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    O lado possessivo e doentio dele começou a prevalecer. Ele ligava e dizia, você viu que sua mãe caiu hoje? Ela caiu hoje porque fui eu que empurrei. Tal dia, tal hora, fui eu que empurrei ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2016

ficção

Uma novela policial

Era uma voz rouca. Muito distante. Um pouco diferente da anterior. Estranha mesmo

José Luiz Passos | Edição 121, Outubro 2016

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Chegou lá o caso de uma psicóloga que tinha uma clientela bem movimentada. Um dia, ela estava em casa (e tem a história de que ela também não é daqui, é de outra cidade, tem um filho pequeno de 3 ou 4 anos, é uma pessoa carente, que veio de fora, resolveu adotar essa criança, mas, bom, isso é sobre a pessoa dela), enfim, é uma psicóloga renomada, e um dia recebeu uma chamada de alguém que era doente terminal, de câncer de garganta ou de Aids. Era uma doença séria, a dele. Ele disse que tinha sido indicado por outra pessoa, uma amiga dela. Para que ele se tratasse com ela. Só que, pelo fato da doença, não podia se dirigir ao consultório pessoalmente, o atendimento tinha de ser feito por telefone, se ela não se importasse com isso, claro.

Ela respondeu que sim, e insistiu para que ele dissesse quem tinha sido essa pessoa que indicou. Ele não quis dizer, falou que preferia não, que era uma amiga, mas que ele tinha boas referências dela. E ela disse tudo bem, não se importava de conversar por telefone, tinha problema nenhum, então começou o atendimento profissional.

Eis o detalhe, não sei até que ponto ela não cobrou, porque pode ter tido nesse momento uma troca de informações bancárias, e pelo que aconteceu mais adiante deduzo que houve, sim, que ela deu o número da conta a ele, mas que tudo isso pelo menos inicialmente era só parte da questão médica. Noutro momento a coisa foi tomando um rumo diferente, ele sempre se lamentando da doença, dando outro tom à conversa, e começaram a ficar amigos. Ficou um pouco de lado a questão profissional. Ela pedindo e querendo se encontrar com ele, mas ele dizia que não, pela doença. Até que ela insistiu tanto que ele deu uma pista de quem era a pessoa que tinha indicado. Ele disse, é uma cliente sua, que deve estar com você aí há uns seis meses, fazendo atendimento, é fulana, eu conheço porque ela estudou comigo na época de faculdade, a gente andava junto, eu, ela e o ex-marido dela, falavam que a gente era parecido, feito irmão, e nesse ponto ele arrumou outra desculpa. É. Não sabe? Bicho-grilo todo mundo se parece. Enfim, rolou essa conversa e ela chegou a quem seria a tal pessoa em comum. Daí no consultório ela não se conteve. Quando a cliente apareceu, ela queimou o lado profissional e disse, olha, tem uma pessoa que foi indicada por você, fulano. Ah, a outra disse, conheço, a gente realmente faz tempo que não se vê, sei que ele está doente, mas ele merece ficar bom etc. E por aí mesmo morreu o papo.

 

A cliente que indicou disse que sim, que tinha mencionado o nome dela para o tratamento. Só que, com o tempo, a psicóloga foi se envolvendo mais, por telefone, e não tinha como chegar a ele. Até que apelou para conversar mais com a cliente, e então o contato delas também acabou deixando de ser profissional. Elas viraram amigas de conviver, de dia a dia, a ponto da psicóloga receber um dinheiro e comprar um apartamento num prédio próximo ao da cliente, conhecerem a família uma da outra, e por aí vai. Ela sempre recebendo os telefonemas, insistindo para ver, mas ele se negando, dizendo que o estado dele era terminal e não queria lhe dar desgosto. Então intensificaram o contato por telefone. (Com toda certeza ela se masturbava quando se falavam por telefone. Chegou a gravar vídeos eróticos, com música, e mandava para o doente terminal.) E isso durou um tempo. Durou uns anos. Do início ao fim, o todo dessa história chegou perto de cinco anos.

Até que um dia ela disse, olhe, se eu não posso ver você, pelo menos me mande uma foto. E ele mandou. Mas até ali ainda não tinham se visto. Então ela disse, é o seguinte. Se não der para ver você, eu desisto. Acaba tudo. Não quero mais fazer atendimento nem nada (e, irritada, uma vez chegou a desligar o telefone no meio da conversa), até que surgiu um momento em que ele disse, o.k., tudo bem. Eu estou num estágio muito ruim, mas vou combinar com você, tal dia, tal hora, você passa na avenida tal, eu vou estar no 1º andar dum prédio próximo e aceno para você com a mão. Enfim, ela aceitou fazer isso. E esse foi o dia em que eles se viram pela primeira vez.

Ela passou lá. Ele acenou, dando um adeus. E ela viu, chorou, mas combinaram de não se verem, e não se viram, foi isso. E por que eu deduzo que só inicialmente era um contato profissional, com pagamentos? Porque daí a um tempo ela começou a receber presentes da mesma fonte. A coisa mudou. Valores altos em dinheiro sendo depositados mensalmente na conta dela, em torno de 3 500 a 5 mil reais, com regularidade. (Um dia, no consultório, de repente vem uma pessoa e diz, chegou um ramalhete e uma caixa para a senhora. Daí, quando ela pega o ramalhete e abre a caixinha, é um anel, uma aliança embrulhada em papel cor-de-rosa.) Isso se manteve. Inclusive foi com esse dinheiro que ela acabou de construir uma casa de praia, num terreno que tinha num condomínio, numa praia não muito longe. Foi esse dinheiro que ajudou ela a acabar a obra. E a amiga dela, a ex-cliente, sempre muito ali. Na verdade ela era um referencial do passado dessa figura. Ele estava para morrer, e elas ficaram ainda mais próximas. Na construção da casa, a cliente chegou a tirar férias, ajudou no fim das obras, ou seja, sempre presente. Enquanto isso, ele se correspondia, ligava, falava. Enfim, agora os três tinham essa ligação muito forte.

 

Sendo que aconteceu o seguinte. Uns três anos depois, mais ou menos, o doente terminal falece. E falece num momento em que a ex-cliente tinha virado uma pessoa praticamente da família. Choram juntas a morte dele. De repente, a psicóloga recebe um telefonema (o contato deles era por celular, ele ligava de um celular para ela, ela não conseguia retornar, ninguém atendia) e aí, bom, ela recebeu a chamada de uma senhora com quem só se recorda de ter falado uma vez, quando a senhora disse que ele já estava muito mal, e depois disso, agora, essa mesma voz dizendo que era a mãe dele. E disse mais, que o corpo (sempre a vontade dele foi essa) fosse cremado. O corpo seguiria no voo tal, na hora tal, para São Paulo, para ser feito o que ele pediu. Ela tentou se articular para, pelo menos, estar presente nesse momento, no aeroporto, mas não conseguiu chegar a tempo. Tentou chegar mas não chegou. Um tempo antes, tinham combinado que o sonho dele era o seguinte, que ela plantaria uma árvore nos fundos dessa casa que construiu com a ajuda do dinheiro dele. E assim ela fez. Passou um tempo abalada, e se consolou com a amiga em comum, que disse que era assim mesmo, que ela já sabia desde o início que o fim era esse, porque ele era terminal. E tem um detalhe, ela inclusive usava a aliança dele, como um anel de casada, o que ele tinha mandado pelo correio com um cartão, em papel cor-de-rosa. Use, ele disse. E ela adorava essa aliança.

 

Ele demonstrava, muitas vezes, nas ligações, ser um pouco possessivo, e ciumento, mas nada que ela não conseguisse contornar. Ele tinha um domínio sobre a psicóloga, a ponto de ela se afastar dos amigos. Tinha uma tolerância maior nas saídas dela com essa cliente, mas mesmo assim quando saíam por muito tempo ele questionava. Disse, é, realmente não posso cobrar muita coisa, mas acontece o seguinte. Eles se falavam, e ele perguntava a ela, ah, onde é que você vai com fulana, e depois ligava de novo querendo saber se ela já tinha voltado. Enfim, eles trocavam essas informações e ele continuava dando presentes. (Agora estou meio confusa, não sei bem como que rolava esse envio dos presentes, se era para um endereço fixo ou uma caixa postal, ou alguém apanhava.) Então logo que ele faleceu, passaram dois meses, e nesse momento a amiga esteve presente, auxiliando, dizendo que ela se conformasse, porque a história já tinha começado quando era para terminar, que ela tinha mais é que aceitar e viver as memórias. E aí ela começou a se reerguer, começou a tentar sair, participar mais das coisas. No início a amiga se oferecia, dizendo, pode deixar, ajudava nas compras, levava o menino nas festinhas, no colégio etc. Mas com o tempo, depois ela disse, não, eu mesma levo. Tudo bem. E ela foi melhorando, ficou bem. Até que, poucos meses depois, recebe outro telefonema.

Era uma voz rouca. Muito distante. Um pouco diferente da anterior. Estranha mesmo. E essa voz disse que era o espírito dele, disse que, de onde estava, via e não achava bom por onde ela andava, que ela simplesmente estava atrás de substituir a qualquer preço o lugar dele, substituir por outras coisas e por outras pessoas. Num primeiro momento ela não quis acreditar. Era um pouco cética em relação a isso. Chegou a conversar a respeito com uma irmã e com a amiga em comum. Foram as únicas pessoas que sabiam que tinha havido um relacionamento entre eles. Que quando ele era vivo, se tratava com ela. Depois disso ela começou a pensar, as pessoas vão achar que sou louca. Ela perguntou sobre isso à irmã, que era espírita, e a irmã disse, olhe, eu nunca ouvi falar, mas ela podia procurar um centro espírita para ver se havia alguma coisa assim, parecida com essa situação. Daí, foram ao centro espírita. O pessoal lá disse que era praticamente impossível isso acontecer. Inclusive chegaram a fazer sessões, tentando contatar o cara (e eu não sei bem como funcionam essas sessões, não sei quais são os termos específicos do espiritismo, enfim), mas chegaram a fazer alguma coisa desse tipo, chegaram a dizer que parecia ser uma alma que realmente estava precisando de uma atenção maior, mas fora isso não aconteceu nada. Ninguém conseguiu estabelecer contato com ele. Então ela participou isso à irmã e à amiga. Primeiro à amiga, porque ela estava mais presente no dia a dia da psicóloga.

 

De repente, o lado possessivo e doentio dele começou a prevalecer. Ele ligava e dizia, olhe, você viu que sua mãe caiu hoje? A sua mãe caiu hoje porque fui eu que empurrei. Tal dia, tal hora, fui eu que empurrei a sua mãe. Porque você não está me fazendo bem neste lugar onde estou. Sei muito bem que seu filhinho fulaninho tem uma festa de aniversário hoje. Mas também sei que você está querendo na verdade encontrar um macho para me substituir. Você não vai. Porque se você for as pessoas que você mais ama vão começar a sofrer. Você sabe aquela calça tal? Pois não se preocupe que agora você não vai encontrar nem mais sombra dela. E assim acontecia. As coisas começaram a sumir ou pegar fogo. Uma vez, ela entrou em casa e viu umas roupas queimadas na cozinha. Começou a pintar um clima de terror, a ponto de ela acreditar que aquilo era praticamente plausível, começar a ter medo de contar isso à própria irmã e dividir com a amiga, e a amiga, muito preocupada, disse, olhe, a única solução que vejo é continuar rezando e seguindo a orientação do centro espírita, e, enquanto ele não parar com esse lado possessivo e dominador, você tem de obedecer. Ou então não vai mais ter paz na sua vida.

 

E isso continuou. A psicóloga entrou num estágio de depressão profunda. Perdeu peso. A família sabia que estava acontecendo alguma coisa estranha mas não entendia o que era. Ela não dizia nada a ninguém. Continuava a trabalhar, atendendo os pacientes. Inclusive ainda tinha uma agenda muito cheia, até que chegou um momento em que ela estava numa situação de pressão tão grande que ele ligou e disse que ela não podia sair nem para a confraternização de Natal da família. Ele disse, você não vai. Você está indo para a rua, mas você sabe muito bem por que está querendo ir para a rua. Inicialmente ela disse, eu não vou. Mas acontece que, nessa época de festas, fim de ano, ela já muito abalada, de repente decidiu mudar as coisas e desafiou, disse assim, eu vou, bateu o telefone na cara daquela voz e foi embora com a família, comemorar o Natal.

Detalhe. Como ele se mostrava cada vez mais ameaçador, ela já vinha há um tempo gravando as ameaças dele. E foram as ameaças mais pesadas que deram margem para que ela procurasse, depois, auxílio policial.

Então ela resolve desafiar e vai. Na mesa do restaurante tinha apenas os parentes mais próximos, a amiga, ex-cliente, que só chegaria depois, e, se não me engano, só mais um ou dois amigos mais chegados. Poucas pessoas iam participar do amigo-secreto. Mais a família mesmo. E ela estava num clima de tensão muito grande. Em determinado momento ela liga o celular (o celular estava desligado na hora do jantar) e aí o telefone começa a tocar. Ela viu. Reconheceu, pelo número, de quem era a chamada e começou a tremer, ficou nervosa. Deixou a mesa e foi atender à ligação sozinha. E ali começou a gritar, chorar. Quando voltou, o irmão e a mãe apertaram ela. Você tem que dizer o que é isso que está acontecendo. Porque faz tempo que você está assim. (Já tinha cerca de seis meses, ele vindo como espírito.) Tem que dizer. Você está emagrecendo. Visivelmente abatida. E, afinal, a irmã resolveu falar na frente de todo mundo. Disse mais ou menos, fulano está morto mas continua ligando para ela quase todo dia. A mãe não se aguentou. Como é? Que história é essa? Fulano já morreu. Não, a psicóloga disse, faz uns meses que ele liga me ameaçando, ameaçando a senhora. A mãe, que tinha mesmo levado um tombo dias antes, respondeu, você está louca? Isso é uma palhaçada que alguém está fazendo com você. Você vai amanhã mesmo procurar um advogado. Você tem de cair em si. Ela ainda tentou argumentar, dizendo que as evidências eram grandes, haja vista ele saber o que estava acontecendo, a história da roupa queimada, e seguir os passos dela, detalhes da intimidade etc. Mas não teve jeito. A mãe disse, você vai mesmo assim.

No dia seguinte ela foi. Chegando lá, ela deu os números de telefone ao advogado. Ele ficou de tentar, por meios pouco lícitos, averiguar de quem seriam essas linhas. Há um detalhe dessa comemoração de Natal. Pouco depois chega a amiga e percebe que o clima não está muito bom. Já tinha rolado a confusão toda e ela chega, fica um pouco e vai embora. E a mãe teve o cuidado de dizer que, quando a filha procurasse o advogado, não dissesse a ninguém. Porque podia ser qualquer pessoa, inclusive alguém próximo fazendo essa palhaçada. A mãe aventou a possibilidade de que o cara nem tivesse morrido, e continuasse ligando para armar um caso para o lado dela. Podia ser alguém bem próximo, ela repetiu. A amiga chegou a ficar sabendo do advogado, e disse que ela tinha de fazer isso mesmo, mas que podia não dar em nada, porque ela achava, pessoalmente, que era de fato um espírito. Quando chegou o resultado da investigação do advogado, deu o seguinte. Um número era pré-pago, não tinha como saber de quem era. Outro estava no nome da tal amiga. (O doente tinha chegado a ligar de três números diferentes.) O terceiro número também era um pré-pago. Só um estava registrado no nome da cliente que tinha se aproximado dela. Era um telefone que talvez viesse sendo utilizado desde antes de ele morrer. O advogado não tinha certeza. E quando ela ouviu isso, começou a tremer. O mundo da psicóloga de repente se desmoronou. Ela imaginou o quê? Que essa pessoa se aproximou dela simplesmente para dar todo o roteiro da vida dela ao cara que estava fazendo essa brincadeira. Alguma trama muito doida, que já levava mais de quatro anos e ela tinha caído feito um patinho.

 

Nesse meio tempo, alguns meses antes a cliente amiga tinha marcado o casamento da filha. No casamento estaria presente o pai da menina (o ex-marido da amiga). A psicóloga nunca tinha visto esse ex-marido. Mas lembrou daquela história que o espírito tinha contado, que, ah, ele se parecia muito com o ex-marido da cliente, ele disse, e diziam até que a gente parecia feito irmão. Todo mundo era bicho-grilo naquela época, todo mundo se parecia etc. Então ela disse, bom, pode ser esse o cara das ligações. E essa também era uma coisa mal resolvida para a amiga, que vivia falando mal dele, e agora ia se reencontrar com ele no casamento. Então ela, já sabendo da linha telefônica no nome da amiga (uma coisa esquisita, que ainda não tinha sido esclarecida), enfim, ela pensou que deveria ir ver essas pessoas no casamento, juntas. Ela decidiu ir à festa, e realmente foi.

Foi com uma sobrinha. Tinha achado melhor ir com alguém da família. (Nessa altura todos já estavam um pouco a par do que andava acontecendo.) Aliás, no dia do casamento ela teve uma briga homérica com o espírito, pelo número pré-pago dele. E ela, gravando inclusive, disse que iria de todo jeito. Ele disse que não, que ela não fosse. E fez mais ameaças ao filho dela. Então, chegando lá, estava sentada com a sobrinha, as duas meio na delas, eis que entra (agora é que eu tenho um pouco de receio da galera me ouvindo, vocês aqui em volta da mesa chamam muito a atenção), mas, enfim, eis que entra a noiva com o pai dela, que era o ex-marido da amiga, e a única diferença das fotos que nesses últimos anos ela tinha recebido do cara (que agora era o espírito) era que, ali, ele estava sem a barba. Tinha tirado a barba e o bigode. Então ela começou a tremer. A sobrinha segurou forte no braço dela, calma, tia. Mas é ele. É igual às fotos, a psicóloga disse, e segurou a onda dela durante a cerimônia toda, pensando provavelmente, eu tenho de chegar perto de todo jeito e ouvir a voz dele. Porque era o que faltava para ela ter a certeza e fechar esse quebra-cabeça. Já estava muito descompensada e tomou uma atitude de quem se vê no desespero. Na hora da recepção, ele lá interagindo com os convidados, ela nem sequer tinha sido apresentada, mas chegou junto e disse, muito prazer, sou fulana e a sua ex-mulher sempre disse que você dança muito bem e eu queria dançar com você. Chamou o cara para dançar. Inclusive as pessoas em volta acharam isso estranho. Que é isso, essa mulher é folgada. Mas ele disse, pois não, vamos dançar e tal. E aí, por incrível que pareça, ela ouviu a voz do sujeito, e a voz dele não tinha nada a ver com a primeira voz do cara, nem também com a voz rouca, do espírito, que continuava ligando para ela.

Ela dançou e voltou inconformada, sem entender nada, como é que pode? Só se tivesse disfarçado a voz esses anos todos. Mas a voz era bem diferente. Então ela voltou para casa com essa história. O espírito continuava a ligar. E nesse meio tempo sumiram umas chaves da casa dela, que ela não sabia explicar como. (Eu tenho impressão de que ela chegou a mudar o número de telefone e a fechadura da porta, mas não adiantava.) Ela simplesmente não estava conseguindo encaixar essa história. Nada fazia sentido, uma palhaçada assim armada sem nenhum propósito, por tantos anos, era quase impossível de acreditar. Ela também não estava conseguindo suportar a convivência com a amiga, porque desconfiava que ela fosse o centro da história, e tivesse cantado a vida dela todinha para o homem que fazia a voz de morto. Mas ainda não tinha confrontado a amiga, por medo de alguma coisa, e porque não sabia como agir. Sabia que tinha alguém recebendo informações sobre a vida dela. E quanto mais ela confrontava o espírito, mais as ameaças aumentavam e as coisas sumiam cada vez mais. O espírito sempre dizendo que era responsável pelos sumiços. Chegou a um ponto em que ela não sabia mais o que fazer, que atitude tomar.

 

No local onde ela construiu a casa de praia tinha uma delegada com uma casa também no mesmo condomínio. Então ela passou lá desesperada, com um monte de gravações, e disse, olhe, o que está acontecendo comigo é isso e tal. A delegada já tinha visto essa amiga por lá, na praia, de pronto identificou quem seria ela e recebeu um monte de cartões, fotos, presentes. Depois disse, olhe, a gente vai levar isso para a delegacia e escutar as fitas. Como as ameaças eram ao filho, e a delegada era da Delegacia de Polícia de Proteção à Criança e ao Adolescente, ela disse que podia dar início a uma apuração formal. Aqui é onde entra a parte menos interessante da história. (Nada contra. Aliás, pessoalmente estou muito bem na instituição policial, mas o modo como a investigação atuou tirou toda a arte do caso. Enfim.) A delegada disse, a partir de agora a gente vai apurar, mas vai chegar um momento em que vai ter de confrontar a amiga e esse ex-marido. E quem é esse ex-marido. Bem, a psicóloga disse, não sei, sei como é o nome dele, é fulano de tal e tal, e sei que ele trabalha numa multinacional, numa empresa grande. Certo. E o que foi que a delegada fez? O primeiro caminho era chegar até essa pessoa e sentir até que ponto ele estava envolvido. Assim ela ia fazer. E perguntou, e essa questão dos telefones? Eu quero guardar comigo esses cartões que ele te mandou, e quero que você me traga também cartões da sua amiga, de Natal e tudo, para que se for o caso a gente possa fazer uma perícia. Nesse meio tempo, a delegada foi atrás e descobriu onde o cara morava e mandou uma intimação sem referência nenhuma. Não entrando em detalhes do que seria o caso, para poder primeiro tentar sentir. Nisso, ele chega lá sem barba (fazia pouco tempo que a filha tinha se casado), desconfiado, com a mulher com quem ele tinha se casado há pouco mais de um ano, e aí sentou para conversar com a delegada. Ela disse, olhe, há algum problema com a sua ex-mulher? Ele disse, é. Que tipo de problema o senhor teve com ela, há quanto tempo vocês não convivem? Ele disse, olhe, fomos casados tantos anos (mais de quinze anos, o número que ele deu) e ela começou a fazer terapia com a psicóloga tal. Depois de um tempo começaram a chegar contas altíssimas de telefone lá em casa. E eu notei que tinha a porta de um armário que vivia sempre trancada, e de uma forma ou outra, consegui uma chave e abri. Quando abri, achei vários cartões, fotos, gravações (ele usou até esta expressão, disse, “coisas nojentas”) nesse armário, e descobri que elas estavam tendo um caso.

Na verdade, eu desconfiei que elas estavam tendo um caso. Minha reação inicial foi de choque, de surpresa, sabia que havia alguma coisa muito estranha. Suspeitei que fosse um caso, mas não com uma mulher, a terapeuta, compreende? E então eu fui abordar a minha esposa sobre isso. Conversei com ela e disse, olhe, não tem o que esconder mais, descobri os cartões, as fotos, e as contas telefônicas altíssimas só podem ser dessa história. Ela começou a chorar, disse que realmente queria que ele tentasse entender. Sabia que era difícil, mas que ela tinha criado uma fantasia e que não estava conseguindo mais sair. Ela começou a inventar que existia uma terceira pessoa, e então contou a versão resumida da história. Que dava fotos a essa pessoa, que eram inclusive dele, ele ainda de barba, e agora não estava mais conseguindo sair dessa fantasia e andava muito atordoada com isso. Ele disse, olhe, eu não sei até que ponto a gente vai poder continuar com qualquer tipo de relacionamento, mas até por nossa filha e tal, eu posso ajudar você? Ela disse, me dê um tempo para eu ver como consigo desfazer isso. E alguns dias depois, a situação ainda meio tensa em casa, ela quis conversar com ele sobre aquele assunto. Eles se trancaram e ela disse, eu sei como você pode me ajudar. Ele falou, diga como. Eu escrevo uma carta de despedida, digo que não tem mais condições de a gente se falar ou ter contato, porque realmente eu estou muito mal, e a gente marca um dia e uma hora e você vai até a janela e dá um adeus como se fosse uma despedida. E assim foi feito. Ele foi até a janela, na época ainda de barba, e acenou. Para ele, ele estava se despedindo. (Talvez isso até explique por que ele tenha tirado a barba. Se é que a participação dele só foi até aí.) Passou um tempo. Eles não tiveram mais condições de conviver e se separaram. Ela praticamente extorquia em termos de pensão alimentícia. Ele pagava em torno de 3 mil reais por mês, mesmo com a filha já maior, noiva, na universidade, trabalhando. E assim eram sempre cheques muito altos. Ele, eu não sei até que ponto ainda se envolvia com ela, porque continuaram com o contato. Passaram ainda muito tempo ligados. E quando ele chegou lá na delegacia, para prestar esse depoimento sob intimação, tinha pouco mais de um ano de relação com a nova esposa. Resolveram se casar com pouco tempo de namoro. Moraram juntos e logo se casaram. A delegada disse, olhe, você era para ter tomado uma atitude, porque isso acabou tomando outras proporções. Daí, então, mostrou uma fita e perguntou, você reconhece essa voz?

A delegada era muito direta. No inquérito, aventou a história de que ele era na realidade a outra pessoa e que até hoje continuava tendo esse contato. Primeiro vivo e depois morto. Ele ficou abismado com isso e negou. A delegada pediu que ele prestasse um Termo de Declaração, assinado, e perguntou se ele achava possível que a ex-mulher estivesse criando tudo isso sozinha. Ele achava possível, mas não sabia como, porque realmente a voz era masculina, e embora fosse um pouco rouca, a mais recente, do morto, era muito convincente. Ele chegou a ser questionado por ter tirado a barba. Disse, não tem nada a ver, já passei muito tempo de barba. (Não chegou a dar a desculpa de ter aparecido na janela e não querer ser reconhecido pela psicóloga.) Diante disso a delegada mandou chamar, quando ele ainda estava lá, a própria vítima. Ou seja, a psicóloga. Quando ela chegou teve uma crise de tremer e chorar. A delegada pegou a vítima pelo braço e botou ela sentada, diante dele. (Não gostei desse contato. A delegada podia ter feito de outro modo.) Então ele contou tudo para ela. Ela ficou perplexa, não acreditando, nervosa, de olhos para fora do rosto. Mas a delegada disse, olhem, eu tomei a liberdade de mandar os cartões, tanto os do homem e espírito como os da amiga, ex-mulher, para a perícia grafotécnica bater as letras enquanto vocês ainda estão aqui. A delegada tinha pressa. Enfim, o laudo chegou e a perícia disse que as grafias batiam, que foram escritas pela mesma pessoa, nesse caso, a amiga dela. Então a gente fica num dilema. De quem seria essa voz? A psicóloga, reticente, disse, meu Deus, então era pior do que eu pensava. E foi quando a delegada virou e disse, olhe, eu posso estar enganada, mas acho que é a mesma pessoa. Não existe uma terceira pessoa. A vítima foi totalmente intransigente em aceitar isso, até porque tinha passado os últimos cinco anos convivendo com a amiga, que estava ali, a hora toda, ao lado dela. E ainda havia a voz de uma quarta pessoa, a da velhinha, que tinha ligado duas vezes dizendo que era a mãe dele, na segunda confirmando a morte do cara. Então, ela reticente, não quis aceitar a versão, achava que havia mais alguma coisa. E a delegada não concordava com ela. Liberaram o ex-marido com a nova esposa e começou uma disputa de versões entre a delegada e a vítima. (O que acho errado.) Mas, enfim, vamos aos fatos.

A delegada disse, olhe, vamos fazer o seguinte. O ex-marido ficou de voltar amanhã para assinar o termo de envolvido na presença de um advogado, porque não quis assinar hoje, embora tenha sido solícito respondendo a todas as questões. Então, vamos fazer o seguinte, ela repetiu, as coisas estão ficando perigosas, a ponto de suas chaves terem desaparecido e você já ter trocado de fechadura duas vezes, então primeiro a gente tenta tirar uma prova, depois a gente vê como faz. E a vítima aceitou. Mas ainda continuava usando a aliança, querendo acreditar em alguma coisa, que talvez fossem dois homens e o morto estivesse realmente morto, e só metade da história fosse falsa, não sei. A delegada disse, você vai dar um jeito de chamar a sua amiga para a sua casa e daí a pouco você vai começar a se desesperar, que não aguenta a situação, que não vai mais atender às ligações do espírito, está enlouquecida e não vai mais usar a aliança, vai jogar fora, pela descarga do banheiro. Daí, você vê qual vai ser a reação dela. E me diz.

 

E assim ela fez. Num final de dia, ligou e a amiga chegou lá. Primeiro, antes, ela já tinha desconfiado daquela história de um dos três números de telefone do morto ser dela, da amiga. Então às vezes ela testava, dizendo, ah, estou cansada desse apartamento e desse bairro, acho que vou me mudar. E logo depois o espírito ligava, dizendo, você pensa que não vi você o dia inteiro procurando apartamento? Você não vai se mudar daí, eu não quero que você se mude. Mas ela nunca procurou apartamento. Era só um teste. Então, o que é que acontece? Ela está lá, com medo, diante da amiga e de repente começa a dizer que não aguenta mais essa situação, que vai jogar a aliança fora e não vai atender às ligações etc. E realmente tira a aliança do dedo. A amiga diz, calma, você precisa ter calma. E do nada, depois diz, opa, olha, preciso ir em casa, agora mesmo, eu esqueci uma coisa. Preciso apanhar isso lá em casa. E sai do apartamento dela. Nesse momento a vítima vai até a varanda e fica observando se a amiga vai passar, atravessando a rua, a caminho do próprio apartamento. Mas antes mesmo da amiga passar, o telefone toca e é ele dizendo que está vendo que ela está sem aliança, e que ela ponha agora mesmo. Logo depois a amiga sai do prédio, andando. Assim que isso acontece ela liga para a delegada e diz, eu acho que ela entrou no elevador e ligou para aquele homem e avisou. A delegada respondeu, minha filha, você não está querendo enxergar não? Segundos, foi uma questão de segundos, não tem uma terceira pessoa. E aí ela começou a se convencer.

Depois que ela se convenceu, combinaram que aquilo não poderia continuar. Era muito perigoso ela estar recebendo essa amiga em casa, inclusive por causa do filho. E muitas vezes o filho chegava dizendo, ah, tia fulaninha esteve hoje lá na escolinha, e ela começou a perceber o perigo que todo mundo estava correndo. Aí marcaram um dia. Nesse dia (meu Deus) a delegada ficou escondida na casa dela e disse, olhe, você vai começar a gerar uma conversa com ela, naquele mesmo sentido, e quando eu achar que o momento é apropriado, a gente intervém. Já tinha quatro policiais à paisana, lá embaixo, no prédio. A amiga chegou, e começaram a conversar, ela dizendo é, não estou mais aguentando essa situação, estou muito chocada com essas ligações dele, e a amiga respondia, é, mas você tem que entender, fulano é assim, não quer dizer que não goste de você. Sempre foi possessivo, não vai mudar, vai continuar sendo quem é. Nisso sai a delegada do esconderijo e diz, fulana, quem é fulano? E a amiga, o que é que está acontecendo aqui? E a delegada, me diga. Responda. Diga que você é fulano. Pode dizer. A gente já sabe. Você deve estar estranhando eu estar aqui, não é? Vou me apresentar. Meu nome é fulana. Sou delegada, e você vai me acompanhar agora até a delegacia. Então a amiga começou a se desesperar, dizendo que tudo era uma grande palhaçada, chamando elas de palhaças, e disse que não iria. A delegada falou, olha, você tem duas opções. Ou vai direitinho, uma policial conduzindo, se quiser, o seu carro, com você de passageira, ou então vai algemada. Prefere como?

Chegando na delegacia, ela foi ouvida. Não quis assinar nada. Na verdade, não falou quase nada. A delegada autuou a mulher por ter chamado todo mundo, lá no apartamento, de palhaço, e foi marcada uma audiência para dias depois. Nesse momento a amiga tomou ciência do fato. A própria mãe dela chegou a ir nesse dia, que foi coisa para até as duas da madrugada. A velhinha pediu que pelo amor de Deus não fizessem nada com a filha dela, que era uma pessoa doente, que tinha tido problemas, acho até que apanhado do ex-marido etc. E a delegada, daquele jeito frio e rápido dela, disse, não, a gente está aqui só para apurar, a senhora não se preocupe. E assim passou-se. Nesse mesmo dia, que foi até as duas da manhã, a vítima, emputecida da vida, não queria nem olhar para a cara dela, e a doida (nesse caso, a amiga) gritava, xingava. Em determinado momento, a coisa se acalmou mais. A psicóloga quis saber, perguntou a uma das delegadas, fulaninha está mais calma? Está, mais ou menos, ela está, a delegada disse. Ah, então quero falar com ela. A delegada deixou, e ela foi. Todo mundo ficou brechando essa conversa entre as duas.

A psicóloga começou a alisar a cabeça da outra. Então ninguém entendia mais nada. (A delegada ficou irritada, porque isso não correspondia à versão dela. Como assim, alisando a cabeça da outra?) Mas foi o que aconteceu. Que consolo é esse, eu não sei. E alguns dias depois a psicóloga volta a procurar pela delegada, diz que está com muito medo do que possa ser feito contra ela. E por quê? É neste momento que ela revela que estava com medo da outra, de que ela pudesse fazer alguma coisa de muito mal. A delegada repetiu, e por quê? Porque eu mandei fitas e muita coisa da minha vida para ela. Que tipo de fitas? Aí é quando diz que tinha nas fitas ela se masturbando, vídeos, fotos, cds, enfim, uma série de coisas, inclusive minha agenda passada, com todos os telefones dos meus clientes. Todo mundo. Tudo meu estava naquela agenda, uma agenda profissional. E ela tinha medo do que a outra pudesse fazer com isso. A delegada diz, mas por que logo uma agenda profissional? Porque, ela diz, ele, na forma de espírito, era tão possessivo que queria ficar sabendo de todas as pessoas com quem ela tinha contato. Aquilo era um desastre profissional. E o que foi que aconteceu depois? O vigia do consultório comentou (porque a partir desse momento ela disse a todo mundo que, se aparecesse a amiga no prédio, no consultório ou na escola, não deixasse ela entrar) que aquela pessoa tinha recentemente estado na construção em frente, olhando o consultório dela por um binóculo. Alguns dias depois ela recebeu ligações durante a noite, de vários números diferentes, que ela não reconhecia. De meia em meia hora, de quinze em quinze minutos, não dizia nada, ninguém falava, e então desligava. Depois a psicóloga descobriu pela companhia telefônica que alguém tinha andado pela avenida inteira, a mais longa do bairro, parando de orelhão em orelhão, ligando para ela.

 

Enfim, o problema é que os motivos nunca foram propriamente apurados. Por que o ex-marido foi se envolver numa história tão esquisita, justo depois de ter se separado da mulher de maneira pouco amistosa? Será que ele realmente espancava a esposa, como afirmou a mãe dela na delegacia? (Aliás, nunca ficou comprovado de quem era a voz da tal velhinha.) Por que ele se recusou a assinar o testemunho, e ainda por que de repente tirou a barba, pela qual era conhecido a vida inteira? Por que a delegada teve tanta pressa e foi logo entregar a história ao ex-marido sem antes averiguar a sua responsabilidade? O que levou a ex-mulher dele, a cliente, a sustentar uma farsa com a psicóloga por tanto tempo, sabendo que perderia a única amiga que tinha? E por que esta, depois de tanta fúria e decepção, quis consolar a louca detida para esclarecimentos? Como essa outra conseguiu fazer as duas vozes masculinas sem ser notada pela psicóloga (um especialista em personalidades) nem apontada pela perícia fonoaudiológica? Como o lado profissional do tratamento do doente foi abandonado com tanta rapidez? E por que ela aceitou tanto dinheiro, por tanto tempo, de uma pessoa que jamais tinha visto, exceto por uma janela? O que levou a psicóloga a enfrentar o ex-marido de sua amiga, no casamento, e a própria amiga, na delegacia, e assim mesmo permanecer ansiosa por uma confirmação de que o doente era uma pessoa real? Nisso ela não teria criado a própria fantasia para se iludir a respeito dos relacionamentos? Para mim, todos esses motivos permanecem, até hoje, completamente em aberto.

O resultado (pouco satisfatório) foi o seguinte. A delegacia não tinha material suficiente para indiciar a amiga, porque as ameaças ao menino foram feitas sem o conhecimento dele, não constituindo, assim, abuso de menor. Tudo ficou como diligência policial, sem que o inquérito resultasse numa acusação formal (se eu fosse a psicóloga, me mudaria daqui. Mas ela continua no mesmo lugar), então ela voltou a nos procurar, por causa da história da mulher de binóculo observando o consultório dela, mas aí, como nossa seara é a alçada de proteção à criança e ao adolescente, a delegacia passou a investigação a outra delegacia. As ameaças são crime de pouca pena, aos poucos o caso foi sendo enterrado. Ninguém entendeu a coisa totalmente. As duas tinham uma ligação. Elas se consolavam, o doente terminal servia como uma cola. (Desconfiada como sou, acho que o caso tinha outra pegada.) Hoje elas se afastaram totalmente. O contato que há, se há, é visual, como no caso do binóculo. Há um tempo chegou uma pessoa na casa de praia dela tentando entrar, e o vigia não deixou, porque já sabia que nenhum estranho podia passar. Ou seja, hoje a psicóloga anda cercada de precauções. Ficou uma pessoa traumatizada. Vive à base de antidistônicos. (Lá vem a nossa saideira, melhor parar por aqui.) Mas me pergunto, como é que ela pode continuar tratando dos clientes? A questão das ameaças resultava só numa advertência de desagravo e no registro da queixa, não dava em prisão. A lei só pune ação e resultado, não um baile de terror psicológico. O crime de tortura, que foi aventado pelo advogado da psicóloga, é crime institucional. Não tem como encaixar um particular praticando tortura. É difícil. E como nunca ficou constituído o crime, não houve busca e apreensão no apartamento da acusada. As coisas foram parando, ficaram paradas. (Tudo só na cabeça dos envolvidos.) E essa solidão toda (acho eu) é capaz de fazer as pessoas imaginarem um inferno cor-de-rosa, e, depois, se acostumarem a viver dentro desse inferno.

José Luiz Passos

José Luiz Passos é escritor, professor e tradutor pernambucano. Publicou O Sonâmbulo Amador pela Alfaguara em 2012

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