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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

Baile de coroas

Um reduto gay familiar

Amauri Arrais | Edição 114, Março 2016

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Ônibus e carros ainda passavam ruidosos pela rua Marquês de Itu, no Centro de São Paulo, transportando para casa mais uma leva de trabalhadores, quando Lourival Cremasco, um senhor baixinho de cabelo e bigode grisalhos, com um jeito sério, chegou para dar início ao expediente.

Eram oito e meia da noite. Cremasco cumprimentou os funcionários e imediatamente passou a conferir o acabamento de um arco de bexigas douradas que enfeitava a bilheteria. Depois atravessou dois pares de portas com isolamento acústico e, lá dentro, pôs-se a inspecionar o salão: luzes, som, decoração, bufê. Andando de um lado para o outro, parecia incomodar-se quando alguém o interrompia no meio de uma tarefa, mas nunca deixava de ser gentil. “Hoje não vou poder lhe dar muita atenção”, avisou.

Cremasco acumula as funções de administrador e promoter do tradicional ABC Bailão, uma casa voltada ao público gay, conhecida por realizar festas em que senhores maduros, em geral na faixa dos 50 ou 60 anos, podem dançar à vontade de rostinho colado.

 

Compete ao paulistano de 60 anos garantir que tudo funcione a contento. Cremasco lida com fornecedores, orienta funcionários e cuida da programação. É também responsável por manter o “clima familiar” no ambiente. Entre outras regras, anunciadas em cartazes, é proibido tirar a camisa no salão. Carícias mais ousadas são punidas com severidade. “Um segurança uma vez flagrou um senhor tentando fazer sexo oral no parceiro naquele canto ali”, contou, apontando para o mezanino, de onde se tem uma boa vista de toda a pista. “Quando foi abordado, saiu gritando que era juiz e que ia fechar a casa. Acabou sendo expulso, com carteirinha e tudo.”

Escândalos desse tipo, no entanto, costumam ser raros. “Temos clientes que são frequentadores desde o primeiro dia, nunca faltam a uma quinta-feira”, orgulha-se o administrador, ao falar sobre o dia reservado aos bailes à moda antiga, quando tangos, boleros e flashbacks ditam o ritmo dos casais – nas outras noites, as danças de salão cedem espaço para música eletrônica e pop, e os senhores dividem a pista com um número maior de jovens, entre arrumadinhos e musculosos. Naquela quinta-feira em particular, em que se comemorava o aniversário de 19 anos do ABC, o tradicional bufê self-service – uma mesa farta que inclui frutas, pão e acepipes diversos, apelidada jocosamente pelos habitués de “fome zero” – fora substituído por garçons que circulavam com bandejas de canapés.

 

Poucos minutos após a abertura da casa, às 21 horas, os clientes começaram a aparecer. À porta, Cremasco e Rogério Carneiro Nascimento – um baiano corpulento de 55 anos, um dos sócios do clube – os cumprimentavam com beijinhos no rosto.

 

Para Nascimento, foi a diversidade de estilos de música e de público que fez do Bailão uma das baladas mais longevas da capital paulista. Todas as semanas, de quinta a domingo, a pista recebe uma média de 2,5 mil pessoas, de 18 a 80 anos. Uma clientela que inclui profissionais liberais, atores, políticos e até padres, segundo ele. “Olha um famoso ali”, disse o sócio, apontando um senhor calvo que recentemente havia estrelado uma campanha publicitária de um conhecido site de vendas.

Na pista, predominantemente masculina, os casais arriscavam os primeiros passos ao som de uma versão em espanhol de Killing Me Softly. No início da noite, são os ritmos dançantes antigos que dão o tom, depois mesclados a hits da era disco, como I Will Survive, e sucessos da dance music dos anos 80. “Aqui toca o que os outros lugares deixaram de tocar”, definiu o DJ Eduardo G., dez anos de casa. Na democracia musical reinante, pode quase tudo. Menos absurdos como pedir O Amor e o Poder (Como Uma Deusa), de Rosana, no meio de uma sequência de boleros, ressalvou G.

Passava da meia-noite, e uma fila ainda se estendia nas bilheterias. “Hoje não temos hora para acabar”, disse um resignado Cremasco. Em contraste com a animação do resto do público, ele não dançaria nem tomaria uma única dose de bebida alcoólica durante toda a noite.

 

 

Um dos primeiros a abrir a pista, o empresário Otacílio Almeida, 54, costuma dançar ininterruptamente até perto da uma da madrugada, quando o ritmo muda para agradar os mais jovens, que chegam por volta desse horário. “Toca muito funk, batuque, fica muito lotado”, queixou-se, pouco antes de deixar o local com a camisa suada. Foi no Bailão que o paulistano conheceu o último namorado, seu sócio numa imobiliária até hoje. Os dois ficaram juntos por dez anos – mas, depois que a relação terminou, Almeida disse nunca mais ter se interessado por alguém. “Venho para me divertir e já fiz muitos amigos, mas esse rodízio de pessoas não me agrada.”

A invasão dos jovens é uma queixa recorrente entre os mais assíduos, que evitam outros dias da semana. “Nos outros dias é muito cheio, tem muita pegação, e música eletrônica não dá!”, protestou um administrador carioca de 50 anos que preferiu não se identificar. Os mais novos, por sua vez, costumam se referir ao baile como “Desmanche”, “INPS” (antigo INSS) ou festa de “cacuras” (gíria gay pejorativa para homens mais velhos).

Os últimos e resistentes pés de valsa só deixariam o Bailão perto das quatro e meia da manhã. Lourival Cremasco ainda precisava cuidar dos detalhes finais da noite. Após fechar o caixa, comemorou o fato de, apesar da lotação máxima (780 pagantes), não ter sido registrada nenhuma briga nem qualquer outro tipo de incidente.

Antigo habitué do baile, ele fez seu début no outro lado do balcão em 2012. Sem nenhuma experiência, procurou os proprietários, seus amigos de longa data, e se ofereceu para o cargo. Logo se destacou pela combinação de competência e gentileza no trato com o público.

Imperturbável, o administrador não perde a paciência nem mesmo quando algum cliente se excede nos drinques e insiste em saber se ele é solteiro. Num relacionamento há três anos, ele diz conseguir se desvencilhar com elegância das eventuais cantadas. “Em geral, as pessoas respeitam quando falo que estou trabalhando. Costumo dizer que, aqui dentro, eu sou hétero.”

Amauri Arrais

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