CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
De Krishna e Byron
O tradutor André Vallias prepara mosaico da obra do poeta inglês
Carlos Adriano | Edição 217, Outubro 2024
Em 2018, o compositor e regente italiano Aldo Brizzi procurou o poeta, tradutor e designer gráfico paulista André Vallias com um convite inédito. Chamou-o para colaborar na versão em português do libreto de sua ópera, Amor azul, cuja música foi composta em parceria com Gilberto Gil. Tradutor de Brecht e Heine, Vallias calculou o tamanho da empreitada. “Seria um grande desafio: a primeira vez que eu trabalharia o verso para encaixar numa melodia já existente”, conta.
Brizzi e Vallias trabalharam por videochamada. O compositor passou a enviar os arquivos de áudio da melodia, com o texto do libreto escrito por ele em italiano. Os dois começaram pelas partes mais complexas, que eram como quebra-cabeças, pois na música cada verso resultava irregular, sem métrica definida. “Um verso de onze sílabas às vezes tinha acento tônico na terceira e na oitava, outro verso em outras”, diz Brizzi. O compositor classifica como “momentos delicados” os que ele e o tradutor atravessaram para resolver as dificuldades. “Mas o processo teve também momentos divertidos, e Vallias sempre foi brilhante e inspirado.” Com Gilberto Gil, o tradutor – que fará 61 anos neste mês de outubro – tem antiga proximidade. Em 1996, ele fundou com Flora Gil, mulher do músico, a empresa Refazenda, para atuar na produção de sites e design gráfico, e assinou o design de álbuns de Gil desde Quanta (1997) até ok ok ok (2018).
Amor azul fala sobre a paixão entre Krishna e Radha, deuses da mitologia hindu, e se dá em dois planos: o espaço cósmico de uma Índia mítica e o espaço físico do Brasil de hoje. É um encontro entre Oriente e Ocidente, da ópera com a canção popular brasileira, em que um jovem casal brasileiro encarna Krishna e Radha, em uma trama de sensualidade e dor. O libreto é baseado em dois clássicos indianos – o poema Nuvem mensageira, escrito em sânscrito pelo poeta Kalidasa (século iii a.C. – c. 375 a.C.), e Gitagovinda, do também poeta Jayadeva (c.1170 – c.1245). Inclui ainda referências ao Cântico dos cânticos, da Bíblia.
O multiartista Rogério Duarte (1939-2016), a quem a ópera é dedicada, foi quem teve a ideia de realizá-la, e chegou a fazer versões do texto, que não foram utilizadas. Em 2022, a ópera estreou em Paris, no Auditório da Radio France, cantada em português, com legendas em francês. Em agosto passado, foi apresentada na Sala São Paulo na forma de concerto, sem encenação. Estão previstas récitas em Curitiba e Salvador.
Foi o poeta e tradutor Augusto de Campos quem recomendou André Vallias ao compositor Aldo Brizzi, que vive parte do ano em Salvador. Os dois tradutores foram apresentados nos anos 1980 pelo artista Omar Guedes (1947-89), com quem Vallias estudava serigrafia. Em 1994, Campos visitou o ateliê de Vallias no bairro Bela Vista, em São Paulo, e saiu de lá fascinado com as experiências em multimídia. Iniciaram uma colaboração que resultaria em alguns dos clip-poemas do livro Não, de Augusto de Campos, lançado em 2003.
Estudante de direito na usp, o tradutor se deixou encantar mais pelas letras que pelas leis. Depois de formado, preferiu prosseguir os estudos do alemão no exterior. Em 1986, deixou o Brasil e se instalou em Munique, onde viveu até 1994. Na cidade de Kassel, fez em 1990 seu primeiro trabalho profissional em editoração eletrônica: o catálogo da exposição Transfutur – poesia visual da União Soviética, Brasil e países de língua alemã, da qual foi curador com o crítico alemão Friedrich Block e o poeta russo Valeri Schestjanoi. Com Block, organizou uma das primeiras exposições internacionais de poemas feitos em computador: p0es1e – digitale dichtkunst, em 1992.
Depois do retorno ao Brasil – com a mulher, a arquiteta brasileira Nelci Frangipani, e os três filhos –, passou a se dedicar ao design gráfico, à tradução de poesia (sobretudo alemã) e à criação poética própria. Em 2020, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Tradução com Bertolt Brecht: poesia. Em 2011, lançou Heine Hein? Poeta dos contrários, com traduções do alemão Heinrich Heine. Vallias também é autor dos livros de poemas oratorio: encantação pelo Rio (2015) e Totem (2017), e de experiências vocal-visuais, como o videopoema ano passado em Marinmaraisbad (2020).
Agora, ele trabalha em Byron: poemas, cartas, diários &c., a ser publicado pela Perspectiva até o fim do ano – antes que termine o bicentenário de morte do poeta inglês, que faleceu em 1824 em decorrência de uma febre contraída quando lutava na Guerra de Independência da Grécia. “Byron é o primeiro caso de culto de celebridade artística, em intensidade que só voltaria a acontecer no século xx com astros do cinema e da canção popular”, diz Vallias. Apesar de ter gerado até um adjetivo (“byroniano”), o bardo acabou relegado pelos cursos de letras. “Quase todo mundo conhece o nome, mas quase ninguém o lê. Trata-se de um caso paradoxal de um ilustríssimo desconhecido.”
O objetivo da antologia de Vallias é não apenas reapresentar o mítico escritor ao leitor brasileiro, mas oferecer uma imagem do poeta diferente daquela cultuada pelos românticos brasileiros no século XIX, atentos mais ao lado doentio que ao espirituoso de Byron. “O livro é um mosaico variado e abrangente para tentar dissipar a imagem mórbido-sentimentaloide deixada por essa geração byroniana da década de 1850”, diz o tradutor. E ressalta: “Essa geração, aliás, é quase toda ela formada por estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco” – a mesma escola onde Vallias estudou.
O tradutor quer trazer à baila um Byron saboroso e provocador, como fizeram dois outros ex-estudantes do Largo São Francisco: Décio Pignatari (em 31 poetas, 214 poemas, de 1996) e Augusto de Campos (em Byron e Keats: entreversos, de 2009).
Vallias atenta para o épico-satírico Don Juan, do qual fez nova tradução de alguns trechos. “É sua monumental e divertidíssima obra magna”, diz. Também destaca as cartas de Lord Byron: “Estão entre as mais engraçadas do século XIX. Ele era uma personalidade camaleônica, que usava estilos diferentes para cada tipo de interlocutor, e foi um grande trocadilhista.”
Eis o que Byron escreve, por exemplo, ao editor John Murray em 15 de setembro de 1817, reclamando de erros na prova do poema que o catapultou à fama, A peregrinação do infante Harold:
Caro senhor – incluo uma folha para correção, caso chegue a fazer outra edição –, você observará que o erro de impressão faz parecer que o Château [castelo] está sobre St. Gingo – em vez de estar na margem oposta do lago, sobre Clarens – portanto – separe os parágrafos, caso contrário, minha topografia parecerá tão imprecisa quanto a sua tipografia.
