PEDRO FRANZ_2018
Cada osso triturado pode voltar e dançar
Heitor Ferraz Mello | Edição 143, Agosto 2018
À SOMBRA
Brincamos com o peixe
estampado no chão de nossas ruas
Largamos nossas mochilas reviradas
por policiais
e corremos atrás desse peixe negro
que segue rente à calçada
É um peixe aéreo gigante
com garras afiadas
e lá do alto
de onde nascem as sombras
suas hélices traiçoeiras
nos ameaçam
MASSACRE
Estou na cozinha
preparando um café
O vizinho ouve Alceu Valença
Estão jogando bombas
A fumaça chega ao 17° andar
Eu também gosto de Alceu Valença
Estamos encurralados
numa rua estreita
perto da Carioca
e a tropa de choque cerca
todas as saídas
É preciso espantar o pessimismo
Primeiro tiro
com bala de verdade
Entre um estouro e outro
a ambiguidade histórica
de uma marchinha de Carnaval
A VOZ DOS OSSOS
Por que não desiste
dessa voz que ainda
insiste entre tantas
Que parece chegar
inteira no meio de tantos
estilhaços de ontem
e de hoje: a voz quebrada
deveria ser a sua
arruinada diante do
macabro que sempre
pautou esse pasto
indigesto que tentamos
com travo na boca
chamar de país
Os antigos tentaram
deixar uma lição de coisas
mas nunca convenceram
Também desistiram
para um giro rápido
quando anunciaram
o fim de tudo, o lamento
que restou entre destroços
Cada osso triturado
pode voltar e dançar
na sua frente, a voz
dos ossos é a sua
A minha voz de agora
Um agora que permanece
incendiando a linha
fóssil do horizonte
ESTRELA INVERTIDA
A morte
é de uma banalidade infernal
um bairro quieto
no meio da tarde
sempre à margem
o postigo aberto na porta da frente
algum velho
e um programa de auditório
(todos os dias são domingos)
A mercearia
traz uma estrela invertida na fachada
a cara do bode
a cara do tempo
Meu avô já morto
nunca sorri nas fotos finais
as fotos que o patrão mandava fazer
quando concluíam uma obra
Jamais saberei
se foi descuido ou intenção
aquele pentagrama em relevo
uma estrela brilhando
no alto da porta
ou se era a morte
espreitando um prato
de arroz, feijão e couve
DEPOIS DA CHUVA
Bolinhas de plástico
coloridas
espalhadas na grama
formam uma
constelação invertida
ou um súbito encontro
de astros desorientados
nas mãos macias das crianças
que a toda hora
inventam novos esquemas planetários
Tento me orientar
por estas pistas coloridas
lançadas ao acaso
um mapa em que não importa o destino
os homens
suas guerras particulares
apenas o gesto livre
os passos de alguém
um tanto descrente (é verdade)
que cruza o jardim molhado
depois do temporal
