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    Depois do culto, ela ficou pensando se as pessoas imaginavam coisas impróprias, se tinham sonhos eróticos com desconhecidos ou gostavam de fantasiar com pastores, com padres, com todos CREDITO: BÁRBARA QUINTINO_2021

ficção II

Recheio

Tinha que ser o Capeta colocando sonhos imundos em sua mente

Jarid Arraes | Edição 177, Junho 2021

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O som do salto baixo martelava contra o chão e se espalhava pela rua vazia. Parecia um cavalo manco com o trote vacilando, desengonçado. Ela caminhava devagar, evitando a inconveniência de chegar cedo demais. Detestava esperar, dava espaço para que a mente pensasse no que não devia.

Olhou para o lado e viu um casal entre estalos de beijos e gemidos abafados, com os cabelos bagunçados e os reflexos afoitos de quem, ao mesmo tempo, teme e deseja ser pego. Desviou o rosto e apertou a Bíblia nas duas mãos. Não era certo encarar aquilo. Apressou o passo, misericórdia, falou com Jesus. Não demorou e viu a porta da igreja aberta e o irmão Martins lhe sorrindo de longe.

“A paz do Senhor.”

 

Ela subiu as escadas segurando a saia com a mão esquerda, só para garantir que não desse brecha, e se ajoelhou com os cotovelos sobre a cadeira de plástico branco. Deus amado, peço perdão por meus pensamentos quando vi aquele casal na esquina. O Senhor sabe das minhas fraquezas, me dê forças para lutar contra elas. Que o culto seja abençoado, que eu escute a Tua voz. Em nome de Jesus, amém. O pastor a observava do púlpito. Veio conversar.

“A paz, irmã Juliana. Como estão as coisas?”, e lhe estendeu a mão.

“Paz do Senhor, pastor. Tudo bem, graças a Deus.”

 

Não queria muito assunto.

“A irmã não está mais participando do grupo de teatro?”

“Preferi me afastar por um tempo, acho que estou precisando de mais intimidade com Deus. É uma responsabilidade muito grande fazer parte de um ministério, o senhor sabe.”

 

Ele sorriu. Fez gesto de quem perguntaria outra coisa, mas foi interrompido por duas crianças que entraram correndo.

O culto passou ligeiro, distraído com os hinos da Harpa Cristã – Mais Perto Quero Estar Meu Deus de Ti – e os gritos tremidos do pastor sobre aceitar as dificuldades do caminho. Cada um carrega a sua própria cruz.

Isso da cruz sempre a perturbava. Jesus não carregou e morreu nessa cruz?

Gostava mesmo do louvor. Olhava para Gorete, com seus braços no ar e a voz afinada, e se imaginava ali na frente, conduzindo as pessoas, sugerindo que levantassem as mãos, que repetissem coisas, que se mantivessem de olhos fechados. Gostava do saxofone que o pastor tocava e que quando entrava na música lhe dava vontade de chorar. Era lindo. Mas não tinha coragem de entrar no grupo. Alguma coisa estranha lhe arrebatava os sentidos quando estava na frente das pessoas e era o centro das atenções. Alguma coisa de nervosismo e de empolgação, uma coceira inquieta, um frio na barriga que descia e descia e estragava a concentração. Era melhor ficar quietinha em sua cadeira, como espectadora, como mais uma ovelha do rebanho. O Senhor é meu pastor, deitar-me faz em verdes pastos.

Foi com a cabeça perturbada até chegar em casa. Era pecadora, não sabia controlar seus impulsos. Estava sempre pecando e pedindo perdão, parecia até uma católica apostólica romana repetindo as mesmas rezas, com as exatas mesmas palavras. Jesus, me perdoe. Jesus, me ajude a controlar esses pensamentos. Jesus, o Senhor sabe onde eu vacilo.

 

Caiu no sono e então vieram as imagens. Um casal no canto da rua, a luz do poste piscando, uma poça d’água no chão e os sapatos fazendo barulho. O casal se assustava e olhava para ela, que levava as mãos até a boca quando via a moça com os peitos de fora e o rapaz com a mão por dentro da calça. O zíper estava aberto, ela podia ver o movimento ritmado. Gritava, mas não saía qualquer som de sua boca. O casal ria e a convidava. Ela se aproximava devagar. De repente ela era a moça com a blusa caída na altura do umbigo, as alcinhas penduradas. A barba arranhando o pescoço, os mamilos doendo de tanto serem chupados. E acordou.

Misericórdia, Jesus! De novo. Aconteceu de novo. Tinha que ser o Capeta colocando sonhos imundos em sua mente. Sonhos de sujeira, de pornografia, de imoralidades. Que castigo que era sonhar com isso, com essas mãos que se mexiam rápido e essas bocas que soltavam ã ã ã. Os corpos suados, se esfregando. Pulsando, tremendo. Como pulsava e tremia naquele instante, ali entre as pernas, entre as coxas que começavam a se apertar uma contra a outra. Isso era imundo, sujo como ela, sem vergonha. “Meu Deus” foi o que conseguiu articular com a língua seca. Sentiu uma contração forte que puxou várias outras mais rápidas. Um gemido escapou.

Levantou da cama como se o lençol estivesse em chamas. Correu para o banheiro e bateu a porta com força. Escutou a mãe reclamar do barulho e ligar o rádio. Jogou água no rosto, esfregou os olhos e ficou parada encarando o espelho. Tinha vergonha até de pensar. Limpar a casa podia ajudar, ocupar a cabeça com o movimento dos braços, o pano de chão, os restos de arroz pingados na pia. Mas a música, aquela música, a mãe botou música do mundo pra tocar. Já tinha cansado de pedir que ela não escutasse aquelas músicas mundanas quando estava presente. Não tinha mais paciência para ouvir a risada debochada e o “sou católica, posso ouvir o que eu quiser” que vinha em seguida.

Voltou para o quarto, pegou a Bíblia. Muito baixo, escutou o cantor de voz aguda falar sobre rosas que choravam. Começou a chorar. Soluçou nos primeiros minutos, depois passou a murmurar uma repetição de me perdoe, perdão, tenha misericórdia de mim. Quatro ou cinco horas de oração, ignorando a mãe que chamava, que falava dos pratos sujos e que aumentava o volume do rádio. Choram as rosas, seu perfume agora se transforma em lágrimas. Nada a tirou do transe, ela só se levantou para trocar de roupa na hora de ir para o culto. Não tomou banho, não queria tocar o próprio corpo.

 

Chegou cedo demais. Ficou plantada na entrada esperando o obreiro do portão, deu a paz e se ajoelhou até o início do culto. Não viu quem chegou primeiro e nem qual foi o versículo que abriu a noite. Quando sentou, o louvor já tinha começado. E tudo parecia ser falado para ela. Se você não aguenta mais as provações, se você se sente cansado, fraco, abatido. Se você se sente indigno do amor de Jesus. Levante suas mãos, feche os olhos, repita comigo. Ela acompanhava, soluçava, às vezes se sentindo o mais fedorento dos lixos, às vezes se sentindo grata porque Jesus a amava apesar de tudo. Obrigada, Jesus.

Ficou nesse jogo de cair e levantar o culto inteiro. Já ia embora quando o pastor a chamou e pediu que o acompanhasse até a sala de aconselhamento. Ela sentou com as pernas muito juntas e a Bíblia no colo. Cruzou as mãos. O pastor perguntou o que estava acontecendo, porque tinha reparado o abatimento dela, e o que poderia afligir uma moça que nunca faltava ao culto, que sempre ofertava, que pagava o dízimo.

“Não sei explicar.”

O pastor pediu que tentasse e garantiu que compreenderia, que não a julgaria. Estou aqui para ajudá-la, irmã.

Juliana disparou num choro mudo, os ombros pulando, a boca aberta, tentando puxar o ar.

“As tentações, pastor. As músicas do mundo, elas amaldiçoam a casa, o inimigo planta pensamentos imundos, o Diabo sapateia em mim.”

“Como assim, pensamentos imundos?”

“Tentações, pastor. Imundícies. Por favor, não me faça falar mais do que isso, o senhor tem que entender.”

E ele pareceu compreender, afinal. Não disse as repreensões que Juliana julgava merecer, apenas a convidou para orar. Pediu pela sua vida, por sua saúde e por seus pensamentos. Expulsou o inimigo da sua casa, da sua vida e das suas estruturas. Levantou sorrindo e estendendo a mão para ajudá-la a ficar de pé. Ela achou bonito, saiu se sentindo melhor e foi para casa.

Não teve sonhos ruins nem bons. Acordou com dor de cabeça. Ajudou a mãe em casa e assou bolinhos para vender no culto de oração. Quis tomar um banho demorado. Escutou as músicas da mãe competindo com o barulho da água caindo. Gosto das suas mãos atrevidas, desse seu olhar maldoso. Tentou ignorar as palavras cantadas, começou a pensar no que o pastor sabia. O que ele poderia ter interpretado? Será que achava que ela cedia às tentações? Que realmente chegava a concretizar o ato com alguém? Não poderia conviver com essa possibilidade, morreria de vergonha, nunca mais voltaria para aquela igreja.

Deixou a água escorrendo e encarou a parede. Quero sua cama passageira, a sua temperatura traz a loucura pro quarto, deixa a razão na rua. Será que o pastor a via como uma fornicadora? Será que o pastor imaginava a natureza do seu pecado? Ou como esse pecado acontecia? E se o pastor a imaginava nua? E se o pastor estivesse em seus sonhos, se fosse o rapaz contra quem se esfregava no canto da calçada? Era bonito, tinha o cabelo castanho, era até bastante jovem. Não, chega!

Enrolou-se na toalha e foi para o quarto se vestir. Separou a saia que descia até os joelhos e uma camisa branca de botões. Saiu com duas vasilhas cheias de bolinhos dentro de uma sacola, mas estava contaminada demais para ir ao culto de oração. Com que cara de pau oraria por outras pessoas, toda ajoelhada, espremendo os olhos? Se Deus, que é quem sabe de tudo, sabia muito bem dos seus sentimentos? Não queria orar, não queria pedir para que a doença da irmã Lúcia fosse curada. Nada contra a coitada.

Ficou observando as ruas e as pessoas que caminhavam ao seu lado e se achou infantil, enquanto imaginava como elas se sentiam, se imaginavam coisas impróprias, se tinham sonhos eróticos com desconhecidos, se gostavam de fantasiar com pastores, com padres, com todos. Isso era anormal? Não poderia ser tão incomum. Ainda mais se o Diabo está solto e aprontando. Se é o mundo que cria e que causa essas impurezas. Então por que se forçava a viver como se nada disso existisse? Talvez fosse como aquela coisa da cruz que ainda precisa ser carregada.

Pensou em conversar com o pastor sobre isso, mas e se fosse pior? Tinha medo de que não pudesse prestar atenção nas palavras que ele lhe falasse, seria capaz de sair da sala de aconselhamento sem lembrar da resposta, porque certamente só teria espaço para as fantasias que o incluíam. E outras mais, várias outras, que a arrebatavam e causavam um tesão absurdo. Meu Deus, eu pensei mesmo nessa palavra.

“Tesão”, repetiu.

Percebeu que já caminhava em círculos e desvios por bastante tempo e que o culto de oração já estava começando. Parou numa lanchonete, pediu uma coxinha e ficou fazendo hora, esperando o tempo passar. Na televisão, uma novela qualquer. Nunca assistia a novelas.

 

As dez da noite, decidiu voltar para casa. Passou pela rua da igreja, deserta, escura, com aquele poste do seu sonho. Foi caminhando e se lembrando do casal, dos peitos redondos, do rapaz, do quadril que ia pra frente e pra trás, e do orgasmo apertado entre as coxas. Quis, por uma só vez, saber qual era o sentimento da coisa real, fora da cabeça.

O cantinho estava vazio, não tinha ninguém se agarrando por lá. Colocou a sacola no chão e abriu alguns botões da blusa. Imaginou seus peitos para fora. Abriu todos os botões e puxou o sutiã para cima. Os peitos saíram por baixo, pesados. Ela sentiu o impulso de guardá-los novamente, mas não fez isso. Enfiou o braço por baixo da saia, levantando um pouco o tecido grosso, e puxou a calcinha branca. Tirou-a das canelas, deixou no chão e viu um homem de pé na esquina olhando para ela. Estava longe o suficiente para lhe passar alguma segurança, como se ela pudesse correr e deixar o estranho pra trás.

“Não aguento mais”, gemeu entre os dentes.

Subiu a saia e deixou à mostra os pelos escuros. Deixou que os dedos escorregassem e entrassem, primeiro devagar, depois mais rápido. Sempre forte. Sentiu o molhado deslizar pelas pernas enquanto o homem do poste assistia a tudo. Pode olhar, olha muito. Foi rápido, mas gozou. E, como se acordasse de um desmaio, se deu conta do que estava fazendo e sentiu urgência de sair dali. Puxou a saia para baixo, segurou os lados da blusa com a outra mão e agarrou a sacola. Correu para casa e só parou quando a chave rodou no trinco.

 

No culto do dia seguinte, estava com o semblante caído. Manteve-se imóvel por muito tempo, encarando diretamente as palavras que, no púlpito, apresentavam a Igreja Maná Que Vem dos Céus. Nunca mais participaria de nada, se limitaria a frequentar os cultos, entregar o dízimo e, no máximo, ajudar na limpeza dos fins de semana. Quem sabe assim limparia, ao longo de muitos meses, o próprio chiqueiro que carregava na alma. Não era digna sequer de descansar naquela cadeira, não merecia estar na presença do Senhor.

No fim, chorou um pouco. Levantou-se para ir embora e sentiu alguém segurar seu braço.

“Irmã Juliana, gostaria de lhe emprestar esse livro”, o pastor esticava o braço. A capa falava sobre o poder curativo da oração.

“Muito obrigada, pastor. Devolvo assim que terminar, provavelmente já na semana que vem.”

Sorriu sem graça e seguiu para a saída. Na escada, percebeu um volume entre as páginas do meio e abriu o livro.

Era a calcinha branca.

Jarid Arraes

É escritora, cordelista e poeta. Publicou Redemoinho em Dia Quente (Alfaguara), vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional e do Prêmio APCA de Literatura na categoria Contos.

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