FOTO: VIETNAM WAR JOURNAL
A sombra dos mísseis na calçada
Quatro poemas do livro Céu Noturno Crivado de Balas, vencedor do Prêmio T. S. Eliot de 2017
Ocean Vuong | Edição 147, Dezembro 2018
CANÇÃO MATINAL COM CIDADE EM CHAMAS
Vietnã do Sul, 29 de abril de 1975: A Rádio das Forças Armadas tocava White Christmas (Natal Branco), de Irving Berlin, como código para dar início à Operação Vento Constante, a evacuação final dos civis americanos e dos refugiados vietnamitas de helicóptero durante a queda de Saigon.
Pétalas de jasmim pelas ruas
como partes de um vestido de menina.
Que seus dias sejam felizes e brilhantes…
Ele enche de champanhe a xícara, leva aos lábios dela.
Abra, ele diz.
Ela abre.
Fora, um soldado cospe
o seu cigarro enquanto passos enchem a praça
como pedras caídas do céu. Que
seus Natais sejam todos brancos
e o guarda de trânsito já tira seu coldre.
Os dedos dele percorrem a barra
do vestido branco da menina. Uma só vela.
Suas sombras: dois pavios.
Um caminhão militar passa rápido na esquina, crianças
gritando lá dentro. Uma bicicleta é lançada
na vitrine da loja. Quando a poeira sobe, um cão negro
ofega deitado na rua. Suas patas traseiras
esmagadas no brilho
de um Natal branco.
No criado-mudo, a magnólia em ramo expande como um segredo
ouvido pela primeira vez.
As árvores luzindo e as crianças ouvindo, o chefe de polícia
caído com a cara numa poça de Coca-Cola.
A foto do pai do tamanho de um punho encharcada
ao lado da orelha esquerda.
A música se move pela cidade como uma viúva.
Branco… Branco… Sonho com uma cortina de neve
caindo de seus ombros.
Neve arranhando a janela. Neve estilhaçada
a tiros. Céu vermelho.
Neve nos tanques que escalam os muros.
Um helicóptero alça os vivos
além do alcance.
A cidade tão branca está pronta para a tinta.
A rádio manda corre corre corre.
Pétalas de jasmim sobre negro cão
como partes de um vestido de menina.
Que seus dias sejam felizes e brilhantes. Ela diz
algo que nenhum dos dois escuta. O hotel treme
sob os pés. A cama um campo de gelo.
Tenha calma, ele diz, quando a bomba, a primeira, ilumina
seus rostos, meus irmãos venceram a guerra
e amanhã…
As luzes se apagam.
Estou sonhando. Estou sonhando…
ouvir os sinos do trenó na neve…
Na praça lá embaixo: uma freira, em chamas,
corre em silêncio rumo a seu deus –
Abra, ele diz.
Ela abre.
HAIBUN DO IMIGRANTE
A estrada que me leva a você é segura
mesmo ao passar por oceanos.
Edmond Jabès
Então, como se respirando, o mar inchou sob os nossos pés. Se for para saber apenas uma coisa, saiba que a tarefa mais difícil é viver só uma vez. Que uma mulher num navio naufragando se transforma em salva-vidas – pouco importa quão macia é sua pele. Enquanto eu dormia, ele queimou seu derradeiro violino para manter quentes meus pés. Ele se deitou ao meu lado e depôs uma palavra em minha nuca, que derreteu e virou uma gota de uísque. Ferrugem dourada descendo as minhas costas. Navegávamos há meses. Sal em nossas frases. Navegávamos – mas a beira do mundo ainda não estava à vista.
*
Quando partimos, a cidade ainda ardia. Fora isso era uma perfeita manhã de primavera. Jacintos brancos ofegavam no gramado da embaixada. O céu era azul de setembro e os pombos bicavam farelos de pão espalhados pela bomba na panificadora. Baguetes partidas. Croissants esmagados. Carros estripados. Um carrossel girando seus cavalos enegrecidos. Ele disse que a sombra dos mísseis crescendo na calçada parecia deus tocando um piano imaginário sobre nossas cabeças. Ele disse Tem tanta coisa que eu preciso te contar.
*
Estrelas. Ou melhor, os ralos celestes – à espera. Pequenos orifícios. Pequenos séculos se abrindo brevemente só para passarmos. Um facão posto para secar no convés. Minhas costas voltadas para ele. Meus pés no turbilhão. Ele se agacha a meu lado, seu hálito é um clima fora de lugar. Deixo que ele jogue um punhado de água do mar nos meus cabelos e depois que os torça. As menores pérolas – e todas para você. Abro os olhos. Seu rosto em minhas mãos, molhado como um corte. Se chegarmos à praia, vou dar a nosso filho o nome dessa água. Vou aprender a amar um monstro. Ele sorri. Um hífen branco onde deviam ser seus lábios. Há gaivotas sobre nós. Há mãos tremendo entre as constelações, tentando segurá-las.
*
A cerração sobe. E nós vemos. O horizonte – sumiu de repente. Um brilho d’água leva à dura queda. Simples e sem dor – do jeito que ele queria. O jeito dos contos de fada. Aquele em que o livro se fecha e vira riso em nosso colo. Encho a vela do mastro. Ele lança meu nome no ar. Vejo as sílabas se desmancharem em pedrinhas no convés.
*
Rugido furioso. O mar se divide na proa. Ele olha a água abrir como um ladrão que vê seu próprio coração: só ossos e madeira lascada. Ondas sobem dos dois lados. O barco encaixotado em duas líquidas paredes. Veja!, ele diz, agora eu vejo! Ele está saltitando. Ele beija as costas da minha mão enquanto agarra o leme. Ele ri, mas seus olhos o traem. Ele ri embora saiba que arruinou tudo que é belo só para provar que a beleza não tem o poder de transformá-lo. E eis a ironia: no lugar onde o pôr do sol devia estar há uma rolha. Ela sempre esteve lá. Há um navio feito de palitos de dente e supercola. Há um navio em uma garrafa de vinho sobre a lareira em meio a uma festa de Natal – gemada com uísque espirrando de copos vermelhos gigantes. Mas navegamos mesmo assim. Insistimos em ficar de pé na proa. Casal de bolo de noiva numa cripta de vidro. A água agora tão calma. A água como o ar, como as horas. Todos gritam ou cantam e ele não sabe se a canção é para ele – ou para os quartos em chamas que ele confundiu com a infância. Todos dançam enquanto um diminuto casal preso numa garrafa verde acha que alguém os aguarda ao fim de suas vidas para dizer Ei! Vocês não precisavam vir tão longe. Por que foram tão longe? Bem na hora em que um taco de beisebol estilhaça o planeta.
*
Se for para saber só uma coisa, saiba que nasceu porque não havia mais ninguém a caminho. O barco balançava enquanto você inchava dentro de mim: o eco do amor se consolidando em um menino. Às vezes me sinto como um &. Acordo esperando ser destroçada. Talvez o corpo seja a única pergunta que não pode ser extinta por uma resposta. Quantos beijos trituramos em nossos lábios em oração – só para catar os pedaços? Se você tiver que saber, o melhor modo de compreender um homem é com seus dentes. Uma vez, engoli a chuva durante toda uma tempestade verde. Horas deitada de costas, minha meninice aberta. O campo em toda parte sob mim. Que doce. Aquela chuva. Como só pode ser doce algo que vive apenas para cair. A água se amainou em intenção. A intenção se amainou em alimento. Todo mundo pode esquecer a gente – desde que você se lembre.
*
Verão na cabeça.
Deus descerra o outro olho:
luar duplo no lago.
SEM TÍTULO (AZUL, VERDE E MARROM): ÓLEO SOBRE TELA: MARK ROTHKO: 1952
Os aviões, disse a tevê, colidiram nos prédios.
& eu disse Sim porque você pediu para eu
ficar. Talvez a gente reze de joelhos porque deus
só escuta quando estamos perto assim
do diabo. Tem tanta coisa que eu queria te dizer.
Que o meu maior mérito foi passar
pela ponte do Brooklyn
& não pensar em pular. Que nós vivemos como a água: molhando
uma nova língua sem contar
o que passamos. Dizem que o céu é azul
mas eu sei que ele é preto a uma grande distância.
Você sempre vai lembrar o que fazia
quando doer mais. Tem tanta coisa que
eu preciso te dizer – mas só me deram
uma vida. & eu não fiquei com nada. Nada. Como um par de dentes
no final. A tevê seguia dizendo. Os aviões…
Os aviões… & eu esperava na sala
feita de tordos quebrados. Suas asas vibrando
contra quatro paredes borradas. & você estava lá.
Você era a janela.
ODE À MASTURBAÇÃO
pois você
jamais foi
sagrado
só bonito
o bastante
para ser achado
com a boca
no anzol
em fagulhas
a água espirrou
ao tirarem
você para o sol
& é comum
você ter só
tua mão
para agarrar
este mundo
& é o
som não
a reza
que adentra
é o trovão
não o raio
que acorda você
um noturno neon
estacionado
no banco de trás
água benta
lambuza
tua perna
entre as coxas
onde homem
nenhum se afogou
por excesso
de sede
o esporro
uma art-
-iculação
de estrelas mascadas
então erga
o dedão
recoberto de gozo
& ensine
à tua língua
de infinito
alimento
que deixar-se perder
numa imagem
é encontrar nela
uma porta
então feche
os olhos
& abra
deslize a mão
com as costelas
vibrando
em desespero
teclas
intocadas de um piano
para alguns ser
humano é assim
mas você sabe bem
essa é a forma mais breve
de para sempre sim
até santos se
lembram do se
que sob todo
enunciado
debaixo
do sussurro transborda
como flor de cerejeira
em primavera
de ninguém
tantas vezes esses versos
parecem as marcas
de garras
dos irmãos arrastados
afastados de você
de você cujo nome
não se ouve
com o ouvido
e sim com ossos
diminutos nas
tumbas de você
que incendeia o ar de abril
com suas pétalas todas
aqui aqui aqui de você
que se entrança
na luz farpada
como arame
mesmo sabendo
como a cor convida
à decapitação
deslizo a mão
procurando você
na poeira da américa
em cidades com
nomes como esperança
celebração
sucesso & doces
lábios como little
saigon
como laramie grana
& sanford cidades
cujas árvores sabem
que o peso da história
pode dobrar seus galhos
até quebrar
versos cujas raízes
que escavam as pedras
& fatos
juntando
a memória da ferrugem
& do ferro
mandíbulas
& ametista sim
se afague
desse jeito
rompa a fome
incurável
da dor mais suave
afinal
o senhor te cortou
aqui
pra nos lembrar
de onde veio
prenda essa pulsação
galhada
de volta à terra
grite
até que o escuro faça fluir
todo bicho
sem rosto banido
da arca
enquanto você tira o sal
do pau-clitóris
& chama a isso
luz do dia
não
tema
ser tão
luminoso
tão brilhante tão
vazio
que as balas passem
direto por você
achando
que encontraram
o céu quando deslizar a mão
aperte
bem
este sanguíneo
corpo quente
como verbo
que é preso
a seu sentido
& vive
Poemas do livro Céu Noturno Crivado de Balas, que a editora Ayiné lançará em fevereiro.


