CRÉDITO: CARLA CAFFÉ_2023
De uma a outra ilha
E não parece estranho que o próprio mar não enlouqueça?
Ana Martins Marques | Edição 200, Maio 2023
Seus poemas nos chegaram
em pedaços
quebrados como vasos de cerâmica
ou conchas espatifadas na praia
palavras como ilhas
cercadas de silêncio
por todos os lados
*
Palavras
em frangalhos
como se também a língua
tivesse passado
pelo domínio de Eros
que dilacera
– o quebra-
-membros
– e da fala
estilhaçada
restasse
um arquipélago
desejo
perfumes
] tuas roupas
com certeza um sinal
*
Nascida em Lesbos
é possível que Safo
tenha sido obrigada
a se exilar na Sicília
com sua família
por volta de 590 a.C.
provavelmente por razões políticas
a décima musa
segundo Platão
de uma a outra ilha
cercada de água e luz
como uma cabeça
por uma grinalda
Quando a fronteira é o mar
movente
verde violento
subindo e descendo
com a maré
quando uma árvore não pode crescer
sobre a fronteira
quando não só a nuvem não só o pássaro
também o peixe pode atravessá-la
e uma jovem com os cabelos
flutuantes
num colete salva-vidas
que não atendia
às normas de fabricação
*
Em 2015
cerca de 800 mil refugiados
em sua maioria sírios e iraquianos
transitaram por Lesbos
com a esperança de chegar aos países
da Europa setentrional
As praias de Molinos, Etfalou
e Skala Sikamia
ficaram cobertas
de coletes salva-vidas
*
O mar não escolhe entre a nau
e o naufrágio
como para a primavera é indiferente
o mel ou a abelha
*
Milhares de imigrantes dormiram ao relento
na ilha grega de Lesbos
depois que um incêndio arrasou
seu acampamento
deixando-os sem ter para onde ir.
Segundo o governo grego, o incêndio
foi causado pelos próprios imigrantes
em protesto contra a quarentena imposta
para impedir a transmissão do coronavírus.
Autoridades da Grécia transferiram
mais de 400 crianças e adolescentes
desacompanhados
para o território continental
em três voos fretados.
Uma menina congolesa de 8 anos
chamada Valencia, que estava descalça,
gesticulou para um repórter da Reuters
para demonstrar que estava com fome
e pediu um biscoito.
Nossa casa pegou fogo,
meus sapatos pegaram fogo
não temos comida nem água.
Existem muitos modos de guardar
escrever embalsamar gravar
mas também: esquecer abandonar
estilhaçar
*
Uma coisa é incendiar-se o coração
outra coisa, incendiarem-se os sapatos.
*
quase tudo perderam
mas não a memória do tempo
em que algo ainda tinham
e a carregam consigo
como um segundo coração
enraizados na errância
e com quase só as vagas
por valises
*
Escrita no papiro
que é planta
ou na cerâmica
que é terra
copiada por um colegial distraído
ou citada por um gramático
como um exemplo do uso
de advérbios negativos
a mesma palavra muda
quando muda
seu modo de chegar?
*
[ ] será preciso então
quebrar-se
para que se produza
uma mínima canção
queimar por um só poema
incompleto e imprestável
sua pequena chama
Às vezes parece possível
colocar sobre uma mesma mesa
uma lira e um colete salva-vidas
uma concha e um isqueiro
um poema e um passaporte
uma guirlanda de flores
uma pedra vulcânica
dinheiro, celular, cigarros
mas não é bem assim
o passado
não é uma mesa
é antes um sótão
um armário
com gavetas
incrustadas
em você, no mundo
encravadas na carne
nos livros nos dias
já estava assim
quando cheguei
o mundo
mobiliado
*
[ ] e não parece estranho
que o próprio mar
não enlouqueça?
ao contrário resta quieto
como um hospital
mais antigo que os papiros
que as árvores calcinadas
pintado de azul nos mapas
como os mantos
das estátuas
*
Aconteceu de as coisas se destruírem
mas que algo delas não se destruísse.
Aconteceu de os lugares se espatifarem contra o tempo
mas que algo deles perseverasse no tempo.
Aconteceu de algo acontecer
deixando um rastro do acontecido.
Aconteceu com uma pegada de animal,
com o resto de um rosto num pano esgarçado,
com pentes, panelas, uma unha de urso.
Aconteceu com o que mais se amou e com o que menos se amou
e com o mais útil e com o mais inútil
e com uma árvore e com um camundongo e com um coral
e com uma pedra e com um pneu e com um poema.
Poemas extraídos da plaquete De Uma a Outra Ilha, a ser lançada em junho na coleção Círculo de Poemas, publicada pelas editoras Luna Parque e Fósforo.
