CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023
A grife do verme
Um pichador conquista bairros ricos de Salvador
Lara Machado | Edição 204, Setembro 2023
Com o skate debaixo do braço, a mochila nas costas e o spray de tinta em punho, LVC Vandalismo, de 38 anos, sai pelas ruas, na madrugada, decidido a marcar mais um muro de Salvador com a figura que o tornou famoso na cidade. Ele desenha uma boca escancarada, cheia de dentes e, depois, traça uma série de semicírculos para compor o corpo de um anelídeo. LVC nunca batizou a criatura que começou a traçar em 2012, mas ela ficou conhecida como Verme. “É uma boca que quer sair comendo tudo, engolindo todos os espaços”, diz o pichador.
Ele usa diferentes técnicas e materiais para fazer suas pichações: caneta, spray, pincel e até tinta colocada em extintor de incêndio. Já pintou o Verme inclusive no asfalto das ruas, em grandes dimensões – um monstro que deseja engolir os carros. Embora aceite trabalhos de design por encomenda, LVC Vandalismo também gosta de “fazer uns bagulhos sem permissão mesmo”, o que explica seu pseudônimo e o pedido que fez à piauí para que seu verdadeiro nome não fosse revelado. “Aí acaba sendo vandalismo”, admite. “Eu não me coloco como grafiteiro, não. Sempre me coloco como pichador.”
O grafite conquistou respeitabilidade social. Eduardo Kobra e Os Gêmeos, entre outros artistas brasileiros, pintam murais monumentais em cidades do mundo todo. A pichação, ao contrário, ainda é reputada como um parente pobre e marginal do grafite. Apesar disso, LVC converteu sua criatura em uma marca valorizada em Salvador. Pelo Instagram, ele vende camisetas, calças e acessórios estampados com o Verme. No Rio Vermelho, bairro de classe alta frequentado pela boemia jovem e habitat do bicho, são inúmeras as pichações de LVC. Só no sobrado na orla que abriga seu ateliê – sim, o pichador tem um ateliê –, há mais de vinte.
Em 2015, LVC conquistou os holofotes da arte, quando suas pichações foram expostas na Galeria Luiz Fernando Landeiro, no Rio Vermelho. No ano seguinte, veio a consagração, com o convite para a mostra coletiva Só Cabeças, no Museu de Arte Moderna da Bahia. Além de conquistar a cena alternativa de Salvador, o pichador tenta se firmar no circuito artístico do Nordeste, expondo em salões de arte. “Tem que ocupar todos os espaços”, diz.
LVC nasceu em uma família de classe média e estudou em colégios particulares até o ensino médio, quando migrou para a educação pública. Começou a pichar aos 12 anos. Em 2005, criou sua marca de camisetas estampadas, que eram vendidas no estúdio de tatuagem onde trabalhava. Antes do Verme, as vendas não eram suficientes para cobrir os gastos. Agora, o pichador conquistou com sua marca uma autonomia financeira rara para artistas de rua e estuda a possibilidade de ter uma loja ou um site próprio de vendas. Nos momentos de sufoco financeiro promove leilões de quadros e de roupas e acessórios personalizados. Além de atender clientes na Bahia, também recebe pedidos de camisetas e acessórios de Aracaju, Belo Horizonte e São Paulo.
Antes do minhocão com dentes traçado por LVC Vandalismo, a história da pichação soteropolitana já registrava a participação de outros vermes. Os pioneiros dessa arte de guerrilha na capital baiana pertenciam a um grupo punk chamado Vermes do Sistema, que surgiu em 1979 e tinha em torno de sessenta integrantes.
Em 1995, houve uma explosão de grupos – ou gangues, como também são chamados – de pichadores em Salvador. O grafite ganhou ainda mais força no fim daquela década. Desde então, há certa rivalidade entre grafiteiros e pichadores, embora algumas pessoas pratiquem os dois gêneros.
Marcelo Verme – sim, há um terceiro verme na história – começou a pichar muros em 1994 e hoje é grafiteiro e motorista de ônibus em Salvador. Ele lembra que o movimento grafiteiro começou no Colégio Central da Bahia. “A galera encarou aquilo como a revolução da pichação. Passou a ver o grafite como uma forma evoluída”, conta. Os grafiteiros julgavam-se superiores, mas o pichador, diz Marcelo Verme, “conquistou o seu espaço” e mostrou que “um tinha que respeitar o outro”.
No livro Ruas Salvador: Liberdade Clandestina, o grafiteiro e pesquisador Eder Muniz considera que a pichação é o fundamento do grafite, e diz que sempre houve trocas entre os dois gêneros. A pichação, porém, ainda é vista com preconceito: “A maioria das pessoas na cidade não reconhece essa arte por achá-la suja e incompreensível.”
Mesmo a relativa aceitação que a pichação vem conquistando recentemente está limitada por questões de raça e classe. Muniz lembra que os artistas que conseguem mais projeção, como LVC Vandalismo, são brancos. “A cidade é o playground deles”, diz. “O pichador negro precisa pegar ônibus para pichar nos locais de maior visibilidade e está sujeito à violência.” Muniz lamenta que Salvador não consagre outros artistas de trajetória tão forte quanto a de LVC: “O privilégio de viver da arte acaba ficando com essa galera branca.”
Em uma entrevista de 2019 ao arquiteto Ygor de Andrade Araújo, o próprio LVC reconheceu que sua pele clara lhe dava certas vantagens. “Eu sou branco, e isso facilita e me retira de algumas abordagens”, disse. “Agora, quando se é mulher, ou se o cara é negro, isso fica mais complicado.”
Além de ser branco, LVC também é suspeito de ter um estilo apaulistado. Os conhecedores da arte pichadora identificam alguns traços específicos no modo como ela é praticada na Bahia, como a letra mais horizontalizada, conhecida como traçado ou cobrinha. LVC está aberto a influências externas e pratica uma pichação mais geométrica, verticalizada e condensada, como a de São Paulo. “Eu bebo um pouco de tudo”, afirma. “Não fiz nada com inspiração direta paulistana, mas não sou bairrista.”
Exposto em espaços tradicionais e estampado em camisetas, o Verme de LVC Vandalismo já é quase uma grife. Para outros pichadores, porém, galerias de arte e desfiles jamais serão capazes de diluir a força provocativa da arte de rua. “Ninguém, nem se tentar, vai conseguir tirar da pichação a característica de protesto”, diz Marcelo Verme.
