CRÉDITO: EDSON IKÊ_2024
Vínculo
Minha vontade era colocar as duas bruxas frente a frente para testar quem podia mais
Quito Ribeiro | Edição Vínculo,
Segunda é dia de branco. Me levantei da cama antes do Sol sair. E para mim, que me vestia de branco de segunda a domingo, a expressão que sinalizava algo com significado oculto finalmente se autoexplicou. Até então, a disciplina não me escapava. Minha atitude como intensivista estava à altura do que a profissão exigia. Muitos pacientes me consideravam um anjo. Costumava ganhar presentes em agradecimento, mas vivia aquela rotina com distanciamento apropriado para não me consumir extremamente, nem pelo calor humano dos sobreviventes, nem pela falta de calor dos mortos que passaram pelos meus cuidados. Os últimos dias, no entanto, tinham alterado essa fleuma, esse passeio pelo mundo. Naquela segunda-feira tive que abrir uma exceção e deixar de lado a rotina de trabalhador a serviço.
Dois dias antes, quando cheguei para o plantão de sábado, a senhora já estava com um quadro preocupante. Era consenso que não devia durar muito. Mas isso não era comigo. Meu trabalho era fazer com que ela melhorasse enquanto ainda fosse possível. Entrei na UTI como sempre – passos suaves para demonstrar respeito e carinho por alguém exposto pela doença à sua própria fragilidade. E com uma vitalidade que incentivasse a disposição dos pacientes para lutar com força pela sua melhora. A saúde começa pela cabeça. Dei boa tarde. Ela só começou a me olhar quando eu já estava verificando o prontuário. Ingrid Maria dos Santos. 79 anos. A doença começou pelo fígado, mas já estava afetando a circulação, comprometendo os rins etc. A lista de complicações era grande. Prescreveram diálise como última tentativa. Ela seguiu olhando para mim com uma cara doce, que entretanto não chegava a ser débil – o olhar tinha força, pedia cumplicidade. Eu já era escolado naquela súplica vinda do paciente junto com sua gratidão e aquiesci ao seu gesto de pegar em minha mão. Comecei a falar do tratamento, contando um pouco do progresso do dia, falando das possibilidades de uma maneira realista. Sabia que assim eu reativava as esperanças de qualquer paciente, que se apegava àquelas indicações de uma possível melhora mesmo que isso fosse pouco provável fora do mundo das palavras de médico. Perguntei se as enfermeiras a estavam tratando bem. Ela deixou de alisar o dorso de minha mão e passou a olhar para a palma. Ficamos assim um minuto, talvez mais. Ela soltou a mão e pegou a outra. E repetiu o mesmo ritual. Eu disfarçava a posição incômoda revisando um pouco mais o prontuário que trouxera comigo e olhando as bombas que controlavam a velocidade de infusão das medicações prescritas. Percebi que aquele olhar cúmplice da senhora foi ficando mais intensamente assim a cada vez que ela me olhava depois de olhar minha palma. Ficou claro que estava procurando através dos meus olhos algo que tinha encontrado na palma. E aquela perscrutação eu conhecia. Para mim tinha o nome de anamnese. Eu estava sob sua consulta. Essa percepção me veio quando nossos olhares focaram tanto um no outro que ficamos constrangidos pela situação e soltamos as mãos discretamente. Logo o desconforto se desfez em mim. Interpretei que ela praticava à sua maneira a transferência muito normal entre médico e paciente. Ela se aquietou um pouco, cansada daquele seu esforço e quando pensei que ia dormir e já tinha lhe dado as costas me preparando para sair, Ingrid começou a falar com uma voz mais firme do que antes. Como alguém que assume a personagem a que está acostumada ao longo da vida e não se assusta com a necessidade de algum improviso, ela disse: O senhor dá para ver que faz o que gosta, nasceu para isso. Está na sua mão. Tudinho aí nela. Era para ser seu destino sem dúvida. Já eu, o passo mais próximo na minha estrada é esse mesmo. O senhor sabe. Leu aí nessa ficha. Vou morrer daqui a um pouco. E sigo com o destino de sempre: ler as mãos dos outros. Sou cigana. Nascida numa fazenda em Belmonte, mas criada aqui mesmo em Feira de Santana. O senhor é da região também? A fala da senhora mudou o clima. Me senti imediatamente fazendo parte de uma possível malandragem. Ajeitei meu corpo para prestar mais atenção abandonando minha posição superior. Calma, ela seguiu: Quantas vezes já falei isso e vi esse misto de susto e repulsa que a palavra cigano inspira? Não tem jeito, temos que aceitar a infâmia. Eu sou de briga, não gosto de desaforo, mas quem tem fama de andar por aí como um errante parece ser mais perigosa do que quem vive todos os seus anos no conforto de sua casa com tevê no quarto. Mas, procure saber, não somos assim tão nefastos. Agora que estou aqui nesse quarto de hospital fico com cara de velha frágil e mesmo sendo cigana o senhor não vai tentar fugir de mim. Até porque não pode. Ossos de seu ofício. O senhor está com meu destino nas suas mãos. É o que eu li aí na sua palma direita. O que quer dizer que o senhor é canhoto. Não pense que isso já é adivinhação de bruxa. Não precisei recorrer às linhas para descobrir. Quando a gente trabalha lendo as mãos, tudo que diz respeito a elas fica muito grande, vem para nós já com uma lupa. A direita foi a primeira que o senhor me estendeu quando lhe pedi, o que significa que o doutor é canhoto. Porque precisou da outra para ajeitar essas coisas aí que estava lendo sobre mim. Reflexo natural. Eu mesma prefiro ler primeiro a mão esquerda de homem. O senhor me deu a direita então comecei pelo seu futuro para depois ler o resto.
A essa altura, minha pretensão de passar para o próximo paciente depois de dizer umas poucas palavras sobre a programação de dona Ingrid para o dia seguinte tinha sumido. Ela prosseguiu: O doutor era quem eu sabia que estava para aparecer. Então isso confirma que já está chegando minha hora. A gente tem certa dificuldade em ler o nosso próprio destino sem querer que só coisas boas aconteçam. Mas eu, desse jeito que estou, nessa idade que já tenho, me livrei desses otimismos excessivos. Porém, preciso lhe dizer que o senhor tem o poder de me salvar, doutor Lucio. Achou que eu não ia saber seu nome? Sei mais coisas, posso ir lhe contando tudo já, já, mas antes queria dizer que se o senhor me salvar, vai comprar um problema com meu destino e com o seu. O senhor, me salvando, corre o risco grande de trocar de lugar comigo. A partir do momento em que ela falou meu nome tendo adivinhado sei lá como, não consegui mais resistir aos olhos e palavras da senhora, que passaram a fazer parte de um ritual de hipnose. Pelo menos foi o que eu quis achar depois que ela acabou de falar e consegui me desvencilhar do transe em que me envolvera. Antes que eu saísse do transe e da UTI, ela me pediu para pensar em tudo com carinho e presteza porque seu tempo corria. E, junto com o tempo dela, o meu iria também.
Depois de passar por todas as outras visitas do dia, cada uma com sua dramaticidade, praticamente esqueci de dona Ingrid. Fui para casa disposto a dormir para acordar cedo e aproveitar meu domingo. Era um domingo para relaxar e aquele seria de ficar em casa. Botei um som na sala e liguei a tevê para fazer ginástica. Tinha acordado cedo. E logo me veio um interesse na minha própria saúde. Não é todo dia que se acorda querendo saber de si mesmo de uma maneira muito clara a ponto de se perguntar: Como estou? Já na bicicleta ergométrica – meu único luxo –, a imagem e a história da velha voltaram e dominaram tudo. Voltei ao estado de hipnose, exatamente como havia acontecido na UTI na véspera. Depois de expor o meu futuro próximo com sua visão lúgubre, ela falara sobre o que via na outra mão. E as revelações iam se encaixando como se ela tivesse presenciado os momentos decisivos de minha vida e transformado a história comum de um sujeito que quer vencer na vida num filme de aventura. Depois de constatar que eu escolhera bem a vocação e trilhara bem a estrada do progresso, investigou a vida de adulto do doutor Lucio. Tudo começara com o plano de ter uma casa. Essa ambição básica que é ao mesmo tempo um passo inicial e final na trajetória de um ambicioso. Depois de garantida a casa – um sonho distante de um iniciante na vida adulta –, pode-se sonhar mais alto. A conquista serve de gatilho para se proteger dos excessos exteriores. E assim vai-se investindo tempo nos projetos e tirando tempo das bobagens que não fazem parte dele. Até que se descobre que o projeto não era isso tudo… Pelo menos assim se pode caminhar dentro da própria bolha em direção às metas pessoais. No caminho evidentemente aparecem adversários e adversidades. Inimigos e derrotas.
A minha linha da vida foi sendo descrita com minúcia por dona Ingrid e revivi várias dessas batalhas para me estabelecer. Estava desenhado em minha palma que tudo correria bem, conforme meus desejos. Mas o obstáculo maior ia aparecer. E o obstáculo seria ela própria. A cigana. Ela voltou ao trecho da outra mão que mostrava aquilo. E mostrou na mão dela um monte que se formava entre o dedo anular e o dedo médio quando fazia uma concha e que, segundo ela, previa a minha chegada. Pediu para eu fazer a mesma concha com minha mão e o que aparecia era uma continuação do que se via na dela. Talvez toda mão fosse parecida, foi o que pensei logo antes de ela me advertir que essa reflexão era uma tolice. A mulher era uma bruxa que adivinhava meus pensamentos. Estava com minha mente em suas mãos desde que botou a leitura de minhas mãos em sua própria mente. Insistiu que seu destino estava traçado. Ela devia morrer em breve. Isso não era difícil de qualquer um supor. Mas no meio do caminho apareceria o anjo que podia reverter o curso de seu destino iminente. É assim que a vida da gente vai caminhando, ela disse. Sem essas proteções não duramos nada, meu anjo. Ela falou de um jeito que me fazia sentir a leveza da palavra anjo como nunca sentira antes. Eu não era nada religioso. Fui católico até a primeira comunhão porque minha mãe exigiu, e a partir daí só sobrou um sinal da cruz ou um pai-nosso rezado ocasionalmente sem muito fervor. Ingrid me perguntou por que eu não tinha nome de anjo. Disse que nome era coisa importante, então não deveria ser um Lucio a chegar para ampará-la, mas que era eu o anjo, disso ela não tinha dúvida. São detalhes que podem estremecer uma vidente menos experiente – ela disse –, mas eu sei que o destino está sempre abrindo pequenos caminhos, basta olhar a mão em detalhe que a gente vê as ramificações. É como uma folha. Mas no final o que está sendo dito não é discrepante. São só maneiras diferentes de contar o mesmo caso. Tem quem goste de ficar dourando a pílula e tem quem prefira ser sucinta. Eu sempre usei dos dois meios, a depender do freguês. Afinal de contas isso aqui é um modo de vida, meu filho. Eu preciso agradar, entreter os clientes. Só que, no nosso caso, isso já não é mais necessário. Estamos os dois aqui num instante em que nossas linhas se cruzam de um jeito avassalador. É quase como um caso de amor ou até mais do que isso. E me declaro para você doutor Lucio, sem medir as palavras. Já eu, o doutor Lucio, poderia me agarrar a essa falha no enredo que Ingrid me contava, afinal de contas como ela mesmo disse o nome de alguém não é pouca coisa e deve ser marcante no destino. Deixei-a sem saber a solução da dúvida que percebi que lhe acabrunhava apesar de sua negativa. Seu titubeio podia ser minha tábua de salvação. E eu não podia entregar minhas defesas para aquela inimiga fragilizada que estava deitada diante de mim. Ainda tonto, tomado pela conversa, antes do trabalho me fazer esquecer temporariamente as predições de dona Ingrid, lembrei da história de família que contava que minha avó queria que eu me chamasse Gabriel ou Miguel. Dois anjos dos mais renomados e cultuados pela mãe de minha mãe. Mas acabei me chamando Lucio. O nome de meu pai. E no que deveria ser meu domingo de descanso, pensando de novo nesse detalhe enquanto pedalava, me lembrei de minha tia que me ensinou o catecismo, me preparando para a comunhão. Vi nela o resgate possível daquele mau agouro em que estava metido.
Quando decidi contar a Ingrid sobre o nome que não recebi, já era o dia do nosso segundo encontro. E já tinha visitado minha tia Valdelice. Mesmo deixando aparecer um sorriso por ter amarrado essa ponta solta de sua história, Ingrid lamentou ter me colocado naquela situação. A vida dela dependia de mim. A minha vida dependia dela. Da morte dela. Mas eu era médico. Tinha meu juramento e não podia simplesmente deixá-la morrer. Ela me garantia que a decisão tinha de vir logo. A janela era curta. Eu não precisava fazer muito. Só deixá-la morrer. Mas, sendo médico, cientista, eu acreditava nos remédios e nos caminhos da ciência. Não nesses atalhos propostos por toda sorte de oráculo que pretende desvendar os segredos do mundo e da vida no lugar da ciência. Minha vocação para a medicina era total. Assim como minha devoção. Era ela o atalho de minha vida. O atalho para a trajetória bem-sucedida que trilhei. Sem pisar em ninguém, mas também sem olhar muito para o lado. E o dilema daquele domingo sem descanso fora exatamente este. Privilegiar o primeiro aspecto e não pisar na velha. Ou aceitar meu egoísmo e não olhar para o lado dela.
Foi tentando fugir do par ou ímpar, ou do cara ou coroa que pesquisei alguma fé no espírito, algo que decidisse a partida. Nada me ocorria até que a história do meu nome veio ajudar. Dali veio a lembrança de minha tia. A irmã de minha mãe que diziam que largou tudo e vivia há anos afastada de todos para cuidar de um terreiro. Eu não dava nenhuma atenção ao assunto e cresci longe da polêmica. Mas, naquela situação extrema, decidi que viria dela o desempate. Ela era vista na família com maus olhos por ter aderido à feitiçaria. Diziam que minha tia era espírita, umbandista. Ficaria sabendo, quando nos encontramos, que nem o nome da religião dela nossos parentes respeitavam. Mas ela não se queixava. Tinha sido o seu caminho. Eu entrara em contato no próprio domingo e, depois de uma breve explicação que tia Valdelice acolheu sem muita surpresa, ela me chamou para ir no dia seguinte ao subúrbio onde morava e de onde eu imaginava que ia sair com minha resposta. Fui de táxi para não me perder, pois não costumava andar para aqueles lados da cidade. Ela mesma providenciou a pessoa para me conduzir. Seu Zé, embora fosse jovem, era um velho conhecido dela e foi muito simpático tanto na ida quanto na volta. Me pareceu que ele, além de entendido no assunto, sabia do meu caso porque o que ia contando sobre minha tia já foi esclarecedor. A razão me avisava que podia ser apenas eu sugestionado pela crise. Valdelice não tardou. Disse que concordava com o diagnóstico que a cigana lera nas minhas mãos e me advertiu que, na sinuca em que me encontrava, a coisa mais importante e da qual eu precisava me proteger não era da morte e sim da morta. Me advertiu que se a cigana morresse injustamente – o que queria dizer que se deixasse ela morrer (eu tinha sido sincero com minha tia e dito que pensava nisso) –, se por acaso acontecesse assim, eu não podia dar de barato que o espírito da cigana não viria me acossar e provocar grandes problemas. Minha tia me indicou uma série de trabalhos espirituais que precisaria fazer para que isso não ocorresse. A coisa não ia ser simples e voltei para casa mais endividado ainda. Uma dívida moral, é claro. Parecia que em vez de sair do problema arranjara mais um. Tinha ficado indeciso. Ela percebeu. Na hora, minha tia Valdelice pediu apenas o nome completo de minha paciente e saiu com ele anotado num papel para depois de bastante tempo voltar com uma vela de sete dias para eu acender em casa e uma espécie de patuá com uma costura bonita de um busto apontando uma espada para o chão, que ela me entregou e disse para eu guardar próximo de mim.
Minha vontade era voltar à cigana e contar a conversa com tia Valdelice. Botar as duas bruxas frente a frente para testar quem podia mais. Mas me faltou coragem e sobrou prudência no meu reencontro com Ingrid. Mesmo diante do maior dos riscos, a ponderação ainda vive. Ninguém arrisca tudo ainda que esteja à beira da morte. A crença na sorte é a mesma crença na vida, afinal. Por isso contei a Ingrid apenas a história do nome que não tive, sem mencionar a parte de minha tia. Naquele mesmo dia, o quadro de Ingrid piorou. Tudo indicava que ela não tinha salvação, mas eu consegui reverter. Fiz o que meu coração de médico me mandou na hora. Apenas isso. Fiz a única coisa que tinha certeza de que sabia fazer bem na minha vida. Tudo que parecia racional e estudado veio como um instinto mais do que como um dever. Era como se eu estivesse derrotando a morte e derrotando ao mesmo tempo qualquer mal que tivesse passado por meu coração. Ingrid sobreviveu àquele dia e no dia seguinte acordou com uma melhora inacreditável no seu quadro geral. Passadas 48 horas já se estava considerando tirá-la da UTI. Eu, quase instantaneamente, fiquei gripado. Senti a doença chegando. As minhas defesas cedendo, me sentindo fadigado. Pedi uma licença do hospital. Não queria mais me encontrar com Ingrid. De casa, vivia os dias à espera de que tipo de morte me acometeria. Não tinha mais dúvida de que ia acontecer e o próprio pensamento me fazia definhar mais. Estava em frangalhos.
Na segunda-feira seguinte, meu estado só tinha piorado. Recebi um telefonema do hospital que não atendi. Veio então uma mensagem avisando da morte de Ingrid. Senti um calafrio no corpo inteiro. Quase desmaiei. Talvez tenha desmaiado. Achei que estava começando a morrer e ao mesmo tempo tive a esperança de que as linhas tortas de algum destino estavam se impondo. O telefone voltou a tocar. Resolvi atender. A enfermeira me disse que Ingrid morreu sorrindo e que deixou com a família um aviso de agradecimento para mim pela boa passagem que eu lhe providenciara. Não deixei que a moça lesse o bilhete. Não queria mais pensar na voz de Ingrid dizendo nada. Enquanto a enfermeira relatava, parecendo querer confortar um parente e não comunicar um médico da morte de um paciente, uma notificação de tia Valdelice apareceu na tela do celular. Me livrei da ligação, apressado para ver o que ela queria. A mensagem era uma imagem de São Miguel Arcanjo semelhante à que estava costurada no patuá. Logo abaixo, mais dois recados de minha tia. Em um ela perguntava: Quem é como Deus? No outro dizia: Sangue é sangue, apareça.
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