Jornalismo bem feito custa caro
| Edição 191, Agosto 2022
A FARRA DO SUS
As reportagens da piauí_190, julho, oferecem ao leitor um puro suco do que se tornou o Brasil: a despudorada festa do Centrão com o dinheiro público, a despeito do sucateamento do SUS, com a bênção do Ministério da Saúde e do governo federal (Farra ilimitada); o acossamento às instituições democráticas por parte da extrema direita, inflada por Jair Bolsonaro e com o apoio dos generais (Trincando os dentes); a destruição ambiental promovida pelo agronegócio, com o incentivo do próprio presidente e a anuência dos órgãos de fiscalização (A lavagem da boiada). Corrupção, aspirações golpistas, devastação do meio ambiente: o bolsonarismo escancarado em três de suas mais representativas facetas. Parabéns aos repórteres Breno Pires, Marina Dias e Allan de Abreu pelo ótimo serviço jornalístico.
CLEBER GORDIANO DOS SANTOS_CAMPINA GRANDE/PB
Depois de ler a reportagem Farra ilimitada (piauí_190, julho), já podemos cravar sem nenhuma sombra de dúvida: estamos diante do governo mais corrupto da história. O Ministério da Saúde se transformou no escoadouro de milhões em verbas que são distribuídas aos parças dos componentes do Centrão, assim de roldão, sem nenhum critério, principalmente para cidades minúsculas do Maranhão, onde a grana é desviada e não é utilizada na área da saúde. E desviada pra onde? É preciso que o índice de indignação do povo brasileiro suba tanto ou mais que a inflação nos números de procedimentos proporcionados por essas prefeituras. É hora de tomarmos as ruas pra dizer em alto e bom som: Não estamos inertes esperando o fim.
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
Admirável o levantamento feito pelo repórter Breno Pires a respeito dos recursos do SUS distribuídos fartamente pelos grotões maranhenses, cidades com menos de 20 mil habitantes, sem que seus moradores fossem contemplados com um melhor atendimento, como ficou constatado nas diversas entrevistas com moradores ao longo da reportagem. Trabalho de fôlego, quase uma auditoria com a menção do valor das verbas entregues às prefeituras totalmente desconectadas das necessidades reais daqueles municípios, o que demonstra a existência de desvios criminosos dos recursos da saúde para os políticos corruptos que dominam essa região. A piauí, ao publicá-lo na edição de julho, sob o título mais do que apropriado, Farra ilimitada, mais uma vez comprova a importância do jornalismo investigativo, divulgando para o grande público as práticas lesivas praticadas pelos políticos que envergonham os legislativos municipais, estaduais e federais.
Os auditores do SUS têm o mapa da mina para apurar tão escandalosas irregularidades, caso realmente tenham o poder de punir tais descalabros.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
A reportagem Farra ilimitada deveria ser lida por todos os brasileiros, devido à sua importância e contribuição social. Parabéns à revista, por fazer um jornalismo independente, tão necessário ao Brasil atual.
ERIVAN SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA
PASSA BOI, PASSA BOIADA
A reportagem A lavagem da boiada (piauí_190, julho) mostra uma triste realidade da nossa pecuária, e o inferno do efeito colateral do desmatamento sem fim. As áreas de grilagens são um empecilho na pecuária dessas regiões.
CÉLIO BORBA_CURITIBA/PR
JORNALISMO CARO
É inegável a qualidade da piauí. Jornalismo investigativo, ficção, literatura, imagens. Nesse quesito, aliás, na seção Cartas de julho, uma leitora pediu uma edição em áudio. Ganharia em sonoridade, mas como ficariam as imagens, por exemplo, na excelente reportagem sobre o Carnaval off Broadway na periferia do Rio de Janeiro?
Leio a revista mesmo e dou sempre umas passadas pelo site. Mas está ficando cada vez mais difícil adquiri-la nas bancas: 32 reais (waal!). Não pensam numa edição mais econômica, não necessariamente em papel pólen? Só não vale diminuir a quantidade e a qualidade dos textos. Nem fazer como o Estadão, que diminuiu o papel no formato berliner, mas aumentou o preço de capa.
Mas sou tão fã da piauí que estou sempre disposto a tê-la. Na citada edição de julho fui primeiramente ao texto sobre a educação escrito por Antônio Gois (O longo atraso), mas confesso que pulei para os textos do nosso descalabro desgovernamental (Jair pelado e Trincando os dentes). Deixei tudo para depois. Isso tem que ser lido com calma.
Porém, não pude deixar de me emocionar com o texto de Djuena Tikuna na Despedida (Nha’ã i na i necü i torü ni’ĩ). Um frio na espinha. Uma vontade de chorar, como diz na capa. Texto comovente de um Brasil pouco notado pelos urbanoides. É um Brasil que grita para uma realidade que não se apaga. Também as imagens [de Vincent Rosenblatt] e o texto da Erika Palomino sobre os blocos de bate-bolas no Rio (Catarse lisérgica). Genial. Precisamos mesmo conhecer mais o Brasil.
GERALDO MAIA_BELO HORIZONTE/MG
NOTA AGRADECIDA E CHEIA DE CITAÇÕES NÃO CHECADAS DA REDAÇÃO: Obrigado por não nos abandonar, Geraldo. Lá pelos idos da década de 1930, alguém lá na Alemanha soltou a seguinte frase: “Quando ouço falar em cultura, saco o meu revólver” (talvez tenha sido Goebbels, talvez não, vamos deixar o abacaxi pra turma da checagem).* Décadas depois, Godard parafraseou (se é que foi Godard mesmo…):** “Quando ouço falar em cultura, saco o meu talão de cheques.” Infelizmente, cabe feito uma luva para o jornalismo. Fazer direito é caro. Se tem uma coisa que caracteriza a piauí é o fato de que aqui repórter não apura (só) por telefone. Pega avião, fica em hotel, aluga carro, toma a estrada, vai pro estrangeiro – às vezes, por semanas. Entendemos o elemento waal! (Paulo Francis, essa a gente acha que acertou) e não estamos tentando aplicar um analgésico na ferida, apenas explicá-la. Uma boa solução é assinar a revista. Em termos de responsabilidade fiscal, o desconto que damos é quase tão tresloucado quanto os efeitos macroeconômicos da pec Kamikaze.
*NOTA 1 DA TURMA DE CHECAGEM: Não foi Goebbels. A frase aparece numa peça do dramaturgo Hanns Johst, simpatizante do regime nazista.
**NOTA 2 DA TURMA DE CHECAGEM: Sim, foi Godard, no filme O Desprezo. Assistam, é bom.
GOLPE EM DISTOPIA
Resolvida a questão da inexistente ofensa e sabendo que todas as cartas são lidas, sigo na missão de missivista (Cartas, piauí_190, julho). Faço isso no dia de mais um dos pronunciamentos governamentais reafirmando que não aceitará os resultados das urnas, caso perca as eleições, dessa vez com embaixadores. O golpe está em curso, soprado nas ruas em 2013, efetivado em 2016, consolidado em 2018 e escancarado desde então, com ápice, ao que vemos, neste 2022. Marina Dias, em Trincando os dentes (piauí_190, julho), explicita os meandros dos ataques ao TSE, mas a corte poderia ter enfrentado os disparos em massa de mensagens falsas pelo WhatsApp e congêneres nas eleições de 2018, denunciadas aos borbotões e acomodadas na cegueira típica do órgão superior. “Era tarde demais para o TSE mudar sua abordagem” é uma conclusão da reportagem ou frase pronunciada pelo Tribunal? É a questão central entre os dois turnos da eleição de 2018. A excelente reportagem explica por que o despresidente e sua corja são contrários à ciência, pois, primeiramente, estipulam as conclusões – fraude nas urnas eletrônicas – e, depois, forjam evidências. E quem diria que o homem de Michel Temer no STF, Alexandre de Moraes, se transformaria num dos guardiões do legítimo processo eleitoral? A esclarecer, apenas, que livre-docência é título, não cargo. Assim, o magistrado é livre-docente pela USP, não da USP. Uma frase preocupante na matéria é a de um dos servidores ao questionar o que se pode fazer em estado de emergência, referindo-se a ataques ao processo eleitoral, sendo que foi exatamente isso que a Emenda Constitucional nº 123 decretou para este ano. Com a anuência das Forças Armadas, parece que nunca esteve tão ativo o desejo indômito dela em chegar ao poder, tantas vezes levado a êxito, relembrando os desejos e ufanismos de Artur Jaceguai e seu Reminiscências da Guerra do Paraguai. Por fim, parece que estamos vivendo mais uma distopia daquelas relatadas por Ignácio de Loyola Brandão em Uma fina esteira de gosma, na mesma edição, não sabendo ao certo o que seu leitor lê, como revelou em recente evento literário, e se a urna eletrônica se transformará em urna funerária.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA A TÍTULO DE SONDAGEM DA REDAÇÃO: Correção precisa, perfeita – pela USP, não da USP. Como punição, o pessoal da revisão terá que ler toda a obra de Artur Jaceguai. Enquanto fazem isso, perguntamos: Adilson, você consideraria pegar uns bicos de revisão aqui na revista?
SEM-ESCOLA
Excelente a matéria O longo atraso (piauí_190, julho). Dá um panorama bem abrangente da educação e mostra que através dos anos, mesmo aos trancos e barrancos, ela vem cumprindo muito bem sua função segregacionista. Hoje, com meus nove anos em sala de aula, vejo que a educação tem dois problemas empatados em primeiro lugar e que não são falados.
Um é o fato de os alunos detestarem a escola. Podemos comprovar colocando a cabeça numa sala de aula e avisando que deu um defeito na bomba e não haverá aula; é uma festa. Os professores também detestam a escola, pois dando o mesmo aviso na sala dos professores, a festa ainda é maior.
O outro problema vê-se examinando os diários de aula. A carga horária está toda cumprida, os tópicos todos ministrados, as notas fartas de 8 para cima. Mas nas provas de avaliação externas o desempenho é fraquíssimo, notas em torno de 2. Ao trazer esse fato, a explicação é que o professor precisa dar nota e passar os alunos, porque “o sistema” obriga. Ao transferir uma prática tão nociva para uma entidade etérea, salvam-se todos, menos os alunos.
O conhecimento, apesar de ser intangível, é o mais sólido insumo do progresso, por isso numa sociedade que não abre mão da sua condição de escravagista o ensino é tratado assim.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
RELIGIÃO
Ganhei de presente uma assinatura da piauí. a-do-rei!!! Sinal de que tenho “um parafuso a mais”, como vocês dizem. A reportagem A nova batalha de Xangô (piauí_190, julho), excelente por sinal, demonstra muito bem o que é o deplorável preconceito contra as religiões de origem africana. O que não foi citado é o horário em que as manifestações são realizadas. Algumas somente nas sextas-feiras, outras nas quartas e sextas. Os rituais vão madrugada adentro e nos momentos mais sagrados, os gritos e tambores são tão altos que se ouve bem distante. São muitas reclamações, principalmente de quem precisa se levantar cedo. Nenhuma outra religião realiza seus rituais com esse tipo de barulho e até tão tarde. Isso aumenta ainda mais o preconceito.
MARILIA MILANI_CURITIBA/PR
O TERRORISTA
O governo dos Estados Unidos vive acusando todo mundo de terrorista. Só que o maior terrorista que já atuou dentro dos Estados Unidos esteve sentado na cadeira presidencial do Salão Oval da Casa Branca, como ficou provado agora, pelo inquérito sobre a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Donald Trump é o inimigo número 1 da democracia e dos Estados Unidos.
PAULO SERGIO CANFIELD ARISI_PORTO ALEGRE/RS
