CRÉDITO: IANAH_2024
Seis poemas em prosa
Coleciono árvores num canto da memória
Fernando Paixão | Edição 219, Dezembro 2024
ÁGUA SOBRE ÁGUA
A fonte deita água sobre água e encontra mais água que corre nas pedras e escoa sobre a água confluente no caminho segue adiante e depois faz um desvio onde a água muda de rumo se mexe remexe em convulsão até de novo se acalmar voltar a ser água corrente no curso normal da descida junto a outras águas e águas outras e com elas misturadas na voz acelerada em queda e mais queda lançada na ponta das rochas que seguram as margens e aumentam a forma líquida que segue volumosa briosa e dotada de força inesperada a descer mais e mais com muitas águas correndo na mesma água transformada agora em rio – quando aparecem os primeiros peixes.
ARVOREDOS
Coleciono árvores num canto da memória. Ao longo dos anos formou-se um pomar de acontecimentos acumulados, páginas de arvoredos mentais.
As primeiras cresceram na infância, encontradas no arrabalde e provedoras de sombra fresca. Outras vieram na juventude, altivas e de larga folhagem, poderiam ilustrar o livro dos deuses.
Depois vieram as árvores da noite, felizes quando recebiam a prata do luar, ou entristecidas se mergulhavam na bruma escura. Ano passado, despontaram nuas.
Era mês de outono e todas as folhas haviam caído, deitadas na relva. Apenas o esqueleto dos galhos lembrava a figura conhecida.
DE OLHAR
Sou uma pessoa feita de paisagens, procuro-as com o farol dos olhos e a cada uma decido se vou confiar nela ou não.
Há paisagens mentirosas, é óbvio, mostram uma substância visual que não se apalpa. Aproveito-as mentalmente até enferrujarem, muitas sofrem de um tempo ácido e rápido.
Sou humano feito de paisagens porque me completo com os sinais de fora. Gosto de abrir as janelas e dobrar as esquinas, procuro detalhes nos rostos que passam, estudo o chão e os bueiros da cidade. Qualquer mancha ou cenário me serve de espanto.
Diante das paisagens, esqueço-me. Ou melhor, distribuo-me no espaço, mil pássaros de atenção lançados ao mesmo tempo. Depois voltam para o centro dos meus olhos e soltam penas, criam um ninho de entendimento.
CADEIRA VESTIDA
Há uma cadeira vestida na sala. Diferente das outras, deixou de ser cadeira para figurar uma coisa ainda sem nome. Digamos que se veste de uma aura rara, algo que lhe permite perceber outra realidade.
Sem dúvida, ela está mais atenta que as outras para o que se passa em volta. Fica horas olhando para o lado de fora da janela, de onde vem o grito das crianças.
Gosta quando o vento abala as cortinas e arranha barulhos pela casa. Ri, de forma quase humana. E esconde os gestos por debaixo da mesa.
VOGAIS E CONSOANTES
Não esqueça que o temor da morte brinca com as sílabas, conforme a que cai primeiro na boca.
O te-mor mantém-se fechado, abafado por vogais íntimas e, na última sílaba, recolhe-se na ponta da língua.
A mor-te, por sua vez, rápido derrota a voracidade do “ó”, amortecido no tombo seguinte.
Sem poder escolher entre uma e outra, estamos entregues à sorte.
MÃOS
Tenho os dedos da mão direita amarrados aos dedos da esquerda. Aconteceu ontem à noite.
Minha carne se fez outra carne, debaixo dos meus olhos. E depois das unhas se entrelaçarem e darem nós às falanges, não pude mais desfazer a trama. Duas carnes que se transformaram numa só.
Fui dormir com susto e acordei resignado.
Tenho agora apenas um braço em forma de alça, sem ossos e amolecido. Nem posso mais chamar de mão.
Mas hoje descobri o prazer de ficar pendurado.
