CRÉDITO: JOÃO PINHEIRO_2023
O rebento do ódio
Não conhecia o perdão e tampouco apreciava os mandamentos do livro sagrado
Wesley Barbosa | Edição 202, Julho 2023
Desde a morte de sua mãe, a vida de Juliano havia se tornado um inferno, embora quase sempre tivesse sido assim. Ainda com a idade de 14 anos, não lhe faltou oportunidade para conhecer o interior dos botecos, onde via os homens beberem e se divertirem em meio às mulheres, despejando fumaça de cigarro no ar, assim como não lhe faltou oportunidade para ficar em torno da mesa de sinuca e entre viciados em jogos de cartas que se esbaldavam no vai e vem das garrafas de cerveja.
Era tido pelos mais velhos como o filho do Zé, o rebento do bêbado que morava logo ali na viela. Era a cara do pai, tomara que não desse para beber que nem ele. Juliano ouvia as coisas mais terríveis sobre seu velho. Quando se deparava com Zé chegando tarde da noite, cheirando a álcool e cigarro, mandando sua mãe preparar a comida, desprezava-o em segredo.
Dona Bárbara, a mãe, olhava em volta com aquele olhar: olhar de fome e decepção.
Ela falava:
– Comida já não tem faz tempo, Zé.
– E pra onde é que vai todo arroz e feijão? – disse o homem, certa noite.
– Se você não vivesse dentro do boteco – argumentou a mulher, com medo –, gastando dinheiro com aquele bando de chupim, não estaria me perguntando isso.
– É assim que você fala? – gritou Zé cheio de raiva. – É assim que você fala comigo, sua desgraçada?
– Vai me bater de novo, é isso?
– Eu te mato, mulher! – disse ele, com o demônio da bebida em seus pensamentos.
Juliano era filho único e, vendo o pai agir daquele jeito, às vezes preferia nem ter nascido. Sentia crescer por dentro algo que não podia explicar. Simplesmente não conseguia olhar para o pai sem que certo desconforto ou descontentamento se abatesse sobre seu espírito.
Uma vez em que Zé pediu para o filho ir ao bar do Tonho comprar um maço de cigarros, Juliano ficou parado, encarando-o com o seu olhar de revolta, parecido com uma âncora afundada no mar do rancor. Já não podiam tirá-la dali. De tanto ter presenciado o pai batendo na mãe, chegando em casa enfurnado no vendaval da embriaguez, o menino tomou coragem e disse, com ar decidido:
– Não vou!
– Como é que é, moleque?
– Vá o senhor! – provocou Juliano, se afastando.
– Agora você vai se ver comigo, filho do demônio!
Naquele dia, uma das poucas vezes em que Zé deu dinheiro para Bárbara comprar coisas na feira, e ela gastou toda a manhã escolhendo bons tomates e boas frutas. Quando retornava de lá, viu Juliano correndo daquele jeito, descalço e medroso, porque o pai vinha atrás, segurando firme um pedaço de madeira.
A mãe imediatamente largou as sacolas no chão.
– O que é que tá acontecendo aqui, Zé?
– Esse moleque vai aprender o que é bom pra tosse!
– Calma, Zé!
– Sai da frente!
Lembrando-se de que o Zé ficava irritado quando estava sem fumar, Bárbara logo sacou o maço de cigarros que tinha comprado:
– Olha, comprei o teu cigarro. Achei que você fosse querer.
O homem parou em frente da mulher, desarmado como uma criança que de repente ganha um doce da mãe. A essa altura, Juliano havia desaparecido nas ruas da favela.
Zé, quando não estava no bar, era o mau humor em pessoa; Bárbara, no entanto, conhecia muitas formas de domá-lo. Ela o levou para dentro do quartinho improvisado e ali se envolveu no corpo dele, como os dois faziam antigamente, quando ainda nem haviam tido o Juliano.
Nessas ocasiões, ela começava dizendo ao marido:
– Tô com saudade, Zé.
Ele, então, olhava para as pernas, para a bunda, para os peitos, para o corpo de Bárbara. Gostava de vê-la com os cabelos penteados. Batom na boca. Safada, chamando-o para a cama.
Talvez aquele peste do Juliano tivesse feito bem ao tirá-lo do sério e ido para a rua. “Que fique vadiando até escurecer!”, pensou Zé, enquanto penetrava Bárbara com violência.
– Cachorra! – dizia ele.
– Safado!
– Senta no meu pau, que eu gosto!
Em cima de Zé, a mulher já não se lembrava da vida e de suas agruras. E se, naquele momento, alguém encostasse os ouvidos no tapume da casa, poderia ouvi-la gemendo de excitação, como quem estivesse louca para sair do abismo e conhecer o paraíso.
Certa hora da noite, Bárbara disse:
– Já era pro Juliano ter voltado. O bairro tá cheio de traficante e eu tô ficando preocupada com ele.
– Aquele moleque! – falou o homem, com certo desprezo. – Me desobedeceu como se eu fosse um nada.
– Ele é teu filho também, Zé!
O homem olhou para os lados, fazendo-se de desentendido. No dia seguinte, iria trabalhar de pedreiro em uma obra e não queria saber de aturar criança malcriada. Suas mãos cheias de calos, o esforço de carregar bloco nas costas, erguer paredes e tudo o mais deveria ser o suficiente para o filho ter respeito por ele, argumentava Zé de modo carrancudo.
– Vou atrás do Juliano – disse Bárbara, vestindo-se e pensando na bandidagem que andava recrutando meninos da idade do seu filho para trabalhar de olheiro para o tráfico.
– Deixa o moleque na rua – falou Zé, ainda excitado. – Quando ele voltar vou dar uma surra nele.
– Nem tudo se resolve na base da cinta, Zé – falou Bárbara, como que se incluindo nessa situação. – O menino tem só 14 anos, ele se espelha em você.
Naquele momento, Bárbara se levantou da cama e, quando foi em direção à porta, viu o filho sentado na soleira, com a camiseta cheia de sangue e o rosto inchado.
Correu até Juliano e perguntou:
– O que aconteceu, meu filho?
O menino ficou em silêncio, mal conseguindo falar. A mãe não fazia ideia do quanto de ódio ele nutria pelo pai. Talvez seja melhor mesmo, pensava Juliano, ela não saber de nada daquilo ou, como faz a maioria das famílias, fingirem que tudo andava bem.
– Está fazendo o que aí sozinho, Juliano? – perguntou a mulher, um tanto envergonhada.
Balançando a cabeça, o menino continuou calado, como se tivesse desaprendido a falar. Levantou-se do chão igual a alguém que realmente tivesse tomado uma bela de uma surra e tentasse não demonstrar fraqueza.
Zé surgiu imenso no pequeno barraco, fitando o filho do alto de sua brutalidade primitiva.
O homem disse:
– Andou brigando na rua, moleque?
– Deixa o menino, Zé – falou Bárbara, temendo o pior. – Não tá vendo que ele tá todo machucado?
– Apanhou na rua – secundou o homem. – Vai apanhar em casa de novo!
– Ah, mas não vai mesmo.
– Sai da frente, Bárbara. – gritou Zé. – Vou ensinar esse demônio a virar homem.
– Não, Zé, por favor, ele é nosso filho!
– Desse jeito, fraco que nem uma mulherzinha?
Bárbara ficou onde estava, e o menino, em pé como um galho ao vento, só queria se deitar em sua cama cheia de molambo e descansar um pouco. Foi quando o pai partiu em sua direção, ainda se lembrando da desobediência de Juliano. Deu-lhe um soco na cara, fazendo-o cair no chão, igual a um objeto inanimado.
Bárbara gritou:
– Pelo amor de Deus, Zé!
– Agora ele vai aprender a não apanhar mais na rua.
– Você matou o nosso filho!
Por esse e por outros motivos, Juliano, que não morreu naquela ocasião e agora devia ter seus 18 anos, parecendo um homem feito, não tinha boas lembranças de seu velho. Ele sabia: Zé era motivo de piada nos bares e becos da favela, tido como alguém sem nenhum valor e de quem todos gostavam de debochar e falar mal.
As pessoas costumavam dizer, sorrindo:
– Cadê o Zé, aquele bêbado, menino?
Sobre o pai, Juliano preferia ficar calado, daquele jeito, como se de repente não soubesse mais se expressar com palavras, embora por dentro tivesse um mundo inteiro de sensações. Ele não havia aprendido a gostar do velho.
Juliano costumava beber no bar do Tonho, que de vez em quando olhava para ele com desconfiança, perguntando se tinha dinheiro para pagar aquele monte de cerveja. O rapaz não se irritava, mas não gostava de ter que dar satisfações, caso estivesse com alguma moça ao seu lado.
Tonho dizia:
– Tô só perguntando, porque o Zé…
– Porra, Tonho! – gritou Juliano certa noite. – Eu não sou meu pai. Aqui o seu dinheiro…
– Desculpa, rapaz – disse o dono do bar. – É que não dá pra viver de fiado, e o teu pai…
– Quanto é que ele tá te devendo?
– 150 conto.
– Pode cobrar daqui.
Juliano havia conseguido um emprego informal e alugado um quarto no bairro. Sempre pedia para a mãe largar o Zé, ao vê-la com os olhos roxos, e ir morar com ele.
– Vou pra casa – ele falou subitamente, virando o copo de cerveja.
– Mas já, Juliano? – disse a moça ao seu lado. – A noite só tá começando, meu bem.
– Bebi demais hoje.
– Você não é de dizer isso. O que é que tá acontecendo?
O silêncio no quarto de Juliano era feito de muitas preocupações e madrugadas de insônia. Às vezes, era como se ele estivesse fora da realidade. Naquele dia em que sua mãe o encontrara na soleira da porta, ele estava todo sujo de sangue porque brigara com os moleques que tinham insultado seu pai. E agora ele próprio se dirigia àqueles botecos sujos de onde muitas vezes teve que arrastar o Zé, cheio de urina nas calças, até o barraco em que moravam.
Juliano se lembrou de uma conversa que teve com sua mãe, ao tentar convencê-la a sair de casa.
– Seu pai, Juliano! – ela disse.
– O que é que tem aquele desgraçado?
– Ele está deitado na rua.
– Que fique por lá!
– Não fale assim, meu filho – suplicou a mulher. – Seu pai tá doente.
– Que ele morra e vá pro quinto dos infernos!
– Juliano, você não pode falar assim do seu pai.
– A senhora ainda defende aquele homem?
Olhando a mãe no rosto, Juliano percebeu que, por causa das olheiras de noites e noites sem pregar os olhos, por causa da fome, por causa dos maus-tratos da parte de Zé e de tantas coisas mais, ela tinha envelhecido pelo menos vinte anos. Preocupava-se ao vê-la daquele jeito, acabada e sem força, sem poder defender a si mesma do marido.
“Talvez eu não devesse dar tanta importância pra isso. Se ela não quer vir morar comigo, que fique com ele!”, ele dizia a si mesmo. E depois pensava, com angústia: “Ela já tá ficando velha; se eu não fizer nada, o pior pode acontecer…”
De fato, o pior aconteceu: um dia, a vizinha de seus pais chegou à sua casa trazendo a notícia:
– Juliano! – a mulher gritou.
– Já vou! – disse ele, despertando de uma noite tumultuada de pesadelos.
– Acorda logo, Juliano!
– Já vou, porra!
Ele abriu a porta e se deparou com Celestina, que o viu crescer apanhando de Zé. Ela era amiga de sua mãe havia tempos, mas jamais teve coragem de entrar no meio da briga de Zé e Bárbara. Ameaçou uma vez chamar a polícia, mas desistiu. Sabia que os traficantes da favela podiam querer tirar satisfações.
Concisa, igual a um tiro à queima-roupa, disse:
– Seu pai matou a sua mãe, Juliano.
As palavras de Celestina vibraram no ar por um momento, feito uma onda sonora que fosse penetrando por todos os poros de Juliano – até ressoarem em seus ouvidos e o trazerem de volta para a realidade.
Ele então sentiu como se alguém tivesse lhe dado um soco na cara. Celestina estava em prantos, os olhos em pânico. Nas ruas a notícia se espalhou igual a rastilho de pólvora. As pessoas diziam:
– Aquele homem era um bêbado psicopata.
– Parece que foi dez facadas, enquanto a mulher tava dormindo.
– O que eu fiquei sabendo é que ele deu vinte facadas e depois saiu pra beber no bar do Tonho, como se nada tivesse acontecido.
Nos dias seguintes, Juliano permaneceu em seu mundo interior, sem querer saber do falatório que ainda circulava. Não podia esquecer o semblante de sua mãe morta, deitada no caixão pobre que, com muito custo, ele conseguiu pagar, pedindo dinheiro emprestado para uns e outros.
Algumas pessoas falaram:
– Fica em paz menino e vá enterrar a sua mãe.
Ao vê-la no caixão, o corpo de quem havia sofrido muito nessa vida, Juliano teve a sensação de que seu pai tinha mostrado a ele o outro lado do espelho.
Embriagado de ódio e rancor, Juliano já não conhecia o perdão. Tampouco fazia mais sentido para ele o mandamento do livro sagrado: “Não matarás!”. Estava cheio de ira e, se encontrasse o pai naquele momento, o esganaria com as próprias mãos.
– Seu pai é um monstro – ele podia ler nos olhos das pessoas. – O assassino de sua mãe!
Depois do velório e das perguntas dos curiosos, Juliano se trancou em seu barraco imundo e se pôs a chorar a morte da mãe.
No bairro não se soube do paradeiro de Zé, tampouco as pessoas arriscavam dizer à polícia onde o filho do assassino morava. Isso os moradores do bairro respeitavam: não dar informações para homem de farda, ainda que fosse para prender um pilantra. A melhor coisa era se limitarem a dizer que não sabiam de nada.
Durante um mês inteiro, podia-se ver o carro da polícia rondando por aquelas quebradas, perguntando pelo filho da morta, até que Juliano apareceu no bar do Tonho, dizendo aos policiais que não queria saber daquela história, que precisava esquecer tudo de uma vez por todas.
– Mas você não quer testemunhar contra o seu pai? – perguntou o policial em tom amistoso.
Juliano balançou a cabeça, dizendo não, e falou que ainda estava muito abalado. Tonho colocou uma garrafa de cerveja em cima do balcão, fazendo menção de que era por conta da casa. O rapaz rejeitou, e pediu ao policial:
– Esquece.
Depois disso, o barraco de Bárbara e Zé foi invadido por viciados em drogas. Da janela, Celestina ficava observando a rua, na esperança de um dia ver Juliano e lhe dar o abraço do conforto que ele rejeitara.
A verdade é que o rapaz não demorou a ser procurado pelos traficantes da área, que o parabenizaram pela atitude que teve com a polícia. Juliano ficou meio desconfiado de ver aqueles sujeitos de olhos estranhos, portando armas na cintura, falando com ele como se fossem bons camaradas.
Um deles, que a bandidagem chamava de Faísca, disse:
– Fez bem, irmãozinho, em não ter estendido a conversa com a polícia.
– É desse jeito que se ganha respeito na quebrada – falou um cara conhecido por Bolão. – Nós tudo tá sabendo o que o teu pai fez com a tua mãe.
– Tamo aqui pra te ajudar, irmãozinho – disse Faísca, com simpatia na voz. – Vamos apagar o teu pai, irmãozinho. Pode contar com a nossa ajuda.
Juliano, que nunca havia se aproximado de traficantes, permaneceu em silêncio, a fim de não dizer bobagem. Vendo-o meio encabulado com a presença deles, Bolão pediu que os outros saíssem de dentro do quarto pequenino em que Juliano continuava morando para que ficassem apenas ele, Faísca e o rapaz.
– É o seguinte, irmãozinho – começou a falar Bolão. – Nós tá aqui porque a gente tá ligado que você corre pelo certo, tá entendendo, sangue bom?
– Tô, sim – disse Juliano.
– Então é isso mesmo!
– Quer apagar o seu coroa, ou não quer? – perguntou Faísca. – Se você quer apagar o seu coroa, nós tamo com ele ali fora.
– Cadê aquele desgraçado? – falou Juliano.
Bolão declarou:
– Teu pai tá com a gente e vai ser tratado que nem estuprador, irmão. Pode ter certeza que vamos subir o velho sem dó nem piedade, mas, por via das dúvidas, toma aqui um brinquedo: é melhor você dar o primeiro tiro.
Deram um .38 para Juliano, que sentiu o gelo da morte se apoderar de sua alma, pois nunca antes tocara em um revólver em sua vida. Vendo-os ir em direção à porta, não soube o que fazer, nem como agradecer por terem lhe dado aquela oportunidade sinistra. Juliano apenas suspirou de alívio por um momento, pois sabia que os traficantes não deixariam Zé sair dali ileso. Depois, apertou o gatilho do revólver e estourou os próprios miolos.
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