questões da internet
Victor Calcagno, do Rio de Janeiro 23 Jun 2026
9 min de leitura
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Com 18 anos recém-completados, Ana Clara Lima – que prefere o apelido Limão – vinha ouvindo uma mesma sugestão de colegas de faculdade e do seu então namorado. Eles recomendavam que ela vendesse “conteúdo” na internet. A palavra é um eufemismo. Naquele ano de 2020, com a Covid trancando todo mundo em casa e o mercado de trabalho em crise, muitos jovens decidiram fazer dinheiro vendendo nudes. Como queria conquistar sua independência financeira e sair da casa de sua família, Limão acabou aderindo à tendência. Fez suas primeiras fotos amadoras e as anunciou no X (então Twitter). Em apenas uma semana, sem que tivesse feito um grande esforço de divulgação, ganhou 700 reais. “Fiquei pensando que eu podia receber mais dinheiro assim do que num trabalho normal, em que ia ganhar uma miséria”, ela diz.
Dali em diante, Limão fez dezenas de ensaios fotográficos. Foram cerca de três anos vendendo fotos e vídeos em plataformas como OnlyFans e Privacy, e também em aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram. Ela conta que, no auge, chegou a ganhar 5 mil reais por mês. Mas, em 2022, sentindo-se esgotada mentalmente e com uma renda menor do que gostaria, decidiu largar a atividade. Hoje, aos 25 anos, trabalha como designer e cursa publicidade.
Ela diz não se arrepender de ter produzido “conteúdo” por tanto tempo. Mas, para seguir adiante com a vida e a nova carreira, preferiu remover de suas redes sociais todas as postagens daquela época. Queria recomeçar do zero. Até hoje, porém, não conseguiu. Passados três anos, conta que ainda sofre com o compartilhamento de imagens antigas e com o assédio online. “Vivo recebendo mensagens de gente achando que sou ‘fácil’. Alguns ex-clientes vão te perseguir para sempre. Eles pensam que têm direito ao seu corpo.”
Limão faz parte de um grupo que está crescendo a cada dia: o de ex-criadores de conteúdo adulto. Na indústria pornográfica, eles sempre existiram. Muitos atores e atrizes que largaram a profissão sofreram – e ainda sofrem – com o assédio e a estigmatização. Mas casos assim estão se tornando muito mais numerosos devido à popularização das plataformas de creator economy, como o OnlyFans, em que qualquer pessoa pode produzir conteúdos sexuais de forma amadora, em sua própria casa, e compartilhar com seus seguidores.
Nessas plataformas vende-se todo tipo de material exclusivo. Algumas celebridades, por exemplo, ganham dinheiro compartilhando com os fãs momentos de sua rotina e vida íntima. O erotismo, no entanto, foi o que tornou esses sites famosos e ainda responde pela maior parte de suas receitas. Não é pouco dinheiro. Estima-se que o OnlyFans, que é a maior plataforma do gênero, tenha hoje mais de 300 milhões de assinantes e que, apenas em 2024, tenha movimentado 7 bilhões de dólares em transações entre usuários. O Privacy, concorrente brasileiro, diz contar com 10 milhões de assinantes e mais de 750 mil criadores de conteúdo (o faturamento da empresa não foi divulgado). Como diferencial, o Privacy oferece pagamentos por Pix. É atraente para os criadores de conteúdo porque, sendo uma plataforma brasileira, não abriga tantos influenciadores internacionais – e, por isso, a competitividade tende a ser menor.
Com tamanha quantidade de perfis vendendo seu peixe, porém, o mercado vem se saturando. Alguns influenciadores famosos ainda conseguem uma renda expressiva, mas, como diz Limão, “só um em 1 milhão” tem essa sorte. A maioria não fatura o suficiente para se bancar apenas com essa atividade.
O mercado, por isso, vive um êxodo. E é difícil sair dele sem carregar um estigma. Recentemente, nos Estados Unidos, o ex-fuzileiro naval Win White fez um apelo: “Estou pedindo humildemente que parem de compartilhar conteúdos de antes”, escreveu, numa série de tuítes. “Acho que já dei o suficiente do meu corpo para a internet e gostaria que isso fosse o bastante.” Ele relatou ter apagado seus perfis de todas as plataformas por assinatura – em vão. “Sei que é a internet e é para sempre”, continuou White. “Mas eu não compartilharia conteúdo dos outros uma vez que tivessem saído de campo.”
Em sites como o OnlyFans, os criadores de conteúdo disponibilizam seu material apenas para visualização e detêm os direitos sobre ele, podendo pedir sua remoção imediata quando quiserem. Os clientes não têm direito a “printar” o que veem – isto é, a salvar as fotos e vídeos. Mas, na prática, o sistema não é tão seguro. Há maneiras de burlar a proibição e salvar o conteúdo dos influenciadores, compartilhando-o com quem não pagou por ele. Não surpreende que os sites de pornografia estejam repletos de vídeos extraídos ilegalmente do OnlyFans.
No Brasil, o compartilhamento sem consentimento de imagens com nudez, sexo ou pornografia é crime com pena de um a cinco anos de prisão, que é acrescida em até dois terços nos casos em que o infrator tem relação íntima com a vítima ou agiu com intuito de vingança ou humilhação. É preciso procurar a Justiça separadamente, em cada um dos casos de vazamento, para que sejam tomadas as medidas cabíveis. Mas, quando se trata de um universo vasto como a internet – em que fotos e vídeos circulam não apenas em sites por assinatura, mas também em aplicativos de conversa, repassados de uma pessoa a outra –, coibir esse crime não é exatamente uma tarefa fácil.
“Já não temos proteções com o trabalho sexual tradicional, que é um mercado completamente informal, agora imagine com o segmento online, que é bem mais recente”, diz Cristiane Melo. Ela é doutora em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e pesquisa o trabalho sexual na internet. Descreve com clareza a rota de ascendência – e posterior estagnação – das plataformas por assinatura no Brasil. Entre 2020 e 2023, diz Melo, muitas pessoas foram atraídas pelas campanhas de marketing que prometiam dinheiro fácil nesses sites. Trata-se de um modelo de negócios focado na expansão constante. Os perfis de maior sucesso são incentivados a trazer mais criadores para as plataformas por um sistema de indicação, em que recebem uma parcela dos ganhos de quem recrutaram.
O blog institucional do Privacy alardeia que alguns criadores de conteúdo estão “faturando 500 mil” e “chegando à marca de 1 milhão” de reais. Mas casos assim são a exceção da exceção. O dinheiro nunca foi fácil, e com o crescimento da concorrência ficou ainda menos. Retorno garantido, mesmo, só para as plataformas, que em geral retêm 20% do valor de cada assinatura vendida.
Em sua tese de doutorado, Melo entrevistou 31 mulheres que trabalhavam com conteúdo sexual em plataformas de assinatura ou em lives. Uma das maiores preocupações que ouviu foi com o estigma social que acompanha esse tipo de trabalho. A maioria das entrevistadas, segundo Melo, já não mantinha relacionamento com a família, que não aceitava seu ganha-pão. Outras, gestantes ou mães, temiam que a profissão prejudicasse o futuro dos filhos. Não é difícil encontrar, na internet, exemplos de preconceito contra criadores de conteúdo adulto. Eles ora são retratados como promíscuos (com o uso de expressões pejorativas, como “prostituição home office”), ora como ingênuos – pessoas que sonhavam ficar milionárias e achavam que não sofreriam com a exposição.
Alex,* um rapaz de vinte e poucos anos, lamenta essas críticas condescendentes, com as quais já se deparou muitas vezes. Ele conta que entrou para uma plataforma por assinatura ainda em 2018, quando elas eram pouco conhecidas no Brasil, e permaneceu lá até 2022. “Depois disso, resolvi tomar o controle da minha história”, diz. Alex passou a publicar vídeos no YouTube compartilhando suas experiências. Com o sucesso do canal, tornou-se um mentor para criadores de conteúdo adulto menos experientes, oferecendo dicas para a construção de uma carreira de sucesso. No fim, acabou desistindo também dessa atividade, insatisfeito com a saturação do mercado, os algoritmos nebulosos das plataformas e o estigma da profissão. Distanciou-se do universo OnlyFans e hoje trabalha com marketing, enquanto tenta alavancar sua carreira de cantor.
“Em primeiro lugar, é preciso entender que o estigma é real, ainda que enviar nudes ou se expor online tenha ficado mais comum”, diz Alex. Ele conta que recomendava aos alunos que nunca compartilhassem conteúdos sensíveis fora das plataformas especializadas. E que deixava claro para eles: casos de assédio e de vazamentos são a regra, não a exceção. Ainda hoje, Alex às vezes se depara com imagens do passado. “Sempre vão te lembrar, mas quando isso acontece é preciso bancar, matar no peito e transformar o preconceito”, ele aconselha.
Lorena Caminhas diz de forma categórica: “Não é possível ser esquecido.” Professora na Universidade de Maynooth, na Irlanda, ela estudou as plataformas da creator economy com apoio da Fapesp. Mas o problema da exposição indevida das pessoas, diz Caminhas, passa não apenas por essas plataformas, mas também por redes sociais como Instagram e TikTok. “Para fazer sucesso, os criadores de conteúdo adulto precisam fazer propaganda sobretudo nessas redes, com perfis chamando para os sites de assinatura.” As imagens, assim, se disseminam mais facilmente e muitas vezes fogem ao controle do dono.
Esse descontrole se reflete nos números. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 o Brasil registrou 7.175 casos de divulgação de imagens explícitas sem consentimento. Uma outra pesquisa feita pelo Fórum no início de 2025, essa em parceria com o Datafolha, entrevistou 1.040 brasileiras com mais de 16 anos e constatou que 3,9% delas já tinham sido vítimas desse crime. Aplicando essa porcentagem à população como um todo, conclui-se que mais de 1 milhão de mulheres brasileiras já foram expostas sem consentimento. O problema abrange também os menores de idade. Segundo estimativas do Unicef, 14% das crianças e adolescentes brasileiros com idades entre 12 e 17 anos já tiveram que lidar com interações sexuais não solicitadas na internet, como o recebimento de mensagens contendo ou pedindo nudes.
É um fenômeno para o qual não há solução simples. Caminhas recomenda aos criadores de conteúdo adulto que, ao fazer fotos e vídeos, tapem o próprio rosto, de modo a se preservar, evitando uma exposição excessiva. Não se trata de uma escolha fácil, porém, já que esconder a própria identidade pode resultar em perda de engajamento.
O ideal, diz a pesquisadora, é que o assunto seja regulado por lei. A demanda pela formalização do trabalho sexual é antiga e reivindicada desde os tempos pré-internet. Quem defende a pauta argumenta que, ao transformar os serviços sexuais em um trabalho formal, reconhecido por lei, o poder público dará maior proteção a trabalhadoras que, na informalidade, se expõem a todo tipo de risco – desde a violência até a exploração econômica, comum na prostituição.
Alguns países avançaram nessa agenda. Na Holanda, por exemplo, as trabalhadoras sexuais têm contratos com os bordéis, recebendo piso salarial e férias remuneradas. O Brasil ainda está longe dessa realidade. “Na recente lei para regular a profissão de criadores de conteúdo, a pornografia foi completamente excluída”, diz Caminhas. Ela se refere à Lei 15.325, conhecida como “lei dos influenciadores”, que foi sancionada em janeiro, regularizando essa profissão. Desprotegidos, os criadores de conteúdo adulto continuam à mercê das plataformas, que não garantem sua segurança por completo.
Limão e Alex, embora tenham abandonado o ofício, não negam que a vida de criador de conteúdo adulto tem seus pontos positivos. Para ele, um dos grandes benefícios foi uma melhora na autoestima. Ela concorda e acrescenta que passou a sentir uma maior empatia pelas pessoas – algo que atribui à “cabeça aberta” que um profissional desse metiê precisa ter. Ambos, no entanto, recomendam extrema cautela para quem deseja se aventurar nesse universo. Como diz Alex, depois “não adianta querer que te esqueçam”.
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* A pedido do entrevistado, sua identidade foi omitida.