Leia os velhos poetas, meu filho
Roberto Bolaño | Edição 178, Julho 2021
LA POESÍA LATINOAMERICANA
Algo horrible, caballeros. La vacuidad y el espanto.
Paisaje de hormigas
En el vacío. Pero en el fondo, útiles.
Leamos y contemplemos su diario discurrir:
Allí están los poetas de México y Argentina, de
Perú y Colombia, de Chile, Brasil
Y Bolivia
Empeñados en sus parcelas de poder,
En pie de guerra (permanentemente), dispuestos a defender
Sus castillos de la acometida de la Nada
O de los jóvenes. Dispuestos a pactar, a ignorar,
A ejercer la violencia (verbal), a hacer desaparecer
De las antologías a los elementos subversivos:
Algunos viejos cucú.
Una actividad que es el fiel reflejo de nuestro continente.
Pobres y débiles, son nuestros poetas
Quienes mejor escenifican esa contingencia.
Pobres y débiles, ni europeos
Ni norteamericanos,
Patéticamente orgullosos y patéticamente cultos
(Aunque más nos valdría aprender matemáticas o mecánica,
¡Más nos valdría arar y sembrar! ¡Más nos valdría
Hacer de putos y putas!),
Pavos rellenos de pedos dispuestos a hablar de la muerte
En cualquier universidad, en cualquier barra de bar.
Así somos, vanidosos y lamentables,
Como América Latina, estrictamente jerárquicos, todos
En la fila, todos con nuestras obras completas
Y un curso de inglés o francés,
Haciendo cola en las puertas
De lo Desconocido:
Un Premio o una patada
En nuestros culos de cemento.
Epílogo: Y uno y dos y tres, mi corazón al revés, y cuatro y cinco y seis, está
roto, ya lo veis, y siete y ocho y nueve, llueve, llueve, llueve…
A POESIA LATINO-AMERICANA
Uma coisa horrível, cavalheiros. A vacuidade e o espanto.
Paisagem de formigas
No vazio. Mas no fundo, úteis.
Vamos ler e contemplar sua reflexão diária:
Lá estão os poetas do México e da Argentina, do
Peru e da Colômbia, do Chile, do Brasil
E da Bolívia
Empenhados em suas áreas de poder,
Em pé de guerra (permanentemente), dispostos a defender
Seus castelos da investida do Nada
Ou dos jovens. Dispostos a pactuar, a ignorar,
A exercer a violência (verbal), a fazer desaparecer
Das antologias os elementos subversivos:
Alguns velhos caducos.
Uma atividade que é o reflexo fiel de nosso continente.
Pobres e fracos, nossos poetas são
Os que melhor encenam essa contingência.
Pobres e fracos, nem europeus
Nem norte-americanos,
Pateticamente orgulhosos e pateticamente cultos
(Embora valesse mais a pena aprender matemática ou mecânica,
Valesse mais a pena arar e semear! Valesse mais a pena
Dar uma de putos e de putas!),
Pavões recheados de peidos dispostos a falar da morte
Em qualquer universidade, em qualquer balcão de bar.
Somos assim, vaidosos e lamentáveis,
Como a América Latina, estritamente hierárquicos, todos
Na fila, todos com nossas obras completas
E um curso de inglês ou de francês,
Fazendo fila nas portas
Do Desconhecido:
Um Prêmio ou um pontapé
Em nossas bundas de cimento.
Epílogo: E um e dois e três, meu coração está triste, e quatro e cinco e seis,
pois se quebrou de vez, e sete e oito e nove, chove, chove, chove…

ERNESTO CARDENAL Y YO
Iba caminando, sudado y con el pelo pegado
en la cara
y entonces vi a Ernesto Cardenal que venía
en dirección contraria
y a modo de saludo le dije:
Padre, en el Reino de los Cielos
que es el comunismo
¿tienen un sitio los homosexuales?
Sí, dijo él.
¿Y los masturbadores impenitentes?
¿Los esclavos del sexo?
¿Los bromistas del sexo?
¿Los sadomasoquistas, las putas, los fanáticos
de los edemas,
los que ya no pueden más, los que de verdad
ya no pueden más?
Y Cardenal dijo sí.
Y yo levanté la vista
y las nubes parecían
sonrisas de gatos levemente rosadas
y los árboles que pespunteaban la colina
(la colina que hemos de subir)
agitaban las ramas.
Los árboles salvajes, como diciendo
algún día, más temprano que tarde, has de venir
a mis brazos gomosos, a mis brazos sarmentosos,
a mis brazos fríos. Una frialdad vegetal
que te erizará los pelos.
ERNESTO CARDENAL E EU
Eu estava caminhando, suado e com o cabelo grudado
na cara
e então vi Ernesto Cardenal vindo
na direção contrária
e à guisa de cumprimento eu lhe disse:
Padre, no Reino dos Céus
que é o comunismo
os homossexuais têm lugar?
Sim, disse ele.
E os masturbadores impenitentes?
Os escravos do sexo?
Os que troçam do sexo?
Os sadomasoquistas, as putas, os fanáticos
por edemas,
os que não aguentam mais, os que realmente
não aguentam mais?
E Cardenal disse que sim.
E eu levantei a vista
e as nuvens pareciam
sorrisos de gatos levemente rosados
e as árvores que pespontavam a colina
(a colina que iremos subir)
agitavam os galhos.
As árvores selvagens, como que dizendo
algum dia, mais cedo do que tarde, você há de vir
a meus braços pegajosos, a meus braços sarmentosos,
a meus braços frios. Uma frieza vegetal
que irá deixá-lo de cabelo em pé.
NIÑOS DE DICKENS
Admiras al poeta de nervios duros ¿De acuerdo?
De acuerdo De la misma manera que admiras
al obrero de horario salvaje y a los comerciantes
que se acuestan de madrugada contando el oro
y a las muchachas de 25 años que follan durante toda
la noche y al día siguiente dan tres o cuatro exámenes
en la universidad
Es difícil entender lo anterior Intento decir
animales salvajes rondando por las paredes de mi casa
Búhos y niños de Dickens Lagartos y hermafroditas
pintados por Moreau Los soles de mis dos habitaciones
El rumor de pasos que puede solidificarse en cualquier momento
como una escultura de yeso sucio Los ojos
borrados del santo que cabalga al encuentro
del Dragón
CRIANÇAS DE DICKENS
Você admira o poeta de nervos de aço Certo?
Certo Da mesma forma que admira
o operário de horário selvagem e os comerciantes
que se deitam de madrugada contando o ouro
e as moças de 25 anos que transam a noite
toda e no dia seguinte fazem três ou quatro provas
na universidade
É difícil entender o precedente Tento dizer
animais selvagens rondando pelas paredes de minha casa
Corujas e crianças de Dickens Lagartos e hermafroditas
pintados por Moreau Os sóis de meus dois quartos
O barulho de passos que pode se consolidar a qualquer momento
como uma escultura de gesso sujo Os olhos
apagados do santo que cavalga ao encontro
do Dragão

DOS POEMAS PARA LAUTARO BOLAÑO
LEE A LOS VIEJOS POETAS
Lee a los viejos poetas, hijo mío
y no te arrepentirás
Entre las telarañas y las maderas podridas
de barcos varados en el Purgatorio
allí están ellos
¡cantando!
¡ridículos y heroicos!
Los viejos poetas
Palpitantes en sus ofrendas
Nómades abiertos en canal y ofrecidos
a la Nada
(pero ellos no viven en la Nada
sino en los Sueños)
Lee a los viejos poetas
y cuida sus libros
Es uno de los pocos consejos
que te puede dar tu padre
BIBLIOTECA
Libros que compro
Entre las extrañas lluvias
Y el calor
De 1992
Y que ya he leído
O que nunca leeré
Libros para que lea mi hijo
La biblioteca de Lautaro
Que deberá resistir
Otras lluvias
Y otros calores infernales
–Así pues, la consigna es ésta:
Resistid queridos libritos
Atravesad los días como caballeros medievales
Y cuidad de mi hijo
En los años venideros
DOIS POEMAS PARA LAUTARO BOLAÑO
LEIA OS VELHOS POETAS
Leia os velhos poetas, meu filho
e não se arrependerá
Entre as teias de aranha e as madeiras podres
de barcos encalhados no Purgatório
lá estão eles
cantando!
ridículos e heroicos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nômades abertos de cima a baixo e oferecidos
ao Nada
(mas eles não vivem no Nada,
e sim nos Sonhos)
Leia os velhos poetas
e cuide de seus livros
É um dos poucos conselhos
que seu pai pode lhe dar
BIBLIOTECA
Livros que compro
Entre as chuvas estranhas
E o calor
De 1992
E que já li
Ou que nunca lerei
Livros para meu filho ler
A biblioteca de Lautaro
Que deverá suportar
Outras chuvas
E outros calores infernais
– Dessa forma, a ordem é esta:
Resistam, queridos livrinhos
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem de meu filho
Nos anos vindouros
Os poemas acima fazem parte do livro A Universidade Desconhecida, traduzido por Josely Vianna Baptista, lançado neste mês pela Companhia das Letras.
