CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023
O frisson de baderna
A redescoberta da bailarina eternizada no dicionário
Plínio Lopes | Edição 203, Agosto 2023
Uma provocação de seu marido, que andava pesquisando a própria história familiar, incentivou a dona de casa Marilia Giannini Rydlewski a traçar sua árvore genealógica. Paulo Roberto Rydlewski havia dito que ela dificilmente encontraria entre seus antepassados alguém interessante. Marilia aceitou o desafio e em 2006, aos 64 anos, iniciou uma pesquisa cujo ponto de partida foi seu trisavô paterno, Gioacchino Giannini. Logo descobriu que ele foi maestro em vários teatros no Rio de Janeiro e professor de Carlos Gomes. “Tenho um trisavô italiano que se naturalizou brasileiro. Mas quem é a minha trisavó?”, se perguntou Marilia, que vive em Curitiba.
Apesar de não ter experiência com a internet, ela aprendeu a usar o site da Hemeroteca Digital, mantido pela Biblioteca Nacional, para acessar jornais antigos. Neles, notou que um nome sempre acompanhava as menções a Giannini: o da bailarina Marietta Baderna. “Onde ele ia tocar, ela também estava”, conta. “Eu falei: ‘Tem uma coisa dentro de mim que diz que ela é a minha trisavó.’”
Marilia encontrou o obituário de Baderna, que morreu em 1892, aos 64 anos, com o convite para o enterro assinado por seu bisavô, Antônio Baderna Giannini, que foi leiloeiro no Rio. (Nas gerações posteriores, o sobrenome da bailarina deixou de ser usado pela família: o avô de Marilia chamava-se Alvaro dos Santos Giannini, e o pai, Octávio Gomes Giannini.) O desafio lançado pelo marido – que depois se uniu à esposa nas pesquisas – havia levado Marilia a bem mais longe do que ela imaginava. Sua trisavó foi uma das estrelas da vida artística brasileira no século XIX– a ponto de os dicionários imortalizarem seu sobrenome.
Franca Anna Maria Mattea Baderna nasceu em 1828 na comuna de Castel San Giovanni. Desde cedo, demonstrou inclinação para a dança. Sempre incentivada pelo pai, ela estreou aos 12 anos no Teatro Giuseppe Verdi, em sua terra natal, e acumulou apresentações nos palcos principais de Parma, Trieste e Bolonha. No Teatro alla Scala, em Milão, tornou-se prima ballerina assoluta – maior título concedido a uma bailarina. Em temporada na Inglaterra, foi prestigiada pela rainha Vitória.
Em 1848, ela e o pai aderiram à revolução contra a dominação austríaca sobre alguns estados italianos (a unificação da Itália só ocorreu em 1871). Mas os revolucionários foram derrotados, e Marietta Baderna – como ficou conhecida – deixou a Europa. Chegou ao Rio de Janeiro em agosto de 1849, com outros 54 artistas italianos exilados. A trupe fora contratada para apresentações no Theatro São Pedro de Alcântara (hoje Teatro João Caetano).
Sua estreia no Brasil, no fim de setembro, com O Lago das Fadas foi aclamada pela imprensa. Nos anos seguintes, recebeu elogios de Machado de Assis, Gonçalves Dias e José de Alencar. Sem nunca parar de dançar, uniu-se ao maestro Giannini, com quem teve três filhos. Os dois só se casariam depois do nascimento do segundo filho. “É uma mulher que foge dos padrões da época e está à frente do seu tempo. Vive com seu companheiro sem se casar, e seu salário é o maior entre todos os artistas”, diz a atriz e escritora Paula Giannini, filha de Marilia e autora do livro Baderna: O Memoricídio no Dicionário, lançado neste ano. A bailarina não se prendia ao balé clássico e dançava até nas ruas da cidade. “Os teatros lotavam de fãs com título de nobreza, porém ela insistia em ser popular. Isso chocava a sociedade da época”, acrescenta Giannini, que se interessou em escrever o livro depois das descobertas da mãe.
Baderna apoiou o movimento abolicionista e incorporou em suas apresentações, ritmos afro-brasileiros, como o lundu e a umbigada. Escravistas e conservadores não gostaram, mas ela conquistou uma legião de seguidores fiéis – chamados de “badernistas” ou “baderneiros” –, que nos teatros batiam os pés no chão para prestigiar a bailarina. Uma das acepções de “baderna” registrada pelo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa é, justamente, “grupo de rapazes alegres, barulhentos”.
Também o Houaiss afirma que a palavra “baderna” se origina do sobrenome de uma “bailarina que viveu no Rio em 1849, provocando certa agitação pública”. A etimologia da palavra é atestada pelo linguista Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná, e pelo etimólogo Bruno Maroneze, da Universidade Federal da Grande Dourados. Baderna ainda era viva quando seu nome apareceu pela primeira vez em um dicionário, em 1889.
A conversão do nome de Marietta Baderna em sinônimo de confusão deixou Otto Lara Resende intrigado. “Que diabo terá feito essa moça para que seu nome percorresse tão tortuoso caminho semântico?”, perguntava o escritor e jornalista em uma crônica de 1987, em O Globo.
As pesquisas de Marilia, que ocupam dezenas de cadernos feitos à mão, ajudaram quinze familiares a obter cidadania italiana. Ela mesma não se interessou pelo passaporte. Sua preocupação agora é com a memória de Baderna.
Aos 80 anos, Marilia se irrita com as histórias falsas que contam sobre sua trisavó, uma bailarina de espírito inquieto. “Fico louca quando falam que ela morreu em 1870, tuberculosa e viciada em absinto”, reclama. Baderna morreu 22 anos mais tarde, de câncer. Outra lenda diz que foi amante de um bailarino francês chamado Jean Tupinet. “Te juro, esse Tupinet nunca existiu. Não tem nada sobre ele nem no Brasil nem na França.”
Marilia também quer fazer com que Baderna não seja associada somente a confusão, embora não se incomode com o sentido que a palavra adquiriu no léxico. “São poucas as famílias que têm o sobrenome nos dicionários”, diz, orgulhosa da consagração obtida por sua trisavó na língua portuguesa.
