CRÉDITO: REBERSON ALEXANDRE_2024
Sem aviso, desaba a noite sobre a aurora. Talvez o amanhã seja agora
Salgado Maranhão | Edição 212, Maio 2024
DIÁRIO DE BORDO 3
Agora,
é crescer com o crepúsculo;
com a flor fora do talo.
Crescer com os estilhaços,
agora, que traficam túmulos
sobre as asas.
Estamos todos bêbados
de esquecimento – ante
a partilha de Deus; ante
os corpos que fabricamos
para mutilar.
(Crivados de palavras pávidas,
ouço o bater de pregos
em alguma cruz vigente…)
Adeus Édens transgênicos!
Adeus piratas ungidos!
Sem aviso,
desaba a noite sobre a aurora.
Talvez o amanhã seja agora.
DIÁRIO DE BORDO 6
Já era tarde quando a noite sulfúrica
trouxe a luz. Só aí veríamos os morcegos
a venderem-se de anjos. Os morcegos
e sua sede vermelha. O que fazer com o amor
que nos confronta aos altares, às alcovas
e aos que morrem sem respostas?
Cada dia, recolho-me a esse acorde
que a aurora deixa ao coração. E escuto
o crepitar do fogo quebrando em meu caule.
Serei eu o que por ele se desnuda
ou esta cinza soterrada pelas asas?
Serei eu esse umbral na oração da espada?
Não há repouso à paixão sonegada. Nem
ao rumor de suas travessias. Servirei somente
a este tráfego inquilino entre os vocábulos
e o areal. Para que seu astro alcance o meu
deserto.
DIÁRIO DE BORDO 7
Vem dessa falta de húmus
que te agrega ao espinho
com perfumes. Nada madruga
em tua fé. Nem os galos sob
o sol; nem a solidão do inseto.
No entanto, respiro através de ti
(no sacrifício sem cura) quando
apalpo-te a nudez ancestral.
Aqui estão as barcaças
que desenhei sobre a água;
aqui estão as muralhas
rendidas aos teus pés.
Tudo porque tens no lábio
esses frutos da infância; essa
moldura de pássaros no coração.
– Canto-te onde a pedra pérola!
Há que se blindar as estações
em que o amor almoça
com as víboras.
BORDER
Acordo com a poesia a morder-me
as rimas; a soletrar-me
a língua ao rés de precipícios
e mentiras súplices.
Acordo para recolher
as sementes que não nasceram.
Eu, este broto de eclipse;
eu, esta elipse de espelhos.
Levanta-te centelha de áfricas
e sertões desamados!
Segue o canhão a rosnar
sobre a cruz. E o amanhã
com seus dentes de urânio.
Levanta-te animal das estepes,
bicho feito de errâncias!
Segue o sol caro ao sonho
e a paixão sem isenção
de impostos.
E és o fósforo
que queima sem escuridão;
o devir que piora
para melhor.
Tudo que tenho (e me arvora)
são trapos de Ulisses; as palavras
e seu galope sísmico.
Sou herdeiro de um hoje
que me outrora.
