da Operação Contenção Red Legacy, no fim das contas esta não é uma história sobre o vereador Salvino Oliveira nem sobre a própria operação. Trata-se, antes, de um sinal de alerta sobre como a violência e a ausência de segurança pública adequada vêm moldando a política no Rio de Janeiro. Se o Estado realmente deseja desincentivar os acordos com grupos armados — como deixou claro ao prender Oliveira —, um primeiro passo lógico seria proteger a integridade eleitoral e a segurança física de todos os candidatos. 


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[1]
O percentual de respostas é representativo do universo de candidatos e não houve diferença estatisticamente significativa entre a minha amostra e o universo total de postulantes em termos de gênero, raça, filiação partidária ou mesmo desempenho eleitoral. As respostas foram, e continuam sendo, anônimas e confidenciais. Os resultados apresentados a seguir estão agregados em nível de grupo. A única diferença estatisticamente significativa foi a idade: em média, os participantes da minha pesquisa eram ligeiramente mais jovens — 3,7 anos mais jovens — do que a média de idade do conjunto inteiro de candidatos.

[2] Perguntar sobre comportamentos de segunda ordem (por exemplo, o comportamento dos concorrentes) é uma estratégia utilizada para incentivar respostas mais sinceras e proteger a segurança dos respondentes em perguntas sensíveis (Tourangeau e Yan 2007). Ainda assim, é normal que temas sensíveis como estes apresentem taxas mais elevadas de não resposta.


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É professora assistente de ciência política na Universidade de Syracuse.